Plataforma

José Horta Manzano

Chamada do Estadão online - 17 ago 2015

Chamada do Estadão online – 17 ago 2015

O mundo moderno tem seu lado muito bom. Acaba de surgir uma plataforma que permite planejar viagem… com antecedência! Quem diria!

E pensar que, até a criação dessa maravilha dos novos tempos, costumávamos planejar viagens no caminho de volta, já no fim das férias!

Viva a plataforma!

Voz discordante

José Horta Manzano

Domingo, 16 ago 2015, os passos de centenas de milhares de cidadãos ecoaram em mais de duzentas de cidades – até no exterior.

Os principais jornais brasileiros acompanharam, minuto a minuto, a manifestação de cidadãos. Ponto importante: o encontro tinha sido convocado, não organizado. Nenhum ônibus foi contratado para conduzir os protestantes. Nenhuma merenda lhes foi oferecida. Nenhum pagamento por serviços prestados lhes foi feito.

Lá pelas 19h, o portal dos dois mais importantes jornais paulistas trazia informação contraditória.

Manchete do Estadão 16 ago 2015

Manchete do Estadão online
16 ago 2015

No mundo todo, estimar quantidade de participantes de manifestação de rua é tarefa privativa da polícia. Helicópteros, drones e outros aparelhos sofisticados facilitam a operação.

Pois a firma Datafolha, ligada à Folha de São Paulo, resolveu enveredar por esse caminho. Desprezando centenas de milhares de manifestantes, dedicou-se unicamente à marcha paulista. Já tinha feito isso em recentes manifestações – ontem reincidiu.

É inabitual um instituto de sondagem de opinião dedicar-se a esse tipo de tarefa. Não dispõem dos meios que a polícia tem à mão. Assim mesmo, foram em frente. É interessante notar que a contagem do instituto de pesquisa de opinião tem resultado em número sistematicamente inferior à estimativa policial. Desta vez, exageraram.

Manchete da Folha de São Paulo 16 ago 2015

Manchete da Folha de São Paulo online
16 ago 2015

A polícia afirma que 350 mil cidadãos marcharam na Avenida Paulista. Enquanto isso, o instituto garante que só contou 135 mil cabeças. Trocado em miúdos, onde a polícia viu 100 pessoas, o Datafolha só enxergou 38,5. Bizarro, não? «Something is drastically wrong» – algo está terrivelmente errado, como dizem os ingleses.

Se a diferença já é, em si, chocante, mais inquietante é constatar que o resultado do referido instituto é – sistematicamente – inferior ao oficial.

Enfim, as coisas estão nesse pé. Para publicar números tão discordantes, o instituto paulista deve ter particular interesse. Não se costuma abalar uma reputação por dez merréis.

Falam de nós – 9

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Como podem imaginar meus distintos leitores, as manifestações populares de 16 de agosto tiveram repercussão planetária. Dou-lhes, aqui abaixo, um apanhado das manchetes internacionais.

AlemanhaStern, maior revista europeia de atualidades
«Hunderttausende Brasilianer fordern Präsidentin Rousseff zum Rücktritt auf»
Centenas de milhares de brasileiros exigem renúncia da presidente Rousseff

SuíçaAgefi, jornal financeiro suíço
«Brésil: manifestations dans plus de 200 villes contre Dilma Rousseff»
Brasil: manifestações em mais de 200 cidades contra Dilma Rousseff

Suécia – Dagens Nyheter, jornal de referência
«Den brasilianska medelklassen protesterade i går i 239 städer i landet och krävde president Dilma Rousseffs avgång»
A classe média brasileira protestou ontem em 239 cidades do país e reivindicou afastamento da presidente Dilma Rousseff

América Latina – BBC de Londres, edição latino-americana
«“Brasil está siendo destruido”: lo que dicen los manifestantes anti-Rousseff»
Brasil está sendo destruído: é o que dizem os manifestantes anti-Rousseff

Alemanha – Frankfurter Allgemeine Zeitung, jornal importante
«Hunderttausende fordern Rousseffs Amtsenthebung»
Centenas de milhares exigem deposição de Rousseff

Manif 23Reino Unido – BBC de Londres, edição em inglês
«Brazilian protesters call for President Dilma Rousseff’s impeachment»
Manifestantes brasileiros clamam por impedimento da presidente Dilma Rousseff

