De ouro

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno leu matéria do Estadão deste domingo e ficou sabendo que a Fifa, numa decisão um tanto fora dos padrões, decidiu conceder uma Bola de Ouro a Pelé ― uma espécie de bola honoris causa.

O mundo inteiro, Sigismeno incluído, sabe que Edson Arantes do Nascimento foi um grande jogador de futebol. Autor de mil e tantos gols, participou de quatro Copas do Mundo ― em três das quais a seleção do Brasil foi campeã.

Um pouco simploriamente, como de costume, Sigismeno veio com suas cogitações filosóficas. Disse que a Fifa não costuma dar ponto sem nó. Até aí, tive de concordar. Disse também que andou espiando no gúgol e ficou sabendo que Pelé jogou sua última partida como profissional mais de 35 anos atrás e que, desde então, pendurou as chuteiras.

Sigismeno sabe que a Fifa nunca se preocupou com outros grandes craques brasileiros, sabe que Garrincha morreu na miséria, sabe que outros grandes foram completamente esquecidos. Espremeu suas meninges à cata de uma razão para essa repentina homenagem que a federação mundial resolveu prestar a Pelé depois de tanto tempo. O homem está aparentemente em boa saúde, portanto não há-de ser daquelas honrarias que se concedem in extremis.

Blatter, Pelé & Dilma Reparem: a Fifa pisoteou a grafia do sobrenome presidencial

Blatter, Pelé & Dilma
Reparem: a Fifa esqueceu de conferir no gúgol e acabou pisoteando a grafia do sobrenome presidencial

De repente, a luzinha acendeu. «Mas é claro! É por causa da Copa do Mundo, que está para começar daqui a 5 meses!» Confesso que, na hora, não entendi bem a relação. «E o que tem isso a ver com o ouro que vão dar ao Pelé?», perguntei.

«Mas você não percebe?», retrucou meu amigo. «Os cartolas de Zurique estão apavorados com protestos e manifestações de rua que possam ocorrer durante a Copa».

«Continuo sem entender», retruquei, sem conseguir acompanhar o raciocínio do Sigismeno.

«Pois é o seguinte, meu caro. Em junho passado, os da Fifa se deram conta de que o povo anda um bocado enfezado com essa história de Copa. Os gastos, o desperdício, os roubos, os atrasos, essa farra toda. Para se mostrar simpáticos, resolveram agradar aos brasileiros. Devem ter pensado até em dar o prêmio a nossa presidente, mas, sacumé, depois das vaias no Maracanã, a coisa ficou meio delicada. É por isso que estão homenageando o Pelé, por imaginarem que é uma espécie de ídolo adorado por todos os brasileiros. É uma tentativa de amansar o povo, você não percebe?».

Bola de ouro

Bola de ouro

Percebo. Devo admitir que percebo. Se vai funcionar, isso são outros quinhentos.

E o Sigismeno, inspirado, ainda profetizou que a Bola de Ouro deste ano ― a verdadeira ― pode ser dada até ao Dalai Lama, mas jamais será dada ao Messi. Porque o moço é argentino. Melhor não atiçar rivalidades.

Parece um gesto ajuizado. Pode dar certo. Ou não.

Houve um tempo

Percival Puggina (*)

Verdade que era um Brasil ainda muito rural. Metade da população vivia no campo. A elite nacional tinha menos “celebridades”, menores quadros e cultura superior. Havia apenas quatro brasileiros para cada dez de hoje. As capitais estaduais compunham razoáveis espaços de convivência. A tevê recém surgia e o processo de formação da cultura e das opiniões passava principalmente pela Educação, pela transmissão oral e pela leitura. O mundo acadêmico era de acesso mais restrito e assim, com menos gente, a qualidade ganhava densidade. O país ainda não fora infestado pelas pragas do relativismo moral e das drogas, e os pais zelavam pela formação do caráter dos filhos. Os religiosos tinham plena consciência de sua função no mundo. Tudo isso é verdade. Era um tempo em que não se metia a mão nos recursos públicos para uso e fins privados com a facilidade proporcionada nestes nossos dias.

Leio, escandalizado, as notícias que chegam da Corte ao cair a primeira chuva de 2014. O destaque é dado ao uso e abuso na utilização dos jatinhos da FAB pelos ministros da nossa desatenta e estabanada “gerentona”. Nos últimos seis meses de 2013, um pequeno grupo de 40 pessoas, com cargo ou hierarquia equivalente à de ministros de Estado, realizaram mais de 1,4 mil voos nessas custosas aeronaves supostamente adquiridas para atender demandas da segurança nacional. Todos os voos, informam os requisitantes, são realizados a serviço de suas pastas. Arre gente com serviço externo, que não esquenta cadeira no ministério!

José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, por exemplo, realizou 80 dessas viagens em 180 dias e entra para o Guiness Book. Solicita avião a jato com a mesma sem cerimônia que a gente acena para a lotação ou chama o taxi. Imagino o desagrado com que oficiais da FAB assumem o papel de mordomos das regalias aeronáuticas brasilienses. Por outro lado, a revoada dos ministros de Dilma evidencia um admirável amor ao torrão natal. Seus ministros parecem ter muito a fazer em casa e pouco em Brasília e no resto do país. Voam tais quais pássaros, sem pagar passagem nem combustível, mas reconheça-se, são generosos. Fornecem carona como se fossem caminhoneiros da Força Aérea, transportando amigos e companheiros.

