Rolê ao molho alemão

Riem 1

Centro comercial Riem
Munique, Alemanha

Na Alemanha também tem… rolezinho, sim, senhor!

O estilo alegre e o semblante descontraído dos participantes é indicação certeira de que não estão infringindo regras nem driblando repressão.

A coreografia e os sons são um bocadinho diferentes do que se costuma fazer na Tupiniquínia. Alemão, sacumé, é mais organizado, mais preciso.

Conseguem surpreender os frequentadores sem amedrontá-los. Merecem aplausos no final.

Para assistir, clique aqui.

Dar asilo aos perseguidos

José Horta Manzano

Alimentar quem tem fome, agasalhar quem tem frio, consolar os que choram, proteger os indefesos, abrigar os perseguidos. São princípios universais, base de toda sociedade organizada e termômetro de seu grau de civilização.

O Brasil está rodeado de vizinhos estranhos e imprevisíveis. Alguns até violentos. No tempo em que cada país vivia fechado em seu universozinho, sem grande contacto com o exterior, vizinhos tinham pouca importância. Mas a roda girou e a ordem mundial se alterou.

Com a melhora nos transportes e nas comunicações, a proximidade geográfica passou a ter maior significado nas relações entre os povos. Cinquenta anos atrás, uma viagem internacional ― fosse ela a Assunção ou a Bruxelas ― causava o mesmo pasmo. Era assunto para relatos que duravam meses, anos até. Hoje não é mais assim. A proximidade dos vizinhos tem assumido importância crescente.

Se é um bem ou um mal? Pois não me parece nem um nem outro. É da vida. Tendemos todos a ter mais intimidade com o vizinho de parede do que com o que vive na rua de baixo. E a recíproca é verdadeira: nossos vizinhos também nos veem, mais e mais, como gente digna de atenção e de respeito.

Foi nessa continuidade histórico-política que um senador boliviano, perseguido pelo governo de seu país e sentindo-se por ele ameaçado, buscou asilo na embaixada do Brasil em La Paz. Causou rebuliço em nosso governo popular. Por um lado, princípios universais de convivência ensinam que se deve dar asilo aos perseguidos. Por outro, dar proteção a um desafeto de governante amigo pode ser interpretado como afronta. Que fazer?

Oficialmente, nada se fez. Brasília escudou-se detrás de desculpa cômoda: o governo boliviano se negava a conceder salvo-conduto para o asilado abandonar o país em segurança. No entanto… por baixo do pano, as coisas não se desenrolavam exatamente assim.

Não tivesse a notícia sido publicada pelo Estadão, em sua edição de 14 fev°, não seria de acreditar. Se você não leu, não perca: é edificante. Clique aqui. Sabemos agora que, logo que o senador bateu à porta de nossa embaixada e lá foi acolhido, Brasília e La Paz entabularam tratativas para resolver o problema de maneira indolor para os dois governos e, se possível, infernizando e desgraçando a vida do ousado parlamentar.

O plano era remover de nossa embaixada o refugiado incômodo, instalá-lo num avião venezuelano e despachá-lo para a Venezuela de Chávez ou para a Nicarágua de Ortega ― gente notoriamente confiável e amiga. Para coroar o cenário de sórdida deslealdade, o senador não deveria ser informado do destino final de sua viagem.

Dois motivos impediram o sucesso da infame operação. Primeiro, o asilado não concordou em embarcar num voo de destino ignorado. Segundo, Chávez, apesar do desvelo do ápice do suprassumo da quinta-essência da superior medicina cubana, faleceu. E a urdidura secreta foi por água abaixo. O senador teve de ser resgatado pela compaixão de um funcionário de nossa embaixada, que arriscou seu futuro profissional na empreitada.Roger Pinto 2

O senador refugiado sobrevive hoje em Brasília no quarto de empregada ― perdão! ― no quarto de auxiliar de serviços domésticos do apartamento de um senador brasileiro. É cômodo sem janela, de uns 5 metros quadrados, onde não cabe nem criado-mudo.

É inconcebível que nossos governantes, que, em nome do Estado brasileiro, deram refúgio na embaixada ao político perseguido, não lhe proporcionem o alojamento e a proteção que lhe são devidos. Mais inexplicável é o fato de o terem acolhido em La Paz e de se recusarem agora a confirmar-lhe asilo em território nacional.

