Sem luz no fim do túnel

Guadelupe, joia francesa do Caribe

José Horta Manzano

Do antigo império colonial francês, sobraram alguns retalhos, coisa pouca perto do que havia antes. Nas Américas, o maior território é a quase despovoada Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, lindeira com o Amapá. Interessa a Paris sobretudo por abrigar um centro de lançamento de foguetes.

Junto à costa do Canadá, sobrou ainda um minúsculo arquipélago – Saint Pierre et Miquelon –, batido pelos ventos, lambido por ondas violentas e habitado por menos de 6 mil almas, quase exclusivamente pescadores.

Mas a verdadeira joia são a Martinica, Guadelupe e Saint Martin, pequenos grupos de ilhas situadas nas verdes águas do Caribe, um paraíso muito apreciado por hordas de turistas que vêm especialmente da metrópole comer siri e tostar ao sol. Saint Martin é uma ilha minúscula, que a França compartilha com a Holanda.

Já Guadelupe e a Martinica são maiorzinhas e inteiramente francesas. Todos esses resquícios do antigo império perderam, há tempos, o estatuto colonial. Fazem oficialmente parte do território nacional, com deveres e direitos idênticos aos dos territórios metropolitanos, exatamente como Paris ou Marselha.

A pandemia de covid-19 está mais ou menos controlada na Europa. Digo “mais ou menos” porque, com essas novas variantes, focos ressurgem aqui e ali a toda hora. No entanto, nos territórios franceses do Caribe a coisa está bem pior. A situação está pra lá de feia. Guadelupe e Martinica, que, levando em conta os turistas, perfazem um total de quase um milhão de pessoas, estão pulando miudinho.

Os hospitais estão abarrotados. Acabo de ouvir no rádio o testemunho de médicos de hospital que confessam que, a cada nova entrada de paciente, estão tendo de fazer terrível triagem e decidir quem tem mais chance de sobreviver e quem tem menos. Exatamente como aconteceu em Manaus, estão faltando bombonas de oxigênio.

Quem tiver mais chance de sobreviver, vai receber alguma assistência; quanto aos demais, serão entregues à própria sorte. Hoje de manhã, no principal hospital de Guadelupe, já havia 17 pacientes de covid, todos em estado gravíssimo, acomodados em macas nos corredores, sem oxigênio e sem assistência respiratória. Por falta de alternativa.

Atenção: não estamos falando do Bangladesh, mas da França! O responsável por essa situação infernal é a nova cepa de covid, a variante Delta, que pegou firme por lá. As autoridades da Martinica determinaram que os turistas abandonem a ilha o mais rápido possível. O toque de recolher, que já estava em vigor nas duas ilhas, foi ampliado. Agora é proibido sair de casa entre as 19h e as 5h da manhã. Mesmo fora desse horário, ninguém tem o direito de se deslocar num raio mais amplo que 5km em volta de sua residência.

Não me cabe dar conselho às autoridades sanitárias brasileiras. Afinal, esses funcionários são pagos para isso e supõe-se que estejam mais capacitados que eu. Mas a meus distintos leitores, que são todos gente fina, insisto: continuem a respeitar os gestos que salvam. São os mesmos que todos já conhecemos.

  • Fora de casa, use máscara, até (e principalmente) no elevador.
  • Cumprimente de longe, sem beijinhos e apertos de mão.
  • Evite, sempre que possível, lugares apinhados
  • Se puder fazer suas compras fora do horário de maior afluência, melhor será.
  • Não se preocupe se o álcool em gel resseca as mãos: use e abuse.
  • Quando chegar da rua, procure lavar cuidadosamente as mãos, o rosto, os óculos e, se possível, o cabelo.

No fundo, é questão de bom senso. A epidemia ainda não se foi. A variante Delta é da pesada, capaz de fazer estrago grande. Ninguém pode ainda garantir que a vacina seja eficaz contra essa cepa.

Se você sobreviveu até aqui, pra que facilitar? Güenta mais um pouquinho!

Martinica

José Horta Manzano

De criança, eu achava que Martinica era um lugar imaginário onde as mulheres se vestiam com casca de banana nanica. Essa curiosa crença vinha de uma marchinha de Carnaval de João de Barro e Alberto Ribeiro lançada em 1949. A letra, simplesinha e fácil de memorizar, dizia:

Chiquita Bacana lá da Martinica
Se veste com uma casca de banana nanica
Não usa vestido, não usa calção
Inverno pra ela é pleno verão
Existencialista com toda a razão
Só faz o que manda o seu coração.