Bem sei o quanto são desconfortáveis nossos aeroportos e aeronaves. Mas as coisas andariam melhores também nisso, se os figurões da República enfrentassem como o populacho a dura realidade dos voos domésticos brasileiros.

Avião da alegria

Avião, que alegria!

Então, como eu dizia, houve um tempo em que as coisas não eram assim. Ministros e secretários de Estado viajavam em estradas de pó e barro, nas “carroças” definidas como tais por Collor de Mello. Hospedavam-se em casas de amigos. A verba era curta para todos e as diárias não cobriam as despesas. O governador Peracchi Barcellos, que usava um velho Aero Willys quando já circulavam nas ruas os veículos mais luxuosos da época, os cobiçados Ford Galaxie, demitiu um membro do governo que lhe pediu autorização para adquirir um deles.

Era diferente a mentalidade dos governantes daquele tempo, como demonstra a conhecida recusa do presidente João Figueiredo quando outro João, o Havelange, lhe propôs realizar uma Copa do Mundo no Brasil: “Você conhece uma favela do Rio? Você já viu a seca do Nordeste? Você acha que eu vou gastar dinheiro em estádio de futebol?”

O país mudou. E em vários sentidos não mudou para melhor. O povo até gosta dessas ostentações (quem muito gasta, supostamente muito pode dar). Mas a revoada de jatinhos da FAB levando ministros para lá e para cá bem que podia, ao menos, se expressar em qualidade de gestão, em rigorosa fiscalização dos demais gastos, em menos corrupção e menor uso de recursos públicos com finalidade estritamente pessoal, política e eleitoral. Ganhar eleição assim, não tem graça. Nem mérito.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Frase do dia — 77

«O presidente da Fifa, Joseph Blatter, queixou-se do comportamento da presidente Dilma Rousseff ao técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, e, nos bastidores, alfineta a presidente sempre que é perguntado sobre o envolvimento do governo na preparação para a Copa.»

Jamil Chade, em artigo publicado pelo Estadão em 7 jan° 2014. Para ler as 160 palavras adicionais, clique aqui.

Frase do dia — 71

«Numa bravata para impressionar investidores menos avisados, a presidente Dilma Rousseff, ao falar a uma plateia de empresários no seminário Brasil-França, Oportunidades de Investimento, realizado em Paris em dezembro de 2012, afirmou que pretendia construir 800 aeroportos regionais no País. Caindo das nuvens, a presidente não demorou a baixar o número para 270 aeroportos.
(…)
Até o momento, 16 contratos foram assinados, não alcançando 6% do total.»

Editorial do Estadão, 4 jan° 2014.

Igualdade, pero no mucho

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Outro dia andava ele muito pensativo. Veio me contar o problema que o estava atormentando. O pobre Sigismeno acha que eu tenho resposta pra tudo. Enfim…

Ele me confiou seu pensamento ― que, no fundo, tem certa lógica. Ele lembrou que, até não muitos anos atrás, era impensável que o titular do Ministério da Defesa fosse um civil. Inimaginável, fora de cogitação. Aliás, algumas décadas atrás, o nome da instituição era explícito: Ministério da Guerra. Como tantas outras expressões, essa denominação tornou-se politicamente sensível depois da hecatombe 1939-1945. Pouco a pouco, todos os países adaptaram o nome do ministério aos novos tempos.

Em 2003, o presidente de nossa República editou, de afogadilho, a Medida Provisória número 111, que instituía a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Alterada, adaptada e burilada, a medida foi mais tarde tranformada em lei. Seu titular é equiparado a um ministro de Estado e goza das mesmas prerrogativas que seus pares. Responde diretamente ao presidente da República.

Nestes quase onze anos de existência, o Ministério da Igualdade Racial teve três titulares, Sigismeno os contou. Primeiro foi a paulista Matilde Ribeiro, seguida pelo fluminense Elói Ferreira Araújo. A ministra atual é a gaúcha Luiza Helena de Bairros. Pra dizer a verdade, eu nem sabia. Há que reconhecer que não são os nomes mais conhecidos do pletórico gabinete de dona Dilma.

Sigismeno me contou sua grande descoberta: todos os três são afro-brasileiros. Eu perguntei onde estava o problema. E ele: «Será que é condição obrigatória para ocupar esse elevado posto? Quando veremos um asiático-brasileiro, um euro-brasileiro ou mesmo um brasileiro ab origine (*) na chefia desse ministério?»

Fiquei meio embasbacado. E não é que Sigismeno tem razão? É de crer que a cartilha do partido (atualmente) dominante permite que centenas de milhares de militares de carreira sejam encabeçados por um civil, mas não admite que um não africano dirija o Ministério da Igualdade. Será possível que não exista nenhum índio, nipo-brasileiro, euro-brasileiro, médio-oriental-brasileiro à altura da tarefa?

