Pra que serve um ministério?

Reunião ministerial

José Horta Manzano

Nossa Constituição não é específica ao falar de ministérios e de seus titulares. Parece partir do princípio que as funções desses auxiliares do presidente da República são de conhecimento de todos, portanto não vale a pena se estender em explicações detalhadas.

Vivemos num país de forte tradição cartorial. Já reparou nas intermináveis linhas de palavrório que aparecem na escritura de um lote de 10m x 10m situado num grotão qualquer? É um blablá tão comprido que te dá a impressão de estar comprando um castelo.

O fato é que essa fixação em dar a volta completa, abarcar um tema inteirinho e trancar a porta, sem deixar brecha para interpretações divergentes, acaba sendo perniciosa. Quando uma lei ou um regulamento não vem já esmiuçado, os cidadãos acabam raciocinando de forma extravagante: “Se não é proibido, forçosamente é permitido”.

Pela Lei Maior, a única condição para atribuir a chefia de um ministério é que o titular seja brasileiro. Explicitamente, não há limite de idade, não há exigência de notório conhecimento da área, não há proibição de nepotismo, não há imposição de reputação ilibada, não há obrigação de apresentar certidão negativa de antecedentes criminais.

Segundo nossa percepção, o que não está explicitamente proibido, só pode ser permitido. A razoabilidade não está entre as qualidades principais de nosso andar de cima. Eis por que o ministério do presidente – não só de Lula, mas de todos os predecessores – lembra mais um amontoado de figuras díspares, saídas não se sabe de onde, manifestamente incompetentes para assumir o encargo que lhes foi confiado.

A escolha de ministros não segue um padrão lógico, que vise a colocar o melhor especialista em cada área. Lula, como Bolsonaro, tem distribuído cargos de ministro segundo critérios que pouco têm a ver com qualificação do titular. Amizade pessoal, cumprimento de promessa de campanha, “indicação” de alguém, afiliação a este ou àquele partido – esses são os parâmetros. Como resultado, o conjunto dos ministros dá contribuição importante para que o país continue bloqueado e parado no tempo.

Lula tem ministro encrencado com a justiça, ministro incompetente, ministro apadrinhado por figurão, ministro que requisita avião da FAB para ir a leilão de cavalos. É uma pilha de figurinhas repetidas, daquelas que não têm valor. Há muita figura decorativa com título de ministro.

Como consertar a situação? A solução mais rápida e certeira só pode vir do Congresso, afinal são os parlamentares que fazem as leis. Teriam de ser especificados (e gravados na pedra) os critérios obrigatórios para a nomeação de ministro de Estado. Em país cartorial, as regras têm de ser explicitadas tim-tim por tim-tim.

Goiabada basta

by Arend van Dam, desenhista holandês

José Horta Manzano

Virada a página Bolsonaro e passado o 8 de janeiro, acreditei que as coisas melhorassem. Nem esperava um definitivo “desta vez, vai!”, mas já me contentaria com um esperançoso “parece que sossegou”. Pra quem é, goiabada basta – como diziam os antigos. Do jeito que as coisas estavam, um pouco de silêncio já seria um bálsamo.

No entanto (tem sempre um porém pra atrapalhar), as coisas não parecem estar se endireitando. Se não, vejamos.

Em política externa, Lula se esmerou em escolher o lado errado na crise russo-ucraniana, que chacoalha o mundo.

Em política interna, já manteve no cargo ministro malandro que assalta os cofres do Estado para visitar feira equina. Já catou pelo braço o chefe do MST e deu-lhe a honra de viajar à China de aerolula, afago reservado a poucos.

Apesar de ter jurado retornar à decência republicana, Luiz Inácio, até agora, falhou. O cidadão esperançoso que aguardava nítida melhora desde o 1° de janeiro ficou com a goiabada mesmo. Sem queijo.

É verdade que acabaram ataques às urnas, às instituições, à mídia e às minorias. Por seu lado, porém, conchavos, condescendência para com assessores duvidosos e posicionamentos do lado errado da História continuam na ordem do dia. Como nos tempos do capitão.

Faz poucos dias, Lula deu a entender que quer porque quer furar poço de petróleo na região amazônica. Nos tempos atuais, é decisão estapafúrdia, que renega as juras de parar de agredir a fabulosa natureza brasileira, promessas feitas por um Lula candidato. Muita gente tinha acreditado – inclusive e principalmente no exterior.

Está também no capítulo agressão à natureza o “desconto” concedido a comprador de carro novo. Na verdade, desconto não é, pois não passa de supressão de imposto. E imposto, se não for pago por este, terá de ser pago por aquele. Do bolso do presidente é que não sai. O mundo se dirige a um futuro descarbonado, e eis que o Brasil incentiva a compra de carros de motor térmico. Faria sentido dar desconto para carro elétrico (ou a hidrogênio, ou a vento), mas desconto pra carro tradicional não tem cabimento.

Na mais recente façanha do andar de cima, há participação atuante do Congresso. Como todos já sabem, nossa política para o meio ambiente, cujo melhor trunfo foi a nomeação de Marina Silva, está sendo suprimida e sucateada por nossos próprios parlamentares. Numa operação nada sutil, estão desidratando os poderes dos ministérios onde se decidem as ações dedicadas ao desenvolvimento sustentável e respeitoso do meio ambiente. Francamente, contando, ninguém acreditaria.

O Brasil de 2023 está se saindo parelho ao Brasil de 2019. Cara de um, focinho do outro. Quem deseja ver as coisas mudarem de verdade vai ter de esperar 2027 e torcer pra que o estropício atual não seja reeleito e que o estropício anterior não volte. Nem um, nem outro, nem nenhum de seus respectivos capangas.

Se o telefone bater

José Horta Manzano

Pra enxergar melhor, amplie a imagem estampada acima. O instantâneo foi batido em maio de 2020, no auge da primeira onda de covid.

O então presidente aparece no centro da imagem. Ao redor, um batalhão de seguranças, reconhecíveis pelos óculos escuros estilo anos 60 e pelo fone de ouvido.

Um personagem de óculos pendurados na camiseta carrega uma pasta preta. Dado que não parecem dirigir-se a nenhuma reunião de trabalho, pode-se supor que a pasta pertença ao presidente. Talvez contenha alguma importante minuta, se é que me faço entender.

O presidente pela mão leva a criança, sua filha.