(Desconfio que a Martinica só entrou na dança pra fazer rima com a Chiquita e com sua banana nanica.) Está aqui a versão original, na voz de Emilinha Borba.

Foi só muito mais tarde que vim a saber que a Martinica é uma migalhinha de território, uma relíquia do imenso império colonial francês. É uma ilha pequenina, com cerca de 400 mil habitantes acomodados numa área equivalente à do município de Joinville (SC). Situa-se nas Pequenas Antilhas, Mar do Caribe (ou Caraíbas, se preferirem). A principal fonte de renda do território é o turismo; os visitantes mais numerosos são franceses que escapam das brumas europeias para se aquecer sob o sol tropical.

Josephine Baker e a Revue Nègre
Paris, 1927

A letra da marchinha, embora curta, evoca duas imagens. Em primeiro lugar, vem à mente a artista americana Josephine Baker (1906-1975), que chegou à França jovem, ainda nos anos 1920, fugindo do racismo e da discriminação que a sociedade de seu país reservava aos não-brancos. Ela fez imenso sucesso em teatro de revista. Desinibida, vestia-se como uma Carmen Miranda com menos roupa. Com muito menos roupa, por sinal. Veja a ilustração.

Em segundo lugar, a letra da Chiquita Bacana faz alusão ao existencialismo, doutrina muito em voga quando a musiquinha foi lançada, num pós-guerra em que uma juventude cansada de sangue queria mais é aproveitar da vida. Era uma época em que os livros do guru Jean-Paul Sartre apareciam entre os mais vendidos.

Mas nem só de casca de banana vive a Martinica. Antenados ao que ocorre no mundo, os martinicanos ficaram sabendo da vergonhosa apalpadela de que foi vítima a deputada paulista Isa Penna por parte de um eleito cafajeste. Não é o primeiro cafajeste que o povo elege, temos outros exemplos. Mas esse aí estourou o teto da decência. Ao tentar seguir o cordão da baixaria puxado pelo Planalto, estrepou-se.

O jornal digital Carib Creole News, que se proclama o n° 1 da informação na Martinica e vizinhança, convoca seus leitores a assinarem uma petição que reclama castigo exemplar para o agressor da deputada. A petição exige nada menos que a destituição do deputado ofensor.

É impressionante como as notícias voam hoje em dia. Quem diria que uma jovem brasileira, vítima de agressão de caráter sexual, receberia apoio dos martinicanos! Sem dúvida, a globalização tem seu lado bom.

Doctores

José Horta Manzano

Em razão da epidemia, o governo francês emitiu decreto, em março passado, autorizando a vinda de médicos cubanos às Antilhas Francesas (Guadalupe e Martinica). O intuito foi de reforçar equipes locais no enfrentamenteo da covid-19.

Ontem, sexta-feira, uma delegação de 15 médicos cubanos desembarcou na ilha da Martinica, situada a umas 3 horinhas de voo de Havana. Como de costume, o desembarque é festa profana, com direito a máscara e bandeira de Cuba. Acredito que o desfile de bandeira em punho seja exigência da gerontocracia cubana. É curioso. Ninguém imagina humanitários enviados pela Alemanha, pelos EUA ou pelo Japão desfilando na pista do aeroporto com bandeira.

Martinica: chegada de médicos cubanos

Falando nisso, não entendi até hoje por que é que os médicos cubanos sempre aparecem vestidos com o jaleco profissional, seja onde estiverem. Ainda que, numa hipótese optimista, essa peça de vestuário venha a ser lavada e esterilizada antes de o profissional entrar em serviço, pega mal pra caramba. Fica a impressão de falta de higiene, um cartão de visita bastante negativo.

Segundo a agência de notícias AFP, o envio de médicos ao estrangeiro é especialidade cubana lucrativa. No total, cerca de 30 mil profissionais estão constantemente em missão no exterior. Atuam em 60 países.

O programa, lançado nos anos 1960 por Fidel Castro, cresceu em importância com a pandemia. Estima-se que, em 2018, a atividade dos médicos cubanos tenha rendido 6,3 bilhões de dólares, o que representa suculenta fonte de renda para Cuba.