Melhor teria feito o señor Molina se tivesse procurado a embaixada de um país civilizado. Fez mau negócio, o infeliz parlamentar.

Copas e Jogos Olímpicos podem servir para anestesiar o distinto público interno. Casos como o do senador boliviano corroem a imagem de nosso país no exterior. É pena.

Frase do dia — 107

«Lobão, com seu humor tragicômico, ironiza acidentes aéreos, que matam. Temos de rezar para que não vire ministro da Aviação Civil.»

Mendonça Filho, deputado federal pernambucano, ao comentar fala do ministro de Minas e Energia. Este último havia declarado que, «assim como aviões, o sistema elétrico “sazonalmente cai”».

Reportado por Vera Magalhães, editora do Painel da Folha de São Paulo.

Frase do dia — 106

«Desta vez, a segunda chance não foi dada ao réu, mas aos juízes necessitados de se redimir do vexame anterior.»

Dora Kramer, em sua coluna in Estadão.
Refere-se ao voto da Câmara Federal que cassou o mandato legislativo do presidiário Donadon.

Natan Donadon disse tudo!

Fernão Lara Mesquita (*)

«O voto aberto vai fazer com que meus colegas votem contra o coração e a vontade deles»

E não é com isso que o Brasil sempre sonhou? Que eles votem SEMPRE contra o coração e a vontade deles e a favor da nossa? Democracia é exatamente isso ― nem mais, nem menos. Estas duas votações em menos de seis meses:

Interligne vertical 7Meio ano atrás: 233 votos pela cassação, 24 a menos que o necessário a 172 pela manutenção do mandato (mais abstenções)

Ontem: 467 pela cassação x 1 abstenção (de outro deputado presidiário)

É a prova do que se tem afirmado desde sempre aqui no Vespeiro: a civilização (que é o outro nome da democracia) não é muito mais que a presença da polícia.

O voto distrital com recall põe polícia na política. É a chegada do xerife a este nosso faroeste dominado pelos bandidos.

Não há povos piores nem povos melhores, «gentinha» nem gentona. O que há são os que já experimentaram e os que ainda não experimentaram. E mesmo entre os que já experimentaram, se tirar a polícia de cima, volta tudo pra trás. Até o Steve Jobs, o Leonardo da Vinci cibernético ― o «inventor da modernidade» ― se tiver certeza de que não vai pagar por isso, vira explorador de menores miseráveis na China.Biscoito surpresa

O voto distrital com recall arma a mão da polícia da política ― que é você ― para que ela possa exigir o cumprimento da lei. E o efeito é imediato e automático, como previa o anteontem ainda deputado e hoje só presidiário. E se é assim diante da simples perspectiva de ser identificado pelo eleitor, imagine o que seria se eles soubessem que o eleitor pode, a qualquer momento, sem manifestação de rua nem bagunça, retirar o voto que lhes garante o emprego.

O recall é isso. Divide-se o número de eleitores pelo número de deputados e cria-se um distrito eleitoral delimitado pela geografia com aquele número de eleitores. Cada candidato só pode pedir votos em um único distrito eleitoral. Se eleito, fica-se sabendo exatamente que eleitores ele representa. E se mijar fora do penico, qualquer eleitor daquele distrito tem direito de passar uma lista pedindo a confirmação do mandato do porcalhão. Se conseguir colher a assinatura de 5% dos eleitores da circunscrição, convoca-se uma nova votação unicamente naquele distrito. Caso o deputado não seja confirmado, seu mandato será cassado. E, se calhar, ele que vá se entender com o Joaquim sobre os direitos que lhe vão restar lá na Papuda.

Isso faz milagres! Muda a vida! Qualquer outra reforma fica fácil de arrancar com essa arma na mão.

Agora que estamos na bica de acabar com essa tapeação dos mascarados assalariados, todo o mundo sabe de quem, quebrando tudo por aí, taí uma boa razão pra você voltar pra rua.

Mas jogue fora o cartaz inútil, por mais engraçadinho que tenha sido o trocadilho usado na última vez. Espalhe esta convocação. Vamos todos pra rua com o mesmo cartaz. Vamos todos exigir a arma que temos direito de carregar pra construir um Brasil do jeito que a gente quer.