Na extrema esquerda, aparece o ajudante de ordens, o então major Mauro Cid, hoje na prisão. Marquei com flecha os três telefones celulares que se adivinham na imagem: um na mão direita do assessor, mais um em cada bolso da calça dele.

O presidente não parece levar nenhum telefone, fato inabitual em pessoa sabidamente ligada a esse meio de comunicação.

Esse fato invulgar nos leva a desconfiar que um dos aparelhos que o ajudante de ordens leva no bolso pertença ao chefe. Talvez até os dois celulares.

É possível que essa promiscuidade telefônica tenha despertado a curiosidade da PF que, acertadamente, confiscou os aparelhos de cada um dos dois, chefe e assessor, ao mesmo tempo.

Parece que o aparelho de Bolsonaro estava mudo, tudo apagado e nada mais. Mas o(s) do faz-tudo do chefe estava(m) recheado(s) de informações importantes, que vão pingando aos poucos.

Espremendo bem, inda vai acabar saindo o rascunho da minuta do golpe.

O mundo está de olho

José Horta Manzano

Estes últimos anos, nosso país tem sofrido terremotos político-policiais um atrás do outro. São escândalos frequentes e variados que, frequentemente, envolvem figuras políticas de projeção.

Os quatro anos da gestão de Bolsonaro foram pródigos nessa matéria – o capitão nunca nos deixou na mão por falta de assunto. O nome do Brasil ecoou (e muito!) fora do país, e passeou pelas manchetes em letras constrangedoramente grandes.

No entanto, veja você como são as coisas, o escândalo dos falsos certificados de vacina bateram todos os recordes. Embora, à primeira vista, pareça um caso menor, a repercussão tem sido planetária. Acredito que, se tivesse surgido logo no começo do mandato do capitão, não tivesse alcançado as manchetes; mas tendo surgido agora, que o mundo inteiro já conhece bem o personagem, o caso está fazendo sucesso. Está bombando, como convém dizer neste mundo de narrativas.

Procurei, nos jornais estrangeiros, as notícias do caso dos certificados falsos. Fui colecionando, separados por língua. Contei-as: uma, duas, três, etc. Chegando a dezessete, cansei e parei. Confesso que nunca tinha encontrado antes relato de nossos dramas em vietnamita ou em romeno. Pois desta vez, encontrei.

Mostro, a seguir, uma resenha. Se o distinto leitor planeja viajar para a Hungria, a Turquia ou a Indonésia, aconselho a não dar muita bandeira (entenda “bandeira” no sentido que quiser). É pra não passar vergonha.

Alemão
Casa revistada atrás de dados do Corona

Inglês
Casa revistada enquanto Brasil investiga cartões de vacina falsos

Francês
Perquisição na casa de Bolsonaro, suspeito de falsificação de certificados vacinais

Italiano
Green pass falsos para contornar proibições anticovid: casa de Bolsonaro perquisicionada

Sueco
Residência de Bolsonaro revistada pela polícia

Español
Polícia faz buscas na casa do ex-presidente, numa investigação de sua vacinação contra a covid

Húngaro
Casa de Bolsonaro revistada e seu celular apreendido

Polonês
Bolsonaro falsificou registros de vacinação? Polícia prende colaboradores do ex-presidente

Indonésio
Polícia brasileira faz buscas na casa de Bolsonaro e detém assessor

Tcheco
A polícia fez buscas na casa do ex-presidente do Brasil, Bolsonaro. Eles estão investigando um fraude de vacinação contra a covid

Eslovaco
Polícia faz buscas na casa do ex-presidente brasileiro Bolsonaro por fraude na vacinação

Lituano
Polícia brasileira faz buscas na casa de Bolsonaro e apreende seu celular

Romeno
Investigação sobre falsas vacinas anti-COVID no Brasil/ A polícia faz buscas na casa do ex-presidente Jair Bolsonaro e confisca seu telefone celular

Vietnamita
Polícia brasileira revista casa do ex-presidente Bolsonaro

Turco
Operação contra o ex-presidente brasileiro Bolsonaro

Grego
Batida policial na residência de Bolsonaro – Prisão de dois assessores

Esloveno
Polícia faz buscas na casa de Bolsonaro em razão de certificado de vacinação contra a covid-19

Busca e apreensão

José Horta Manzano

Muito esquisita a “breaking news” desta manhã de quarta-feira. Numa operação de busca e apreensão levada a cabo logo cedinho pela Polícia Federal, o braço direito do então presidente Bolsonaro, um tenente-coronel do Exército, foi preso preventivamente (por tempo indefinido). Outros personagens foram também levados de camburão. A residência de Bolsonaro, num condomínio de luxo de Brasília, sofreu perquisição que terminou com seu telefone celular sendo apreendido.

Oficialmente, a operação foi lançada para desmascarar e botar atrás das grades uma quadrilha de falsificadores de documentos públicos. Mais de quinze pessoas são acusadas de envolvimento na produção de falsos atestados de vacinação contra a covid. Parte da quadrilha estaria homiziada no próprio Palácio do Planalto na época em que Seu Jair era o dono do pedaço.

Tudo isso me parece um tanto estranho. Com tantas acusações de crime grave pesando sobre os ombros do ex-presidente, a PF preferiu deflagrar essa operação para investigar um crime francamente menor. Fraude em documento público pode dar até 4 anos de cana, mas cumplicidade na morte de centenas de milhares de cidadãos no auge da pandemia pode resultar em pena bem mais pesada.

Por que isso agora? A oposição dirá que é perseguição contra o cândido ex-presidente, alma boa e pura incapaz de fazer mal a um pernilongo. É verdade que o capitão deixou atrás de si um rastro de inimigos, de gente a quem insultou gratuitamente e que hoje não o olham com simpatia. Mas deixou também um rastro de atos e gestos indecorosos e criminosos que ainda hão de persegui-lo por anos.


Num primeiro momento, me ocorrem algumas reflexões.

Quando a pandemia se alastrou e pegou feio, o que todos queriam era esticar o bracinho pra receber a vacina salvadora – incluindo extremistas zumbificados. Até um general palaciano foi acusado de se ter vacinado escondido. Portanto, não faz sentido uma quadrilha se formar dentro do Planalto para emitir certificados de vacinação falsos.

Certificados para quem? Quando Bolsonaro esteve em Nova York para discursar na ONU, fez questão de apregoar seu status de não vacinado. Todos se lembram daquela cena surreal em que o chefe do Estado brasileiro e seu entourage aparecem mordiscando um triângulo de pizza gordurosa, com as mãos, todos de pé numa calçada nova-iorquina. Tanto ele não tinha sido vacinado, que não pôde entrar no restaurante. E se orgulhou disso. Ele, portanto, não precisava de certificado falso.

