De carona para o Rio

José Horta Manzano

Uns trinta anos atrás, quando a internet ainda estava longe de se popularizar como atualmente, alguém me disse: “Se você for a pé daqui até o mercadinho da outra rua, quando chegar lá já terá sido filmado pelo menos umas dez vezes”. Fiquei impressionado. De lá pra cá, não digo que caminho pela rua sorrindo para as câmeras, mas me tornei consciente de que, nos dias que correm, somos mais (e mais bem) espionados que na Europa Oriental na época da Guerra Fria.

Ninguém escapa, grandes e pequenos, ricos e pobres, graúdos e povão. Todos deveriam se conscientizar da realidade deste começo de século XXI. Nos velhos filmes policiais, mensagens vinham pelo correio. O destinatário, depois de tomar conhecimento da missiva, simplesmente atirava o papel ao fogo da lareira (sempre convenientemente acesa nessas horas). E pronto. Nada sobrava.

Essa moleza acabou, como todos sabem. Os Correios estão bambos das pernas, faltos de correspondência, sem saber direito como reorientar.seus negócios. Recados e palavras de ordem hoje, mesmo as mais recônditas como quando se urde um golpe de Estado, vão por aplicativo de mensagens. E todos se sentem protegidos, tanto o remetente, quanto o destinatário.

Pois não deveriam ficar tão tranquilos. Diferentemente do passado, quando cartas queimadas na lareira se calavam para todo o sempre, as mensagens de hoje são a criação humana mais próxima da eternidade. Exagero, é verdade, mas é mais fácil derrubar um avião que fazer sumir mensagem mandada por uotisápi.

Muito bandido experiente e muito aprendiz de bandido tem feito a amarga experiência: remover as mensagens do telefone e acreditar ter apagado todas as digitais. Engano torto. A PF tem métodos complexos para fazer reviver textos que o proprietário do aparelho imaginava deletados para sempre.

Se não conseguirem, resta sempre a nuvem, à qual conseguem ter acesso em casos específicos. Se esta também falhar, há a outra ponta da linha. Não se deve esquecer que uma mensagem tem um remetente e um destinatário. Basta escarafunchar o telefone de quem recebeu o recado. Até hoje, na crônica policial brasileira, não se sabe de quem tenha escapado.

Assim mesmo, tem gente graúda e inteligente que ainda não assimilou a história da caminhada até o mercadinho e das dez câmeras a registrar tudo o que ocorre. Se você ou eu formos até a esquina, tanto faz que sejam 10 ou 50 câmeras a nos seguir, visto que não somos procurados pela polícia, nem figuras públicas de projeção. Nossa passagem não há de despertar rumor.

Dia 22 de agosto de 2025, uma câmera instalada no Aeroporto Santos Dumont (RJ) acompanhou o pouso de um jatinho executivo até parada dos motores. De dentro dele, saltaram o ministro Alexandre de Moraes e esposa. Um carrão encostou ao lado do aeroplano, à espera dos chegantes. A cena não teria nada de extraordinário, não fosse um detalhe: o jatinho Legacy 650 prefixo PP-NLR pertencia a uma empresa de Daniel Vorcaro.

Quem descobriu a história apimentada foi o jornalista Lauro Jardim, que a publicou no jornal O Globo deste domingo. Com um videozinho para confirmar.

Pelas investigaçôes da PF, o escritório da mulher de Moraes finha fechado contrato de dezenas de milhões de reais com uma empresa do banqueiro exatamente 3 meses antes.

Naquela altura o Ministério Público já havia recebido do Banco Central um comunicado apontando fortes indícios de crime de gestão fraudulenta nas operações envolvendo o Banco Regional de Brasília e o Banco Master, de Vorcaro.

Em nota oficial de abril deste ano, Alexandre de Moraes foi taxativo ao afirmar que “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”. Como se vê, não era exatamente isso.

É aqui que entra minha surpresa. Como é possível um homem matreiro e velho de guerra como Moraes se enrolar em mentiras desse calibre? Todo o mundo sabe que há câmeras nos aeroportos, dentro dos salões e na área das pistas. Ele imaginou talvez que, se nada tinha aparecido até então, não apareceria nunca. Pisou na bola.

Fazer coisa errada dá muito trabalho. O infrator tem de considerar todas as possibilidades, evitar afirmações “taxativas”, alegar memória fraca. Alexandre agiu como réu primário, se posso me exprimir assim.

E agora, seu Alexandre?

