Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Meu Deus! Devo estar ficando louca! Não há como considerar normal que uma pessoa consiga compreender e lançar olhar compassivo aos dois lados de uma disputa, sem se posicionar automaticamente em cima do muro ou como defensora enrustida e hipócrita de uma das partes.

Vejo como verdadeiras certas afirmações de Dilma e de integrantes de seu partido, de sua base aliada e de seu governo, assim como constato que muitas pessoas engajadas na luta para derrubá-los estão também dizendo a verdade. É verdade que o golpe militar de 64 começou com uma passeata de 100 mil pessoas protestando contra o caos e a corrupção. Também é verdade que ela pagou um preço alto por ter participado da luta pela reconstrução democrática, mas isso não serve – ou não deveria servir – de salvo-conduto para isentá-la de punição por eventuais transgressões. A bem da verdade, dói-me que políticos que já militaram em grupos de esquerda apoiem medidas insanas ao chegar ao poder, como o controle social da mídia ou o sequestro da poupança nacional, como tentou Dilma e o fez Zélia, apenas porque sentem que já pagaram “pedágio” a governos autoritários. Não fui torturada nos porões do regime, mas talvez meus ouvidos o estejam sendo agora, e de forma mais insidiosa, por me saber livre para pensar e chegar a conclusões próprias.

Zélia Cardoso de Mello & Dilma Vana Rousseff

Zélia Cardoso de Mello & Dilma Vana Rousseff

Reprovo certas atitudes espetaculosas de Moro, da mesma forma que me sinto profundamente desconfortável com a desfaçatez e a pretensa superioridade moral de Gilmar Mendes, de Teori e de Rodrigo Janot. A coragem de Joaquim Barbosa para dar nome aos bois me fascinava, ainda que me incomodasse por sua rispidez, da mesma forma que me inquieta sobremaneira a leveza e despreocupação ética do atual presidente do STF.

Acho legítimo que a Globo, que sabidamente apoiou a ditadura militar e distorceu informes jornalísticos para ocultar sua conivência com ela, mude historicamente de posição e utilize agora seu vasto poderio de comunicação para divulgar os sucessivos escândalos políticos, como de resto o fazem todos os demais órgãos de imprensa, com um grau semelhante tanto de imparcialidade quanto de espetacularização.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade São Paulo, 19 março 1964

Marcha da Família com Deus pela Liberdade
São Paulo, 19 março 1964

Solidarizo-me com quem se sente enganado, traído por seus governantes, exausto de ser espoliado e sai às ruas clamando por transformação urgente, sem que forçosamente tenha de chamá-los de fascistas ou sugerir que eles aceitam servir gostosa e irracionalmente de massa de manobra para golpes contra a democracia. Acolho em meu peito a raiva e a frustração das pessoas que vêm militando há décadas ao lado do partido governante para implementar certos avanços sociais, sem me sentir obrigada a tachá-las de cegas, canalhas, corruptas ou inimigas do povo brasileiro.

Condeno veemente as manobras de Cunha, tanto para acelerar o processo de impeachment de Dilma quanto para evitar sua própria cassação. Não aceito que Renan se faça de desentendido, repetindo o discurso de Dilma sem se dar sequer ao trabalho de disfarçar o desejo de salvar a própria pele. Considero vergonhoso e humilhante que políticos enlameados até a raiz dos cabelos, como Maluf e Collor, posem de estadistas e ganhem assento na comissão que vai julgar o atual desgoverno. Jamais apoiaria um governo Temer construído à revelia dos anseios da população, em aliança com o PSDB ou outros partidos oportunistas de oposição, simplesmente por achar que ele seria um mal menor.

Não entendo, por mais que me esforce, o que significa ser de esquerda ou de direita no mundo atual, que dirá no Brasil. Não posso acreditar que uma seja detentora da verdadeira consciência social e outra composta só por uma elite nojenta, desprovida de valores éticos, já que suas práticas de governo se têm mostrado indistinguíveis. Não sei o que é ser elite, nem o que é ser povo, quando se empresta apressada e generalizadamente a ambos o caráter de alienação.

Fernando Collor de Mello & Paulo Salim Maluf

Fernando Collor de Mello & Paulo Salim Maluf

Também não compreendo porque artistas do peso de um Chico Buarque, Caetano Veloso ou Gilberto Gil devam ser xingados, perseguidos e difamados simplesmente porque ousam manifestar suas crenças livremente, mesmo que anteriormente tenham se manifestado a favor de ditadores ou da censura a biografias não autorizadas. Posso lamentar, talvez, que sua sensibilidade poética não tenha se espraiado para uma visão de mundo mais de acordo com a minha ou a dos que protestam nas ruas, mas me parece impossível negar sua capacidade de discernimento.

Sou mulher, profissional liberal aposentada, de terceira idade. Nunca me senti representada por Dilma só porque ela também é mulher. Embora tenha acreditado lá atrás no tempo que as mulheres fossem portadoras de maior capacidade de gerir, servir, cuidar e amar, não foi isso que constatei ao analisar a vida e o governo de Indira Gandhi, Margareth Thatcher ou Cristina Kirchner. Não me parece lógico, portanto, me aliar irrefletidamente a qualquer uma que prometa um mundo mais igualitário, generoso e includente só por ter dois cromossomos X.

Da mesma forma, abri as portas de minha carreira profissional, enfrentando um mundo masculino organizado, poderoso e discriminador. Nunca me senti menos inteligente, menos capaz de suportar pressões nem menos sensível às demandas da realidade. Nunca busquei proteção ou defesa em meus chefes e colegas masculinos quando acusada de estar exagerando ou emocionalmente desequilibrada por estar sujeita à flutuação hormonal típica do gênero feminino, assim como não fui chorar no banheiro nessas ocasiões.

