Barriga vazia

José Horta Manzano

O governo francês acaba de descobrir duas verdades. Embora evidentes para os brasileiros, eram fatos desconsiderados, pelo menos até aqui, pelas autoridades de Paris. A primeira verdade revela que, muitas vezes, criança de família pobre chega à escola de manhã de barriga vazia. A segunda, incontestável, diz que a fome é inimiga do bom aprendizado.

Apesar de serem, pela média estatística, mais ricos que os demais, os países do Primeiro Mundo também têm bolsões de pobreza. A rigor, as pessoas de baixa renda estão concentradas em determinados municípios ou bairros afastados e esquecidos pelo poder público. Aluguéis mais abordáveis são a principal razão de essas pessoas viverem nesses lugares. É justamente nessas regiões que alguns aluninhos chegam à escola de barriga roncando.

O ministro francês da Educação anuncia que um café da manhã gratuito deverá ser oferecido aos pequenos da escola elementar. Por enquanto, o experimento se fará a título facultativo. Fica a critério do prefeito de cada município. Os que quiserem tentar a experiência podem solicitar ajuda financeira do governo central.

Para nós, a medida parece tão evidente que nem vale a pena discutir. Na França, no entanto, a polêmica é esporte nacional. Discute-se sobre tudo, e cada um faz questão de dar opinião. Assim que foi anunciada a proposta do governo, surgiram vozes discordantes. Há quem diga que alimentar crianças não é papel da escola. É verdade, mas… fazer o quê? Esperar pra ver como evolui o mundo enquanto barriguinhas roncam?

Há também quem argumente que a medida vai agir como estigma. As crianças que tomarem café na escola estarão passando atestado de pobreza. Os alunos ou vão desfilar na ala dos abastados ou na dos miseráveis. É até capaz de algum pai proibir o filho de tomar café na escola só pra não descobrirem que a família está passando por um aperto. O argumento tem lá seus fundamentos. Caberá à escola inventar um modo de contornar o problema. Talvez instituindo um cardápio tão inventivo que nenhuma criança consiga resistir.

Há ainda outros argumentos contra a medida:

  • «Que cada município use seu dinheiro pra cuidar dos próprios pobres. Por que é que eu tenho de financiar café da manhã com meus impostos?»
  • «Os pais é que deviam ser penalizados por não darem de comer aos próprios filhos.»
  • «Isso é coisa de estrangeiros. Franceses de raiz não deixam os filhos passar fome.»
  • «Crianças que já comeram em casa vão querer acompanhar os outros e vão acabar tomando café pela segunda vez. Isso é incentivo à obesidade.»

O número de opiniões empata com o número de habitantes do país.

A mim, parece uma resolução de bom senso. Podem-se discutir os detalhes, mas o acerto da medida é indiscutível. Vamos ver como evolui a ideia. É bom que venha novo debate nacional, que o país está precisando. Essa insistência dos «Coletes Amarelos» de infernizar a existência já deve estar dando nos nervos da população. É hora de mudar de estação.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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