Fiz um gato

José Horta Manzano

Gato escondido 2As coisas, às vezes, acontecem na hora errada. Aliás, para coisas indesejadas, nenhum momento é propício. Pelas 11 da noite de ontem, quando costumo dar uma espiadinha na internet pra saber das novidades, não consegui entrar no primeiro site. Tentei um segundo, e nada. Depois do terceiro site fora do ar, tive de reconhecer que o sinal estava interrompido.

Aqui em casa ‒ como é comum por estas bandas ‒, eletricidade, televisão, telefone e internet são fornecidos pela mesma empresa. Como é a fiação? Não sei. Talvez venha tudo pelo mesmo buraco. Técnica, física, matemática e mecânica celeste nunca foram meu ponto forte. Fato é que ontem, de golpe, perdemos internet e telefone fixo. Por sorte, a eletricidade e a tevê continuaram firmes e fortes.

Na Suíça, depois do horário comercial, assistência técnica é tão difícil de achar como agulha em palheiro. A melhor notícia que o «serviço de emergência» da fornecedora conseguiu me dar é que um técnico entraria em contacto comigo na manhã seguinte. Tá.

Gato 1Que fazer? Nada. Panes aqui são muito raras, o que faz que a gente não esteja preparado para elas. Só pra dar uma pequena ideia, nenhuma casa tem caixa d’água. Nunca se ouviu falar nesse apetrecho. Armazenar água em casa, para um suíço, soa tão fora de esquadro como instalar sistema de calefação em Manaus.

Eis senão quando me vem à memória que, anos atrás, por razão que ora me escapa, chegamos a utilizar, por curto período, o sistema wi-fi do vizinho de parede. Com anuência dele, evidentemente. Na época, ele gentilmente nos forneceu a senha de acesso.

Gato escondido 16Aquela situação excepcional durou pouco porque logo tomamos assinatura internet e nunca mais utilizamos o sem-fio do vizinho. Só ontem, no momento da pane, a coisa me voltou à lembrança. O velho laptop que usávamos na época, embora já aposentado, não foi jogado fora. Aqui em casa, ninguém se lembrava mais da senha do vizinho mas… o velho computador de colo, que bobo não é, não se esqueceu. Como o vizinho é assinante de outra empresa, seu sinal estava perfeito.

Retirada temporariamente da aposentadoria que gozava no porão, a maquineta ressuscitou. Aparentemente orgulhosa de voltar à ativa, mostrou seriedade ao captar sem problema o sinal do vizinho, armazenado em sua inesgotável memória. É verdade que a velha maquininha é de uma lentidão à qual não estamos mais acostumados. Mas é sempre melhor que nada.

Graças a ela, pudemos assistir, ao vivo, à destituição do Lula. Não foi um lapso. Para mim, dona Dilma não passou de comparsa desastrada. Os escorraçados foram Lula & caterva.

Fiz um gato que valeu a pena.

Interligne 18c

Observação
O vizinho de parede, a quem deixo aqui meu agradecimento, mantém o apartamento montado embora raramente esteja por aqui. Estes dias, por exemplo, está de viagem.

Só para terminar: depois de 12 horas, internet e telefone voltaram.

O feitiço e o feiticeiro

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 8 maio 2016

Chamada do Estadão, 8 maio 2016

Quem é mesmo que costumava dizer que «eles fica jogano praga ni nóis»?

Quem é mesmo que costumava dizer que «eles torce pro Brasil piorar»?

Quem é mesmo que costumava dizer que «eles não suporta que o Brasil melhora»?

Quem diria…

Meio mistério resolvido

Cadeira 2José Horta Manzano

Ah, essa gente que dá notícia pela metade… Dias atrás, tomei um susto ‒ que compartilhei com meus distintos leitores ‒ quando fiquei sabendo que a empresa de um dos filhos de nosso guia contava com uma cadeira «de alto couro ecológico», avaliada em 15 mil reais. Um patrimônio, coronel!

Na ocasião, pra evitar que alguém pensasse que eu estava delirando, cheguei a reproduzir a imagem do Estadão online. Aproveitei para deixar no ar a pergunta sobre o que viria a ser uma cadeira «de alto couro ecológico».

Alguns distintos leitores fizeram a fineza de dar opinião. Conversa vai, conversa vem, ficou a impressão de que andávamos em círculo sem matar a charada. Não foi possível chegar a um acordo.

do Estadão, 30 abr 2016

do Estadão, 30 abr 2016

Pois neste sábado, 30 abril, o Estadão volta ao assunto com mais detalhes. Até certo ponto, esclarece parte de nossa dúvida. Como se podia já ter desconfiado, o estagiário que deu a primeira notícia havia interpretado mal o despacho da agência de notícias. Agora, a publicação do balanço patrimonial da firma de Lula Júnior desvenda parte do mistério.

Uma leitura atenta da relação de bens ensina que o significado do ítem ‘cadeira enc alto couro ecológ.’ não foi captado pelo estagiário. Na verdade, não é o couro que é alto, mas o encosto. Ah, agora ficou claro! O fato de o objeto valer 17 salários mínimos continua a ser mero detalhe. O que fica claro é que o espaldar é alto e o couro é ecológico.

Meia dúvida foi aclarada, pronto! Não tem mais essa de ‘alto couro’. Sobra, no entanto, o segundo termo da incógnita: que vem a ser ‘couro ecológico’? Até agora, a melhor interpretação supõe ser couro vindo de vacas alimentadas com capim desnatado. SMJ.