Resolvi brincar com Sigismeno. Disse a ele que talvez esse ministério tenha sido criado só para acalmar a galeria. Seria como se dissessem: «Estão vendo? Tem até ministro preto. Que mais vocês querem?».

Pela cara que ele fez, tive a forte impressão de que Sigismeno ― que não brinca em serviço ― não apreciou a gracinha. Virou as costas e foi-se embora abanando a cabeça.

(*) Ab origine é expressão latina que designa aquele ou aquilo que está ali desde o início. No texto acima, faz referência, naturalmente, aos habitantes primitivos de Pindorama: os índios.

Delito e emenda

José Horta Manzano

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

A estas alturas, o Brasil inteiro já deve estar sabendo que dona Dilma cometeu uma infração de tráfego. Viajou de automóvel carregando criança no colo. Houve tempos em que era permitido, hoje não é mais. A lei exige que criança seja afivelada em cadeirinha especial. Não é questão de gostar ou não ― é assim, ponto e basta.

Aconteceu o que não tinha de acontecer: foi flagrada por um repórter. Pois é, hoje em dia está cada vez mais difícil evitar deixar rastro. O inquilino do Palácio do Planalto deveria ter isso na mente a cada instante. Já estamos acostumados a que seja displiscente com o País. Mas é surpreendente que desconsidere a segurança do próprio neto.

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Há comportamentos que não se costumam recomendar: tomar leite com manga, comer salada de pepino à meia-noite, mergulhar numa piscina depois de uma boa feijoada. Assim mesmo, são atos conscientes que não põem em risco senão o adulto que os comete. Embora não sejam incentivados, maus-tratos infligidos a si mesmo não costumam ser proibidos por lei. Pôr em risco a integridade física de incapaz é outra coisa.

Os assessores de dona Dilma, à vista do auê que se alevantou nas redes sociais, se precipitaram a estancar a sangria. Postaram mensagens em nome da presidente com reconhecimento de erro e pedido de desculpa. Não basta. Faltam duas coisas.

Uma asneira cometida por mim ou por você, distinto leitor, não tem a mesma repercussão que a mesma besteira protagonizada pela mandatária-mor. Em primeiro lugar, falta a presidente prometer publicamente que não repetirá o erro. Para completar, falta ressarcir os cofres do Serviço de Tráfego pagando a respectiva multa. Foi-se o tempo em que a gente se safava com um «desculpe, foi sem querer».

Dilma e os tuítes em seu nome

Dilma e os tuítes em seu nome

Desconheço os preceitos nesse particular. Se houver sanção pecuniária prevista, que dona Dilma pague. Se não houver, que seja esperta e mate dois coelhos de uma cajadada só. Seus marqueteiros estão aí para isso. Basta mandar preparar um vídeo institucional bem-humorado com reconhecimento do erro e advertência a todos os brasileiros para que nunca façam a mesma coisa. Pelo bem de suas crianças.

De toda maneira, o Brasil inteiro já está a par do que aconteceu. Não há como se esconder atrás de um «eu não sabia» ou um «eu não tenho nada com isso». Há momentos propícios para tirar dividendos de um acontecimento incômodo. O caso de Porto Alegre é um deles.

Frase do dia — 57

«Na celebração do Natal com os catadores de lixo e os moradores de rua, Dilma foi chamada de “presidenta Lula” por engano pelo apresentador da cerimônia. E o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), também presente, recebeu vaias da plateia.»

Do Radar Político, sobre churrasco oferecido pelo Instituto Lula a seletos convidados. In Estadão, 19 dez° 2013.

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«Não sei o porquê da vaia. São parceiros!»

Comentário de uma leitora, postado ao pé do artigo.

Foto di famiglia

Todos já viram a (rara) foto di famiglia em que nossos mais recentes mandatários-mores aparecem juntos, unidos, sorridentes, descontraídos. Um retrato para emoldurar e afixar em lugar de honra na sala de visitas de todo lar brasileiro.

Presidentes

Crédito provável: Roberto Stuckert F°, fotógrafo oficial da Presidência.

Reparem no gesto cheio de atenção e de carinho com que nosso guia ampara um de seus predecessores, o bom velhinho Sarney, homem simples, que tanto bem tem espalhado à sua volta. Dizem que os dois são como unha e carne desde criancinhas. Está aí a prova incontestável de que a fraterna amizade perdura. Comovente.

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Bem no centro do retrato, pairando acima da cabeça de todos, aparece, destacada sobre fundo vermelho, a palavra SAÍDA. Lembra a insígnia que ornava o pórtico do inferno de Dante. Pode ser entendida como uma advertência: “Vós, que aqui entrais, perdei toda esperança de permanecer ― um dia, queirais ou não, abrir-se-vos-á a porta de saída”

As boas-vindas

José Horta Manzano

Chega-me a notícia de que o sorridente Bill Clinton, antigo presidente ― de esquerda, frise-se ― dos EUA teve um encontro com dona Dilma faz dois dias.

Agindo com pouca elegância, nossa presidente aceitou que fossem incluídas frases agressivas no discurso que lhe prepararam para pronunciar na ocasião. Nossa presidente ainda não aprendeu que não convém assumir atitude professoral e desafiante do tipo conosco, ninguém podosco diante de visitantes estrangeiros. Pega mal pra danar.

