Greve – 2

José Horta Manzano

Outro dia eu contava a origem da palavra greve. (Pra quem perdeu, o post está aqui.) O tempo que levei escrevendo sobre essa palavra me levou a um momento de reflexão sobre o significado dela, tanto na etimologia quanto na vida real e nas consequências para cada cidadão.

Os franceses inventaram a greve e… abusam dela. Eu me lembro de um exemplo clássico. Era no tempo em que eu viajava frequentemente ao Brasil. Como todo o mundo, eu procurava escolher companhia que oferecesse bom preço e conexões decentes – evitando, se possível, aquelas que cobravam um pouco menos mas, em compensação, te faziam passar uma noite dormindo nos agradáveis bancos de madeira do aeroporto de Uagadugu. Com direito a mosquitos, pernilongos e muriçocas.

A preocupação maior era evitar a Air France, ainda que os preços fossem promocionais. A razão não era nenhuma desconfiança com a empresa, que é cotada entre as melhores do planeta. O nó do problema eram as greves, imprevisíveis e frequentes. Nesse ponto, francês é campeão. Quem faz escala em Paris está sujeito a elas. Ora são os controladores aéreos, ora os comandantes, ou o pessoal de solo, ou as aeromoças (adoro o sabor antiquado e romântico desse nome). É sempre arriscado. Se acontece no dia do seu voo, é pandemônio garantido.

No mundo, em qualquer empresa, quando surge desavença entre patrão e empregados, o caminho usual e adequado é discutir primeiro. Se realmente não houver jeito, aí sim, como último recurso de pressão, entra-se em greve. Na França, não funciona dessa maneira. Quando há uma reivindicação qualquer, entra-se logo em greve antes de discutir. A discussão, tumultuada, ocorre durante a greve. É balbúrdia na certa, que acaba prejudicando empresa, funcionários e usuários. Todos saem perdendo.

O distinto leitor ficará espantado se eu lhe disser que na França, duas ou três vezes por ano, até o rádio entra em greve. Falo das emissoras públicas, que são as mais sintonizadas e populares do país. Um belo dia de manhã, você liga o rádio pra ouvir as notícias e só vem música. A cada dez minutos, a música é interrompida por uma voz aveludada que informa que, em razão de um ‘movimento’ de funcionários por questões salariais, a emissora não está em condições de oferecer os programas habituais. E o ouvinte que se vire. A parede não tem prazo pra terminar e pode durar vários dias.

Para entrar em greve, cada categoria de profissionais escolhe o momento em que o cidadão ficará mais incomodado. Funcionários de metrô não vão parar de trabalhar no fim de semana, mas em plena segunda-feira de manhã, quando o movimento é mais intenso. Enfermeiras grevistas não escondem a seringa em agosto, mês de férias, mas numa época em que todos estejam no batente. E assim por diante, todo grevista procurando atrapalhar o mais possível.

Atualmente, está ocorrendo uma greve pra lá de original. As provas do baccalauréat (equivalente a nosso Enem) realizaram-se estes dias. Nessa época, a moçada do país inteiro fica em efervescência, todos nervosos e ansiosos. Pois acredite, distinto leitor: parte dos professores encarregados de corrigir as provas escolheu exatamente este momento pra entrar em greve. Recusaram-se a entrar as notas no sistema informático. Compreensivelmente, o país ficou indignado e o auê foi ensurdecedor – a tal ponto, que a reivindicação dos grevistas passou para segundo plano em meio à grita geral. É demais cruel impor esse suspense aos já estressados estudantes. Até o presidente da República interveio por meio de fala à nação, acontecimento raro.

Diante da ameaça de punição equivalente a 15 dias de desconto de salário, muitos grevistas entregaram os pontos e devolveram as provas corrigidas. Pequena minoria, no entanto, resistiu até o fim. Para contornar o problema, o ministério da Educação decidiu considerar que, para aqueles cujas provas tinham sido confiscadas pelos grevistas, valeria a média das notas das provas parciais do último ano letivo. Mais à frente, quando chegasse a nota do baccalauréat, valeria a mais favorável – a do ‘bac’ ou a média do ano.

No Brasil de antigamente, havia alguma greve. Nunca chegamos à recorrência que o fenômeno assume na França, mas greve sempre houve. Depois que o andar de cima foi capturado pelo lulopetismo, quinze anos atrás, sindicatos foram amansados com generosos mimos e as greves minguaram. Renascerão, sem dúvida. Por enquanto, estão quietinhos. Devem estar catando os cacos pra remendar o vaso.

The bac is back!

José Horta Manzano

Como todos os anos, a estudantada francesa está em efervescência. É época do «bac», que equivale a nosso Enem. «Bac» é redução de baccalauréat, o nome completo. Encolhido a uma sílaba só, o exame parece menos assustador, torna-se quase amigo íntimo. Isso deve servir pra esconjurar o pânico.

Nesta época, a mídia dá conselhos aos candidatos. Evitar comida pesada, não tomar calmante, não varar a noite estudando de última hora, tomar café da manhã antes de sair de casa (ou, se o nervoso tiver causado enjoo, tomar pelo menos um chá com açúcar e levar um lanchinho pra mais tarde). Chegar ao local da prova com boa antecedência. São recomendações de bom senso.