VOTO DISTRITAL COM RECALL, JÁ!

Para maiores informações sobre o funcionamento do recall, clique aqui.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Frase do dia — 105

«Não somos cordiais, somos cruéis, e é bom que o mundo se cuide a nosso respeito.»

Ruy Castro, escritor e jornalista, em sua coluna da Folha de São Paulo.
O articulista refere-se às arruaças que desocupados, instrumentalizados por interesses vários, vêm promovendo de uns tempos pra cá.

Picaretas ou covardes?

José Horta Manzano

Num tempo que hoje nos parece antediluviano, nosso messias, recém-eleito deputado federal, debochou da Câmara Federal dizendo que ela abrigava 300 picaretas. O passar do tempo cuidou de aparar as arestas. Bastou que a necessidade surgisse para que nosso pitoresco personagem fizesse as pazes com os parlamentares. Afagou a cabeça de todos e chegou até a beijar a mão de algum deles. Quem te viu, quem te vê! ― como diria o outro.

No fim de agosto 2013, os mesmos picaretas da mesma Câmara foram convocados a se exprimir, em votação secreta, sobre a cassação do mandato de um colega deputado. O homem tinha sido acusado, julgado e já condenado definitivamente. Estava preso por crime de peculato e formação de quadrilha.

São Judas Tadeu Padroeiro das causas perdidas

São Judas Tadeu
Padroeiro das causas perdidas

Dos 513 deputados, 108 gazetearam ― simplesmente não compareceram à sessão. Dos 405 que votaram, 172 se posicionaram pela manutenção do mandato do deputado criminoso.

Somando-se os 172 que negaram a cassação aos 108 que se esgueiraram, chegamos ao total de 280. São os que não enxergam nenhum mal em continuar a ser colegas de um presidiário condenado a 13 anos de cárcere.

De lá para cá, o clamor popular cresceu. A Câmara foi pressionada a mudar as regras. Nunca mais ― prometem de pés juntos ― um caso de quebra de decoro será decidido pelo voto secreto.

O deputado que havia sido salvo pelo sigilo corporativo no ano passado voltou a passar pelo crivo de seus colegas. Desta vez, o voto foi aberto. Com exceção de um deputado ― unzinho só! ― os 280 que, escondidos atrás do voto anônimo, tinham votado pela manutenção do mandato do deputado criminoso, desapareceram. São todos pela cassação. Desde criancinhas, ora vejam só.

Interligne vertical 11O dicionário ensina:

Picareta = pessoa aproveitadora, que utiliza meios condenáveis para obter o que deseja.

Covarde = quem age com temor; quem não apresenta valentia.

A visão que nosso guia tinha da Câmara passou da data de validade, está vencida. É impensável que, depois de 8 anos de convivência amistosa com 3 em cada 4 parlamentares, ele repetisse hoje a bravata segundo a qual aquela Casa acolhe 300 picaretas.

Quanto a mim, ainda fico com a definição originária. A conta do antigo presidente da República não está nada exagerada. Pior ainda: os 300 indigitados, além de picaretas, são covardes.

Valei-nos São Judas Tadeu, o advogado das causas impossíveis!

Rapidinha 13

José Horta Manzano

No caso do infeliz jornalista assassinado no exercício de sua função, tenho observado o jogo de empurra.

Quem comprou o rojão? Quem o carregou até o local da arruaça? Quem pegou, quem tocou, quem relou nele? Quem acendeu o pavio? Quem o lançou?

Essa agitação pra jogar a batata quente no colo do outro me fez lembrar de velho (e sábio) ditado lusitano:

«Tanto é ladrão o que vai à vinha como o que fica à porta».

Permito-me incluir quem indicou o caminho da vinha, quem incentivou, quem forneceu a sacola, quem emprestou a tesoura, quem assistiu a tudo e nada disse, quem aplaudiu. E quem comeu as uvas. E, naturalmente, quem pagou os 150 reais.

Frase do dia — 104

«Brazil’s government has set the favelas and middle classes against each other»

«O governo do Brasil incentiva o enfrentamento entre favelas e classes médias»

Título de artigo publicado no jornal britânico The Guardian em 8 fev° 2014. Para ler o texto integral (em inglês), clique aqui.

