Brega

José Horta Manzano

Como detectar um novo-rico? A resposta, como diz o outro, está na própria pergunta. A expressão novo-rico define o sujeito que, tendo enricado de repente e abandonado os fins de mês apertados pra gozar de considerável folga financeira, faz questão de anunciar ao mundo que tem dinheiro. E o faz do modo mais espalhafatoso possível.

O enriquecimento súbito não é necessariamente fruto de práticas criminosas. No Brasil destes últimos anos, é verdade, temos convivido com descobertas assustadoras nesse campo. Tivemos a dança dos guardanapos protagonizada em Paris por doutor Sergio Cabral, então governador do Rio, acompanhado de amigos. Tivemos também as despesas suntuosas da família de doutor Eduardo Cunha quando estavam em vilegiatura na Europa. Espantamo-nos ainda com a antena de celular, a adega, o lago artificial e os pedalinhos personalizados instalados num certo sítio de Atibaia.

Mas há os que, apesar de terem enriquecido honestamente, se perdem e não resistem a comportar-se como novos-ricos espalhafatosos. Outro dia, o jogador de futebol português Cristiano Ronaldo estava em Londres com a namorada e mais dois amigos. Preparavam-se para assistir ao jogo de tênis estrelado por Nôvak Djókovitch. Como tinham tempo pela frente, decidiram entrar num bar de Mayfair pra tomar alguma coisa.

Quinze minutos mais tarde, quando deixaram o estabelecimento, tinham tragado duas garrafas de vinho. A primeira era um Richebourg Grand Cru, um tinto de Bourgogne do Domaine de la Romanée-Conti, pela qual o craque pagou 18 mil libras (= 88 mil reais). A segunda, bem mais barata, foi um Petrus Pomerol, um tinto de Bordeaux. Custou ‘apenas’ 9 mil libras (= 44 mil reais). A conta final ficou em 27 mil libras (= 132 mil reais), que nosso herói pagou sem reclamar. Deve estar habituado. Detalhe: a segunda garrafa foi consumida pela metade.

Robert Parker, talvez o conhecedor de vinho mais respeitado no mundo, disse uma vez que nenhuma garrafa de nenhum vinho deveria custar mais de 50 dólares. No preço das que se vendem mais caro que isso, estão embutidos outros componentes, como a raridade, o prestígio, o luxo e outros quesitos que nada têm a ver com a qualidade da beberagem. O homem tem razão. Não é concebível pagar perto de 50 mil reais por uma garrafa de vinho tinto. Só faz isso quem ganhou dinheiro fácil ‒ que é o caso de Cristiano Ronaldo e também dos que assaltaram o erário do Brasil.

Mas não adianta: quem é brega, é brega até o fim. Nosso amigo futebolista engoliu, com os amigos, uma garrafa de Bourgogne seguida de uma de Bordeaux. Beber nessa sequência, em tão pouco tempo, não é de bom-tom. Não se deve misturar, no curto espaço de 15 minutos, dois néctares de origem diferente.

Que se há de fazer? Mau gosto salta aos olhos, não dá pra disfarçar. É como gato que, quando se esconde, deixa o rabo de fora.

Fake news ‒ 1

José Horta Manzano

Assim como o Lula não inventou o suborno, tampouco Donald Trump é o criador da «fake news», a notícia falsa. O mérito de ambos ‒ se é que se pode chamar de mérito ‒ é ter elevado essas práticas duvidosas ao nível de política de Estado.

O Lula até que conseguiu se sustentar sobre o tablado durante muito tempo. A técnica durou tantos anos que, como era inevitável, ele e a companheirada se acostumaram a seguir pela via paralela e a dobrar pela direita. Agir na base do toma lá dá cá tornou-se uma segunda natureza, entrou para o quotidiano. O exagero levou à perdição.