Bom, podem encontrar mais quinhentos videozinhos, isso não vai mudar nada. Já está combinado, até com os russos, que Alexandre e todos os colegas serão poupados e inocentados. Quem sabe até recebem um bônus dobrado no fim do ano.

Os podres de todos

José Horta Manzano

Faz alguns meses, a água estagnante que banha os altos círculos da República deixou aflorar os primeiros relentos do “dossier” Vorcaro. Naqueles mesmos dias, talvez pouco antes, doutor Fachin, presidente pro rata temporis do STF, havia proposto a seus colegas a introdução de um código de ética que regulasse o comportamento dos magistrados.

O código foi prontamente rejeitado por alguns dos ministros. À época, ninguém ligou coisa com coisa, o que é que o caso Vorcaro tinha a ver com a rejeição de um código de conduta. Pareceu apenas orgulho de certos membros que recusavam sofrer a humilhação de ver seus atos limitados por um cabresto virtual. Hoje, estourados os escabrosos escândalos dos últimos dias, compreende-se a razão da recusa do cabresto. Não era orgulho ferido, não, senhor.

O estudo do rastro das digitais deixadas no telefone de Vorcaro demonstra o envolvimento – de “irmão”, em alguns casos – entre certos integrantes do STF e o ex-banqueiro trambiqueiro. Pessoalmente ou por intermédio de parentes, estão implicados Gonet (PGR), Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Nunes Marques, Luís Fux. Não se sabe se a decodificação do celular já terminou, portanto, pode haver mais surpresas no fim da linha.

Em maior ou menor grau, todos os mencionados estão envolvidos, O mais encalacrado, até agora, é Alexandre de Moraes, que também é, por coincidência, o que recebeu (por intermédio da esposa) o montante mais elevado.

Por mais que Vorcaro fosse generoso (como todos os que esbanjam dinheiro alheio), não acredito que tenha distribuído essa grana toda encantado pelo brilho da careca de Moraes ou pelo aspecto sizudo e distante de Toffoli. Alguma transação havia. Até agora não vazou qual seja. Qualquer hora vem.

Não tive fígado para assistir aos insultos que Suas Excelências trocaram nos debates desta semana. Prefiro não descambar da perplexidade direto à depressão. Nem aos cortes e videozinhos assisti. Achei que não valia a pena.

Sou de outro tempo, de quando não se ouviam palavrões. Em família, não se discutia no almoço de domingo, ainda que houvesse ademaristas e janistas em volta da mesa. Sei que hoje não é mais desse jeito. Assim mesmo, tenho dificuldade em acompanhar debate entre homens togados que se atiram impropérios.

Os senhores ministros que fizeram o que nunca deveriam ter feito e foram apanhados com a calça nas mãos não têm escolha: têm de renunciar ao mandato, pendurar a toga no gabinete de despacho, esvaziar as gavetas e chamar um táxi para casa.

Quatro ou cinco demissões de uma vez? É surpreendente, mas seria o melhor caminho. Melhor do que se segurar na cadeira manca e conservar o mandato no grito. A vergonha, se é que a sentem, veio para ficar. Olhados com desconfiança, serão até o fim da existência.

Enriqueceram, mas perderam a honra. É pena.

Enrolação de Vorcaro

by Claudio de Oliveira (1963-),
cartunista potiguar, via Folha de S.Paulo

José Horta Manzano

Ao ser encarcerado, três meses atrás, Daniel Vorcaro logo se deu conta dos longos anos que ia ter de passar batendo ponto entre a cela e o refeitório da Papuda ou de outro estabelecimento similar. Pra quem costumava frequentar o jet set, a percorrer o circuito Nova York, Londres, Paris, badalado por altos dignitários da nação, a perspectiva de vestir uniforme e fazer fila pra ir ao rango e comer de bandejão deve ser assustadora. Foi aí que seus bem-pagos advogados lhe sugeriram requerer o benefício de uma delação premiada, como a lei lhe faculta.

Como bom mineiro, o banqueiro que virou escroque sabe que mingau quente se come pelas bordas. Não sei se de iniciativa própria ou por sugestão de seus causídicos, imaginou que o melhor meio de dar conta desse mingau não era enfiar o colherão no meio, mas atacá-lo pelas beiradas, aos pouquinhos. Depois de poucas semanas de preparação, apresentou sua proposta de delação. A PF leu, releu, e devolveu. Disse que aquilo não servia, visto ser um bla-bla-blá estéril que não revelava nada que já não fosse sabido.

