Copa vista de longe

José Horta Manzano

Grande parte dos jogos da Copa 2026 foram disputados em horário pouco conveniente para habitantes da Europa. Com início às 23h, à 1h da madrugada ou até mais tarde, só assistiram os muito fanáticos, coisa que não sou.

Assim sendo, até as semifinais, não vi nenhum jogo, nem mesmo os do Brasil. Aliás, eu diria, em especial os do Brasil. É que, quando joga a Seleção nacional, a tensão do torcedor é de infarto, e convém preservar corações já bem gastos como este aqui.

Sou admirador bissexto do futebol. Só volto a me interessar a cada quatro anos, em tempos de Copa do Mundo. Ou também quando passam o Euro (Campeonato Europeu da UEFA), que é como uma Copa sem Brasil e Argentina.

Assisti ao jogo Espanha 2 x França 0, um belo espetáculo. Muita gente imaginava que os franceses fossem ligar o rolo compressor e esmagar os espanhóis. Não foi o que aconteceu. Não se sabe bem por quê, foram os espanhóis que dominaram, especialmente no primeiro tempo. Muito impressionante.

O árbitro era um homem baixo, de tez morena, da terra do ditador Bukele. Depois do jogo, em desabafo de perdedor, o treinador francês perguntou publicamente se “o árbitro estava à altura de apitar uma quarta de final da Copa do Mundo”. Indignada, a FIFA se empertigou para declarar que todos os seus árbitros são de nível mundial.

Eu me pergunto se, digamos, o árbitro tivesse sido um alemão de pele clara, olhos azuis e dois metros de altura, será que o treinador teria ousado atirar nele a culpa pelo calamitoso fracasso de sua seleção? Duvido. É nessas horas que a gente se dá conta de que a culpa de toda a miséria do mundo é sistematicamente atirada nas costas do cidadão pobre e com cara de frágil.

Ontem assisti à batalha entre Argentina e Inglaterra. O que os torcedores presentes no estádio fizeram foi feio. Vaiaram o hino britânico. A um volume tal, que não deu pra ouvir nenhuma palavra. Acho que o momento dos hinos é importante. Não se deve emporcalhar o símbolo do país adversário. O que eles fizeram é pura falta de civilidade. É de se perguntar de onde saiu aquela gente, que pagou milhares de dólares por um banco duro e que se sentiu no direito de ofender todo um povo.

Os ingleses foram muito bem no primeiro tempo. O gol deles não foi roubado. Não entendi uma coisa: a certa altura (as câmeras mostraram), o técnico teles, que é alemão, pôs-se a esbravejar, aos berros, andando para um lado e para o outro, puxando o braço do 4° árbitro. Esse descontrole é muito negativo para seu próprio time. Transmite insegurança e nervosismo. Nota zero.

Já o técnico argentino é indecifrável como uma múmia. Faz ele muito bem. Ainda que esteja em ponto de bala, não transmite insegurança a seus comandados. No segundo tempo, ficou a impressão de que a Inglaterra parou de jogar. Trancaram-se em frente à própria área imaginando poder segurar a Argentina.

Isso é estratégia para cinco ou dez minutos. Mas não dá pra segurar um magro 1 x 0 por 45 minutos. Deu no que deu. De tanto tentar, a Argentina conseguiu enfiar dois gols. E garantir um lugar no pódio de domingo.

Vamos esperar que a grande final seja menos agressiva que esta última semifinal. Todos agradecerão.

A armação do Moro

NaniHumor.com

José Horta Manzano

Sabe aquela do tiro que sai pela culatra? Vamos aos fatos.

Houve um momento, faz poucos anos, em que o juiz Sergio Moro era reverenciado por boa parte da população. Tirando petistas de raiz, descontentes com as investigações que mandavam companheiros para a Papuda, os brasileiros estavam animados com a Operação Lava a Jato. Muita gente chegou a acreditar que a “limpa” ia erradicar a corrupção política no país. Moro estava prestes a entrar para o panteão nacional.

Deslumbrado com seu momento de ator, o juiz abandonou a toga e colou em Bolsonaro. Verdade seja dita, a vitória do capitão em 2018 se deve em parte à imagem do Xerife de Curitiba. Muita gente acreditou que Bolsonaro tivesse realmente intenção de enterrar a corrupção. Que nada, enterrou mesmo foi a Lava a Jato.

Escanteado e desprestigiado, o ex-juiz saiu atirando e renunciou à companhia do capitão. Tornou-se ex-ministro. Sua travessia do deserto levou alguns anos. Sem muita esperança, candidatou-se ao Senado em 2022. Foi eleito. Mas o problema é que ele já estava numa espécie de limbo, brigado com Lula e com relação bamba com Bolsonaro.

Tomou posse de seu assento de senador. Não devia estar se sentindo confortável, dado que é hostilizado por lulistas e olhado com desconfiança por bolsonaristas. Estava destinado a passar os próximos anos atolado, uma ex-estrela, um astro apagado.

Eis que de repente, a espuma fria do ódio aflorou à boca de nosso velho presidente. Lula ofereceu a Moro o posto de melhor inimigo. Esta semana, em duas ocasiões declarou em público toda a raiva que ele guarda do homem que o julgou. Como resultado, o antigo astro de Curitiba – que já foi a coqueluche de meio Brasil mas que agora percorria as penumbras do Senado feito alma penada – voltou à ribalta.

Se o Lula continuar a dirigir os holofotes para Sergio Moro (e tudo indica que continuará), dará ao ex-juiz a grande oportunidade de sua vida: eclipsar Bolsonaro e apresentar-se como candidato à Presidência em 2026.

O distinto leitor já imaginou: elegemos o Lula pra tirar Bolsonaro e agora perigamos ter de eleger Moro pra tirar o Lula? Que dança de cadeiras mais extravagante!