Itália – Gruppo 24 Ore
«Brasile, destra in piazza per l’impeachment della Rousseff»
Brasil: a direita nas ruas pelo impeachment de Rousseff

França – Le Monde, jornal de referência
«Des centaines de milliers de Brésiliens disent ‘dehors’ à Dilma Rousseff»
Centenas de milhares de brasileiros dizem ‘fora’ a Dilma Rousseff

China – South China Morning Post, de Hong Kong
«Hundreds of thousands rally in Brazil to demand president’s resignation amid corruption scandal»
Centenas de milhares agrupam-se no Brasil para exigir renúncia da presidente em meio a escândalo de corrupção

Dinamarca – Jornal Fyens
«Hundredtusinder kræver præsidents afgang i Brasilien»
Centenas de milhares reivindicam afastamento da presidente do Brasil

Manif 24France Info – Rádio pública francesa
«Brésil: 900.000 manifestants réclament le départ de Dilma Rousseff»
Brasil: 900.000 manifestantes clamam pelo afastamento de Dilma Rousseff

Nova Zelândia – New Zealand Herald
«Anti-government protesters take to streets across Brazil»
Manifestantes contra o governo ganham as ruas em todo o Brasil

Suíça – Blick, o jornal de maior tiragem no país
«Massenproteste setzen Brasiliens Präsidentin unter Druck»
Protestos maciços põem a presidente do Brasil sob pressão

Bélgica – La Libre Belgique, jornal belga de referência
«Brésil: 400.000 manifestants exigent le départ de la présidente Rousseff»
Brasil: 400.000 manifestantes exigem afastamento da presidente Rousseff

Canadá – Métro, jornal em língua francesa
«Manifestations antigouvernementales au Brésil»
Manifestações antigovernamentais no Brasil

Manif 25Holanda – De Volkskrant, jornal diário
«Opnieuw massale protesten tegen Braziliaanse president»
De novo, protestos maciços contra presidente do Brasil

Suíça – Neue Zürcher Zeitung, jornal de referência
«Aufmarsch gegen eine paralysierte Präsidentin»
Concentração contra uma presidente paralisada

Holanda – NOS, portal informativo
«Weer massale protesten in Brazilië»
Novos protestos de massa no Brasil

Portugal – Expresso, diário lisboeta
«“Fora Dilma”, gritaram novamente os brasileiros»

De má-fé?

José Horta Manzano

Aspas 2Aspas são sinal gráfico utilizado em praticamente todas as línguas. Forma e hábitos de uso podem variar de um idioma a outro. Vários desenhos são empregados. Nestes tempos de globalização, tanto faz, todos os modelos dão o mesmo recado.

Em nossa língua, as aspas são utilizadas em dois casos principais: em citações e em ironias. Embora alguns gramáticos torçam o nariz, há quem use aspas rodeando palavras estrangeiras.

Tem gente fina que hesita no uso das aspas. A indecisão as faz aparecer mais frequentemente do que deviam. Raramente faltam – em geral, sobram.

Aspas 1Exemplo de aspas usadas em citação:
«Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma» – é máxima atribuída ao químico francês Antoine Lavoisier (1743-1794), embora já tivesse sido enunciada pelo filósofo grego Anaxágoras, 500 anos antes de nossa era.

Exemplo de aspas usadas para denotar ironia:
Na floresta equatorial, quando a temperatura desce abaixo de 20°, os habitantes se queixam do «frio polar».

Chamada da Folha de São Paulo, 15 ago 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 15 ago 2015

«Descendente da ‘família real’ brasileira é um dos líderes de grupo anti-Dilma» – é o título que a Folha de São Paulo deu a artigo publicado na edição online de 15 ago 2015.

Por que, raios, a «família real» aparece cercada de dois pares de urubus? Pode ser que o autor do título sofra de falta de familiaridade com regras gramaticais. Nunca se sabe, tudo é possível nestes tempos estranhos – há até escriba brigado com as letras, um despropósito.

Manif 10Tenho tendência, no entanto, a privilegiar outra hipótese: o responsável pela manchete terá agido de caso pensado, guiado por razões vaga e burramente ideológicas. O autor da frase deixa transpirar irritação com os protestos contra o partido do governo marcados para este domingo. Valendo-se de expediente típico dos que nos governam, misturou alhos com bugalhos. Na tentativa de depreciar os manifestantes, houve por bem cercar de aspas a família real brasileira, como se a expressão não passasse de fantasia da zelite.