«Mais médicos» ― enfim a hora da verdade

Percival Puggina (*)

Médico

Médico

O pedido de asilo da cubana Ramona Matos Rodriguez, que desertou do programa «Mais médicos», quebrou os ponteiros do relógio do governo petista em relação à sua tramóia com a empresa Castro & Castro Cia Ltda, com sede e foro na cidade de Havana. Chegou a hora da verdade.

Impõe-se, portanto, que eu escreva este artigo. Durante meses, os defensores do indefensável, com a fria determinação dos mentirosos contumazes, tentaram negar os fatos. Tentaram transformar esse negócio escandaloso em inaudita solidariedade do povo cubano para com os países necessitados. Também para eles acabou o tempo da mentira.

Não se trata, aqui, de mostrar o quanto sei sobre a realidade daquela ilha caribenha, mas de mostrar há quanto tempo tais fatos são bem conhecidos. Por isso, transcrevo a seguir um trecho do meu livro Cuba ― A Tragédia da Utopia, publicado em 2004. É o relato de uma informação que recebi na Embaixada de Cuba quando a visitei em 2001 e ainda sequer cogitava escrever o referido livro (pag. 113).

Interligne vertical 12«Em 2001 fui visitar a embaixada brasileira em Havana. Ela se situa no excelente prédio da Lonja de Comércio (Bolsa de Valores), uma edificação do século XIX, recentemente restaurada. (…) Durante a entrevista (com o secretário da embaixada), entrou na sala uma moça de cor negra que lhe dirigiu algumas palavras em espanhol e se retirou deixando expedientes sobre a mesa.

Quando ficamos novamente sós, ele explicou que a moça era cubana, excelente funcionária, contratada pela embaixada junto a uma das duas agências oficiais através das quais o governo cubano loca mão-de-obra a organizações estrangeiras que funcionam no país. A embaixada fornecera uma descrição do perfil da pessoa que procurava, a agência estabelecera o valor da remuneração em 200 dólares mensais, enviara algumas moças para serem entrevistadas e aquela havia sido escolhida.

Dos 200 dólares com que a embaixada remunerava a agência, a moça recebia em pesos o equivalente a 20 dólares. O restante ficava para seu generoso patrão, o Estado cubano. Diante dessa dura realidade a representação brasileira, incluíra a funcionária em sua folha de pagamentos e lhe repassava, por fora, 500 dólares mensais. É o que a maior parte das representações estrangeiras e empresas de fora fazem como forma de motivar seu pessoal.

Não é diferente o que acontece em relação aos muitos convênios que o governo cubano estimula que sejam firmados com países latino-americanos para fornecimento de pessoal médico, especialmente na área de medicina comunitária. Cuba não sabe o que fazer com os médicos que tem (um médico para cada cento e poucos habitantes!) e os médicos não sabem o que fazer com o que sabem. Acabam nas portas dos hotéis, oferecendo serviços como guias turísticos.

Através desses convênios e do mecanismo de apropriação do salário de seu pessoal nos tenebrosos níveis acima descritos, o governo consegue captar dólares no exterior. E ainda faz o seu «comercial» como um país solidário que presta importante ajuda à saúde pública das comunidades carentes do planeta.»

Há 13 anos, portanto, Cuba já adotava esse procedimento. De um lado, anuncia ao bom e generoso povo cubano que está prestando ajuda humanitária. De outro, apropria-se da renda produzida pelos recursos humanos que aloca, numa proporção jamais sonhada pelo mais porco dos «porcos capitalistas” dos quais tanto mal dizem. Pior ainda: nos tempos do patrocínio soviético, a paga cubana em recursos humanos consistia em enviar jovens para as guerrilhas comunistas nos conflitos da África subsaariana. Sangue cubano por rublos e petróleo, em nome da «unidade dos povos».

A bolsa...

A bolsa…

Agiu certíssimo a doutora Ramona. Quero ver a retirarem do gabinete da liderança do DEM. Pago para ver! Ronaldo Caiado é osso duro de roer. Quero ver, também, quem terá coragem de desmentir as informações que ela presta sobre o sinuoso percurso dos valores que o governo brasileiro paga, per capita, a Raúl Castro. E quero ver, por fim, o que dirá a Opas, a altissonante Organização Pan-americana de Saúde, intermediária oficial dessa operação, sobre o contrato dos médicos cubanos com a tal Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos SA que a contratou.