Cadeira 1Adendo ecológico
Nossa cadeira não está desacompanhada, largada num canto do escritório. O balanço patrimonial da firma de senhor Lula Júnior informa que, além da indigitada cadeira, há ainda uma poltrona de espaldar médio e uma poltrona cromada. Ambas de ‘couro ecológico’. Naturalmente. Fica evidente a preocupação do clã com a preservação da saúde do planeta.

Adendo etimológico
O vocabulário restrito de quem deu a notícia não lhe permitiu identificar o que se escondia detrás da abreviatura «esp». Especial? Qual nada! Em assuntos de cadeira, «esp» indica o espaldar, a espalda.

E que vem a ser? É o que chamamos, em linguagem caseira, as costas da cadeira. A raiz *spatula, que se desenvolveu no latim medieval, dava nome à parte do corpo situada no alto das costas, na altura da clavícula e da extremidade superior do úmero. Em miúdos, é o que chamamos espádua ou ombro.

ViolinoO espaldar da cadeira é justamente onde encostamos o ombro. Na mesma família há um parente mais utilizado. É o verbo respaldar e seu irmão, o substantivo respaldo, ambos transmitindo a ideia de dar apoio.

Menos comum mas também parente é o termo spalla, palavra italiana para designar o primeiro violino de uma orquestra. É o músico que respalda os demais, que lhes dá apoio.

Sem mágoas

José Horta Manzano

Você sabia?

Futebol 3O IBGE acaba de publicar interessante anuário. Mostra a diversidade de nomes (prenomes) de brasileiros que participaram do Censo Demográfico de 2010. São mais de 130 mil nomes, uma enormidade.

É pena o instituto não ter compilado todos os nomes numa lista geral. Para conhecer a frequência, precisa pesquisar um por um. Outra imperfeição é o fato de diferentes grafias do mesmo nome serem computadas separadamente. Assim, Luís e Luiz são contados como nomes diferentes. O mesmo acontece com as duplas Tiago/Thiago, Carina/Karina, Paula/Paola. Enfim, nestes tempos estranhos, contentemo-nos com o que temos.

Como já se podia adivinhar, José e Maria continuam ocupando o primeiro lugar. De cada 8 brasileiras, uma se chama Maria. E de cada 17 brasileiros, um se prenomina José.

Uma análise um bocadinho mais atenta mostra resultados interessantes, surpreendentes até. Artistas da moda, futebolistas e personagens políticos influenciam os pais na hora de registrar o rebento.

Infografia Folhapress

Infografia Folhapress

Entre os famosos do espetáculo, Michael Jackson ocupa o trono. Curiosamente, a grafia utilizada não corresponde ao original. Foi estropiada por ouvidos nacionais e se transformou no peculiar «Maicon». Estatisticamente, um ajuntamento de 700 brasileiros contará com pelo menos um Maicon.

Entre os futebolistas, Romário reina. São quase 60 mil brasileiros a portar seu nome. Rivelino, com 5570 homônimos, fica muito pra trás. Pelé é prenome mal-amado. Apenas 112 cidadãos carregavam esse nome em 2010.

Lula caricatura 2aMostrando não guardar rancor nem ressentimento, 76 famílias deram o nome de Messi a um rebento. Os Maradonas são 165. E o Zidane, aquele que tinha nome de xarope e que liquidou as esperanças da Seleção em 1998, tem 827 homônimos no Brasil. Sem mágoas.

O mundo da política também está epelhado na patronímia brasileira. Getúlio e Jânio marcaram época. Ainda hoje, há quase 50 mil cidadãos com o nome de um dos dois. Sobram 831 Adhemar, provável relíquia do tempo daquele que «roubava mas fazia». (Hoje, rouba-se sem fazer.)

Até Clinton serviu de modelo: 557 conterrâneos levam seu nome. Embora pareça incrível, o Censo conseguiu encontrar 86 Sarney.

O mais decepcionante vem agora. Entre os mais de 200 milhões de brasileiros, o IBGE não conseguiu contar mais que 231 Lula. À evidência, nossos compatriotas não dão mostras de simpatizar com a autoqualificada «viv’alma mais honesta do país».

Impeachment é fichinha

José Horta Manzano

Bandeira St-KittsComo todo cidadão minimamente ligado ao que acontece no país, sinto-me um tanto inflamado pelos acontecimentos políticos destes dias. Esqueça a zika, o verão que não termina. Não se preocupe se o Corinthians ou o Flamengo ganharam ou deixaram de ganhar. Esqueça até o terremoto do Japão, o terremoto dos ‘Panama Papers’, o terremoto da Lava a Jato. Uma indagação domina a cabeça de todos: Dilma fica ou Dilma vai?

Como todo cidadão minimamente ligado ao que acontece no país, estava me preparando para escrever sobre nossa presidente. Afinal, fica ou vai? Já tinha até lido boa parte das manchetes da imprensa internacional. Tinha colecionado os títulos que me pareciam mais significativos. Eis senão quando… dou de cara com uma notícia que, por sua importância, sobrepuja todas as outras. Deixa o resto no chinelo. Resolvi abandonar tudo e relatar a notícia que dominou a semana em São Cristóvão & Névis, simpático Estado situado nas pequenas Antilhas. Não fica longe de lugares de nome evocador como Anguilla, Antigua & Barbuda, Montserrat, Guadalupe.