Vamos passar por cima do erro factual: Luiz Philippe de Orléans e Bragança é membro da família imperial, não real. O regime republicano, imposto pelo golpe militar de 1889, não desterrou um rei, mas um imperador.

Sobra a bizarrice de ver descendentes do imperador tratados com ironia por gente que deve imaginar que o Brasil começou em 2003. «Família real», entre aspas, pode-se aplicar à dinastia dos Kirchner argentinos, dos Kim norte-coreanos, dos Castros cubanos, dos Al-Assad sírios. Os descendentes de Dom Pedro dispensam os urubus.

Chamada d'O Globo, 16 ago 2015

Chamada d’O Globo, 16 ago 2015

Digno de ser mencionado:
Mostrando orientação menos enviesada, O Globo tratou do assunto com delicadeza. Chamou o príncipe de príncipe. Sem aspas.

Serendipidade – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Velcro 1

Outro dia lhes falei sobre a estranha palavra serendipidade que, embora seja abonada por bons dicionários, ainda não foi reconhecida pelo Vocabulário Oficial da Academia. Uma distração, sem dúvida.

ArquimedesO termo serendipidade exprime a faculdade ou a sorte de inventar algo ou fazer alguma descoberta por mero acidente ou por dedução impelida pelo acaso. O exemplo clássico é a história de Arquimedes – aquele grego antigo que, ao ver flutuar um sabonete na banheira, descobriu um princípio da física. É verdade que a história não registrou a marca do sabonete, mas isso não vem ao caso.

Uma notável invenção suíça seguiu o caminho da serendipidade. Trata-se de um objeto comum, que utilizamos com frequência, sem imaginar como era o mundo antes que ele existisse. Falo do velcro, aquelas geniais tirinhas que grudam e desgrudam sem precisar colar nem costurar. Um achado!

Velcro 2Pois saibam meus distintos leitores que o velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral (1907-1990), originário de família abastada. Numa tarde do outono de 1941, Monsieur de Mestral passeava com seu cachorro num bosque. Horas mais tarde, já de volta a casa, notou que tanto suas roupas quanto o pelo do animal estavam apinhados de pequenas bolinhas, daquelas que chamamos carrapicho.

George de Mestral

George de Mestral

Velcro 4

Chateado, pôs mãos à obra para arrancar, uma a uma, aquelas bolinhas espinhudas. Tomou especial cuidado com o cachorro que, sozinho, não conseguiria se livrar daqueles incômodos penduricalhos.

Enquanto executava a tarefa, a ideia do velcro começou a germinar em sua imaginação. Examinou os carrapichos no microscópio, comparou com o tecido de sua roupa, e… acabou entendendo o princípio. A partir daí, Monsieur de Mestral cuidou da parte comercial. Dez anos mais tarde, patenteou seu invento na Suíça e, no ano seguinte, nos demais países.

Castelo da família De Mestral

Castelo da família De Mestral

Velcro é contração de velours + crochet (veludo + crochê). Como gilete e xerox, é marca registrada que se tornou nome comum. Sem sombra de dúvida, é a criação suíça mais difundida no mundo. Há muito mais tirinhas de velcro em circulação do que canivetes. A NASA, por exemplo, não dispensa esse material para fixar objetos no interior de cápsulas espaciais.

Nuestra América

José Horta Manzano

Das trevas, nasce a luz. Se momentos de estresse são penosos, são também propícios para lançar luz sobre assuntos que andavam meio esquecidos.

Um quarto de século atrás, foi criado o Mercosul. Concebido para impulsionar atividades comerciais, tornou-se tribuna política e está emperrado faz mais de dez anos. Desde que a Argentina quebrou, no começo deste século, o clube sul-americano desviou-se de sua função e hoje não passa de penduricalho folclórico. Atrapalha mais que ajuda.

Mercosul 2Entre os projetos que o senador Calheiros desenterrou e foi correndo mostrar à presidente da República, está o abandono do Mercosul. É encorajante. Até que enfim, alguém ousa gritar bem alto o que todos têm pensado baixinho. Essa associação de países atrasados, regidos por personagens populistas, não nos serve.

Que se tome o exemplo da União Europeia. Numa visão mais ambiciosa que a nossa, o objetivo maior era a integração política, a criação dos Estados Unidos da Europa. Crises internacionais escancararam disparidades entre sócios e acirraram desavenças. A atratividade do bloco desmilinguiu a ponto de alguns membros já cogitarem retirar-se do clube.