Não sei o que mais a Polícia Federal disse ao estelionatário, mas acredito que não foram suficientemente claros. O que tinha de ser informado naquele momento era que delação não é um relato seletivo de fatos colhidos aqui e ali, acusando fulano mas poupando sicrano, apontando beltrano mas passando ao largo de mengano. Delação tem de ser confissão total, que conta tudo, à qual nada mais vai precisar ser acrescentado. Os da PF devem ter omitido de pôr o encarcerado a par dessa regra básica.

Passado um mês, lá veio ele com mais uma tentativa de delação (que alguns chamaram ‘engabelação’). Depois de examinar, era inevitável que a PF lhe devolvesse a patacoada. De novo, o esperto comedor de mingau tinha tentado dar uma de joão sem braço. Em sua “confissão”, listou informações de que a polícia já dispunha. Todos entenderam que não é distração, é enrolação.


No momento em que escrevo, quinta-feira 11, a expectativa é que, até o fim desta semana, a PF e a PGR rejeitem oficialmente a segunda proposta de delação apresentada pelos advogados de Vorcaro.


Espera-se que, desta vez, a PF diga ao suspeito exatamente o que está esperando. Que sejam palavras claras, daquelas que não deixam margem a dúvidas e evitam confusões futuras. Que sejam claros:

“Queremos que o senhor esclareça, com detalhes e exatidão, suas relações com todos os personagens que orbitaram em volta do senhor e dos que receberam propinas e outros presentinhos, incluindo tal juiz, tal parlamentar, tal prefeito.”

Se daqui a algum tempo, quando ele voltar com sua terceira “tentativa” e ficar claro que continua escondendo nomes e fatos, que se lhe informe: “Suas chances acabaram. Não adianta continuar tentando. Volte a sua cela e aguarde o processo.”.

Ainda não…

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-)
desenhista gaúcho, via GZH

José Horta Manzano

Dei uma vista d’olhos nos jornais e nos principais, como diria…, antigamente se chamavam “jornais falados”, hoje não sei. São aqueles noticiários que passam de manhã ao vivo no youtube, em que se leem e comentam as notícias do dia. Entre os analistas, nove em cada dez gastaram tinta e saliva esquadrinhando o caso da dinheirama que o filho mais velho do Bolsonaro pediu a Vorcaro, o estelionatário-mor da nação.

Uma fala que surge a todo instante é a de que o presidenciável ainda – sublinhe-se o ainda – não deu explicação convincente para a obscura transação. É verdade que, no princípio, o Bolsonarinho negou conhecer o ex-banqueiro e jurou não ter recebido nenhum dinheiro dele. Em seguida, pouco a pouco, como se acordasse de um sono profundo, esfregou os olhos e foi lembrando dos detalhes do negócio. Bem aos pouquinhos, em doses homeopáticas, foi distilando sua narrativa, até ser aventada a possibilidade de ter havido financiamento de um filme como justificativa para a generosa “doação”.

As alegações do pré-candidato foram evoluindo com a passagem dos dias. Parece que os ajustes finais não foram dados. Me parece curioso ouvir analistas dizerem que as explicações de “Flávio” (como é íntima e carinhosamente chamado) ainda não são convincentes. Ao deixar a porta assim escancarada, estão convidando o suspeito a ir afinando sua narrativa, a ir modelando e aparando as beiradas até chegar a um relato convincente. A meu ver, estão dando moleza demais a quem não merece tanta confiança.

A verdade tem de aparecer de golpe, logo de cara, no primeiro jato. E tem de ser inteira e irretocável. Se assim não for (e, no caso, não foi), o que ele possa vir a dizer não terá valor. Terá sempre o gosto requentado de uma história ajambrada em conselho de família com a participação de advogados mais espertos que o indigitado.

De toda maneira, pouco interessa o relato desse Bolsonarinho – nem o balbucio inicial, nem a versão retocada. Vejamos por quê:

  • Os evangélicos tendem a seguir o conselho do pastor na hora do voto.
  • Os menos letrados, que representam a maioria do eleitorado, não leem jornal nem acompanham análises sócio-políticas.
  • Lulistas roxos estão de qualquer modo com Lula e nâo desgrudam
  • Bolsonaristas roxos estão de qualquer modo com o Bolsonarinho
  • “Farialimers” e assemelhados abraçam qualquer candidato que não seja de esquerda, de medo de ver escassearem as oportunidades de enriquecer.

Portanto, maior importância mesmo terão os debates xingatórios na televisão. O que acabo de dizer pode parecer cínico e desabusado, mas é a realidade. Não?