Outra coisa que ninguém conta, mas sobre a qual tenho informação de cocheira: faltam médicos em Cuba. Os negócios dessa empresa locadora de médicos(!) esvaziaram os serviços locais, que estão sendo prestados por estudantes latino-americanos de medicina. Repito: quebraram-se os ponteiros desse negócio. O que ainda existe de moralmente sadio na sociedade brasileira não pode conviver passivamente com um declarado e certificado regime de escravidão em território nacional. Com a palavra a Ministra Maria do Rosário.

Ou os cubanos não são humanos?

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Frase do dia — 103

«O cinegrafista Santiago Ilídio Andrade não foi vítima de um acidente. Morreu assassinado pelas mãos do mascarado que atirou um rojão a esmo incentivado pela glamourização dos atos de vandalismo, cuja repressão vem sendo sistematicamente condenada por uma parte da sociedade que enxerga na violência uma forma legítima de protesto e não reconhece que o uso da força é dever do Estado quando em risco está a ordem pública.

Se esse é um raciocínio tido como conservador, queira o bom senso que a banalização da vida não seja vista como um pensamento progressista.»

Dora Kramer, em sua coluna in Estadão, 11 fev° 2014.

As flores do Itamaraty

José Horta Manzano

Artigo da Folha de São Paulo deste 12 fev° traz informação sobre o dinheiro gasto pelo Itamaraty com arranjos florais. Relata o edital lançado para aquisição de corbelhas e coroas destinadas a engalanar recepções a autoridades estrangeiras.

Até aí, nada demais. É função daquela Casa cuidar do trato de assuntos externos e de tudo o que lhes é correlato ― cerimonial e protocolo incluídos. O espanto vem da justificativa que o Ministério das Relações Exteriores houve por bem inserir no edital.

Para começo de conversa, não me parece que o Itamaraty deva «justificar» a compra de adornos para suas recepções. Flores em jantar de gala são tão indispensáveis como bolo em aniversário de criança.Banquete 2

A jornalista da Folha transcreve o trecho do edital em que nossas autoridades, numa inacreditável atitude de quem pede desculpas ao País, explicam tropegamente a razão da compra:

«As flores contribuem para que seja transmitida às autoridades estrangeiras uma melhor impressão do país anfitrião, o que se traduz por ganhos institucionais para o governo brasileiro.»

No gênero hipocrisia ingênua, a argumentação é imbatível. O uso do cachimbo ― eh, la vem o cachimbo de novo… ― faz a boca torta. Depois de anos de doutrinamento, o Itamaraty também acredita que a aparência externa impressiona visitantes e facilita o relacionamento.

Lendo com bastante atenção o palavrório empolado do edital, repara-se que o que se busca são ganhos institucionais para o governo. O País? O povo? Os interesses do Estado? Benefícios para a nação? Quéqué isso?

De você, de mim ― gente comum ―, pode-se admitir que não façamos distinção entre Estado, governo, país e nação. Dos doutores do Ministério das Relações Exteriores, é intolerável. Essa diferenciação faz parte intrínseca do manual diplomático. Portanto, quando dizem “governo”, querem dizer exatamente isso: governo. Referem-se aos governantes de turno, àqueles que ocupam momentaneamente o topo da pirâmide.

Banquete 1Francamente, os atuais inquilinos do andar de cima navegam em nuvens. Perderam de todo o contacto com a realidade nacional. Não conseguem mais esconder o verdadeiro escopo de todas as suas ações: incensar o governo e contribuir para sua eternização no poder.

Tu quoque, Itamaraty ― até tu, Itamaraty!

O último traço do antigo garbo da Casa de Rio Branco reside no ípsilon final: Itamaraty. Na geonimia ― a arte de nomear pontos geográficos ―, a muito poucos é concedida a licença de conservar marcas do que já foi. Paraty, Bahia, Itamaraty, não chegam a meia dúzia.

É bom saber que, junto ao raro e simpático ípsilon, estão também as flores. Um pouco murchas, é verdade, mas hão de resistir até que advenham tempos melhores.

