Igualdade, pero no mucho

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Outro dia andava ele muito pensativo. Veio me contar o problema que o estava atormentando. O pobre Sigismeno acha que eu tenho resposta pra tudo. Enfim…

Ele me confiou seu pensamento ― que, no fundo, tem certa lógica. Ele lembrou que, até não muitos anos atrás, era impensável que o titular do Ministério da Defesa fosse um civil. Inimaginável, fora de cogitação. Aliás, algumas décadas atrás, o nome da instituição era explícito: Ministério da Guerra. Como tantas outras expressões, essa denominação tornou-se politicamente sensível depois da hecatombe 1939-1945. Pouco a pouco, todos os países adaptaram o nome do ministério aos novos tempos.

Em 2003, o presidente de nossa República editou, de afogadilho, a Medida Provisória número 111, que instituía a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Alterada, adaptada e burilada, a medida foi mais tarde tranformada em lei. Seu titular é equiparado a um ministro de Estado e goza das mesmas prerrogativas que seus pares. Responde diretamente ao presidente da República.

Nestes quase onze anos de existência, o Ministério da Igualdade Racial teve três titulares, Sigismeno os contou. Primeiro foi a paulista Matilde Ribeiro, seguida pelo fluminense Elói Ferreira Araújo. A ministra atual é a gaúcha Luiza Helena de Bairros. Pra dizer a verdade, eu nem sabia. Há que reconhecer que não são os nomes mais conhecidos do pletórico gabinete de dona Dilma.

Sigismeno me contou sua grande descoberta: todos os três são afro-brasileiros. Eu perguntei onde estava o problema. E ele: «Será que é condição obrigatória para ocupar esse elevado posto? Quando veremos um asiático-brasileiro, um euro-brasileiro ou mesmo um brasileiro ab origine (*) na chefia desse ministério?»

Fiquei meio embasbacado. E não é que Sigismeno tem razão? É de crer que a cartilha do partido (atualmente) dominante permite que centenas de milhares de militares de carreira sejam encabeçados por um civil, mas não admite que um não africano dirija o Ministério da Igualdade. Será possível que não exista nenhum índio, nipo-brasileiro, euro-brasileiro, médio-oriental-brasileiro à altura da tarefa?

Resolvi brincar com Sigismeno. Disse a ele que talvez esse ministério tenha sido criado só para acalmar a galeria. Seria como se dissessem: «Estão vendo? Tem até ministro preto. Que mais vocês querem?».

Pela cara que ele fez, tive a forte impressão de que Sigismeno ― que não brinca em serviço ― não apreciou a gracinha. Virou as costas e foi-se embora abanando a cabeça.

(*) Ab origine é expressão latina que designa aquele ou aquilo que está ali desde o início. No texto acima, faz referência, naturalmente, aos habitantes primitivos de Pindorama: os índios.

2 pensamentos sobre “Igualdade, pero no mucho

    • Obrigado pela colaboração, caro Túlio.

      Quando criança, morei a poucos metros de uma rua chamada Pandiá Calógeras. Não sabia quem tinha sido, agora sei. De uma cajadada, dois coelhos!

      Feliz Natal a você,

      Abraço

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