Por que, então, a operação de hoje?

1) A primeira possibilidade seria investigar a fundo e demonstrar que, apesar de afirmar o contrário, Bolsonaro se vacinou, sim, contra a covid. Nesse caso, imagina-se que ele sairia desmoralizado desse episódio perante seus adeptos. Não me parece que provar que ele se vacinou fizesse algum efeito. Os que não apreciam o capitão, não estão nem aí para seu estatuto vacinal; já seus zumbificados adeptos, que vivem num universo paralelo, se agarrariam a um pretexto qualquer para não acreditar na história.

2) Outra possibilidade poderia ser jogar holofotes sobre a estada de Bolsonaro nos EUA do fim de dezembro 2022 até fim de março 2023. Na ida, entrou no país em avião oficial, na qualidade de chefe de Estado estrangeiro, personagem de quem não se costuma pedir documento. No entanto, dois dias depois, ao fim de seu mandato, deixou de ser chefe de Estado e passou à condição de turista. Tendo assim perdido as prerrogativas, transformou-se em simples mortal, como qualquer um de nós. Foi nesse momento que o capitão entrou para a clandestinidade. A lei americana exige que todo visitante estrangeiro esteja vacinado. Bolsonaro não estava e nada fez para regularizar a situação.

Será que a PF está sugerindo às autoridades americanas que convoquem o capitão para esclarecer o caso? Se ele desdenhar do processo americano, acabará sendo julgado à revelia e poderá pegar 10 anos de cadeia entrar na lista vermelha da Interpol, o que o condenará a não mais sair do Brasil e a passar os próximos anos por aqui à espera do camburão. Será esse o raciocínio da PF?

3) Uma terceira possibilidade tem a ver com o telefone do ex-presidente, que foi apreendido. E se o objetivo maior de toda essa operação fosse simplesmente arrancar o celular das mãos de Seu Jair e mandá-lo para análise? Ele deve conter informações crocantes e apimentadas, daquelas que não saem no jornal. Enquanto estão todos discutindo se Bolsonaro se vacinou ou deixou de se vacinar, a PF está escrutando as entranhas do telefone ex-presidencial.

E como é que fica isso tudo? Veremos. O tempo dirá.

Adeus, mordomias!

Em Orlando, funcionária do aeroporto entrega cartão de embarque a Bolsonaro dando-lhe as costas.

José Horta Manzano

Desde que tomou posse do cargo, em 2019, Bolsonaro se habituou a viver cercado de reverências e mordomias. Foram quatro anos durante os quais não teve de se preocupar em abrir portas, fazer compras, arrumar a cama, mandar um eletrodoméstico para o conserto, conduzir a filha até a escola, levar o carro para a revisão, pagar a conta do telefone, fazer fila no banco, comprar aspirina na farmácia, apertar o botão do elevador. Até o pastel que comia no boteco – sempre em frente às câmeras, naturalmente – era pago por um serviçal.

Derrotado, o ex-presidente ainda conseguiu dar uma espichadinha no mundo da fantasia. Dois dias antes de entregar o cargo, escapuliu do Brasil em avião oficial e estacionou três meses pras bandas da Disneylândia. Lá continuou cercado de serviçais e de apoiadores, concedeu autógrafos, posou para selfies, comeu hambúrguer e pizza (longe das câmeras) e visivelmente engordou algumas libras.

Mas chegou a hora do retorno. Prolongar a estada equivalia a pavimentar a estrada para outros potenciais candidatos à Presidência em 2026. Medroso como é, o capitão há de ter engolido meio vidro de remédio tranquilizante pra poder embarcar de volta.

Já no aeroporto de Orlando, levou seu primeiro susto de ex-presidente. Como qualquer mortal, teve de fazer fila e passar o controle de bilhetes. Chegando ao guichê, Bolsonaro, que não carrega a própria passagem mas deixa a tarefa para um assessor, parou e ficou esperando que lhe dessem autorização de seguir adiante.

Nesse instante, o assessor carregador de bilhete espicha o braço e entrega a tarjeta informando que é do senhor que está de pé. A mocinha do embarque cata o papel, confere, e devolve o cartão de embarque ao ex-presidente. Faz isso com um gesto displicente, dando as costas a Bolsonaro e espichando o braço para trás enquanto conversa com outra pessoa. Para o ex-presidente, há de ter sido um susto!

Logo em seguida, ele teve de embarcar num voo comercial (coisa que não fazia havia anos), espremido como qualquer cidadão comum. Ouviu aplausos, mas também teve de aguentar gritos hostis. Parece que não dormiu durante a viagem. Ao desembarcar, não viu multidão nenhuma. Foi levado em viatura da PF até a sede de seu partido. Na porta, esperando por ele, havia meia dúzia de gatos pingados.

À noite, depois que uma dia calamitoso o fez cair na real, acho que ele teve de tomar remédio pra dormir.

Ai, ai, ai. A dor de ser ex é a dor de quem era mas deixou de ser. E com pouca esperança de voltar a ser.

10h10

Relógios novos – Todos marcam 10h10 (clique para ver)

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a graciosa leitora já tenham reparado numa característica dos relógios novos expostos à venda: todos marcam 10h10. Se não prestou atenção, pode botar reparo. É curioso, não? E qual seria a razão dessa uniformidade? Teorias, há várias.

A mais sofisticada conta a história da introdução da hora de referência universal (GMT). Foi um acordo multinacional assinado ao fim da Conferência Internacional de Washington de 1884. Vinte e cinco países debateram durante quase um ano. A adoção não foi  por unanimidade: dos 25 países participantes, só 22 aprovaram que o meridiano de Greenwich fosse oficializado como marco zero das longitudes. Brasil e França se abstiveram, enquanto a República Dominicana votou contra. Mas a maioria venceu e a introdução da hora universal foi oficializada. O documento final foi assinado exatamente quando os relógios marcavam 10h10. Por esta hipótese, a hora mostrada até hoje pelos relógios novos seria uma homenagem ao Acordo de Washington.

Uma segunda explicação, embora também histórica, é um bocado tétrica. Relata que o infeliz Luís 16, rei da França destronado pela Revolução Francesa, subiu ao patíbulo exatamente às 10h10 para ser guilhotinado. O relato é de arrepiar. Muitos acreditam que, até hoje, os relógios novos marcam a hora desse regicídio.