Por que continuar dando murro em ponta de faca? Uma retirada do Brasil do Mercosul aumentará nossas chances de alavancar o comércio exterior. Vamos torcer pra que a proposta sobreviva aos manifestos de 16 de agosto.

Círculo dos aflitos

José Horta Manzano

Quando a esmola é muita, o santo desconfia. É curioso que senhor Calheiros, presidente do Senado, venha a público com uma sacola de propostas atiradas de supetão à distinta plateia.

É interessante notar que o senador não apresentou os projetos ao plenário, caminho habitual. Levou-os diretamente à presidência da República – que não tem incumbência nem poder de aprovar leis. Além disso, a sacola contém projetos velhos, já em tramitação no parlamento.

Esmola 1Fica no ar a quase certeza de que o intuito do nobre eleito não é exatamente encontrar solução para os problemas nacionais. Está mais para abraço de afogados.

Tanto dona Dilma quanto senhor Cunha e senhor Calheiros estão na mira do Ministério Público. Ciente de que a união faz a força, o presidente do Senado – sagaz por natureza – escolheu abraçar a presidente da República. É aliança efêmera e de conveniência.

Cá entre nós: senhor Calheiros deve estar em grande apuro. Hoje em dia, quem se alia a dona Dilma dá sinal de estar no fundo do poço.

Novilíngua – 1

Chamada do jornal O Globo, 12 ago 2015

Chamada do jornal O Globo, 12 ago 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que esse exercício de equilibrismo era acrobacia circense e se chamava andar na corda bamba.

Agora, promovido a esporte, é natural que receba nome estrangeiro. Nem todos entendem, mas fica muito mais “sexy”. Ou não?

Miosótis

José Horta Manzano

Você sabia?

Miosótis 2Embora a flor não seja comum no Brasil, o nome miosótis é conhecido. A planta é pra lá de comum em regiões de clima temperado. Flores azuis desabrocham a cada primavera. Mais raramente, podem ser de cor rosa ou branca.

O miosótis (ou a miosótis, vai do gosto do freguês) é florzinha pequenina, delicada, perfeita pra entrar num buquezinho caseiro a ser oferecido à namorada.

Sabe-se lá por que razão, praticamente todas as línguas europeias dão ao miosótis o sugestivo nome de não-te-esqueças-de-mim (ou não-te-esqueças).

Miosótis 1O inglês, o alemão, o espanhol, o russo, o sueco, o italiano, o holandês seguem a mesma linha: forget-me-not, Vergissmeinnicht, nomeolvides, незабудка, förgätmigei, nontiscordardimè, vergeet-mij-niet.

Miosótis 3Por que será que todos procuram escapar do nome original? Talvez seja pela etimologia pouco poética. Miosótis vem do grego através do latim.

É composto de myós (rato) + otós (orelha). É isso mesmo: orelha de rato(*). Vai-se todo o romantismo, não?

Interligne 18c

(*) Para conferir:

Myós (rato) deu Maus em alemão e mouse, termo corriqueiro, devidamente fisgado por nossa novilíngua.

Otós (orelha) perdura na otite e no otorrinolaringologista.

Muito deputado, pouca gente

José Horta Manzano

Quem assiste ao espetáculo circense que nos é proposto diariamente no Congresso Nacional chega quase a esquecer a função de seus integrantes. Estão lá pra fazer leis, foram eleitos pra isso.

Nenhuma sociedade é fixa nem imutável – todo conjunto humano é dinâmico. O mundo antigo evoluía muito lentamente: a ordem medieval perdurou mais de um milênio, até que revoluções vieram alterar o funcionamento da sociedade. Em anos mais recentes, as mudanças têm ocorrido em ritmo cada vez mais acelerado. Daí a importância dos parlamentares, aqueles a quem conferimos o encargo de adaptar normas legais aos novos tempos.

Sei que não é fácil, mas vamos fazer um esforço para esquecer, por um momento, roubalheiras e outros malfeitos. Guardemos em mente a função principal de parlamentares: fazer leis.

by Arnaldo Angeli F°, desenhista paulista

by Arnaldo Angeli F°, desenhista paulista

Desde que a atual Constituição foi promulgada, quase 30 anos atrás, vários projetos foram apresentados com vista a cortar gordura do congresso, diminuindo o número de representantes. Quase dez deles encontram-se engavetados. Os mais antigos já mofam há 25 anos.