Dona Dilma declarou que, no panorama atual, «não há espaço para relações hegemônicas»(*). Palavreado estabanado, malcriado, inútil, e típico de quem sofre do que Nélson Rodrigues chamou um dia de complexo de vira-lata. Explico.

Dilma Rousseff & Bill Clinton Crédito: Daniel Marenco, Folhapress

Dilma Rousseff & Bill Clinton
Crédito: Daniel Marenco, Folhapress

É estabanado porque visa a atingir em cheio o estrangeiro. É pisão no pé de propósito.

É malcriado porque colide com nossa tradição de dar boa acolhida a quem vem de visita. Não era hora nem lugar de proferir esse tipo de discurso.

É inútil porque se dirige a alguém que já deixou o poder há 12 anos e que não pode ser responsabilizado pela orientação política atual de seu país.

É marca de um governo que sofre manifestamente de complexo de vira-lata. Ou alguém imagina Frau Angela Merkel, Monsieur François Hollande ou Mr. David Cameron fazer esse tipo de advertência a um antigo mandatário dos Estados Unidos? É o tipo de discurso que se pode esperar de um Chávez, de um Castro, de um Evo. Na boca da presidente do Brasil, não cai bem.

A inflação voltou; o PIB empacou; o Mercosul emperrou; a cada mês que passa, mais famílias se credenciam a receber a bolsa família ― o que é péssimo sinal; o Brasil está cada dia mais longe de ser admitido com membro permanente do CS da ONU; nossas prisões, já superlotadas, passam a aceitar políticos que se julgavam acima do populacho. Com tudo isso acontecendo, é ousadia levantar a crista e tentar dar lição de relações políticas a quem entende do riscado.

Quer dona Dilma queira ou não, quer seus áulicos gostem ou não ― alô, doutor «top-top» Garcia! ― os EUA continuarão ainda por longos anos na dianteira tecnológica, econômica e bélica. Ainda não está à vista o dia em que a situação se alterará.

Em vez de dar murro em ponta de faca, nossa mandachuva-mor deveria se comportar mais como chefe de Estado e menos como chefe de facção.Interligne 12

(*) «Relações hegemônicas» é formulação tortuosa, daquelas que parecem eruditas, mas são pobres de significado. O que a presidente queria dizer ― mas provavelmente não ousou ― era que não há espaço para hegemonias. No entanto, ela se engana. Ou se ilude, o que é ainda pior. Hegemonias existirão sempre, que é assim desde que o mundo é mundo: o forte domina o fraco. O Planalto pode muito, pode mexer até em leis federais, mas não conseguirá mudar leis da natureza. Vai ficar no palavreado.

Unidos venceremos!

José Horta Manzano

Hoje teve lugar, no imenso estádio de Johannesburg, cerimônia de adeus a Nelson Mandela. Viram-se e ouviram-se acontecimentos espantosos.

Obama e Castro (o segundo) roubaram a cena com seu histórico aperto de mãos. Obama recebeu uma ovação da assistência ― dezenas de milhares de pessoas. Não passaram despercebidas as vaias com que essas mesmas pessoas receberam Jacob Zuma, atual presidente do país. Visita de presidente a estádio anda se tornando um exercício arriscado…

Cinco presidentes Foto: Roberto Stuckert F°

Cinco presidentes
Foto: Roberto Stuckert F°

Alguns notaram a falta de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Ele disse que não iria para não gastar dinheiro do país. Como pretexto, soou meio capenga. Dizem os analistas que, na verdade, o homem estava com receio de ser acolhido por uma salva de apupos. Muitos hão de se lembrar que, nos tempos duros em que vigorava o apartheid na África do Sul, Israel foi um dos raros e constantes parceiros econômicos do país.

Dona Dilma e sua corte tiveram a excelente ideia de convidar os quatro antigos presidentes do Brasil para acompanhá-los na viagem. E, naturalmente, deram-lhes carona no Airbus presidencial. A equipe de Obama procedeu de maneira análoga. Levaram todos os que ainda estão em condições de viajar ― faltou Bush pai que, aos 89 anos, talvez tenha dificuldade em se locomover. As imagens da chegada do avião a Johannesburg mostraram Obama e Bush filho descendo do mesmo aparelho. É de crer que todos tenham viajado juntos.

by Alberto Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Alpino F°, desenhista capixaba

Quem acompanhou a transmissão ao vivo talvez tenha percebido Monsieur Hollande e Monsieur Sarkozy, o atual presidente da França e seu predecessor, sentados lado a lado na tribuna reservada às autoridades.

O que pouca gente fora da França ficou sabendo é que o presidente atual convidou, sim, seu antecessor. Mas com uma condição: que viajassem em aviões separados. É voz corrente que os dois se odeiam. Resultado: os mandachuvas franceses precisaram de três aviões ― um para o presidente, mais um para o ex-presidente e um terceiro sobressalente, aquele estepe que se costuma levar.