Vista geral de Basseterre, capital de São Cristóvão e Névis

Vista geral de Basseterre, capital de São Cristóvão e Névis

São Cristóvão e Névis são duas ilhotas vizinhas que se agruparam num só Estado. Integram o Commonwealth britânico, mas mantêm governo independente da matriz europeia. A população do país aproxima-se de 55 mil almas. Basseterre, capital e maior cidade do país, concentra 13 mil habitantes. Desde o tempo em que nosso guia achava que a importância de um país se media pelo número de representações diplomáticas espalhadas pelo planeta, o Itamaraty foi instado a abrir embaixada naquele país. Uma necessidade absoluta, como pode o distinto leitor avaliar.

A embaixada, que tem até embaixador residente, está lá, há alguns anos, a preparar-se para o intenso intercâmbio que virá um dia, é certeza. Na semana que passou, começou a mostrar a que veio. Finalmente, um acordo de cooperação técnica foi assinado entre Brasília e Basseterre. A partir de agora, há facilidade de treinamento dos incontáveis nativos interessados em aprender nossa língua. E vice-versa, naturalmente.

Embaixada do Brasil em Basseterre, S. Cristóvão e Névis

Embaixada do Brasil em Basseterre, S. Cristóvão e Névis

O acordo apresenta suprema vantagem. Segundo nosso embaixador, o Brasil é parceiro estratégico, pois está inserido na mesma região geográfica, portanto combateu problemas semelhantes. Tendo-os já em grande parte resolvido, pode oferecer colaboração eficiente a países como São Cristóvão.

Tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Nosso guia permitiu-se dar lições políticas a seus colegas do G20. Dona Dilma autorizou-se a ensinar economia a Frau Merkel. Agora chegou a vez do paradisíaco resort antilhano de aproveitar de nosso avanço civilizatório. Agora, vai!

Ah, essa soberba que nos tem turvado a visão…

Pensando bem – 10

José Horta Manzano

 

Chamada da Folha de São Paulo, 14 abr 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 14 abr 2016

Parece até ameaça
Cruz-credo! Que Deus nos livre!
Seria cruel desgraça
Ninguém merece. Tem dó!

0-Pensando bemNo entanto, a bem refletir
Só pode ser brincadeira
Não é verdade, é gogó.

Assim que a Dilma se for,
caminho já está traçado:
é Lula no xilindró.

A confirmação da picaretagem

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Num tempo em que era principiante na política e suas bravatas ainda encantavam, o Lula chegou a dizer que havia «300 picaretas» na Câmara. O tempo passou, o antigo metalúrgico foi eleito à presidência da República e passou a acreditar que tinha alcançado o poder eterno, total e inamovível.

Surpreendentemente, no lugar de batalhar para limpar a Câmara dos elementos indignos que havia denunciado, preferiu aliar-se a eles para sustentar sua vaidade e sua sede de perenidade.

Não deu certo, como hoje sabemos. A soberba cegou nosso guia e não lhe permitiu enxergar que não se constrói edifício sem alicerces. O prédio ruiu. Humilhado, o taumaturgo hoje foge da Justiça e teme a prisão. Para escapar, empenha-se em aliciar aqueles mesmos que um dia chamou picaretas.

A crer no Placar do Impeachment, publicado pelo Estadão e atualizado continuamente, os parasitas oportunistas que se abrigam sob a cúpula da Casa do Povo não são tão numerosos como imaginava o líder hoje caído.

No momento em que escrevo, o inventário de votos declarados é o seguinte:

285 votos a favor da destituição da presidente
114 votos contra a destituição da presidente
114 em cima do muro

No total, chega-se aos 513 deputados. Em seu falatório peculiar e ambíguo, o Lula nunca explicou com clareza o que entendia por “picareta”. É lícito supor que se referisse à pouca honestidade e à falta de seriedade de parlamentares.

PicaretaO placar do Estadão parece indicar que os “picaretas” são muito menos numerosos do que apregoava o antigo presidente. Afinal, no momento grave que vive nosso país, é primordial que cada um se defina. Que sejam pelo sim, que sejam pelo não, o importante é que façam conhecer sua posição. Afinal, cada um deles está lá representando um naco da população.

Os que querem ver dona Dilma pelas costas são já 285 (55.5% do total). Os que preferem que tudo continue como está são 114 (22% do total). E o resto? Por incrível que possa parecer, 114 representantes do povo estão em cima do muro. São quase um em cada quatro! Estão aí os picaretas comprovados. Nesta altura dos acontecimentos, não ter definido seu voto é confissão de estar à venda, à disposição de quem der mais.

Indecisão 1Embora eu não compartilhe a visão dos que preferem que a senhora Rousseff continue presidente, respeito a opinião dos que se solidarizam com ela. Naturalmente, respeito também a posição dos que desejam que a quadrilha se vá. É inadmissível, no entanto, que um quarto dos deputados ainda esteja participando desse leilão indecente.

Até o Maluf já abriu seu voto! Que estão esperando os deputados Fufuca (MA), Salame (PA), Brasileiro (MG), Marreca (MA), Cabuçu (AP), Maniçoba (PE), Tiririca (SP), Garçon (RO), Tibé (MG)? Queiram ou não, terão de se exprimir. Ou faltar à sessão solene, atitude que lhes vai pespegar indelével etiqueta de fujões. Além de picaretas, naturalmente.