Uma terceira versão, não de todo fantasiosa, fala da mensagem positiva transmitida de modo subliminar pelos ponteiros apontando pra cima, formando o V da vitória. De fato, um par de ponteiros marcando 8h20 (e apontando para baixo) evocaria tristeza e desencorajaria clientes potenciais.

Há uma última explicação, que aliás me parece lógica e credível. A marca comercial do relógio costuma aparecer no alto do mostrador, logo abaixo do número 12. Com o relógio marcando 10h10, o nome comercial cabe entre os ponteiros e fica visível. E ainda homenageia o Acordo de Washington e o rei decapitado. De quebra, o V transmite mensagem positiva. Que mais se pode desejar?

O Estadão continua a vasculhar os presentes dados a Bolsonaro nos anos em que ele foi presidente. Descobriram mais um estojo da Maison Chopard (Genebra) contendo: uma caneta, um par de abotoaduras, um anel, um masbaha (rosário muçulmano) e… um relógio Rolex. Todas as peças são de ouro branco e cravejadas de diamantes. Um mimo estimado, por alto, em meio milhão de reais, estimação que me parece até baixa levando em conta o prestígio do joalheiro genebrino. Pode valer bem mais que isso.

O conjunto, cuja foto está aqui abaixo, foi oferecido pelo príncipe da Arábia Saudita diretamente a Bolsonaro. Entregue em mãos. Sem cerimônia, o então presidente entendeu que o presente era objeto de uso pessoal. Não foi esclarecido qual seria a contraparte de tamanha “generosidade” dos príncipes árabes. Um dia talvez fiquemos sabendo.

Uma olhada ao relógio informa que ele não marca 10h10. Sabendo que todos os relógios novos (mormente os de luxo) mostram a mesma hora, conclui-se que Bolsonaro, o feliz destinatário do regalo, já tinha usado a joia antes mesmo de confiá-la aos almoxarifes do Planalto para ser fotografada, registrada e encaminhada a seu acervo pessoal.

Fica agora a curiosidade. Em que ocasião o capitão teria dado corda no relógio, acertado a hora e afivelado a pulseira?

Dificilmente teria sido no dia em que comeu farofa com as mãos – o relógio teria aparecido na foto.

Tampouco foi no dia em que convocou o corpo diplomático para dar a Suas Excelências a crucial informação de que as eleições brasileiras eram fraudadas.

Uma possibilidade é que ele tenha usado o Rolex numa motociata.

Ou talvez, hipótese plausível, tenha simplesmente dormido com ele e sonhado que era imperador.

A armação do Moro

NaniHumor.com

José Horta Manzano

Sabe aquela do tiro que sai pela culatra? Vamos aos fatos.

Houve um momento, faz poucos anos, em que o juiz Sergio Moro era reverenciado por boa parte da população. Tirando petistas de raiz, descontentes com as investigações que mandavam companheiros para a Papuda, os brasileiros estavam animados com a Operação Lava a Jato. Muita gente chegou a acreditar que a “limpa” ia erradicar a corrupção política no país. Moro estava prestes a entrar para o panteão nacional.

Deslumbrado com seu momento de ator, o juiz abandonou a toga e colou em Bolsonaro. Verdade seja dita, a vitória do capitão em 2018 se deve em parte à imagem do Xerife de Curitiba. Muita gente acreditou que Bolsonaro tivesse realmente intenção de enterrar a corrupção. Que nada, enterrou mesmo foi a Lava a Jato.

Escanteado e desprestigiado, o ex-juiz saiu atirando e renunciou à companhia do capitão. Tornou-se ex-ministro. Sua travessia do deserto levou alguns anos. Sem muita esperança, candidatou-se ao Senado em 2022. Foi eleito. Mas o problema é que ele já estava numa espécie de limbo, brigado com Lula e com relação bamba com Bolsonaro.

Tomou posse de seu assento de senador. Não devia estar se sentindo confortável, dado que é hostilizado por lulistas e olhado com desconfiança por bolsonaristas. Estava destinado a passar os próximos anos atolado, uma ex-estrela, um astro apagado.

Eis que de repente, a espuma fria do ódio aflorou à boca de nosso velho presidente. Lula ofereceu a Moro o posto de melhor inimigo. Esta semana, em duas ocasiões declarou em público toda a raiva que ele guarda do homem que o julgou. Como resultado, o antigo astro de Curitiba – que já foi a coqueluche de meio Brasil mas que agora percorria as penumbras do Senado feito alma penada – voltou à ribalta.

Se o Lula continuar a dirigir os holofotes para Sergio Moro (e tudo indica que continuará), dará ao ex-juiz a grande oportunidade de sua vida: eclipsar Bolsonaro e apresentar-se como candidato à Presidência em 2026.

O distinto leitor já imaginou: elegemos o Lula pra tirar Bolsonaro e agora perigamos ter de eleger Moro pra tirar o Lula? Que dança de cadeiras mais extravagante!

Vou ficar bem quando f**** com o Moro

José Horta Manzano

Logo de entrada, vamos relevar o palavreado de botequim (em linguagem moderna: passar pano). No passado, o Lula costumava escorregar de vez em quando, mas Bolsonaro elevou o calão à categoria de linguajar oficial do Planalto.

A pérola que o Estadão destaca na chamada reproduzida acima foi solta pelo presidente em extensa entrevista concedida à TV Brasil 247, rodada em pleno Palácio do Planalto.

As tristezas e as mágoas que persistem no coração do presidente são legítimas. O ressentimento que ele guarda contra o juiz que o condenou é compreensível. O Lula tem direito de desabafar com família e amigos. Já falar disso ao grande público é outra coisa.

Quando o presidente revela a todos os brasileiros a sede de vingança que lhe rói a alma, comete uma imprudência e dá um tiro no pé. Sem obter vantagem nenhuma.

A imprudência é a ameaça velada externada contra um hoje senador da República. Não sei que tipo de ameaça se esconde por trás do termo f****, mas coisa boa não é. Se amanhã algo feio acontecer com Moro, muitos olhares hão de se voltar contra Lula.

O tiro no pé é mais grave. Logo no discurso de vitória proferido na noite do segundo turno, Lula prometeu governar para todos os brasileiros (os que votaram nele e os demais) e que era hora de restabelecer a “paz entre os divergentes”. Agora, ao revelar publicamente que carrega um desejo de vingança tão entranhado, o presidente contradiz o lindo pronunciamento inicial e mostra que tudo não passava de palavras vazias escritas por algum discurseiro a soldo.