Quando a imprensa francesa botou a boca no trombone para anunciar ao povo esse desperdício de dinheiro público, chegou a explicação. É que, na volta, o presidente atual tinha previsto uma parada na República Centro-Africana, onde o pau anda comendo tão feio que tropas francesas estão lá para acalmar os ânimos.

Sarkozy e Hollande em Johannesburg

Sarkozy e Hollande em Johannesburg

O pretexto pareceu mal costurado. Poderiam ter viajado juntos e dado ao distinto público uma imagem mais civilizada. Para organizar a volta, sempre se encontraria um jeito.

É raro, mas acontece: as altas personagens brasileiras, desta vez, se comportaram mais civilizadamente que as francesas. Que fique aqui consignada minha admiração.

Cotas raciais no comércio exterior

Percival Puggina (*)

Se existe uma parte do planeta onde bate com mais vigor o generoso coração de Lula e Dilma, esse lugar é a África Negra. Imagino ser por isso que existam cotas raciais para o comércio exterior brasileiro. Volta e meia – às vezes nem meia volta se completa – e lá estão nossos presidentes petistas na África Subsaariana, cada um a seu turno, perdoando dívidas milionárias que aqueles países têm para com o Brasil. A conta já passa de US$ 2 bilhões. Não por acaso são, em parte, débitos de governos ditatoriais, sanguinários, genocidas, que lidam com as finanças locais em regime de partilha. Vai um pouco para o interesse público e o restante para contas familiares em bancos estrangeiros.

Um deles, o senhor Omar al-Bashir, já leva 24 anos no cargo de presidente do Sudão. Tem dois mandados internacionais de prisão e, segundo um promotor do Tribunal Penal Internacional, acumula US$ 9 bilhões de recursos próprios em paraísos fiscais. Outro, o senhor Teodoro Obiang, que comanda a Guiné-Equatorial, adquiriu em 2010 um apartamento na Av. Vieira Souto, no Rio de Janeiro, naquela que foi até então a maior transação da história da cidade envolvendo um imóvel residencial. O pequeno refúgio carioca do ditador é um tríplex com 2 mil metros quadrados. O patrimônio pessoal do bilionário ditador do Congo-Brazaville, Denis Sassou Nguesco, proprietário de algumas dezenas de imóveis na França é superior à dívida do país perdoada pelo Brasil (US$ 352 milhões). E por aí vai. Em maio deste ano, numa única tacada, a presidente Dilma anunciou perdões, abatimentos e novos parcelamentos para dívidas de uma dúzia redonda de nações africanas.

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Alega o governo que esse procedimento está alinhado com as orientações do Clube de Paris, que o recomendam como forma de estimular a contratação de novos financiamentos e promover o desenvolvimento daqueles povos. Faria sentido se não estivéssemos tratando, em alguns casos, de povos cuja miséria aumenta na proporção direta em que a elite governante amplia sua riqueza pessoal. Faria sentido se não houvesse, na lista de beneficiados, governos ditatoriais que só perdem em longevidade e truculência para a dinastia cubana dos Castro Ruz.

É uma pena que a benevolência dos governos petistas em relação aos seus cotistas raciais no comércio exterior não encontre simetria de tratamento com as dívidas dos produtores rurais brasileiros quando suas lavouras são assoladas por estiagens e secas.

É uma pena que essa mesma prontidão não apareça na hora de atender os brasileiros vítimas de cheias, cujos bens são arrastados pelas águas.

É uma pena, também, que não se respeite o preceito bíblico de que a mão esquerda não saiba o que a esquerda faz em favor do próximo. De fato, enquanto a generosidade nacional é proporcionada pela dadivosa mão direita, a esquerda encaminha novos recursos para obras de empreiteiras brasileiras nesses países. Quem garante que a virtude da probidade e a adimplência tenham desabrochado em meio aos maus pagadores e prevaricadores de ontem? Continuaremos financiando empreiteiras e cancelando os débitos?

E é uma pena, por fim, que, junto com a bonomia das cotas raciais de nosso comércio exterior, não venha junto uma transparência maior sobre as comissões pagas pelos novos negócios que estão sendo contratados lá com as empreiteiras daqui. Tenho um palpite, mero palpite, de que iríamos encontrar, beneficiado por tais valores, um conhecido lobista que mantém relação de intimidade paternal com as decisões de governo.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Vivo ou morto

José Horta Manzano

Mais do que regrinhas de acentuação ou de hifenização ― que mudam da noite pro dia e cuja lógica nem sempre é evidente ― dou grande valor à adequação vocabular. Encontrar o termo mais adaptado a cada contexto demanda um pouco de esforço. Na oralidade, não tem jeito: como não há tempo para pensar, cada um usa a palavra que lhe vem à cabeça. Na escrita, é outra coisa.

Em artigo deste 7 de dez°, o Estadão nos brinda com este período um tanto claudicante(*):

«A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros vivos para acompanhá-la em viagem a Johannesburgo, onde será celebrada uma missa em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, morto quinta-feira após uma infecção pulmonar.»