Três espantos

José Horta Manzano

Racismo
Um cavalheiro de nacionalidade chilena causou um bate-boca num voo da Latam de São Paulo a Frankfurt. Talvez imaginando que sobrevoava terra de ninguém, ofendeu um comissário chamando-o de “mono” (macaco) e emitindo ruídos que ele julga ser simiescos. Declarou ainda que se sente incomodado com o “odor de negros” ou “odor de brasileños”. Uma alma caridosa filmou a discussão surreal entre o cavalheiro e membros da tripulação – que não aparecem na imagem.

Acontece que o avião não é terra sem dono. Acontece também que o comissário, apesar da pele mais bronzeada, não é “mono” e encontra-se protegido por nossa legislação. Convenções aéreas estabelecem que o aparelho em voo é considerado extensão do país de origem da companhia, no caso, o Brasil. Assim, dentro do avião, vigoram as leis brasileiras. Sem se dar conta, o passageiro arrogante infringiu leis nossas que reprimem ofensas baseadas em cor da pele, raça, religião, orientação sexual.

Uma semana depois, o cavalheiro ofensor fez a viagem de volta de Frankfurt para Santiago, com escala em São Paulo. Devidamente informada, a polícia já estava no aguardo dele. Foi colhido em Guarulhos e enviado à detenção provisória. Vamos ver se aprende que conosco não tem podosco.

Nota 1
A discussão, mostrada em vídeo postado no Tweeter (hoje X), é prova incontestável da atitude do cavalheiro. Mostra também um despreparo do pessoal de bordo da Latam. Embora não apareçam na imagem, ouve-se gritarem todos ao mesmo tempo cortando a palavra ao passageiro, num comportamento de quebra-pau de boteco. A companhia aérea deveria treinar aeromoços e aeromoças a enfrentar casos como esse, com sangue-frio e disciplina.

Nota 2
A mídia deu a notícia dizendo que o chileno foi preso por racismo. Não está correto. Racismo é um “defeito”, se assim podemos nos exprimir, que algumas pessoas têm. É um sentimento de soberba de quem se considera pertencente a uma raça superior. Acontece que ninguém será preso por experimentar esse tipo de sentimento. Melhor dizer que o cavalheiro foi preso por agressão racista ou por ofensa racial.

Capanga
O mundo anda ficando cada dia menor. Já vão longe os dias em que, para desaparecer do mapa, bastava se mudar para o interior e, com uma gorjetinha, tirar nova carteira de identidade. Hoje vão te buscar onde você estiver, ainda que seja pra lá de onde o Judas perdeu as botas.

Um dos capangas do clã Vorcaro, sabendo que a PF estava em seu encalço, embarcou num voo para Dubai, que fica pertinho do País das 1001 noites. A história não diz se viajou de primeira classe. Acontece que a PF tomou conhecimento da fuga e entrou em contacto com a polícia de Dubai. Resultado: o capanga foi colhido no aeroporto de lá, nem precisou passar pela alfândega. Expulso sumariamente do país, foi devolvido à origem.

Espanto boquiaberto
Diálogo pra lá de comprometedor ocorreu entre o filho de Bolsonaro, aquele que gostaria de presidir o Brasil, e o estelionatário Vorcaro, ora preso. Na conversa, o Bolsonarinho faz juras de fraternidade eterna ao espertalhão, ao mesmo tempo que pede uma soma extravagante e multimilionária. Trata o trapaceiro por “irmão”, demonstrando proximidade realmente íntima e intrigante, que denota serem velhos parceiros de ‘negócios’. O diálogo ocorreu em novembro de 2025, ou seja, seis meses atrás.

Considerando que, quando o Bolsonarinho fez essas juras ao telefone, alguns grandes da República já haviam sido pegos – e encarcerados ou processados – justamente por causa do vazamento de conversas telefônicas, é absolutamente espantosa a maneira displicente com que ele deixou seu juramento gravado no éter, numa nuvem talvez, mas certamente na memória de dois aparelhos: o seu e o do interlocutor. É impossível imaginar que o filho do Bolsonaro ignorasse a perícia da PF em reaver dados escondidos ou apagados de telefone celular.

Dito e feito. O pretendente à Presidência caiu como um patinho. Agora todos esperam explicações. Na verdade, não precisa nem explicar, que todo o mundo já entendeu o que era pra entender.

Negócios fraudulentos

José Horta Manzano

Estes últimos tempos, é difícil abrir uma página de notícias sem encontrar lá o sobrenome Vorcaro. Está por toda parte, é invadente. O dono do sobrenome é um senhor do qual, até seis meses atrás, só iniciados tinham ouvido falar. Algo ele há de ter feito para ser elevado a celebridade nacional, equiparável a um BBB, só que mais fotogênico.