Suborno, cooptação, prevaricação, corrupção e outros males desse jaez já eram conhecidos antes de os gregos antigos implantarem a democracia. E nunca saíram de cena. Usados com moderação, são como o vinho: não fazem mal à saúde e, de quebra, podem até ajudar a destravar negócios enrolados. Em excesso, no entanto, destroem criadores e criaturas.

«Fake news» ‒ que antigamente a gente dizia boato ‒ é outra prática antiga. Seus parentes são o rumor, a calúnia, a injúria, a falsa denúncia. Todos eles já existiam antes que a bíblia fosse escrita. Tanto quanto a corrupção, a boataria é praticamente inócua desde que se mantenha dentro de certos limites. Ao tornar-se prática difundida, universal e diária, enguiça a máquina. Ninguém consegue sobreviver em chão de areia movediça.

Internet e redes sociais têm usado e abusado de verdades mascaradas. Exatamente como no caso dos poderosos brasileiros, a falta de freios está se tornando procedimento normal. Cada um distorce a verdade como lhe parece mais conveniente. O mais recente escândalo está centrado no futebolista luso Cristiano Ronaldo, cuja fama de excelência subiu mais um pouco quando seu clube conquistou a Copa da Liga dos Campeões da Uefa dias atrás.

A firma de equipamentos esportivos Nike, que aparece entre os principais patrocinadores do rapaz, bolou rapidamente uma campanha publicitária. Encontrou uma foto em que o jogador aparece ainda jovem e tratou de difundi-la. Antes disso, tomou o cuidado de dar-lhe uma “photoshopada” e de acrescentar o característico logotipo e uma legenda: «This boy knew» ‒ este menino sabia. Deu-se mal.

Um observador atento tratou logo de espalhar pelas redes a foto original. No retrato verdadeiro, o futebolista não veste agasalho Nike, mas da maior concorrente, a firma Adidas. Pegou mal pra caramba.

Como os corruptos inveterados, os difusores de «fake news» estão ultrapassando os limites da razoabilidade. O mundo vai mal. Já não se pode mais nem acreditar em boato.

Pobre Messi

José Horta Manzano

A Fifa anunciou ontem que Señor Lionel Messi, jogador argentino de futebol, foi punido por desrespeito ao artigo 57 do Código Disciplinar daquela entidade. Em jogo entre o Chile e a Argentina, contando pela classificação para a Copa de 2018, o hábil esportista «pronunciou palavras injuriosas contra um árbitro assistente». Supõe-se que a injúria tenha sido dirigida à mãe do árbitro, mas o comunicado da Fifa não esclarece esse particular.

A sanção é dupla. Por um lado, señor Messi está proibido de atuar nos quatro próximos jogos da Seleção de seu país. Por outro, terá de desembolsar uma multa de dez mil francos suíços (pouco mais de nove mil euros). O esportista deve estar dando pulos de alegria.

Lionel Messi e Cristiano Ronaldo

Por quê? Ora, distinto leitor, raciocinemos. A edição de ontem de France Football informa o ganho dos jogadores mais bem pagos na temporada 2016-2017. Pela primeira vez em cinco anos, Messi não foi o campeão ‒ perdeu a taça para Cristiano Ronaldo. O português levou pra casa 87,5 milhões de euros enquanto o argentino teve de se contentar com 76,5 milhões (cerca de 260 milhões de reais), uma ninharia. A multa da Fifa não há de lhe pesar muito.

É sabido que essas fortunas abocanhadas por jogadores provêm do salário e são engordadas pela receita publicitária. Quatro jogos de suspensão no «Seleccionado» não fazem grande diferença. Ou melhor, fazem diferença, sim: dão ao jogador «punido» excelente pretexto para gozar de alguns dias de férias.

Fiquei com muita pena do talentoso argentino.

A quem interessar possa
Na lista de France Football, o terceiro lugar na classificação dos mais bem pagos coube ao brasileiro Neymar. Esta temporada, o jovem terá de se contentar com 55,5 milhões de euros (cerca de 190 milhões de reais). Uma miséria.