A estranha palavra baccalauréat formou-se no latim medieval. Naquela época, era o nome da primeira distinção concedida pelas universidades de Teologia, de Medicina e de Direito. Na composição do termo, é evidente a influência de laureare (=oferecer ao homenageado uma coroa de folhas de louro). Acredita-se que a primeira parte da palavra venha de bacca (=designação comum a certas frutinhas silvestres). Portanto, baccalaureatus é aquele que recebeu a coroa de louros. Note-se que a forma latina bacca deu, em português, bago e baga.

No país de Voltaire, Sartre, Montesquieu e Raymond Aron, a Filosofia ocupa lugar de destaque. As provas do ‘bac’ sempre começam por essa disciplina. Todos os candidatos têm de passar por ela, embora o peso atribuído varie conforme a carreira. Tem peso maior para os que escolheram Letras. Mas até os que se propõem a fazer estudos científicos têm de enfrentar a ‘filô’.

E a prova de ‘filô’ foi hoje. Não sei como anda o nível do Enem, mas é de constatar que o “bac” francês mantém padrão elevado. Aqui estão os temas de Filosofia correspondentes a cada carreira. O candidato pode escolher entre duas proposições e tem quatro horas pra bolar uma dissertação.

Carreira científica
Tema 1
A pluralidade de culturas é nociva à unidade da humanidade?

Tema 2
Reconhecer seus deveres significa renunciar à própria liberdade?

Carreira econômico-social
Tema 1
A moral é a melhor das políticas?

Tema 2
O trabalho divide os homens?

Carreira literária
Tema 1
É possível fugir ao tempo?

Tema 2
Vale a pena explicar uma obra de arte?

Pronto. Celular desligado, o distinto leitor dispõe de quatro horas pra produzir sua obra-prima. Em francês, s’il vous plaît.

ET
A palavra “baccalauréat” pertence à família que deu o inglês bachelor e nosso familiar bacharel – todos eles bambambãs em Filosofia, naturalmente.

Jovem demais pra estudar

José Horta Manzano

Não sou especialista em Educação, razão pela qual talvez algum aspecto importante do assunto me escape. Saiu estes dias a notícia de que o STF mantém a decisão de estipular idade mínima para uma criança se matricular no ensino fundamental. Para entrar na escola, é preciso ter completado 6 aninhos até o dia 31 de março.

Pra dizer a verdade, até que a legislação está mais liberal do que costumava ser antigamente. Quando estudei, o fundamental se chamava primário. Nenhum pequerrucho com menos de 7 anos podia entrar no primeiro ano. Os guris de 6 anos só podiam ser matriculados se completassem o sétimo ano até 30 de junho. Se não, nada feito.

Fico a matutar. De onde vem a necessidade de limitar ‒ para mais ou para menos, pouco importa ‒ a idade de matrícula num curso? Suponhamos uma criança de desenvolvimento mental precoce. Suponhamos que só complete 6 anos alguns meses depois do limite legal. É justo e normal que seja privada de entrar na escola fundamental, perdendo assim um ano? O mesmo raciocínio vale para os que estiverem atrasados. Nenhuma criança deve ser impedida de assistir às aulas, independentemente da idade.

Se o distinto leitor puder trazer algum subsídio pra vitaminar o raciocínio, ficarei feliz de ler. O espaço de comentários está a seu dispor.

Só pra ilustrar minha perplexidade quanto às regras brasileiras, lembro o exemplo do baccalauréat francês ‒ o Enem deles ‒, certificado de fim de estudos bastante prestigiado na França. Lá o povo se divide entre os que têm o «bac» e os que não o têm. Pra pleitear vaga na universidade, é obrigatório.

Todos os anos, lá pelo mês de junho, os exames do «bac» se tornam assunto nacional. Em cada esquina, só se fala nisso. Como no Brasil, aparecem as histórias tristes dos que perderam a hora ou dos que adoeceram ou sofreram acidente no dia da prova de Filosofia (a mais importante). Tem gente que entra até de maca na sala de exame.

Por seu lado, surgem também as curiosidades. Tem sempre aquele que tirou nota máxima em três ou quatro disciplinas, coisa rara. Fica-se sabendo que o mais jovem dos aprovados tinha apenas 13 ou 14 aninhos. E que o mais velho tinha 75. Não há limite de idade pra concorrer.

Com o diploma no bolso, o rapazote de 14 anos pode até se candidatar a uma vaga numa faculdade qualquer. Se seu currículo for aceito, vai se tornar universitário. Em toda legalidade. Ninguém vê escândalo nisso. Por que é que no Brasil impõem limite de idade pra começar a estudar?

Falam de nós – 21

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Para começar, a notícia chata
O diário El Observador e outros veículos de Montevidéu informam que o Ministério do Interior uruguaio está reforçando a segurança na fronteira com o Brasil. Para tanto, câmeras de vídeo estão sendo instaladas. Centenas de militares e de policiais também estão sendo mobilizados. As quatro províncias que têm fronteira seca com o Brasil estão incluídas na operação, que tem até nome: Programa Gavilán ‒ Operação Gavião.