Frase do dia — 102

«O bairro é seguro (sic). A incidência de roubos é muito pequena naquela região.»(*)

Marcio G. Murari, titular da DIG ― Delegacia de Investigações Gerais, ao relatar um assalto praticado na casa paroquial de Franca (SP), em que quatro padres foram rendidos por quatro assaltantes que lhes surrupiaram pertences, dinheiro, celulares e automóvel. As vítimas foram, ainda por cima, ameaçadas de morte pelo facínoras. In Folha de São Paulo, 11 fev° 2014.

(*) Fica-se aqui a imaginar como será viver num bairro inseguro.

A sabotagem e a vagabundagem

José Horta Manzano

A França foi ocupada por tropas alemãs em junho de 1940. A presença militar estrangeira duraria mais de quatro anos, até a reconquista do território, seguida pela derrota dos nazistas e pelo fim da Segunda Guerra na Europa.

A invasão alemã desbaratou o exército francês. Não foi senão a partir de 1941 que um esboço de resistência começou a se organizar. Resistir era atividade altamente perigosa. Ninguém sabia quem era quem, irmão desconhecia irmão, pai desconfiava de filho, amigo disfarçava na frente de amigo, um horror.

França: trem sabotado na Segunda Guerra

França: trem sabotado na Segunda Guerra

Aos poucos, atos de sabotagem começaram a pipocar aqui e ali. Uma ponte dinamitada, uma emboscada para dizimar um destacamento, um atentado contra algum militar inimigo de alta patente. Tudo isso hoje já faz parte da História e pode ser visto em filmes de guerra.

O ponto comum a todos os atos de resistência era claro: enfraquecer o inimigo. A destruição do bem público ou privado tinha um fim objetivo e preciso. Derrubava-se a ponte para estorvar a logística do invasor e impedi-lo de passar por ali. Incendiava-se um edificio público para evitar que fosse confiscado e utilizado pelo inimigo.

Leio que, no meu confuso País, incêndio de veículos automotores se está poniendo de moda. É «protesto», dizem. Protesto?

Protesto com P maiúsculo é demonstração sincera, é reclamação no duro que se faz com o sacrifício de si mesmo se necessário for. O bonzo que ateou fogo ao próprio corpo, o dissidente que fez greve de fome, o chinesinho franzino que se postou, sozinho, à frente de um tanque de guerra ― esses, sim, são protestatários genuínos, legítimos, plausíveis, corajosos e coerentes.

São Paulo: ônibus incendiado por retardados mentais

São Paulo: ônibus incendiado por retardados mentais

Apalermados que ateiam fogo a veículos que não lhes pertencem não passam de boçais. Protesto de verdade seria botar fogo em seu próprio carro. Mas essa coragem os mascarados não têm.

Esses fracos da cabeça são imbecis a ponto de serrarem o próprio galho onde estão sentados: despacham para o cemitério o ônibus que os poderia conduzir amanhã ao trabalho. Se trabalho tivessem, claro.

O tripé

José Horta Manzano

O senhor Pedro Passos, sócio fundador da empresa Natura e presidente do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), concedeu entrevista a jornalistas do Estadão.

Entre suas considerações, a fala que transcrevo aqui adiante é especialmente alarmante: «O ambiente econômico está muito prejudicado no País. A taxa de investimento é muito baixa, o clima de confiança não existe, acabou. Falta direção. Não está claro para onde estamos indo, quais são os grandes compromissos. Isso cria instabilidade.»

Sabemos todos que nossos atuais mandachuvas se sustentam há mais de dez anos no poder. Sabemos também que essa longevidade ― incomum em nossa República ― está equilibrada num tripé: economia estável, grandes capitães da indústria satisfeitos, camadas populares felizes. Para parar em pé, uma mesa ― ou um palanque, como queiram ― precisa de três pés. Com dois, vai bambear.

Durante dez anos, a economia brasileira, estabilizada por medidas tomadas por governos anteriores, beneficiou-se do ambiente internacional de expansão. Conseguiu, assim, surfar na crista da onda. Estava armado o primeiro pilar.

Botte-cul artesanal

Botte-cul artesanal

Na esteira dessa expansão, os grandes grupos econômicos brasileiros ― aqueles que, no fundo, detêm o poder real ― não tiveram do que reclamar. Só pediam mais do mesmo. Coração leve, constituíram o segundo pilar.