Recordar é viver ― 7

As dúvidas do Lula

José Horta Manzano

23 set° 2010
Questionado sobre os ataques feitos anteriormente à imprensa, Lula disse duvidar «que exista um país na face da terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo».

20 out° 2013
Sobre denúncias de corrupção, Lula disse duvidar «que exista no mundo um país com a quantidade de fiscalizações que o Brasil tem».

Blabla 228 ago 2014
Cutucando o PSDB, Lula disse duvidar que o partido do ex-presidente FHC «tenha feito 10% do que fiz para investigar». E usou uma analogia doméstica para explicar a diferença entre os partidos. «Eles tinham um tapete desse tamanho para jogar a sujeira debaixo. Nós tiramos esse tapete da sala», afirmou. «Só tem um jeito: é ser honesto e ter decência. Se fizer sacanagem com o dinheiro público tem que pagar».

19 out° 2006
«Se houve crime eleitoral, terei que pagar», diz Lula. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que estará sujeito à punição da Justiça Eleitoral caso seja comprovado que o dinheiro apreendido pela Polícia Federal que supostamente seria usado para compra do dossiê contra tucanos saiu da sua campanha de reeleição.

24 set° 2007
Deu no NYT: Lula duvida de provas contra Dirceu
Além de exaltar a economia brasileira e evitar falar do colega venezuelano, o presidente Lula disse em entrevista ao jornal New York Times que não há provas do envolvimento do ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu (PT) com o mensalão.

Blabla 725 ago 2012
«Lula duvida que Aécio concorra à presidência. Acha até que ele trabalhará para costurar o apoio dos tucanos a Eduardo Campos.»

1 fev° 2012
«Lá nos EUA, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar.»

20 jan° 2016
«Não tem uma “viv’alma” mais honesta do que eu neste país», diz Lula.

El estruendo

«Los brasileños no saben en qué área de la vida les va peor: si en las eliminatorias del Mundial de Rusia, donde navegan en una desacostumbrada mitad de tabla; en la arena política, donde la presidenta Dilma Rousseff se desliza en tobogán hacia el impeachment, o en la economía, donde millones de personas sobrellevan como pueden una larga recesión.

La tristeza desborda las calles de San Pablo y de Río de Janeiro y se derrama sobre América latina, que ve la caída del gigante con preocupación. Porque el estruendo hace temblar a todos. Además de la Argentina, que lo sufre directamente en el comercio y la economía, son muchos los que siguen de cerca el penoso día a día de un país que solía ser citado con admiración.

El mismo ex presidente Luiz Inacio Lula da Silva, que desde el escándalo de corrupción de Petrobras es tan buscado por la justicia como rechazado por la población, se permitió exaltar los viejos tiempos del país que él lideraba.»

A queda do Brasil: um estrondo que faz tremer todos os vizinhos

A queda do Brasil: um estrondo que faz tremer todos os vizinhos

«Os brasileiros não sabem em que área a coisa está pior: se nas eliminatórias do Mundial da Rússia, onde navegam do lado inabitual da tabela; se na arena política, onde a presidente Dilma Rousseff desliza de tobogã em direção ao impeachment; se na economia, onde milhões aguentam como podem uma longa recessão.

A tristeza transborda as ruas de São Paulo e do Rio e se derrama sobre a América Latina, que assiste preocupada à queda do gigante. Porque o estrondo faz que todos tremam. Além da Argentina, cujo comércio e cuja economia são afetados diretamente, muitos são os que acompanham de perto o sofrido dia a dia de um país que costumava ser citado com admiração.

O próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, desde o escândalo da Petrobrás, tanto é buscado pela Justiça como rechaçado pela população, permitiu-se exaltar os velhos tempos do país que ele liderava.»

Interligne 18h

Trecho de artigo publicado pelo argentino La Nación em 3 abril 2016. O texto integral está aqui.

Ebó grampeado

Renato Castanhari Jr. (*)

Kaká de Xangô estava em casa quando o telefone tocou. Sem saber que o celular de quem ligava estava grampeado, atendeu prontamente e aquela voz rouca familiar foi logo se apresentando.

Crédito: Geraldo Profeta Lima

Crédito: Geraldo Profeta Lima

– Alo, Kaká?

– Ô, se não é o meu ilustre 51!

– Fala, meu querido Mogbá.

– Mogbá! Não esqueceu! Falamos de ministro para ministro?

– Que nada, só você é ministro aqui, de Xangô, aqueles p(*) não me deixaram assumir, mas eles não perdem por esperar, esses merdas…

– Calma, Excelência, confia na Providência divina.

– Kaká, a Providência divina funciona, mas se a gente não ajudar com uns por fora, a coisa empaca. E é por isso que estou te ligando.

– Fala, meu amigo, o que está pegando.

– O Moro tá pegando, meu querido, esse filho da (*), p(*) do ca(*)… Mas vamos lá. Estava precisando que você jogasse as conchinhas aí porque a coisa tá brava, os caras querem a minha cabeça.

– Me fala exatamente a sua pergunta para eu perguntar pros búzios.

– Ahhhh, tem várias… Deixa ver… A minha amiga, cai ou não?

(Pausa onde se ouve os búzios caírem na esteira)

Búzios 2– Meu amigo… olha… tá difícil. Aqui fala que… ihhh… tá danada. E olha… o vice também cai fora. Aliás, deixa ver… vixi!…

– Pu(*), filhos(*)… Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado…

– Excelência, Excelência, calma! Já falou isso em algum lugar. A sua amiga não tem jeito, é questão de semanas. Vamos ver o amigo. Qual a pergunta?