O programa já foi posto em prática e testado, aparentemente com sucesso, durante a Copa de 2014 e os JOs de 2016. Além de controle reforçado nos postos de fronteira, o Uruguai organiza também blitzes de surpresa nas estradas. A fronteira com o Brasil é classificada como uma «perigosa peneira».

O temor dos hermanos tem três razões de ser. Em primeiro lugar, procuram reprimir a entrada de cocaína no país. Em seguida, têm a intenção de proteger seus fazendeiros contra furtos de gado que ocorrem com indesejável frequência.

A terceira razão ‒ a mais preocupante ‒ tem a ver com o crime organizado brasileiro. Depois do assalto de que foi vítima uma transportadora de valores em Ciudad del Este (Paraguai), ataque atribuído ao PCC brasileiro, os uruguaios andam ressabiados. Meia dúzia de cidades de certa importância estão coladas à fronteira brasileira e podem estar na mira dos bandidos. Melhor prevenir.

Para terminar, a notícia agradável
Em 2015, aos 18 anos de idade, o paulista Felipe Levtchenko embarcou para a França para um intercâmbio escolar previsto para alguns meses. Ao chegar, não conhecia nenhuma palavra de francês. Acolhido por uma família de Perpignan (sul do país), dedicou-se de corpo e alma ao aprendizado da língua e ao que lhe ensinavam na escola.

Os começos foram difíceis. A realidade do inverno assustou o moço habituado ao clima morno dos trópicos. Pra piorar, enfrentou as tribulações de viver num mundo em que todos falam uma língua desconhecida. No entanto, passado o primeiro momento de desalento, o mergulho total ajuda. Por bem ou por mal, acaba-se entendendo o que dizem os outros.

Para resumir a história, Felipe gostou da experiência e foi ficando. Decidiu ficar até o fim do ano escolar para enfrentar os exames do «bac», que corresponde a nosso Enem. Não conseguiu passar. Seu conhecimento de francês era insuficiente.

Insistente, o rapaz decidiu repetir o último ano da escola média. Estudou novamente toda a matéria e reforçou seu aprendizado de francês. Semana passada, tentou de novo o exame final. Conseguiu a inacreditável média de 19,26(*). A façanha foi noticiada por toda a imprensa regional.

Perfeitamente integrado, Felipe pretende continuar na França. Não vai cursar uma, mas duas faculdades ao mesmo tempo. E não é a escolinha da esquina não, senhor. Por um lado, vai inscrever-se na ultrafamosa «Sciences Po» (Ciências políticas), faculdade de cujos bancos saiu boa parte da elite dirigente francesa. Por outro lado, vai cursar nada menos que… a Sorbonne, uma das universidades mais prestigiosas do mundo! «Para não abandonar a matemática» ‒ diz o rapaz.

(*) Na França, a notação não é baseada no máximo de 10, como estamos acostumados. Vai de zero a 20. A média de 19,26 sobre 20 equivale portanto a 9,63 sobre 10 ‒ nota pra ninguém botar defeito. Quando se leva em conta que o moço não conhecia uma palavra da língua até dois anos atrás, é de tirar o chapéu.

Le bac

José Horta Manzano

Para aliviar o peso habitual de toda segunda-feira, uma historinha leve. Ou «leviana», como dizem muitos na minha terra.

Como sabem meus cultos e distintos leitores, as estações do ano na Europa ‒ e em todo o Hemisfério Norte ‒ são invertidas em relação às nossas. Justamente agora, quando o friozinho faz as primeiras incursões no sul do Brasil prenunciando o inverno, é época de calorão na parte de cima do mapa-múndi.

Como o ano escolar começa em setembro e termina em junho, as férias de verão caem em julho e agosto, e estamos em época de exames de fim de ano. Na França, o coroamento do ensino médio é representado pelo «baccalauréat», familiarmente conhecido como «bac», análogo a nosso Enem. É época um tanto angustiante para os candidatos.

Semana passada, um jovem automobilista foi parado pela polícia por estar dirigindo a 125km/h num trecho onde a velocidade máxima permitida era de 80km/h. Excesso tão grande resulta em apreensão imediata da carteira de habilitação, o que foi feito na hora. Por mais que se lamentasse e implorasse, nosso estudante foi impedido de continuar dirigindo.

Acontece que ele se encaminhava para o local de exame. E já estava atrasado, daí a velocidade excessiva. Aflito, explicou aos policiais que perigava perder um ano de estudos. Um dos agentes, condoído da sorte do rapaz, tomou uma decisão inusitada. Não devolvia a carteira ao moço, que isso a lei não permite. Mas prontificou-se a levá-lo até o local da prova. Na viatura policial.

O estudante pôde, assim, chegar a tempo de prestar exame. Dias depois, a família do jovem escreveu carta de agradecimento à polícia, o que deve ter rendido anotação elogiosa no prontuário do policial camarada. Não se ficou sabendo se o candidato passou no exame, mas essa já é uma outra história.