Esse clima de euforia amplificado por bem orquestrada propaganda embalou as camadas menos favorecidas da população. Elas não relutaram em aplaudir e acompanhar a carruagem. Estava montado o tripé.

Numa análise ingênua e superficial, muitos medalhões acreditaram que o «sistema» duraria decênios. É verdade que ainda está de pé, pelo menos em aparência. Mas fendas, fissuras e rachaduras se alastram pelas paredes. Sapo que incha demais periga explodir.

O panorama da economia planetária já não se apresenta tão róseo para o Brasil. A primeira perna do tripé está bambeando. As considerações tecidas pelo presidente do Iedi deixam claro que os grandes empreendedores andam desanimados com as incertezas nacionais. Perigam expatriar seus capitais e investir em ambientes mais propícios. Se o fizerem, a segunda perna do tripé também vai bambear.

Botte-cul design

Botte-cul “design”

Resta um último ponto de apoio: o voto popular. Não há que esquecer que ele deriva, em grande parte, da dinâmica econômica do país. Baixos investimentos e altos gastos de manutenção da máquina governamental não são o melhor combustível para arribar o povão a um bem-estar duradouro. Propaganda ufanista não enche barriga.

Se o voto das camadas menos informadas também esmorecer, o palanque vai acabar desabando por mera falta de pontos de apoio. Saco vazio não para em pé. E tem mais: ainda que, por hipótese, o apoio dos estratos mais dependentes da população se mantivesse, as duas outras pernas continuariam faltando. Que eu saiba, o único banquinho de um pé só é aquele que pequenos camponeses utilizam para a ordenha. Em francês popular, o nome é botte-cul.

No entanto… vale lembrar que vaca mal alimentada dá pouco leite. Pode até secar de todo.

Povo confiado

José Horta Manzano

Suíço é povo muito confiado. Não emprego esse termo ― confiado ― no sentido familiar, que a gente às vezes usa pra designar gente «entrona» ou «pidona», gente que não se acanha de entrar onde for nem de pedir favores. Uso a palavra no sentido próprio. Quero dizer que os suíços têm confiança.

Cherchez le regard 1Confiam nas autoridades, nas instituições, na Justiça, nas leis, na honestidade do próximo, no patrão, no médico, no chefe, nos governantes. Para quem vive no Brasil, pode parecer desconcertante, mas assim é.

Essa certeza de que, respeitando as regras, tudo há de dar certo não deixa de ser ponto positivo. No entanto, quando é excessiva, essa segurança pode ser perigosa. Todo excesso é, em princípio, pernicioso.

Cá, com lá, temos passagens para pedestres, daquelas sinalizadas por faixas amarelas cruzando o asfalto. Pedestre que atravessa a faixa tem absoluta prioridade, essa é a lei. Mas muita gente, quando atravessa a rua, leva essa convicção ao extremo: caminha pela faixa, decidido, sem ao menos olhar se vem vindo algum veículo.

Cherchez le regard 2Adolescentes e jovens adultos são especialistas nesse tipo de comportamento. É compreensível, estão naquela idade em que a gente acha que nada de ruim vai acontecer. Aquela idade beata em que a gente se considera blindado e imortal.

As autoridades que cuidam do tráfego vêm-se dando conta de que esse desleixo se tornou um problema sério. Resolveram promover uma campanha institucional, com cartazes e inserções televisivas, para conscientizar a população. O mote da campanha é: Cherchez le regard (em francês) e Such Blickkontakt (em alemão). Em nossa língua, poderíamos dizer Olho no olho. A mensagem é: antes de cruzar para o outro lado da rua, olhe nos olhos do motorista e certifique-se de que ele se deu conta de que você vai atravessar.

No Brasil, tem disso não. Aquele que estiver ao volante de um veículo terá sempre razão e fará questão de reafirmá-lo a cada ocasião. Portanto, abram alas, que eu quero passar. Se você estiver a pé, azar seu. Cada terra com seu uso.

Se alguém tiver a curiosidade de assistir ao minifilme de 40 segundos, clique aqui.