– Humm… companheiro… vê se não tem jeito, se um ebó resolve. Afinal, já dei muito pro santo, ca(*).

– Meu amigo, tem milagre que santo não faz. O Severino se deu mal, o Eduardo ganhou a eleição… quando dá, dá. Deixa eu consultar.

(Pausa e novamente apenas o som dos búzios pipocando na esteira)

Búzios 3– Excelência, não é por nada não, mas tá feia a coisa mesmo. E uma fugidinha pelo aeroporto? Pode ser uma saída.

– Esse é o plano C, meu querido, mas antes tenho que tentar tudo pra salvar este país!

– Que coração magnânimo! Vamos de ebó então. Vamos precisar de sangue de aridan, pó de pemba, mais dois cabritos, duas cabras, 16 frangos, duas galinhas da Guiné, um galo e um casal de pombos.

– Mas isso é um banquete pro santo, companheiro!

– Eles merecem, 51, eles merecem. Vou pedir para se ela e você forem inocentes, que continuem no comando do barco e que tudo fique bem.

– Caceta, ô Pai Kaká, você não entendeu nada? Se for inocente, o Supremo resolve, não precisa de ebó, ca(*)!

Interligne 18c

(*) Renato Castanhari Jr é publicitário e escritor. Edita o blogue Ladeira da Memória.

O coronel Jararaca

Sebastião Nery (*)

Rebanho 1Chico Heráclio foi o mais famoso coronel do Nordeste. Em Limoeiro, Pernambuco, quem mandava era ele. Era o senhor da terra, do fogo e do ar. Ou obedecia ou morria.

Fazia eleição como um pastor. Punha o rebanho em frente à casa e ia tangendo, um a um, para o curral cívico. Na mão, o envelope cheiinho de chapas. Que ninguém via, ninguém abria, ninguém sabia. Intocado e sagrado como uma virgem medieval.

Depois, o rebanho voltava. Um a um. Para comer. Mesa grande e fartura fartíssima. Era o preço do voto. E a festa da vitória. Um dia, um eleitor foi mais afoito que os outros.

‒ Coronel, já cumpri meu dever, já fiz o que o senhor mandou. Levei as chapas, pus tudo lá dentro, direitinho. Só queria perguntar uma coisa ao senhor: em quem foi que eu votei?

‒ Você está louco, meu filho? Nunca mais me pergunte uma asneira dessa. O voto é secreto.

Interligne 28a

Chico Heráclio jogou tudo na campanha de Agamenon Magalhães, do PSD, contra João Cleofas, da UDN, na disputa do governo do Estado em 1950. Deu mais de 70 por cento dos votos da região a Agamenon.

Agamenon tomou posse e foi lá. Estava eufórico.

– Chico, use e abuse do meu governo.

– Governador, muito obrigado. A Secretaria da Fazenda e a Secretaria de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada, não quero nada. A não ser pedir pelos meus amigos quando for preciso e para colocar água em Limoeiro.

Lula caricatura 2aPouco depois, voltou ao Palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função.

– Mas Chico, isso é muito difícil.

– Se fosse fácil eu não vinha lhe pedir. Governo existe é para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

Mas entre Heráclio e Lula há uma diferença. Heráclio não dizia palavrão. Lula é um boca-suja. Mulher e menino não podem chegar perto.

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.

A hora da verdade

José Horta Manzano

Você sabia?

Lincoln 1«Pode-se enganar todo o povo por algum tempo e parte do povo todo o tempo, mas não se pode enganar o povo todo o tempo todo.»

Frequentemente citada, a máxima do presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865) não perde a modernidade. A verdade que ela expressa, universal e atemporal, é volta e meia confirmada.

Durante os anos de soberbia e jactância, nosso guia enganou muita gente ‒ não só dentro dos limites de Pindorama mas até além-fronteiras. Não foram poucos a enxergar no taumaturgo um Stalin redivivo, um virtuoso pai dos pobres, generoso e desprendido, enviado à terra para redimir a humanidade.

Chamada do portal português Política ao Minuto 25 março 2016

Chamada do portal português Política ao Minuto
25 março 2016

Passando por cima do desprezo que o então presidente consagrava ao esforço pessoal e ao estudo em particular, numerosas universidades estrangeiras o louvaram com o grau de doutor «honoris causa».

Entre os institutos de primeira linha estão a tradicional Universidade de Coimbra, o incensado Insituto Sciences-Po de Paris, a abalizada Escola Politécnica Federal de Lausanne (Suíça), a antiquíssima Universidade de Salamanca ‒ a quarta mais antiga da Europa, fundada em 1218. Coisa finíssima.

Mas aí… entrou em cena a máxima do velho Lincoln. Como mentira tem perna curta, os trambiques, as maquinações e as urdiduras de nosso folclórico ex-presidente foram ganhando a luz dos holofotes. Agora, que os «malfeitos» estão aí, expostos, pra quem quiser ver, as venerandas universidades estão numa tremenda saia justa.

Estudantes da Universidade de Coimbra Lula com orelhas de burro

Estudantes da Universidade de Coimbra
Lula com orelhas de burro

Se não cassarem o diploma concedido ao figurão caído, guardarão seus anais para sempre maculados pelo desastre de ter homenageado quem não merecia. Se voltarem atrás e cassarem a honraria, estarão dando mostra de leviandade na concessão. O que é pior?

