Doações midiáticas

José Horta Manzano

Estão fazendo fila os doadores para a causa da reconstrução da catedral Notre-Dame de Paris. Os donativos já atingem um bilhão de euros, quantia respeitável, quase 4,5 bilhões de reais.

Na Europa, os franceses têm fama de reclamões, aquele tipo de gente que nunca está contente. Há nisso um fundo de verdade. Mas, desta vez, parece que têm razão de se queixar. Muitas vozes se levantam pra lamentar que, quando se trata de ajudar aos que precisam, nunca há dinheiro; no entanto, pra reconstruir «uma igreja» ‒ e isso tem de ser pronunciado com boca de pouco caso ‒ chovem milhões.

Para recolher dinheiro, foi aberta uma subscrição nacional. Por seu lado, loterias, vaquinhas e quermesses se organizam em todo o território francês. Logo, logo, vai ser instalada uma conferência de doadores pra arrecadar mais fundos. E, mais que tudo isso junto, chovem doações de grandes empresas e de bilionários.

A família Arnault, a mais rica do país, doou 200 milhões de euros. A família Pinault, outra potência, vai contribuir com 100 milhões. Outros abastados ‒ os Bettencourt, donos do grupo l’Oréal ‒ vão entrar com 200 milhões. Em seguida, vêm os “pequenos” doadores, aqueles que doam 10 ou 20 milhões de euros. São muitos.

Villa Leopolda, na Côte d’Azur (França), propriedade de Madame Lily Safra
Avaliada em US$ 500 milhões, é uma das propriedades mais caras do planeta

Entre esses “pequenos”, está a bilionária Lily Safra ‒ brasileira, nascida no Rio Grande do Sul, viúva do banqueiro Edmond Safra. Segundo algumas fontes, propôs-se a doar 10 milhões de euros (44 milhões de reais). Outros chegam a mencionar 20 milhões (88 milhões de reais). Seja como for, é muuuito dinheiro.

Cada um faz o que quer com o próprio dinheiro. Fica registrada, no entanto, a surpresa. Madame Safra é conhecida pelas doações milionárias que faz regularmente a causas e institutos diversos. É curioso que ela, que cresceu no Rio de Janeiro, não se tenha comovido com o incêndio do Museu Nacional, aquela monstruosa queima de arquivo da memória do país. Não consta que tenha destinado nem um centavo à reconstrução do prédio ou à reconstituição do acervo. É verdade que não teria dado ibope. Doação boa é doação que aparece.