Vacina em duas doses?

José Horta Manzano

General Pazuello – oficial que, apesar de ostentar três estrelas no galão, funciona como ordenança do capitão – está diante de um problema logístico. Dada sua fama de especialista na área, sua decisão deverá ser correta. Certo? Não sou general nem sou especialista em logística, mas desconfio que ele esteja escolhendo caminho equivocado.

O mundo anda correndo atrás de imunização contra a covid. Muitos querem, mas a vacina é pouca. Os laboratórios não dão conta. Se metade da humanidade tivesse de ser vacinada, seriam 4 bilhões de doses, volume que nem todos os fabricantes somados conseguiriam produzir em tempo razoável. O Brasil então, que dormiu no ponto e não passou encomenda, vai ter de esperar mais que os outros.

A entrega de vacinas prevista para os próximos meses não cobre as necessidades brasileiras. Pfizer e Astra-Zeneca, os principais fornecedores, preconizam que se apliquem duas doses espaçadas por um intervalo de quatro semanas. Revelam que a imunização adquirida após a primeira dose decresce e precisa ser reforçada pela segunda aplicação.

Países ajuizados decidiram seguir a recomendação dos fabricantes. Acreditam que mais vale imunizar corretamente, com duas doses, a faixa mais vulnerável da população para, em seguida, passar à fase seguinte e cuidar dos demais. Outros governos tomaram a decisão de fornecer a primeira dose a um número maior de cidadãos; a segunda dose virá se e quando estiver disponível, ainda que o prazo recomendado de 4 semanas tenha estourado.

Adivinhe por qual caminho doutor Pazuello está pensando optar? Pelo segundo, naturalmente. No papel, fica bonito: um número maior de indivíduos se sentirá protegido; no duro, não terão sido corretamente vacinados, mas pouco importa, visto que sai bem nas estatísticas. No frigir dos ovos, nem os vulneráveis nem os demais vão estar devidamente imunizados. Ao espaçar as duas doses, não se sabe o que pode acontecer. Talvez o efeito da primeira tenha se desmilinguido, o que obrigaria o paciente a receber não duas, mas três aplicações.

Pode ser que o ordenança do capitão ainda mude de ideia, nunca se sabe. Mas acho difícil. Como se sabe, a proteção da saúde dos brasileiros nunca esteve entre as prioridades daquele pessoal.

Imunidade de rebanho

José Horta Manzano

Você sabia?

Muito se tem falado sobre o conceito de imunidade de rebanho, que também pode ser chamado imunidade gregária, imunidade coletiva ou ainda imunidade de grupo. Há muita gente aplaudindo o método sem saber exatamente do que se trata. Imaginam que a tal imunidade é como mágica que cai do céu, um presente concedido pelo chefe bondoso. Não é exatamente isso.

O conceito já tem 200 anos de idade. Desde quando se popularizou a vacinação contra a varíola, começaram a aparecer os efeitos da imunização coletiva. Já em meados do século XIX, cientistas constataram que bastava imunizar parte da população para conter epidemias de varíola. Não era necessário vacinar todos. Para se atingir a imunização de grupo, os cálculos variam. As melhores estimativas garantem que a imunização coletiva será atingida assim que 60% a 85% dos habitantes estiverem imunizados.

O princípio não é difícil de entender. Parte-se da premissa de que é possível entravar o alastramento de uma doença infecciosa numa população, desde que determinada parcela de indivíduos esteja imunizada, seja por vacina, seja porque já teve a doença e se curou.

De fato, quanto mais aumentar a proporção de pessoas imunizadas, menor será o risco de um não-imunizado apanhar a doença. A partir de um certo ponto, o risco será tão baixo que é mais provável um B-747 cair na cabeça do cidadão do que ele se contaminar. Ao fim de um determinado tempo, a epidemia se extinguirá por si mesma.

Dito assim, é tentador. A gente se pergunta por que é que a maioria dos países está impondo medidas de proteção à população. Ora, que sejam todos deixados à vontade até que se atinja o ponto estatístico a partir do qual o risco de contágio praticamente desaparece! Por que não?

Há uma razão para que as autoridades não tenham decidido assim. É que a implementação do método de ‘abrir as porteiras já’ colide com uma visão humanista da sociedade. Nossa Constituição garante, a todos os habitantes do território, igualdade perante a lei. Nenhum dispositivo legal, portanto, pode contrariar essa pretendida igualdade. Ora, para atingir a imunidade de rebanho, será preciso morrer muita gente. Como assim?

Não é difícil entender. Se soltarmos todos, à vontade, num clima de ‘liberou geral’ antes da chegada da vacina, a imunização não virá por milagre. Será preciso passar muito tempo – meses ou anos – até que se chegue aos 60% ou 85% de cidadãos imunizados. Mas, daqui até lá, é garantido: muita gente vai morrer. Quem? Em primeiro lugar, as populações que correm maior risco: idosos e pobres.

Os idosos formam um grupo de risco porque este coronavírus, ninguém sabe realmente por que, parece ter especial predileção por eles. Quanto aos mais humildes, são os que mais se expõem dado que raramente podem teletrabalhar e todos os dias passam horas e horas espremidos em condução lotada. Portanto, as ‘vítimas colaterais’ do caminho preparatório para a imunidade de grupo são essas: idosos e pobres.

Temos de agradecer aos céus o fato de as determinações de proteção (máscara, distanciamento social, lavagem das mãos, lockdown) terem sido ditadas pelos governadores. Se essas decisões tivessem sido deixadas nas mãos de doutor Bolsonaro, estaríamos caindo feito enxame de pernilongos borrifado com Detefon. À espera de atingir a imunidade coletiva, naturalmente.

A cegueira de nosso presidente sobre esse caminho doloroso que leva à imunidade coletiva sem vacina ficou patente. Sua alardeada religiosidade provou ser só de fachada. Na fé cristã, os valores de caridade e compaixão são básicos – e doutor Bolsonaro mostrou não comungar com eles. Ele tem agido como se presidisse outra nação, não a nossa, castigada pelo maior desastre sanitário dos últimos 100 anos.

Em sua longa e didática fala de 28 de out°, Emmanuel Macron, presidente da França, delineou como será a vida de sua população até dia 1° de dezembro, neste novo período de confinamento para enfrentar a segunda onda de covid. Aproveitou para rejeitar explicitamente esse caminho da imunidade de rebanho por ser ‘contrário aos valores de nossa República’. Concordo com ele.

No Brasil também, o caminho já está traçado. Antes da chegada da vacina, seja o que Deus quiser. Assim que a vacina chegar, cidadãos esclarecidos se imunizarão. Devotos renitentes, se forem coerentes, rejeitarão a vacina. Muitos deles morrerão. É o preço a pagar por esta aplicação tardia das doutrinas eugenistas do século 19: os fracos ficam pelo caminho, enquanto os fortes seguem adiante. Assim, passo a passo, com a colaboração de devotos renitentes, a imunidade coletiva se espalhará pelo país.