Tenho 4 reparos a fazer:

1) Vivos
Ex-presidentes vivos? A formulação não é das mais felizes. Não estamos na Venezuela, onde presidentes mortos continuam a se manifestar sob forma de pajaritos. O que é evidente dispensa ser explicitado. Dona Dilma só poderia convidar o vivos. Podia até ter-se limitado a levar seu padrinho a tiracolo, mas ia pegar mal. Para não fazer feio, estendeu a carona aos outros. Excluiu os mortos, naturalmente.

2) Homenagem
Dizer que uma missa será rezada «em homenagem» a um defunto soa estranho. Salva de palmas, bandeira a meio pau, minuto de silêncio são homenagens. Missa, não. Tradicionalmente, missas são ditas (ou rezadas) em intenção de um falecido ou pelo sufrágio de sua alma. Se se fizer questão de manter o termo “homenagem”, melhor será dizer que os presentes assistirão a uma missa incluída no programa de homenagens ao defunto.

3) Morto
O artigo diz : «(…) Nelson Mandela, morto quinta-feira (…)». Sem dúvida, o homem morreu. Tecnicamente, a frase está perfeita. Mas ― convenhamos ― para um ancião que morreu de velhice, a palavra é um tanto crua. Melhor substituir morto por uma expressão mais suave, como falecido, desaparecido, que se extinguiu, que nos deixou, que expirou, que se foi.

4) Após
«Morto após uma infecção pulmonar» ― diz o texto. Não tive acesso ao boletim médico, muito menos ao atestado de óbito. Mas é permitido supor que a causa mortis tenha sido exatamente a infecção pulmonar. Portanto, Mandela não morreu após a doença. Morreu de ou por causa dela.

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Reescrito com mais apuro, o período fica assim:

A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros para acompanhá-la a Johannesburgo, onde será celebrada missa em intenção do líder sul-africano Nelson Mandela, falecido quinta-feira de infecção pulmonar.

Fica mais arejado, não acham?

(*) Claudicante é a forma politicamente correta para manquitola, coxo, manco.

Frase do dia — 51

«Portanto, mais do que um plano eficiente e bem concebido, o real é um jogo de aparências, que pode durar enquanto não ficar evidente que as contas do governo não vão fechar por causa dos juros altos, que o mercado sozinho não é capaz de conter os preços dos oligopólios sem uma coordenação das expectativas por parte do governo, que os salários não manterão o poder aquisitivo por muito tempo, que o real não vale tanto quanto o dólar.»

Guido Mantega, ministro do Planejamento do governo do Lula e atual ministro da Fazenda. A frase aparece em artigo que o senhor Mantega assinou e que a Folha de São Paulo publicou em 12 julho 1994, quando do lançamento do Plano Real. Vale a pena perder cinco minutos para apreciar o texto menosprezante e quase debochado. Note-se que o ministro nunca se retratou. Aqui.

PS: Não é propriamente a frase do dia. Melhor seria dizer que é uma «frase que merece ser lembrada».
Todos temos o direito de nos enganar, mas as regras básicas da civilidade recomendam a cada um reconhecer seus próprios erros. Fica mais elegante. Infelizmente… ninguém consegue dar o que não tem. Não se tira leite de pedra.

Frase do dia — 50

«[Dilma] considerou um erro a romaria de políticos que foi à cadeia visitar os petistas na primeira semana de detenção. E vê o risco de que outros presos e seus parentes fiquem revoltados com a situação.»

Dona Dilma Rousseff, numa supreendente fala que dá margem a duas interpretações. Por um lado, pode revelar que, num momento de descuido, nossa presidente tenha resvalado para o bom-senso. Por outro lado, pode indicar que ela está seguindo rigorosamente o figurino ditado por marqueteiros assessores. Seja como for, mal não fará. In Folha de São Paulo, 30 nov° 2013.

Sinal de importância

José Horta Manzano

Ai, ai, ai, dona Dilma deve estar morrendo de inveja. Segundo o site alemão de notícias Focus online, Angela Merkel teve seu telefone celular grampeado pelos serviços secretos de pelo menos 5 países. A informação foi repercutida por numerosos sites informativos, entre os quais Market Watch, braço de The Wall Street Journal.

Cinco países! Isso é que é prestígio(*). Pelas informações que o site publicou em 24 de novembro, os EUA, a Rússia, a China, o Reino Unido e até a enigmática Coreia do Norte andaram bisbilhotando as conversas da Bundeskanzlerin, a chefe do governo alemão.

Frau Angela Merkel

Frau Angela Merkel

Nossa presidente deve estar-se sentindo desconsiderada. Um único e solitário país apareceu no radar da contraespionagem tupiniquim. E, assim mesmo, porque um certo senhor Snowden andou delatando. Se assim não fosse, nosso radar estaria mostrando céu sereno.

Se o esperneio, o dinheiro e o esforço que nosso governo costuma despender para forjar uma imagem de Brasil-potência fossem utilizados de maneira mais judiciosa, nosso país estaria no bom caminho para escapar de sua condição de nação periférica.

Infelizmente, nossos mandachuvas ainda não entenderam que a construção de uma casa tem de começar pelos alicerces, não pelo telhado. Saco vazio não para em pé. Investir em infraestrutura e instrução pública é o único caminho. Fora daí, não há salvação, gostem ou não gostem.