Com pequenas diferenças, todos pleiteiam a diminuição de parlamentares, o que é medida positiva. Surpreendentemente, todos mantêm um defeito que já aparece na própria Constituição – a distorção na representatividade da população.

Um deputado federal responde por um determinado número de habitantes. Pouco mais ou menos, cada um deveria representar quantidade equivalente de pessoas. Não é o que acontece.

O problema, que já dura desde 1988 e que não foi enfrentado por nenhum dos projetos de reforma, é que a Constituição limita o número de deputados. Ela estipula que cada unidade da Federação envie a Brasília um mínimo de 8 e um máximo de 70 deputados. Já na época em que foi promulgada a lei maior, esse dispositivo privilegiava Estados menos povoados e prejudicava a representação dos mais populosos. O tempo não fez senão agravar a distorção.

Multidão 3Hoje, chegamos ao paroxismo. Um deputado paulista representa 630 mil cidadãos, enquanto seu colega roraimense encarna apenas 62 mil habitantes. Essa gritante anomalia deforma a democracia representativa. Estados mais populosos estão sub-representados, enquanto unidades federativas com poucos habitantes têm peso exagerado, que não corresponde à população.

É surpreendente notar que projetos de reforma têm ignorado essa deformação, como se ela não tivesse importância. É um engano. O espírito republicano sai perdendo.

Oligarquia lavada a jato

Elio Gáspari (*)

«A doutora Dilma está diante de fenômeno histórico: a Lava-Jato feriu o coração da oligarquia brasileira. Tanto burocratas oniscientes como empresários onipotentes estão encarcerados em Curitiba.

Enquanto isso, prosseguem as investigações em torno da lista de Rodrigo Janot, e não há razões para supor que o Supremo Tribunal Federal seja bonzinho com a turma do foro especial.

Marciano 1Quando a doutora se comporta como se a Lava-Jato fosse coisa de marcianos, pois “não respeito delatores”, ela atravessa a rua para se juntar à oligarquia ameaçada.

Essa oligarquia é muito mais esperta que ela. Fabricou Fernando Collor e entregou-o aos caras-pintadas. Dispensou os militares e aplaudiu Tancredo Neves.»

(*) Excerto de artigo do jornalista Elio Gáspari publicado no Jornal O Globo, 9 ago 2015. Para ler na íntegra, clique aqui.

Dose dupla

José Horta Manzano

Tem certas notícias que, embora capazes de indignar qualquer cidadão em tempos normais, passam despercebidas na cachoeira de escândalos atuais. Parecem fatos menores. Não são.

Meus atentos leitores devem-se lembrar de signor Pizzolato, aquele membro da gangue do Mensalão que, na iminência de ser despachado à Papuda, muniu-se de documento de familiar morto e, sob identidade usurpada, escapou para a Itália.

Prisioneiro 2O sentimento de invulnerabilidade que a dupla cidadania lhe propiciava, no entanto, murchou. Não demorou muito, foi preso pela polícia daquele país. Faz anos que signor Pizzolato trava batalha contra sua extradição para o Brasil. Enquanto isso, continua preso. Se se tivesse entregado à Polícia Federal brasileira, já estaria livre da silva, constrangido apenas por uma imperceptível tornozeleira.

Apesar disso, continua lutando contra a extradição, Por algum motivo será. Não sou especialista em briga de bandidos nem em código de honra de marginais. Assim mesmo, desconfio que o temor de signor Pizzolato não seja exatamente o de ser mandado para o xadrez. Afinal, já faz tempo que ele vive atrás das grades. O medo há de ser outro. Melhor não entrar nesse terreno.

Pizzolato 6 camburaoSeja como for, o episódio tem rendido muita humilhação para o Brasil. Quando o Lula decidiu negar à Itália a devolução de signor Cesare Battisti – terrorista condenado por envolvimento em quatro assassinatos –, usou o pretexto de o extraditando não ser homicida comum, mas criminoso político. Não enxergo diferença, mas parece que o Lula enxergou.

Prison 5Já a Itália, antes de devolver signor Pizzolato, mandou vistoriar prisões brasileiras. Deixou claro que não acredita na boa-fé das autoridades federais, segundo as quais o cidadão será abrigado em estabelecimento penitenciário de padrão Fifa.

O portal d’O Globo informa que o governo italiano despachou representante para inspecionar, in loco e pessoalmente, as instalações onde Pizzolato ficará hospedado.