Não tive a ocasião de conhecê-lo pessoalmente, portanto devo fiar no que encontro na mídia e na internet. Seu passado, do qual não se fala com frequência, me parece um tanto esfumaçado. Uma breve biografia publicada na revista Piauí informa que seu avô, o imigrante Serafim, era pastor italiano. Que fosse italiano, não duvido. Mas… pastor? Há de ter sido um dos raríssimos italianos a professar o cristianismo reformado. E a abandonar suas ovelhas na Itália para emigrar. Raro mesmo. De onde terá saído essa informação?

Costuma-se dizer que só há duas maneiras honestas de ficar rico da noite para o dia. Uma delas, todos sabem, é ganhar na loteria. A outra, casar-se em comunhão universal de bens com uma mulher muito rica (ou com um noivo milionário). Há algumas outras maneiras, mas todas rodam fora dos trilhos da honestidade pura.

Vorcaro não cresceu na miséria, longe disso, mas também não chegou à maioridade em condições de comprar um banco. Pois ainda em seus anos de jovem adulto não só comprou um banco, como também aumentou o balanço do estabelecimento para atingir a casa das centenas de bilhões de reais. Foi nesses anos que, coincidentemente, entrelaçou seus negócios aos dos que mandam e decidem em Brasília. Mas não só lá.

Seu joguinho particular de pirâmide inchou, inchou, até que não havia mais ninguém para entrar na roda e alimentar os que estavam no topo a esperar seus ganhos. Foi aí que um pé d’água reduziu o belo castelo de areia a uma poça rasa. Vorcaro é hoje um turista nas malhas do sistema prisional, frenético como um foragido, viajando de prisão em prisão, à espera de ser chamado para o exame oral, a delação premiada.

Na minha lógica caipira, os papéis estão invertidos. Supõe-se que Vorcaro seja o corruptor, aquele que ofereceu dinheiro e vantagens em troca de depósito de dinheiro público em seu banco. Corruptos são os outros, aqueles que receberam dinheiro e vantagens e depois assinaram ordens de depósito de dinheiro público no banco de Vorcaro. Vamos ver se, depois da tal “delação”, todas as partes entram na dança.

Pode parecer inacreditável, mas Vorcaro não é o único self-made man a enveredar pelo caminho perigoso dos negócios fraudulentos. De memória, me vêm dois casos emblemáticos.

O primeiro é o empresário francês Bernard Tapie (1943-2021). Saindo do nada, passou pelos palcos e pela televisão (foi cantor e apresentador), pela política (foi deputado e ministro), pelas artes (foi colecionador de quadros), pela recuperação de empresas (chegou a comprar uma dezena de empresas praticamente falidas por 1 franco simbólico, que revendeu por centenas de milhões – entre elas, a alemã Adidas). Comprou o time de futebol OM (Olympique de Marseille), que andava mal das pernas, e tirou-o do buraco. Só que exagerou na gestão do clube e andou subornando clubes adversários para entregarem o jogo. A mutreta acabou se tornando pública, e Tapie passou uma temporada na cadeia. Morreu de câncer em 2021.

O outro de quem me lembro era o homem de negócios americano Madoff (1938-2021), esse também de nome Bernard. Seu caso foi mais sórdido do que o do francês Tapie, visto que traiu a confiança de amigos pessoais que lhe confiaram dinheiro grosso para investir. Madoff prometia rendimento muito acima do mercado, recebia somas importantes, mas nunca investiu um centavo. Depositava tudo em sua conta bancária pessoal Quando alguém vinha retirar dinheiro, ele retirava de sua conta e entregava ao cliente. Era a típica pirâmide. Foi até o dia em que estourou. Ele pegou 115 anos de cadeia. Morreu na prisão.

Quanto a nosso Vorcaro, ninguém o quer numa prisão, onde ele seria um arquivo vivo. Seria até perigoso para ele, que poderia “acordar morto” a qualquer momento. Ele vai sair livre mais dia, menos dia. Sua clientela é transversal e atravessa o que há de mais “respeitável” na Brasília dos mandos e desmandos. Todos de rabo preso e bem preso. Todos puxando a corda no mesmo sentido, fazendo o que podem para que a delação do ousado banqueiro seja fraquinha, orientada para alvos menores, passando ao largo dos maiorais.

E assim segue a barca que leva políticos e magistrados, todos bem-intencionados, imaculados, sorridentes, altruístas e puros.