Ao fim e ao cabo, Lula:

  • mostra uma incômoda proximidade com o antigo presidente, aquela verborragia pesada que muitos gostariam de esquecer;
  • traz de volta o nós x eles, ao alargar o fosso entre dois campos políticos;
  • revela uma faceta inquietante de sua personalidade: tem espírito vingativo.

Além de tudo, Lula perde mais do que ganha. Se a eleição fosse hoje, uma fala desastrada como essa poderia fazê-lo perder sua estreita margem de votos e entregar a vitória ao adversário.

A eleição não é hoje, mas a impressão de ser um presidente rancoroso fica.

Os sucessores

José Horta Manzano

Essa foto sorridente foi tirada estes dias. Embora nenhum dos onze personagens apareça envolto na bandeira nacional, o fato de carregarem uma foto do antigo presidente – de faixa presidencial e tudo – deixa supor que sejam bolsonaristas. De alto coturno, sem dúvida, mas bolsonaristas.

Se não, vejamos. A ausência de diversidade do grupo é típica dos seguidores do capitão. É o retrato de um Brasil uniforme, que só existe nos sonhos deles, bem longe do Brasil real. Na foto, são onze homens e nenhuma mulher. São todos brancos sem mistura. Tirando um ou outro, estão todos na força da idade – nem muito jovens, nem muito velhos.

Estão todos bem alimentados, sem exagero. O infalível personagem que simboliza o atirador anabolizado, primitivo e supertatuado também aparece. O onipresente filho n° 03 também está lá. Dos onze participantes, cinco ostentam pelos faciais, que lhes acentuam a imagem de virilidade. O personagem anabolizado é justamente o mais barbudo, sabe-se lá por que motivo. Por alguma razão pessoal, os demais dispensam essa marca de masculinidade.

É curioso que a confraria tenha julgado necessário exibir uma foto do ex-presidente fugido. Mostrar retrato de pessoa viva é raro. É mais comum ver grupos ostentando a foto de um ente querido que já não está mais neste mundo. Quando eu era jovem, por exemplo, me lembro que nossas fotos de família eram tiradas contra uma parede onde estava pendurado um retrato do avô falecido décadas antes.

A inserção da foto do capitão é enigmática. Não ficou clara a mensagem que o grupo quis passar. Tudo depende da disposição de espírito dos confrades. Há diversas possibilidades.

Disposição de espírito branca
“Somos apóstolos do capitão e ele continua sendo nosso guia. Aqui está a prova.”

Disposição de espírito amarela
“Nosso mestre está no momento fora do ar, mas ele volta logo. Ele é este aqui, ó!”

Disposição de espírito laranja
“Bolsonaro iniciou a ascensão da extrema direita. Agora, com ele ou sem ele, vamos seguir em frente.”

Disposição de espírito vermelha
“OK, ele está politicamente morto e talvez não volte nunca mais. Mas não estamos tristes, não, pelo contrário. Repare no nosso sorriso!”

O imperador africano

Sagração de Bokassa 1°

José Horta Manzano

O século 19 marcou o apogeu da colonização da África pelas potências europeias. No final do século, o continente estava fatiado e repartido entre poucos países colonizadores. França e Inglaterra detinham a parte do leão. Os ingleses controlavam boa parte da costa Leste, enquanto os franceses mandavam no Oeste – aquela protuberância rombuda da África, que se projeta no Oceano Atlântico.

As potências europeias saíram enfraquecidas da Segunda Guerra mundial. O nacionalismo africano encontrou terreno fértil para se afirmar. Nos anos 1950-1960, não houve como segurar o movimento: uma a uma, foram pipocando novas nações recém-independentizadas.

A República Centro-Africana alcançou a independência em 1960. Trata-se de um território sem saída para o mar, pouco populoso mas de bom tamanho (maior que a França e maior que o estado de Minas Gerais).

Nas primeiras décadas após a onda de independência, a França conservou forte influência sobre as antigas colônias. Hoje em dia, a presença francesa é menos marcante mas, naquele tempo, Paris era o fazedor de reis. Para ser bem sucedido, todo golpe de Estado tinha de ter o apoio do antigo colonizador.

Em 1965, por meio de um golpe e com apoio francês, Jean-Bédel Bokassa foi alçado à liderança da África Central. Enquanto o governo do novo ditador seguia conforme aos interesses de Paris, tudo foi bem. Em 1976, deslumbrado com o poder, Bokassa inventou que queria transformar o país em império, e que ele seria o imperador. Assim foi feito. Houve festa de coroação, com trono, manto, cetro, coroa, diamantes e pedras preciosas. Um remake da sagração de Napoleão.

Tornado imperador, Bokassa impôs uma política autoritária e excessivamente repressiva. Sua política tomou nova direção, que contrariava os interesses franceses. Três anos depois da proclamação do império, Bokassa foi destituído por um golpe de Estado fomentado e financiado pela França. Isso aconteceu em setembro de 1979.

Um mês depois, em outubro de 1979, o Canard Enchaîné, popular semanário francês de sátira política, revelou que Valéry Giscard d’Estaing, presidente da França, tinha sido presenteado pelo imperador Bokassa com 30 quilates de diamantes. Considerando que o preço médio do diamante lapidado é de 12.000 euros por quilate, isso dá um total de 360 mil euros (R$ 1,8 mi). O escândalo se alastrou mais rápido que fake news.

Giscard d’Estaing estava em plena campanha de reeleição à Presidência. A notícia não podia cair em momento pior. A oposição fez a festa e ajudou a pisar na ferida. Abafa daqui, abafa dali, a história nunca foi elucidada preto no branco. Fica ao gosto do freguês. Por minha parte, acredito que o propagador da notícia tenha sido o próprio imperador africano destituído. Foi vingança pelo golpe de Estado que o arrancou do trono, fomentado pelo governo francês. O caso entrou para a história como Les diamants de Bokassa (Os diamantes de Bokassa).

Giscard d’Estaing acabou perdendo a reeleição. O desastre de imagem causado pelos diamantes do imperador há de ter contribuído para a derrota.

Estourou semana passada, no Brasil, o caso dos diamantes de Bolsonaro. Assim que fiquei sabendo, lembrei imediatamente dos “diamants de Bokassa”. Se a história das pedras das Arábias tivesse vindo à tona antes, Bolsonaro poderia até ter perdido a eleição. Mas… que bobagem estou dizendo! Ele já foi derrotado!