(*) Compreendo mal o porquê de a imprensa, ao fazer esses anúncios, conjugar o verbo no passado. «Foi espionado», «espionaram» e que tais. Como assim? Acabou? Espionagem internacional é página virada? Como diz o outro: «me engana, que eu gosto».

A vida dura dos presidentes

José Horta Manzano

Aparições públicas são momentos de alto risco para governantes. Não falo de risco de vida, falo de risco para a imagem.

Até uns 20 anos atrás, atentados eram moeda corrente em qualquer ponto do globo. Desde Júlio César, enfrentaram essa situação incômoda ― e às vezes mortal ― figuras excelsas como o Mahatma Gandhi, João Paulo II, John F. Kennedy, D. Carlos I (rei de Portugal), Benazir Bhutto (do Paquistão), Ronald Reagan, Indira Gandhi. E muitos outros.

Os 38% de dona Dilma vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Os 38% de dona Dilma
vistos por Jarbas Domingos, desenhista pernambucano

Hoje em dia acontece menos, talvez porque o aparato de proteção da pessoa física se tenha aperfeiçoado. Mas os descontentes, se não conseguem mais atingir figurões fisicamente, dão a volta por cima. Por vias menos violentas, mas tão contundentes quanto as tradicionais, se valem da internet e das chamadas redes sociais.

Assim mesmo, aparição pública sempre comporta uma dose de risco. Se ficou difícil riscar o personagem da face da Terra, logra-se riscar sua imagem e deixar arranhões que causam tanto dano quanto uma punhalada.

Todos se lembram daquele dia em que, ao preparar-se para discursar no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007, nosso messias ouviu, atônito, uma retumbante vaia. Poucos se lembrarão de seus índices de popularidade na época. Mas ninguém esqueceu os apupos.

Nossa guia atual também já passou pela experiência. Foi bem mais recentemente, na inauguração da copinha de poucos meses atrás, de novo no mesmo Maracanã. Como deve ter sofrido nossa orgulhosa presidente! Para ela também vale a mesma reflexão. Que tenha 30%, 50% ou 80% de popularidade importa pouco. O que ninguém jamais esquecerá são as vaias. Tonitruantes.

François Hollande vaiado 11 nov° 2013

François Hollande vaiado
Paris, 11 nov° 2013

Monsieur Hollande, presidente da França, participou de dois atos públicos importantes nesta segunda-feira. O onze de novembro é feriado nacional, dia em que se comemora o armistício de 1918, aquele que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. O brilho da solene aparição do mandatário nos Champs-Elysées foi embaçado pelas vaias de uma parte da multidão.

Mais tarde, Hollande se dirigiu a uma comemoração menos pomposa, numa cidadezinha do interior. E não é que a coisa se repetiu? Foi de novo vaiado. A cerimônia foi encurtada, e o presidente escafedeu-se.

Bem, é de notar que a popularidade de François Hollande está no patamar mais baixo jamais registrado para um presidente da França desde que esse índice começou a ser medido. Apenas 21% dos franceses avaliam positivamente seu governo. Nem Sarkozy, o antecessor, havia chegado a um número tão pífio.

Pensando bem, dona Dilma pode até sentir-se feliz com seus 38%. Mas vamos ver. Dificilmente ela poderá esquivar-se de discursar na abertura da copona, a do ano que vem. Com bombas de efeito moral, podem-se reprimir alguns arruaceiros, mas… como calar um estádio?

Mais municípios?

José Horta Manzano

É suficientemente raro. Quando acontece, é ocasião de soltar rojão. A presidente acertou uma! Alegremo-nos, irmãos!

Em fala proferida neste 8 de novembro, em Rio Grande (RS), dona Dilma deixou claras suas reticências quanto à criação de municípios ― por desmembramento de municípios maiores, entende-se. Asseverou que a multiplicação de municípios diminuirá o tamanho da fatia de bolo que caberá a cada um deles, velhos ou novos. É uma evidência, mas nunca é demais repetir.

Mais uma vez, o Brasil caminha na contramão da modernidade. Na Europa, especialmente em países que, por razões históricas, contam com grande número de municípios, a tendência é justamente de fusioná-los. Menos de olho nas vantagens eleitorais e mais interessados no bem-estar de seus concidadãos, os políticos daqui já se deram conta de que, quando dois municípios se juntam, a economia é real. Acaba-se com a duplicidade de prefeituras, de câmaras, de vereadores, de serviços diversos. É considerável.

A França é o país europeu com maior número de municípios: eram 36’683 em 1° jan° 2012. Já são 1500 a menos que em 1959. A redução não é frenética, mas a tendência continua, ao contrário do Brasil. Por que será?

Esperemos que dona Dilma oponha seu veto a esse projeto de lei ― já displicentemente aprovado na Câmara e no Senado ― que facilita a criação de 180 novos municípios. Só discursar não basta: ela precisa ter coragem de ir até o fim de seu raciocínio. Que engavete essa lei bastarda e não a sancione. Basta de ceder a insaciáveis morcegos, sempre os mesmos, que vivem de sugar os recursos do povo em proveito próprio.