Universitários de Coimbra são os primeiros a reagir. Envergonhados de contar em seu panteão com figura tão incongruente, pedem à reitoria que anule o grau de «doutor» atribuído em 2011 ao antigo presidente do Brasil. Em primeira reação, o reitor mostra-se reticente a aceder à solicitação. De qualquer maneira, a saia curta está vestida. Livrar-se dela vai ser difícil.

Não se pode enganar o povo todo o tempo todo.

Tenemos que salvar a Brasil

José Horta Manzano

Dilma e EvoA degringolada do regime instalado no Planalto enche de esperança oito em dez brasileiros. Se, para vencer, bastasse torcer, o jogo estaria jogado.

Naturalmente, o surgimento de vencedores pressupõe a existência de perdedores. De cabelo em pé, políticos, apadrinhados, apaniguados & congêneres têm perdido o sono com a perspectiva de orfandade iminente e inexorável.

Preocupados que estamos com os acontecimentos nacionais, nem sempre nos damos conta de que a onda de choque atravessa fronteiras. Do outro lado da cerca, nossos vizinhos nos observam com especial atenção. Exatamente como ocorre quando elefante visita loja de porcelana, uma mexida “del gigante de Latinoamérica” faz tremer todo o continente.

Nosso hermanos, surpresos com a evolução acelerada da crise brasileira, têm reações contrastadas. Enquanto Argentina e Chile mantêm atitude reservada, outros governos são mais explícitos.

Dilma e MaduroSeñor Mujica, antigo presidente do Uruguai, acredita «que Lula é inocente e que o querem castigar». Evo Morales, aquele que gostaria de se eternizar na presidência da Bolívia, requereu que a organização Unasur realize com urgência uma reunião de cúpula para «defender la democracia en Brasil, para defender a Dilma, para defender la paz, para defender al compañero Lula y a todos los trabajadores».

Señor Maduro, caudilho da Venezuela, é o mais preocupado de todos. Não bastasse estar sendo acossado por um povo cansado, empobrecido e desiludido, ainda tem de conviver com o irremediável afastamento de Cuba, a antiga ilha compañera, atraída irresistivelmente por Obama.

Lula e ChavezNa assembleia de Caracas, o (enfraquecido) bloco chavista denuncia o «golpe de Estado» que se prepara no Brasil e dá apoio a Dilma e a Lula. Como de costume, estão convencidos de que os imperialistas norte-americanos, inimigos de sempre, estão por detrás dessa trama.

A políticos bem-intencionados, como o uruguaio Mujica, pode-se conceder a escusa de não estar a par dos meandros do que acontece no Brasil. Por seu lado, figurões como Morales e Maduro têm outra motivação. Abalados por percalços e derrotas recentes, veem com desespero o desmoronamento do regime lulopetista. Sabem que serão atingidos pelas ondas de nosso tsunami nacional. E que dificilmente sobreviverão.

Frase do dia — 295

«Delcídio contou aos procuradores, com impressionantes pormenores, o esquema de corrupção iniciado em 2004, no primeiro governo Lula.

Diante do teor da delação de Delcídio, as bravatas de Dilma e Lula mostram que eles ainda não fazem a menor ideia de que a casa caiu.»

Cláudio Humberto, em sua coluna do Diário do Poder, 21 mar 2016.

Lula, o Musical

Sérgio Dávila (*)

Casserole 1A peça de mais sucesso da temporada atual da Broadway é o musical político Hamilton. Com rap e hip-hop, parte da vida do primeiro secretário de Tesouro e um dos pais fundadores dos Estados Unidos, Alexander Hamilton (1755-1804), para falar da formação do país. O casal Obama já assistiu duas vezes, uma delas em sessão especial na Casa Branca.

Os acontecimentos da última semana no Brasil nos autorizam a pensar numa versão local, tropicalizada. Proponho a farsa Lula, o Musical ‒ Eu tô mandando o Bessias, a ser encenada em Brasília.

Será proibida para menores, pela fixação que o personagem principal tem na fase anal e por cenas explícitas de quebra de decoro. O tempo é o atual. O cenário é um sítio emprestado em constante reforma.

Os personagens principais:

O ex-presidente
No poder há 13 anos, tem relação de amor e ódio com as elites. Sente-se perseguido, ameaça virar Nero e incendiar tudo. Anda pelo palco arrastando um contêiner de tralhas que não tem onde colocar.

A presidente
Depende do personagem principal e o protege, numa relação simbiótica. Diz frases sem sentido nem fim. É ela quem manda o “Bessias” do subtítulo em missão delicada e nunca esclarecida.

Musica 3O juiz
Além de despertar ciúme (esse monstro dos olhos verdes), o mouro de Curitiba tem superpoderes. Entre eles o da escuta telefônica e o de mandar prender por tempo indeterminado. É o antagonista do personagem-título.

O prefeito do balneário
Mistura o típico malandro carioca com Justo Veríssimo, personagem de Chico Anysio que odiava pobre. Mora em Maricá, mas sonha com Petrópolis. É viciado em jogos.

Bessias
Na verdade, Messias. É o anjo exterminador do respeito às instituições democráticas. Entrega o salvo-conduto ao ex-presidente na cena que dá início ao musical.

Público pagante
Você.

Interligne 18h

(*) Sérgio Dávila, formado em Comunicação pela PUC-SP, é editor-executivo da Folha de São Paulo.