A saga dos diamantes ainda vai dar pano pra manga. Ninguém dá um presente de 3 milhões de euros sem ter um bom motivo pra isso. Reis, xeiques e emires são podres de ricos, mas nem por isso saem distribuindo milhões assim, sem mais nem menos. Alguns pontos ainda estão nebulosos.

Por que razão esse mimo milionário foi dado a Bolsonaro? Qual foi a contrapartida?

Outra curiosidade é o fato de ter sido necessário designar o sub do sub para viajar à Arábia, tomar posse da encomenda e embarcar num avião de volta carregando essa fortuna numa mochila(!). Por que é que Bolsonaro não trouxe na bagagem presidencial? Por que é que o presente não veio por mala diplomática árabe, para ser entregue ao capitão em Brasília?

Quem sabe um dia teremos as respostas. Ou será que o escândalo vai continuar enevoado para todo o sempre?

Carnaval visto da Escandinávia

“Turistas se aglomeram na volta da festa de rua no Rio de Janeiro”
“No tempo de Bolsonaro no poder, muitos eram contra o carnaval”

José Horta Manzano

O jornal sueco Dagens Nyheter é o maior e mais importante diário não só da Suécia mas de toda a Escandinávia. Estes dias, seu correspondente permanente no Brasil, baseado no Rio de Janeiro, escreveu um artigo (acompanhado de um vídeo) sobre o carnaval.

A primeira frase da reportagem dá o tom:

“Pela primeira vez desde que a pandemia estourou, o carnaval de rua está de volta ao Rio de Janeiro. Centenas de milhares de pessoas são esperadas para comemorar dançando nas ruas neste fim de semana. Como Bolsonaro não é mais presidente do Brasil, mais turistas vieram.

O resto segue na mesma linha.

Mas que diabos tem Bolsonaro a ver com o carnaval? Na visão de muita gente, o capitão é desmancha-prazeres de marca maior. Sem a presença dele, a festa é mais alegre.

A perna curta

“Segundo mídia brasileira, Bolsonaro foi vacinado contra a covid”

 

José Horta Manzano


Mentira tem perna curta, todo o mundo sabe disso.


E o ditado vale para todos, sem exceção. Quem mente muito acaba desmascarado com frequência.

O capitão Bolsonaro, que um dia governou este país, entra na categoria dos mentirosos compulsivos. Para o ouvinte de cabeça fria, destrinchar o que ele diz e separar o falso do verdadeiro é um desafio.

Desde que se instalou a pandemia de covid, o capitão não deixou escapar nenhuma ocasião para zombar do povo maricas que tinha medo da doença. Assim que surgiu a vacina, montou uma cruzada contra ela. Disse que todos tinham de fazer como ele, que era homem de verdade e que recusava a vacina. Preferia cloroquina.

Muitos adeptos do presidente engoliram essa gororoba, esnobaram a vacina anticovid e ainda proibiram os filhos de se vacinarem contra doenças infantis. Um triste desastre.

Empacado, Bolsonaro jurou de pés juntos nunca ter se vacinado contra a covid. Apesar disso, impôs 100 anos de sigilo aos dados de seu cartão de vacinação. O Brasil ficou com a pulga atrás da orelha. Se é verdade que não se vacinou, por que diabos esconde o cartão? Aí tem treta.

Com o capitão derrotado nas urnas e fugido para o exterior, o mistério é agora desvendado. Por fim, é conhecida a razão do sigilo secular: ele se vacinou sim. Que desmoralização, capitão! O distinto leitor e a simpática leitora poderão argumentar que, pra se desmoralizar, é preciso antes ter moral. Mas essa já é uma outra história.

Homiziado na Florida, Bolsonaro foi obrigado a reagir. Negou com veemência ter se vacinado e alegou que o registro é obra de algum pirata informático mal-intencionado. Exaltado, ameaçou entrar com processo contra o ministro da CGU que desvendou o segredo. Quá!

Realmente, o capitão estava convencido de que ia continuar no poder indefinidamente, com reeleição ou golpe, tanto faz. Imaginava que, enquanto estivesse vivo, ninguém jamais teria acesso a seu registro vacinal.

A reeleição não veio, o golpe gorou, outro presidente está no Planalto. E o mentiroso da perna curta levou um tombo e caiu de boca.

E agora? Como se justificar perante os devotos por seus conselhos furados? Como explicar atitudes do tipo “faça o que eu digo, não o que eu faço”?

Sem problema: seus seguidores acreditam em qualquer historinha, por mais esfarrapada que seja, desde que venha da boca do ex-não-vacinado. Cada um acredita no que quer, não é mesmo?

Bolsonaro no exílio

José Horta Manzano

Fugido do Brasil e autoexilado nos EUA, Bolsonaro sopra o calor e o frio. Um dia, diz que está de malas prontas para voltar; dia seguinte, informa que o retorno não tem data marcada. Ora vem, ora não vem.

Por age assim? Acredito que basicamente é pra mostrar-se vivo. Se, além de sumir de circulação, ficasse quietinho, seria dado por morto e descartado como carta fora de jogo.

É verdade que todos os seus planos foram por água abaixo e não lhe resta nenhum mourão ao qual se agarrar. As Forças Armadas do Brasil não o acompanharam, Trump não quis saber de recebê-lo, seus aliados estão aos poucos saindo de fininha para entender-se com o Lula. A 8.000 km de distância, com medo de voltar, o que é que o capitão pode fazer além de gesticular?

Observe agora a ilustração acima. É uma montagem de fotos extraídas de filmetes feitos por devotos que pagaram pra ouvir uma “palestra” de Seu Mestre num templo evangélico da Florida sábado passado. As imagens foram tiradas de filmezinhos amadores, de baixa qualidade, eis por que aparecem meio desfocadas.

Qualquer um pode notar que o ex-presidente engordou – e muito. Nessas fotos, não me parece que estivesse vestido com colete à prova de balas, como costumava andar no Brasil. O diâmetro do capitão é inteirinho dele mesmo. Imagino que a haute cuisine do Planalto esteja fazendo falta. Nos EUA, sozinho naquele casarão sem terreno onde está homiziado, sem a esposa (que já lançou seu grito de independência e voltou a Brasília), deve estar se alimentando de pizza, hambúrguer, batata frita e maionese em dose dupla.