Eu espio, tu espias, ele espia

José Horta Manzano

De certas coisas, mais vale não falar. Não se pode dizer tudo o que se pensa. Não se pode fazer tudo o que se quer. Não se pode ficar sabendo de tudo o que se passa. O mundo é assim, sempre foi, e assim há de continuar. Cada macaco no seu galho.

Todos os suíços sabem que suas montanhas lembram queijo Emmenthal. São todas cheias de furos, de túneis, de cavernas, de depósitos de munição, de bunkers, de sofisticados sistemas de ventilação, de importante estoque de víveres, de geradores de energia, de postos de comando dotados de sofisticada eletrônica. Parece que até baterias antiaéreas, tanques de guerra e aviões estão armazenados em galerias escavadas. Esses refúgios, que existem há séculos, estão previstos para abrigar, em caso de guerra, o governo e as personalidades que conduzem o país.

Antena Crédito: Riccardo Umato

Antena
Crédito: Riccardo Umato

Devem servir também como reserva de alimentos para a população em caso de bloqueio do país. Todos sabem da existência dessas instalações, mas muito poucos estão a par dos detalhes. Uma meia dúzia de oficiais de alta patente, ninguém mais. Não faria sentido anunciar aos quatro ventos a localização, o conteúdo e a função de cada esconderijo. Não ajudaria ninguém e, pior, daria preciosas informações a eventuais adversários.

Por definição, o que é secreto não deveria ser comunicado ao distinto público, muito menos publicado em jornal. É o caso das atividades ligadas aos serviços de inteligência. Nesse campo, toda discrição é pouca. Se assim não for, não faz sentido. Um serviço secreto aberto à curiosidade pública não tem razão de ser.

Essa CPI da espionagem, a meu ver, não deveria nem ser cogitada, que é vespeiro peçonhento. Furiosa da vida quando se soube espionada, dona Dilma reagiu como criança mimada: melindrou-se e acabou dando mais uma prova de sua inexperiência. Armou um fuzuê, desperdiçou a deferência especial de ser a primeira a discursar na abertura anual dos trabalhos da ONU, esperneou, procurou juntar aliados, perturbou relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos. Tudo isso para um resultado nulo.

Estes últimos dias, chegou a vez de nossa despreparada presidente engolir sapinhos. O anúncio de que nossos serviços de inteligência também espionam invalida todo o esperneio destas últimas semanas. Ou dona Dilma sabia de tudo ― nesse caso, tem simplesmente mentido e feito jogo de cena. Ou dona Dilma não sabia de nada ― nesse caso atesta sua inaptidão para exercer as funções que lhe foram confiadas.

Jornais ― e até a própria chapa-branquíssima Agência Brasil ― informaram estes dias que países estrangeiros dispõem de centenas de antenas de comunicação instaladas em território brasileiro. Quatro países estão mencionados: EUA, França, Chile e… Romênia. Só esta última conta com 20 antenas próprias plantadas legalmente em território brasileiro! Datam da época soviética?

Eu confesso que não sabia disso. Mas tenho uma desculpa: não sou presidente da República. O ocupante do cargo maior dispõe de assessores, informantes, secretários, assistentes, ministros, comissários, enfim, gente paga para mostrar-lhe o caminho das pedras. Ou a equipe de dona Dilma é constituída de incapazes, ou a presidente não lhes dá ouvidos. Tenho tendência a dar mais crédito à primeira hipótese.

Antena

Antena

Falou-se de antenas instaladas por quatro países. E os outros? Rússia, Reino Unido, China, Alemanha, Japão, Venezuela, Argentina como fazem para se informar? Escutam A Voz do Brasil ou o Jornal Nacional?

Faltou ainda mais um capítulo. O Brasil também há de ter antenas plantadas em território alheio, pois não? Quantas são? Onde estão? Para que servem?

Se os responsáveis não acharam útil informar nem a presidência da República ― que parece cair das nuvens com a descoberta ―, não é a nós, meros mortais, que grandes revelações serão feitas.

E está muito bem assim. Serviços secretos não têm vocação para trabalhar abertamente, muito menos para conceder entrevistas coletivas. Deixemos que cumpram sua missão tranquilamente.

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Informações repercutidas por:
Agência Brasil
Estadão
Blog Link, alojado no Estadão

Rapidinha 4

José Horta Manzano

Dona Dilma definiu os atos de vandalismo como barbárie. Tem razão, ponto para ela. Manifestantes brutais não podem ser tratados com luva de pelica. A autoridade tem de usar métodos equivalentes. Não se enfrenta canhão com estilingue.

Já basta a imagem de pusilanimidade que nossas autoridades têm exibido. O mundo não precisa ficar sabendo que, no Brasil, além de o governo ser fraco, o povo é baderneiro e violento. Nossa imagem já anda um bocado amassada. É melhor parar por aqui.

A prefeitura tem o poder de proibir que manifestantes saiam às ruas mascarados. Aquele que desobedecer será sumariamente detido para averiguações, mesmo que (ainda) não tenha quebrado nenhuma vitrine. Depois de algumas dezenas de prisões, os ânimos vão-se acalmar. O que move esses selvagens é a certeza da impunidade.