Quem viu, viu

José Horta Manzano

«Je ne la verrai plus jamais. Il faudra 40 à 50 ans pour la reconstruire ‒ Eu não a verei nunca mais. A reconstrução vai levar 40 ou 50 anos.» As palavras (e as lágrimas) são de Monsieur Stéphane Bern, popular apresentador televisivo que aparece todos os anos na lista das personalidades mais apreciadas pelos franceses. O testemunho foi dado enquanto ainda não se haviam extinguido as brasas do incêndio da catedral Notre-Dame(*) de Paris.

Talvez haja algum exagero na estimativa de Monsieur Bern, compreensível dada a emoção do momento. Na minha opinião, no entanto, por mais importantes que sejam as verbas aplicadas na reconstrução, ela não se fará da noite para o dia. As dificuldades são muito muito grandes.

Para começar, certos materiais simplesmente não existem mais. A parte que se incendiou completamente ‒ o madeirame que sustentava o telhado ‒ era de carvalho maciço. Setecentos anos atrás, árvores de bom tamanho e de boa qualidade já não eram fáceis de encontrar. Hoje em dia, simplesmente desapareceram. Não existem mais. Muitas análises terão de ser feitas só pra encontrar substituto válido.

Os estudos de solidez da estrutura que restou serão minuciosos e longos. Afinal, a ordem de reconstruir por cima de alicerces fragilizados não pode ser dada com leviandade. Nenhum arquiteto gostaria de ver seu nome ligado, para todo o sempre, a um eventual desmoronamento de Notre-Dame em consequência de erro seu. Que terrível estigma!

Obras arquitetônicas há muitas, algumas magníficas como o Taj Mahal. Templos religiosos há milhares, como a igreja de qualquer pracinha. Construções icônicas há um punhado, como o Cristo Redentor. O magnetismo de Notre-Dame vinha do fato de concentrar essas três qualidades: era monumento arquitetônico, templo religioso de primeira grandeza e símbolo da França e de Paris em particular. Com 13 milhões de visitantes por ano, era ‒ disparado ‒ o edifício mais visitado da Europa, quiçá do mundo.

Mas assim são as coisas. Quem viu Notre-Dame por dentro, viu. Quem não viu, não verá.

(*)À cata da repercussão do desastre de Paris, consultei sites escritos em diversas línguas. Achei curioso que nenhum deles traduzisse o nome da catedral. Ninguém falou em Our Lady Cathedral, nem em Cattedrale della Madonna, muito menos em Catedral de Nossa Senhora. Todos mantêm a forma original: Notre-Dame. Não há dúvida, soa muito mais chique.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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