Cruzeiro do inferno

Hondius
Navio de cruzeiro de bandeira holandesa

José Horta Manzano

Para a maioria, um cruzeiro marítimo costuma rimar com excepcional, sensacional, fenomenal. Já o cruzeiro que aparece no noticiário estes dias está rimando com infernal. Vamos aos fatos.

Um grupo de 149 viajantes de 23 diferentes nacionalidades reuniu-se no último 1° de abril em Ushuaia, capital da Terra do Fogo argentina, no extremo sul da América do Sul. O programa era embarcar num navio de cruzeiro da companhia holandesa Oceanwide Expeditions para acompanhar as aves marinhas que deixam a Antártida neste começo de estação fria e migram para o norte em busca de clima mais favorável para passar o inverno.

Além de pouco numerosos (menos de 150 para um navio inteiro), os turistas eram especiais, por serem apreciadores da natureza selvagem, por disporem de tempo à vontade e por terem capacidade financeira folgada, capaz de bancar os milhares de dólares da viagem.

Depois de alguns dias, apareceram alguns casos de passageiros doentes. Os sintomas eram de febre, dor de cabeça, leve diarreia, lembrando uma gripe comum. Em pouco tempo, porém, os sintomas evoluíam para crise respiratória ou renal aguda. Passada uma semana desde o primeiro caso, três passageiros morreram e outros quatro adoeceram. Entre os doentes estava o médico de bordo, um britânico, em estado grave.

Aos 24 de abril, o barco atracou em Santa Helena, a remota ilha que serviu de exílio para Napoleão, situada bem no meio do Oceano Atlântico, a 3.000 km de Angola e 3.700 km de Santos. Consta que 23 passageiros tenham desembarcado ali, para voltar para casa por conta própria. Entre eles, está um suíço, atualmente internado no Hospital Universitário de Zurique. Todos estão sendo monitorados pela OMS.

A esposa da primeira vítima mortal voou de Santa Helena para a África do Sul, onde morreu dois dias depois. Em 27 de abril, um outro passageiro britânico foi internado na África do Sul e, no dia seguinte, um alemão morreu a bordo.

Na virada de abril para maio, o pânico se instalou a bordo do MV Hondius. Enquanto o armador continua a negociar com a Espanha uma autorização humanitária para atracar nas Ilhas Canárias, os passageiros do navio permanecem em quarentena, confinados (e aterrorizados) em suas cabines de luxo.

Em 2 de maio, exames feitos no paciente hospitalizado na Suíça confirmaram que se trata de uma infecção por Hantavírus, de uma cepa disseminada nos Andes argentinos e chilenos, sendo a única, entre as 38 variantes conhecidas desse agente patogênico, capaz de se transmitir entre humanos.

A pandemia de covid-19 paira no ar como lembrança recente e terrível. A OMS (Organização Mundial da Saúde) e autoridades sanitárias ao redor do planeta estão preocupadas. Para um planeta já mergulhado em guerras, ameaças e incertezas, é grande o risco de que nova pandemia possa vir bagunçar o coreto de vez.

Enquanto isso, ninguém inveja a sorte daqueles cruzeiristas condenados ao confinamento na imensidão do oceano. É uma situação digna de um filme de terror hollywoodiano. Aliás, qualquer dia destes, o filme sai nas telonas e nas telinhas.

A Colômbia e o sonho de Bolsonaro

Cédula eleitoral colombiana

José Horta Manzano

Hoje se vota na Colômbia. Escolhe-se o presidente da República. Ao que parece, as autoridades do país são como nosso presidente gosta: rejeitam a modernidade. Não aceitam o que ela traz de bom, essas coisas que facilitam a vida de todos. Urnas eletrônicas entram nesse grande balaio de rejeições. Xô!

Na Colômbia, vota-se à moda antiga, voto em papel, facilmente auditável. Ao chegar à seção, o eleitor vai receber um “tarjetón”, que é o nome dado à cédula eleitoral. É uma folha de papel tamanho A4 dividida em nove campos, cada um contendo a foto de uma dobradinha de candidatos – à Presidência e à vice-Presidência.

Cada campo contém ainda o nome dos candidatos e o logo da coalizão que os apoia. O resultado é uma folha atraente, cheia de cores. As fotos até que ajudam eleitores de poucas letras que pudessem ter dificuldade em encontrar o preferido.

Ao chegar ao posto de votação, o eleitor recebe uma cédula. Vai para a cabine e faz uma marca na dobradinha de candidatos preferidos. Se preferir votar em branco, vai encontrar um campo pensado justamente para isso.

Pode ser qualquer marca, desde que seja visível. Recomenda-se, no entanto, que o eleitor faça um grande xis no quadrado desejado. Se quiser votar em branco, que faça o xis no último quadrado.

Toda cédula que apresentar marcas em mais de um campo, inclusive no de voto em branco, será considerada nula. Fico a imaginar que a quantidade de votos nulos deve ser grande.

Ah, se um eleitor se enganar na hora de fazer o xis, não tem problema: basta voltar à mesa e pedir nova cédula. Sai de graça.

Excluindo o fato de que não há urna eletrônica, o ato de votar até que se parece com o nosso. A diferença grande vem na hora da apuração.

Procurei saber como se desenvolve a contagem dos votos. É um esquema complexo. Cada seção eleitoral abre sua urna e conta os próprios votos. Em seguida, preenche uma ata com a totalização. Essa ata será transmitida a uma entidade centralizadora que, por sua vez, se encarregará da totalização geral.

Imagine os riscos de fraude existentes em cada etapa do processo. Basta um dos mesários cooptar os colegas oferecendo, por exemplo, recompensa em dinheiro. A partir daí, estando todos de acordo, tudo é permitido. Dois subterfúgios são simples de executar: 1) Substituição de cédulas verdadeiras por cédulas trazidas já preenchidas; 2) Anulação de votos destinados a um candidato não desejado – para anular, basta fazer uma marca em mais de um quadrado.

Tanto o Lula quanto o capitão conseguiram comprar o Centrão, que representa meio Congresso. Pra quem fez isso, comprar mesário é aquele tipo de coisa que se faz com um pé nas costas. Mais fácil ainda quando é feito com nosso dinheiro.

Vendo isso, dá pra entender por que razão nosso presidente reclama de nosso sistema eleitoral, dia sim, outro também. É que o esquema brasileiro é hermético, sem manipulação possível, não oferecendo nenhuma porta de entrada para gente mal-intencionada.

Um presidente normal veria nas eleições colombianas uma excelente oportunidade comercial para o Brasil. É a possibilidade de vender nosso know how e urnas made in Brazil ao país vizinho. Mas nosso presidente não é normal. Sua grande preocupação neste momento é que, segundo as pesquisas, um candidato esquerdista está bem colocado para disputar o segundo turno colombiano.

Já pensou se ele vencer a eleição? A Colômbia, nossa vizinha de parede, será dirigida por um esquerdista! Será que esquerdismo é contagioso? Será que pega? Será que pode ressuscitar o comunismo? Será que pode nos transformar em jacaré?