Ao permanecer nos EUA, Bolsonaro dá sossego a muita gente. A ele, pra começar, que vai pra cama sem o pavor de ser acordado pela PF. Para seus devotos, porque a ausência de Seu Mestre mantém acesa a chama sebastianista de um hipotético retorno. E também para os não-bolsonaristas, que preferem vê-lo pelas costas.

Assim, sua ausência convém a todos. Que ele continue na Disneylândia!

Lula nos EUA

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

A imensa vantagem de Lula, em qualquer viagem internacional, é que sua fama chega antes dele. No Brasil, ele venceu a presidencial com 51% dos votos mas, se todos os eleitores dos países democráticos tivessem podido votar, ele teria levado com um placar soviético de 80% ou 90%. Em resumo: no exterior, o demiurgo conta com enorme capital de simpatia.

Em matéria de ideologia, Lula continua o mesmo. (Aliás, ninguém costuma mudar – algum ângulo mais pontudo da personalidade pode até ser limado, mas a essência permanece.) Pelas contas, estamos na versão Lula 3.0, mas o presidente continua empacado no ideário que já adotava nos tempos de líder sindical. O antagonismo entre “nós” e “eles” é marca de sua personalidade. O vitimismo do oprimido que se revolta contra o opressor está na base de sua cartilha.

Ele persevera na ideia de que redistribuição de riqueza se faz por decreto – daí a guerra declarada contra a política de juros do Banco Central. Lula realmente acredita que bastaria baixar os juros para eliminar a carestia. Não entende (ou não quer entender) que a economia não é ciência exata, e que qualquer mexida num dos pilares pode fazer o edifício desmoronar. Com juros baixos, capitais estrangeiros que hoje garantem o funcionamento do Estado brasileiro vão fugir em busca de mercados mais atraentes. Acontecendo isso, o governo trava.

Se Biden tocar no assunto da invasão da Ucrânia pelos russos, o fará por pura formalidade. O presidente americano já conhece a posição de Lula e sabe que não adianta insistir. De todo modo, para os EUA, um Brasil “neutro” é sempre melhor que um Brasil “solidário à Rússia”, como Bolsonaro um dia garantiu a Putin.

Lula adora navegar entre siglas que lhe parecem importantes. Sons como OEA, Mercosur, Celac, OCDE, Unasur são bálsamo para seus ouvidos. O Brics faz parte desses clubes. Aliás Lula acaba de indicar Dilma Rousseff para presidente do Banco do Brics, com sede em Xangai (China). A Rússia também faz parte do Brics. Com sua lógica peculiar, Lula acredita que não fica bem o Brasil por um lado, ser sócio da Rússia, e por outro condenar a invasão da Ucrânia. Prefere prestigiar o companheiro Putin, colega de clube, e dar de ombros para o povo ucraniano, que sofre as penas do inferno.

Nosso presidente dá preferência a manter acordos comerciais enquanto fecha os olhos para o massacre intencional de milhões de seres humanos promovido por Moscou no território de um país soberano. É o mesmo raciocínio que o faz apoiar gente asquerosa como os irmãos Castro de Cuba, Nicolas Maduro da Venezuela, Daniel Ortega da Nicarágua, Bachar El-Assad da Síria, os aiatolás do Irã, ditadores africanos.

Lula é considerado humanista. Pois é estranho que um humanista dê preferência a sacrificar um povo inteiro no altar das boas relações entre companheiros, mas a realidade é essa. Parece que a máscara de “pai dos pobres” de Lula é só pra inglês ver.

A viagem a Washington, por seu lado, não vai resultar em grandes avanços nem fortes recuos. Para Biden, será a ocasião de mostrar que o Brasil continua um grande aliado, não armado e não belicoso. Para Lula, vai marcar um início de mandato com pé direito, sendo recebido com honras pelo chefe de Estado mais poderoso do planeta. E os ucranianos que se danem.

Não foi ideia minha!

José Horta Manzano

Sou assinante de um portal de língua espanhola que me manda, entre outros temas, interessantes informações de etimologia. Cada post vem ilustrado com uma imagem que evoca o assunto.

A “Palabra del día” de hoje era energúmeno, que tem a mesma grafia e praticamente a mesma pronúncia em espanhol e português. Para ilustrar, os autores escolheram uma sugestiva foto do ex-presidente Bolsonaro. Devem ter achado que era a tradução mais fiel do sentido de energúmeno.

O post no site original está aqui.

Frase que não deveria ter sido pronunciada

José Horta Manzano

O presidente Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira que os atos golpistas de 8 jan° representaram

“a revolta dos ricos que perderam a eleição”.

A frase, que ressuscita um “nós x eles” de triste memória, não serve a nenhum público.

* Os que votaram em Bolsonaro não vão passar a apreciar Lula.

* Dos que não votaram em Bolsonaro, a maior parte não vê “ricos” nos vândalos da Praça dos Três Poderes. Ao contrário, enxerga uma tropa de indigentes – físicos e mentais.

* Os que não se encaixam nas categorias acima são os que não costumam ler jornal nem seguir as falas do Lula.

Portanto, a frase faz mais mal do que bem. Parodiando Romário, o Lula calado é um poeta.

Resenha – 4

by Pedro Silva, desenhista português

José Horta Manzano

Descartável
Doutor Anderson Torres, que foi ministro da Justiça aos tempos de Bolsonaro, foi colhido pela PF ao desembarcar de voo que o trazia de volta de suas ‘férias’ em Orlando. Foi então conduzido a um destacamento da Polícia Militar de Brasília onde está preso há três semanas.

Ontem, o doutor deu depoimento. Indagado sobre a minuta de decreto golpista encontrada entre seus guardados, declarou que considera a dita minuta “totalmente descartável” e, mais que isso “sem viabilidade jurídica”.

O doutor não explicou o que é que um papel “totalmente descartável” fazia entre os documentos conservados em sua residência. Se era descartável, deveria ter sido descartado. Por que não o foi?

Ao declarar que o decreto golpista é “sem viabilidade jurídica”, o doutor chove no molhado. Golpe de Estado significa exatamente a quebra de ordem jurídica. Dizer que ele é “sem viabilidade jurídica” é uma evidência, um truísmo.

Em matéria de esclarecimento, o depoimento foi de soma zero.

Do porão
Assustado com as múltiplas tentativas de golpe de Estado que permearam os últimos meses da gestão bolsonárica, doutor Gilmar Mendes (STF) declarou que “a gente estava sendo governado por uma gente do porão”.

Se qualquer um de nós, cidadãos comuns, fizéssemos esse comentário, o mundo não viria abaixo. Mas quando Gilmar Mendes, conhecido como “o ministro que mais solta bandido”, faz a mesma observação, vale o dobro. Fica patente que essa gente é do porão mesmo.