O príncipe

José Horta Manzano

Prince 1«Até o príncipe está sujeito à lei» ‒ foi frase marcante, pronunciada ontem pelo juiz Moro. Tem razão, o magistrado. Faz anos que nosso príncipe e a corte se acostumaram a sobrevoar normas, regras, leis e regulamentos. Estão habituados a contornar proibições e andar na chuva sem se molhar. A lei, para eles, não lhes diz respeito porque destina-se exclusivamente aos demais.

Mas a vida é como gangorra ‒ quando um lado sobe, o outro desce. Em moto contínuo. A roda girou, e agora o príncipe e toda a corte desceram à posição de saco de pancada. Ninguém gosta de apanhar nem de provar do próprio veneno. No entanto, certas coisas não se escolhem. Assim como plantaram, agora estão colhendo.

Gangorra 1O Planalto dirige bateria pesada contra o juiz Moro. A princesa afirma que, ao ousar grampear o telefone do príncipe, o magistrado violou garantias da presidência. Bobagem. As escutas foram realizadas nos conformes. O esperneio da princesa é chororô de quem foi apanhado de calças na mão.

Panelaço 3A ideologia dos que nos governam pontifica que os fins justificam os meios. Por seu lado, a lógica elementar ensina que pau que bate em Chico há de bater também em Francisco. Assim sendo, os que nos governam não têm do que reclamar. Estão provando do próprio veneno.

Palhaçada

José Horta Manzano

Não te esqueças que és um palhaço
Faz a plateia gargalhar
Um palhaço não deve chorar

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Em 1951, Nelson Cavaquinho, Washington Fernandes e Osvaldo Martins uniram forças para compor o samba Palhaço ‒ gravado em seguida por Dalva de Oliveira.

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Os versos me vieram hoje à lembrança enquanto assistia à palhaçada montada em pleno Palácio do Planalto, verdadeiro espetáculo de picadeiro de circo decadente. Falo da bufonada organizada para dar a nosso guia posse do cargo de ministro da Casa Civil.

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Foi estonteante ver dezenas de militantes a soldo, mui provavelmente remunerados com nosso dinheiro. Os mercenários vieram vestidos a caráter, várias mulheres de roupa vermelha. A um sinal, todos levantavam o braço, punho cerrado, e gritavam palavras de ordem.

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“Obo, obo, obo! Abaixo a Rede Globo!” foi um dos refrães, repetido numerosas vezes. Outro foi “Dilma! Guerreira! Mulher brasileira!”. Aplausos brotavam a cada suspiro de dona Dilma, numa verdadeira apoteose de aluguel.

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A mídia planetária deu o merecido destaque aos bizarros acontecimentos do Brasil. Saiu em todas as línguas e em todos os dialetos.

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Visivelmente, o refrão contra a Rede Globo é produto do desespero da quadrilha que nos governa. Só um louco varrido se indisporia contra a maior rede de rádio e tevê do país. Imensa maioria de nosso povo tem, no jornal televisivo daquela organização, sua única fonte de informação. Cutucaram a onça com vara muito curta. É suicídio.

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Como se sabe, o marqueteiro do Planalto está fora de circuito, obrigado a ver o sol nascer quadrado. Ah, que falta tem feito!

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Para recordar o samba Palhaço, com Dalva de Oliveira, a Rainha da Voz, clique aqui.

Mosteiro Brasil

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Câmera abre, revelando aos poucos o rico interior da capela de um monastério.
Fumaça de velas e incenso ressaltam o clima místico.
Ao fundo, coral de monges beneditinos entoando suave canto gregoriano matinal.

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Monge auxiliar: Prior, está aí um jornalista querendo lhe falar.

Prior: Faça-o entrar, irmão, e encaminhe-o para meu gabinete.

Jornalista: Bom dia, prior. Vim entrevistá-lo sobre o projeto de abertura do novo mosteiro no Brasil.

Prior: Ah, meu filho, estamos entusiasmados com esse projeto. O prédio está praticamente concluído e já contamos com muitas adesões tanto de patrocinadores quanto de diáconos. Vai ficar uma beleza.

Jornalista: Há detalhes que me intrigam. Ouvi dizer que o mosteiro apenas abrigará leigos recém-convertidos à ordem religiosa. Queria entender o porquê da opção pelo Brasil, justo num período tão crítico de instabilidade política e social, além de aguda crise moral.

Prior: Pois foi exatamente por isso que o escolhemos. Talvez o senhor não saiba, mas os valores cristãos estão renascendo por lá. A providência divina tem operado verdadeiros milagres, principalmente na cúpula política do país. Depois de secular descaso, as virtudes cristãs vicejam novamente, como lírios no pântano.

Monastere 2Jornalista: Como assim? Pode explicar melhor?

Prior: Claro, meu filho. Antes, explico que dar hospedagem a peregrinos e viajantes é princípio basilar de nossa congregação. Serão sempre bem-vindos todos os que demonstrarem continência, obediência, capacidade de servir a Deus pela oração e pelo trabalho em prol da comunidade. “Ora et labora” é nosso lema.

Jornalista: Mas, prior, não há também certos requisitos morais para que leigos atuem como diáconos e possam ser acolhidos no mosteiro?

Prior: Sem dúvida. Nossa tradição exige que sejam homens respeitáveis e de palavra, não inclinados ao vinho nem à ganância sórdida e que guardem o mistério da fé com a consciência limpa.

