O valor de ‘pi’

Ruy Castro (*)

Uma notícia de jornal trouxe-me à memória um fantasma da adolescência: “pi”. “Pi”, para quem não sabe, tem a ver com matemática. É a resultante da razão entre a circunferência e o diâmetro de um círculo. Não sei o que isso significa —apenas copiei a descrição do jornal. Durante toda a vida escolar, fui atormentado por “pi”. Quando o professor tirava o giz do bolso do guarda-pó, enchia o quadro com números e falava em “pi”, eu já sabia que aquilo logo me renderia um zero.

“Pi”, com esse nome de esquilo de desenho animado, é um desafio para os matemáticos. Desde o grego Arquimedes, eles vêm travando sangrentas batalhas entre si, fazendo cálculos para determinar o valor do bicho. Um “pi” simples vale 3,14 —não me pergunte de quê. Mas, há milênios, esse número tem sido acrescido de decimais, a tal ponto que, pelos cálculos do suíço Peter Trüb, em 2016, “pi” já estava em 22,4 trilhões de dígitos —nem a inflação na Venezuela chegou a tanto.

Agora, a japonesa Emma Haruka Iwao acaba de estabelecer um novo valor: 31,4 trilhões de dígitos. E como ela chegou a isto? Operando, durante 121 dias, 25 computadores, que processaram 170 terabytes de dados. Um terabyte, para se ter ideia, armazena 200 mil músicas. Pois tente imaginar 31,4 trilhões de dígitos.

Devíamos chamar Emma ao Brasil. Só ela, usando sua intimidade com “pi”, poderia ajudar a Lava a Jato a calcular o total de dinheiro movimentado pela corrupção nos últimos 30 anos, envolvendo governantes, burocratas, empresários, políticos e partidos. Deve estar em níveis de “pi”.

Quando nos damos conta da naturalidade com que temos ouvido falar em milhões ou bilhões de reais roubados, e não distinguimos mais uns dos outros, é porque já nos tornamos cínicos ou indiferentes. E por que não? Afinal, como disse o juiz Ivan Athiê, aquele que soltou Michel Temer outro dia, “propina não é crime ‒ é gorjeta”.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Serendipidade – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Velcro 1

Outro dia lhes falei sobre a estranha palavra serendipidade que, embora seja abonada por bons dicionários, ainda não foi reconhecida pelo Vocabulário Oficial da Academia. Uma distração, sem dúvida.

ArquimedesO termo serendipidade exprime a faculdade ou a sorte de inventar algo ou fazer alguma descoberta por mero acidente ou por dedução impelida pelo acaso. O exemplo clássico é a história de Arquimedes – aquele grego antigo que, ao ver flutuar um sabonete na banheira, descobriu um princípio da física. É verdade que a história não registrou a marca do sabonete, mas isso não vem ao caso.

Uma notável invenção suíça seguiu o caminho da serendipidade. Trata-se de um objeto comum, que utilizamos com frequência, sem imaginar como era o mundo antes que ele existisse. Falo do velcro, aquelas geniais tirinhas que grudam e desgrudam sem precisar colar nem costurar. Um achado!

Velcro 2Pois saibam meus distintos leitores que o velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral (1907-1990), originário de família abastada. Numa tarde do outono de 1941, Monsieur de Mestral passeava com seu cachorro num bosque. Horas mais tarde, já de volta a casa, notou que tanto suas roupas quanto o pelo do animal estavam apinhados de pequenas bolinhas, daquelas que chamamos carrapicho.

George de Mestral

George de Mestral

Velcro 4

Chateado, pôs mãos à obra para arrancar, uma a uma, aquelas bolinhas espinhudas. Tomou especial cuidado com o cachorro que, sozinho, não conseguiria se livrar daqueles incômodos penduricalhos.

Enquanto executava a tarefa, a ideia do velcro começou a germinar em sua imaginação. Examinou os carrapichos no microscópio, comparou com o tecido de sua roupa, e… acabou entendendo o princípio. A partir daí, Monsieur de Mestral cuidou da parte comercial. Dez anos mais tarde, patenteou seu invento na Suíça e, no ano seguinte, nos demais países.

Castelo da família De Mestral

Castelo da família De Mestral

Velcro é contração de velours + crochet (veludo + crochê). Como gilete e xerox, é marca registrada que se tornou nome comum. Sem sombra de dúvida, é a criação suíça mais difundida no mundo. Há muito mais tirinhas de velcro em circulação do que canivetes. A NASA, por exemplo, não dispensa esse material para fixar objetos no interior de cápsulas espaciais.