Isso significa duas coisas. Primeiro, que consideram o Brasil como país de segunda ordem, onde prisões ainda mantêm padrões medievais. Segundo, que não têm confiança nas garantias oferecidas por nossas autoridades – preferem mandar alguém de confiança conferir. É vexame em dose dupla.

O prato feito e a pizza

José Horta Manzano

Você sabia?

Prato feitoEsta semana, causou espanto a notícia de que o gasto de deputados federais com alimentação tinha atingido um milhão de reais de fevereiro a junho. Segundo o Diário do Poder, a quantia equivale a quase 2500 cestas básicas.

Como manchete sensacionalista, é excelente. Esmiuçada a notícia, o espanto é menor. Esmiucemos.

A Câmara abriga 513 deputados. O dinheiro gasto – que, pra ser rigoroso, é de 968,5 mil reais – deve ser dividido pelo número de parlamentares. Dá 1.888 reais por cabeça nesse período.

Pizza 2A Câmara funciona da segunda à sexta-feira, embora nem todos os membros estejam presentes o tempo todo. Para efeito de cálculo, consideremos que cada um almoce apenas quatro dias por semana. Em cinco meses, atinge-se um total de 84 almoços por pessoa.

Dividindo o gasto de 1.888 reais por 84 almoços, obtemos o resultado final: cada almoço de deputado custa módicos R$ 22,60. Convenhamos que o montante está longe de ser abusivo.

Moral da história
As pizzas do Congresso são muito mais preocupantes que o pf dos congressistas.

Dilma e a legitimidade

José Horta Manzano

Dilma 1Legítimo é filhote de lei. O adjetivo latino legĭtĭmus é formado por lex/legis (a lei) com acréscimo do mesmo sufixo que se encontra em último, marítimo, íntimo.

Em sentido próprio, designa aquilo que é fruto da lei, amparado nela, justificado por ela. Em sentido figurado, diz-se também do que for genuíno, procedente, lógico, verdadeiro.

Dona Dilma, de visita a Rondônia, aproveitou uma cerimônia de distribuição de bondades para reafirmar, num discurso, sua relutância em reconhecer a rejeição maciça de que é alvo. Afirmou, com todas as letras, que o voto popular confere legitimidade a seu mandato e que, por via de consequência, o cumprirá até o último dia.

Não sofresse de um vício de origem, o raciocínio seria irrepreensível. De fato, o voto popular outorgou a dona Dilma mandato para segurar as rédeas do Executivo por quatro anos. Mas… cuidado! A mão que afaga é a mesma que castiga. A legitimidade que a lei concede ao eleito não é incondicional nem ilimitada. A lógica tem de ser respeitada até o fim.

O consumidor que, enganado pela propaganda, adquire um produto que não corresponde ao que dele se espera tem direito a devolvê-lo e a receber seu dinheiro de volta.

O mesmo vale para governantes. Somente será legítimo o presidente que não se tiver valido de subterfúgios ilícitos que possam ter pervertido o resultado das urnas. Em português claro: irregularidades na campanha eleitoral confiscam a legitimidade da eleição.

Dilma 11Pois é exatamente o caso de dona Dilma. Todos os brasileiros se dão conta agora: a campanha presidencial foi eivada de mentiras e de meias verdades. Incautos, muitos votaram na candidata justamente por acreditarem em suas promessas. Tomaram por ouro as barras de latão que dona Dilma expunha diante de seus olhos crédulos e esperançosos.

Embora desconfie da lisura do processo apuratório, não tenho meios de comprovar trapaça. Um dia, quem sabe, vai-se acabar descobrindo que a contagem dos votos escapou aqui e ali da lhaneza. Por enquanto, não há meios de afirmar. Portanto, sou constrangido a dar de barato.

No entanto, as mentiras que mancharam a campanha são amplamente suficientes para deslegitimar o resultado da eleição. Que dona Dilma não encha a boca pra proclamar a pertinência do mandato que recebeu.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Diante da tremenda desaprovação popular de que é alvo, volto a sugerir a nossa presidente a saída que lhe recomendei meses atrás. Para escapar da enrascada sem perder a face, só resta a dona Dilma convocar um plebiscito. Que pergunte aos brasileiros se desejam que ela toque o mandato até o fim. E que respeite a decisão do povo, seja ela qual for. Em seguida, não se falará mais nisso.

Como diz o outro, «quem paga mal paga duas vezes». Portanto, quem se elege mal…