Jornalista: E o senhor conseguiu encontrar candidatos com esse perfil?

Prior: Surpreendentemente, sim. A primeira pessoa que nos procurou rogando esquecimento de seus desvios do caminho do Senhor e proclamando o desejo de voltar a servir à comunidade foi justamente um dos governantes máximos daquele país. Tivemos uma longa conversa. Ele estava deveras machucado, a alma sangrando por causa da dura perseguição que sofreu. Disse-me que, apesar de tantas e tamanhas injustiças, sentia-se de alma limpa para recomeçar. Alegou mesmo que se considerava a alma mais pura do planeta. Fiquei profundamente comovido com tal capacidade de superação.

Jornalista: E o senhor acreditou nele? Não lhe pareceu exagero retórico?

Moine 1Prior: Acreditei, meu filho. Examinei friamente cada uma das graves acusações que lhe fazem e pedi provas de sua inocência. A minhas perguntas, respondeu sempre com humildade e contrição. Convenci-me de que foi vítima da própria ingenuidade. Veja bem, ele estava comprometido com a missão de tirar milhões da miséria e se descuidou da honorabilidade de seus auxiliares diretos. Ninguém fez mais pelos pobres do país do que ele. Botou comida na mesa dos humildes, ajudou a dar casa e até passagem de avião para visitarem a família. Além disso, colocou-se à nossa disposição para atrair novos investidores para o mosteiro, já que tem grande experiência administrativa e realiza frequentes palestras internacionais.

Jornalista: Mas… E quanto às acusações de que teria recebido privilégios de empresários que tinham contrato com o governo?

Prior: Mais uma acusação que não se sustenta. Sua atuação benemérita junto à classe operária gerou muita gratidão. Tudo o que recebeu de volta dos muitos amigos que fez foram pequenos mimos, como hospedagem gratuita na cidade, no campo ou na praia.

Jornalista: Além dele, o senhor acolheu também como futuros diáconos do Mosteiro Brasil a sucessora desse governante, um senador que foi líder do governo e um ministro de Estado, não é mesmo?

Prior: Perfeitamente. Todos eles imbuídos da mesma boa-fé e da vontade de servir ao próximo, sem reservas. Todos vítimas de incompreensão por terem mexido com os privilégios seculares das elites. A primeira, mesmo tendo multiplicado programas sociais, foi vilipendiada com acusações de incompetência, dificuldade de se expressar, acobertamento de corrupção e interferência nos demais poderes da República. O segundo, só porque, por questões humanitárias, ofereceu ajuda a um empresário encarcerado, foi afastado do cargo e caluniado. O último, vítima de um embaraçoso mal-entendido apenas porque estendeu a mão ao segundo. Meu coração se enche de alegria com esses exemplos. Eles se mostraram capazes de passar por cima dos erros de seus irmãos, numa demonstração de genuína generosidade cristã.

Monastere 1Jornalista: Uma última pergunta. Parece que já há casos de ministros do Judiciário solicitando acolhimento no novo mosteiro. É verdade?

Prior: É verdade, meu filho. Foram acusados de se deixar influenciar por agentes políticos e tomar decisões para favorecê-los. Não nos cabe julgar os insondáveis motivos que levam um ser humano a optar por este ou por aquele caminho, que dirá um juiz. De qualquer forma, ainda aguardamos a decisão final de nossos superiores. Nosso quadro de diáconos deverá estar completo em breve com a chegada de muitos parlamentares brasileiros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O despertar da montanha

José Horta Manzano

Matterhorn (Monte Cervino), cume emblemático dos Alpes suíços

Matterhorn (Monte Cervino),
cume emblemático dos Alpes suíços

Faz alguns dias que um escândalo pipocou no universo aveludado da política suíça. Descobriu-se que, durante a última campanha eleitoral, um deputado andou fazendo artes. Em busca de novo mandato, Monsieur Voiblet foi fotografado enquanto pessoalmente colava cartazes eleitorais seus por cima de cartazes de outros candidatos. Um assombro!

O «malfeito» provocou terremoto capaz de abalar o Matterhorn. O povo não admite que se brinque com essas coisas. Assim que a história se tornou pública, o deputado recebeu a punição máxima: foi expulso do partido. Analistas já dão por encerrada a carreira política do trapaceiro.

Affiche 1Vale comparar com o que se passa na política do Brasil, especialmente nos palácios de Brasília. Neste momento, um ex-presidente com um pé na cadeia busca homizio junto a sua sucessora. Por sua vez, a mencionada sucessora está à beira de sofrer processo de destituição que pode substitui-la pelo vice. Por sua vez, o dito vice foi citado 11 vezes na delação de um senador encarcerado.

Affiche 2Descendo na hierarquia do poder, vale mencionar que o presidente da Câmara ‒ segundo personagem na linha de sucessão do Executivo ‒ está mais enrolado que fumo de corda. Tem contas a prestar à Justiça penal e dificilmente escapará de uma temporada na Papuda. Enrolados como ele, estão também o presidente do Senado e o ministro da Educação(!).

As montanhas brasileiras são muito mais resistentes que as suíças. Apesar de todas as «traquinagens» do pessoal do andar de cima, o Pico da Neblina continua lá, estoico e impávido. O Pico da Bandeira também.

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O tango de salão O Despertar da Montanha foi composto por Eduardo Souto cem anos atrás. A versão de Dilermando Reis está aqui.