Italiano
Bolsonaro disse que é italiano e que, se quiser tirar os documentos, basta solicitá-los, que a burocracia não será pesada. Tem razão o ex-presidente. O que ele não disse, talvez por não saber, é que a Itália não é o porto mais seguro para fugitivos da lei. Nenhuma lei do país impede a extradição de nacionais.

Já tivemos um caso famoso, o de Henrique Pizzolato. Binacional, o condenado na Lava a Jato se homiziou na Itália. O governo brasileiro solicitou extradição e, depois de uma batalha judicial, a Itália acabou entregando Pizzolato à PF, que o levou direto de Roma para a Papuda.

Portanto, a nacionalidade italiana pode ser útil para cidadãos brasileiros comuns. Para um Bolsonaro condenado, não é destino recomendável.

Enquanto isso
Inconformado ao ver que uma das mais importantes instituições da República escapa ao seu controle, Lula dá sinais de querer “rever” a autonomia do Banco Central. Para não chacoalhar o mercado, diz que a ideia só será posta em prática após o término do mandato do atual presidente do banco.

Lula não tem jeito. Com os pés cravados nos anos 1970, não consegue (ou não quer) entender que a absoluta independência do banco emissor é ponto importante no sistema de pesos e contrapesos de uma democracia vigorosa. É assim que funciona em todos os países democráticos.

Doutora em Ginecologia
Uma cirurgiã-ginecologista francesa, que oficia no hospital de Bordeaux (sul da França), gosta de cantar. Já na sala de operações, antes de iniciar o procedimento cirúrgico, canta para tranquilizar a paciente.

Embalados por sua bela voz, os “gospels” têm feito sucesso desde que foram publicados nas redes. Veja aqui.

Resenha – 3

by Guy Valls (1920-1989), desenhista francês

José Horta Manzano

A queda
Quando o cidadão está lá em cima, forte e poderoso, é cortejado por todos. Já quando desce do pedestal, vai aos poucos escorregando para o ostracismo. O caso de Bolsonaro é mais grave ainda. Dado que, quando presidente, exorbitou, ofendeu, insultou, extrapolou e magoou, sua queda dramática o transforma em indivíduo tóxico. Todos o abandonam e ninguém quer ter o próprio nome ligado a ele. A queda é vertiginosa.

Nos EUA, numerosos parlamentares fazem pressão sobre Joe Biden para que dê um jeito de impedir a estada do capitão em território estadunidense. Que seja expulso o mais rápido possível.

Na Itália, parlamentares horrorizados com os acontecimentos de Brasília também se insurgem contra o capitão. Ele não se encontra na Itália (por enquanto), mas sua figura paira como mancha indesejada. É que em novembro de 2021, em sua passagem pela Itália, Bolsonaro recebeu uma homenagem por parte da prefeita da cidadezinha de origem de seus antepassados. Concederam a ele a cidadania honorária do município de Anguillara Veneta. Depois do golpe de Estado fracassado do 8 de janeiro, diversos eleitos pressionam a prefeita para que anule o título concedido. Não querem ver o nome da cidadezinha associado ao do “Trump dos trópicos”.

Na minha visão, é uma bênção que Bolsonaro esteja no exterior. A cada dia longe da pátria, sua fama de fujão vai se afirmando e sua aura vai empalidecendo. Dependesse de mim, faria tudo para que ele nunca mais pisasse solo brasileiro. Quanto mais longe estiver, melhor será. O homem é nocivo e perigoso demais.

Ecos do 8 de janeiro
Encontrei na imprensa alemã as expressões mais veementes para descrever os terríveis acontecimentos de nosso 8 de janeiro em Brasília.

A malta que invadiu os palácios foi chamada de “Armee des Wahns”, ou seja, Exército da Loucura. Excelente definição.

Li também a afirmação seguinte: “Die Wut der Massen entstammt dem Gift des Populismus”, que se traduz por “A fúria das massas tem origem no veneno do populismo”, uma verdade histórica.

Parafraseando movimentos como a “Internacional Socialista” e a “Internacional Operária”, a mídia alemã tascou outra boa etiqueta para a turba:
“Die Internationale der Verschwörungsgläubigen”, que é
“A Internacional dos Crentes da Conspiração”.

Avaliação Lula x Bolsonaro
Pesquisa do Ipec apura que 55% dos brasileiros acreditam que o governo Lula será melhor que o governo Bolsonaro. Deduz-se que os demais, ou seja 45% dos brasileiros, são de outra opinião. Os números (55% x 45%) se aproximam do resultado do segundo turno (51% x 49%). Em outros termos, quem votou no Lula acha que o novo governo será melhor que o anterior. E quem votou Bolsonaro persiste em acreditar que bom mesmo era antes. Nem precisava de pesquisa.

Roraima
Bolsonaro passou quatro anos hostilizando a Venezuela, fechou embaixada, tirou pessoal diplomático, diabolizou o regime. Esbravejou e cantou de galo em cima do desprezível vizinho. Mas não se preocupou em conectar a rede de energia elétrica roraimense à rede brasileira. Roraima é o único estado da Federação cuja rede elétrica é desconectada do resto do país. Até hoje, é a Venezuela que fornece energia ao estado.

O capitão bradava: “Que ninguém ouse botar a mão na Amazônia!”, enquanto entregava a segurança energética de um vasto pedaço de nossa Amazônia aos caprichos de um ditador estrangeiro. Mais uma vez está feita a prova de que o nacionalismo dele é só de fachada, pra inglês ver.

Surpreendente
Em carta escrita nesta quarta-feira 18 janeiro 2023 e endereçada aos dirigentes do mundo inteiro, que estão atualmente reunidos no Fórum Econômico de Davos (Suíça), mais de 200 bilionários provenientes de 13 diferentes países afirmam que querem pagar mais impostos. Estudos especializados indicam que o patrimônio dos ultrarricos aumentou em 50% nos últimos dez anos.


“Vocês, nossos representantes no mundo, têm de aumentar nossos impostos, e isso tem de começar agora. Trata-se de uma medida simples e de bom senso.”

Trecho da carta


Na lata, ao tomar conhecimento da carta, o ministro francês da Economia convidou todos a irem morar na França. Explicou que se tratava de um dos países onde se pagam mais impostos no mundo e completou: “Saberemos cobrar de todos vocês”. Bem-vindos!