Frase do dia — 101

«O Brasil de hoje não é o mesmo de três anos atrás. Dilma Rousseff não tem nem de longe o carisma de seu antecessor ― embora desfrute de grande popularidade ― e enfrenta enormes dificuldades para administrar o insaciável apetite do PT pelo poder e a ganância por vantagens de uma base aliada tão ampla quanto infiel. (…) Isso tudo até a oposição já está conseguindo enxergar.»

Editorial do Estadão, 8 fev° 2014.

Cala a boca

José Horta Manzano

Ramona Rodríguez Crédito: José Cruz, ABr

Ramona Rodríguez
Crédito: José Cruz, ABr

Sonia Racy nos dá notícia, por seu blogue alojado no Estadão, das últimas peripécias da señora Rodríguez. Falo de dona Ramona, aquela sui-generis missionária cubana que, algum tempo depois de chegar ao Brasil no bojo da importação de pessoal médico de Cuba, renegou o trato e postulou asilo nos EUA.

O escândalo que se esboçava era grande demais. Não era caso pra ficar sentado esperando o que ia acontecer. Nossos governantes ― respeitados mestres na arte de amansar adversários, oponentes e inimigos ― agiram rápido. Deram-se conta de que um providencial emprego se encontrava justamente vago, na administração da Associação Médica Brasileira. Ora, veja você que feliz coincidência!

O posto foi imediatamente proposto a señora Rodríguez O salário? Pode ser que um dia o distinto público fique sabendo. O que não saberemos nunca é o valor que esse cala-boca terá custado ao bolso do contribuinte brasileiro. Não é com qualquer dez merréis que se faz alguém desistir de um asilo nos EUA.

Rastelo, rasto, rastilho

José Horta Manzano

Dona Dilma continua vociferando contra os raios que causam (ou não) apagões. Acidentes em «arenas» (=estádios) continuam ceifando gente. As várias máfias ligadas a obras públicas continuam dando que falar. Em resumo, a atualidade nacional continua firme no mais do mesmo.

Para quem espia tudo isso de longe, raios, arenas e roubalheiras não passam de barulho recuado, como aquelas trovoadas distantes e surdas. A gente nem presta atenção. Já um caso como o do signor Pizzolato é outra coisa. Esse nos toca de perto, dado que envolve a imagem que nosso país projeta.

Até alguns dias atrás, pouquíssimos europeus tinham ouvido falar da epidemia de corrupção que se tem agravado estes últimos anos no Brasil. Uma nota de pé de página aqui, outra ali, nada de muito significativo. A corrupção nas altas esferas russas, por exemplo, tem merecido olhares bem mais atentos. Tinha merecido, devo dizer.

As andanças espetaculosas de signor Pizzolato têm ocupado espaço. No dia 5 fev°, uns 4 ou 5 órgãos da imprensa italiana tinham noticiado alguma coisa. Hoje, 7 fev°, já passam de 40. Finalmente, o mensalão brasileiro está galgando os degraus da fama. De ocorrência terceiro-mundista mequetrefe, está-se tornando assunto de roda de amigos. É o caminho da glória.

Crédito: Ademir Vigilato da Paixão, desenhista paranaense

Crédito: Ademir Vigilato da Paixão, desenhista paranaense

E tudo isso se deve ao signor Pizzolato, aquele que se julgou mais esperto que os outros e… se estrepou. Os companheiros devem estar dando graças a Deus por terem permanecido no torpor tropical de Pindorama.

Chegou agora há pouco a notícia de que o ítalo-brasileiro vai continuar preso em regime fechado enquanto as autoridades não decidem o que fazer com ele. De qualquer maneira, infringiu leis brasileiras e italianas. Foi condenado em caráter definitivo no Brasil, tornou-se fugitivo da Justiça, piorou seu caso ao cometer crime de falsidade ideológica, entrou na Itália com papéis falsos. É difícil fazer pior.

Desafiou a capacidade de todas as polícias do mundo, em especial da brasileira e da italiana. Polícia costuma rastelar. Signor Pizzolato, inexperiente e ingênuo, deixou rasto. Foi apanhado. Acendeu o rastilho que se aproxima perigosamente do barril de pólvora sobre o qual estão assentados seus companheiros de partido.

PS: Rastelo, rasto e rastilho pertencem à mesma família etimológica. Rasteiro também.