Indira Gandhi & Margaret Thatcher

Indira Gandhi & Margaret Thatcher

Respirei fundo quando fui excluída do mercado de trabalho por causa de minha idade, por compreender que a reciclagem da mão de obra é natural e desejável. Reuni as forças que me sobravam para encontrar um trabalho que ainda pudesse ser considerado útil pelas empresas e capaz de acrescentar um pouco mais de dignidade à minha vida de aposentada.

Sou exceção? Talvez. Numa curva estatística de distribuição normal, devo ser. Mas, se o critério for o de condições intelectuais, psicológicas ou morais para assumir que em casa onde falta pão todo mundo grita e ninguém tem razão, devo estar absolutamente dentro da média da população. Tenho dito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lula, o Musical

Sérgio Dávila (*)

Casserole 1A peça de mais sucesso da temporada atual da Broadway é o musical político Hamilton. Com rap e hip-hop, parte da vida do primeiro secretário de Tesouro e um dos pais fundadores dos Estados Unidos, Alexander Hamilton (1755-1804), para falar da formação do país. O casal Obama já assistiu duas vezes, uma delas em sessão especial na Casa Branca.

Os acontecimentos da última semana no Brasil nos autorizam a pensar numa versão local, tropicalizada. Proponho a farsa Lula, o Musical ‒ Eu tô mandando o Bessias, a ser encenada em Brasília.

Será proibida para menores, pela fixação que o personagem principal tem na fase anal e por cenas explícitas de quebra de decoro. O tempo é o atual. O cenário é um sítio emprestado em constante reforma.

Os personagens principais:

O ex-presidente
No poder há 13 anos, tem relação de amor e ódio com as elites. Sente-se perseguido, ameaça virar Nero e incendiar tudo. Anda pelo palco arrastando um contêiner de tralhas que não tem onde colocar.

A presidente
Depende do personagem principal e o protege, numa relação simbiótica. Diz frases sem sentido nem fim. É ela quem manda o “Bessias” do subtítulo em missão delicada e nunca esclarecida.

Musica 3O juiz
Além de despertar ciúme (esse monstro dos olhos verdes), o mouro de Curitiba tem superpoderes. Entre eles o da escuta telefônica e o de mandar prender por tempo indeterminado. É o antagonista do personagem-título.

O prefeito do balneário
Mistura o típico malandro carioca com Justo Veríssimo, personagem de Chico Anysio que odiava pobre. Mora em Maricá, mas sonha com Petrópolis. É viciado em jogos.

Bessias
Na verdade, Messias. É o anjo exterminador do respeito às instituições democráticas. Entrega o salvo-conduto ao ex-presidente na cena que dá início ao musical.

Público pagante
Você.

Interligne 18h

(*) Sérgio Dávila, formado em Comunicação pela PUC-SP, é editor-executivo da Folha de São Paulo.

Ignomínia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há meses venho tentando não me imiscuir no complexo debate político que atormenta, acabrunha e indigna milhares de brasileiros. Usei de muitos estratagemas para evitar colocar com todas as letras minha opinião pessoal, desde ironias, diálogos imaginários com minhas cachorras, até construção de fábulas e parábolas.

Camelo 2Hoje, no entanto, sinto a necessidade, a urgência mesmo, de externar meus pontos de vista pessoais e propor algumas reflexões. Não tenho feito outra coisa ao longo das últimas semanas a não ser acompanhar vorazmente todos os informes jornalísticos, análises de especialistas, opiniões de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com os dois lados da questão. Como um camelo, bebi toda a água disponível como preparativo para enfrentar a travessia deste deserto ético. Consumi toda a carne ideológica dos discursos a favor e contra cada um dos protagonistas da crise tal qual um leão faminto. Reservo-me agora o direito de regurgitar, vomitar e excretar os resíduos desse festim político a partir de uma perspectiva humana – a minha.

Começo por abordar o lado “direito” do conflito, em suas duas acepções: tanto a postura dos responsáveis pelo ordenamento jurídico brasileiro quanto a de todos os que se opõem à visão ideológica da esquerda. Preciso dizer que considero deveras preocupante que um juiz extrapole de suas funções constitucionais para trazer à luz as perversões de nossos atuais mandatários e guarde silêncio obsequioso quanto às distorções de caráter de outros tantos personagens da atual cena política. Tenho verdadeira ojeriza a salvadores da pátria, venham de onde vierem e independente dos mantos com que se cubram. Também tenho pavor dos que vestem suas togas, atendo-se aos detalhes eminentemente técnicos para emitir este ou aquele parecer e desconsiderando os aspectos mais propriamente morais da legislação em vigor. Sinto pânico ao constatar que muitos estão dispostos a acobertar os desvios de conduta dos que integram seu lado só para ajudar a destruir seus opositores. Os fins, me parece, não justificam os meios para nenhuma das partes deste ‘imbróglio’.

Esquerda x direita 1Como ainda não consigo identificar com clareza as motivações que se ocultam sob suas posições, adoto uma tática que sempre me valeu ao longo de minha vida profissional: chamo para mim mesma a solução do dilema. Em outras palavras, pergunto-me o que faria caso coubesse a mim julgar a causa tendo em mãos dados explosivos, capazes de fazer a balança pender mais para um dos lados do conflito. Já vivi situações desse tipo e confesso que quase sempre optei por oferecer armas de defesa à parte que me parecia mais fragilizada no momento. Se isso foi legal ou não, moral ou não, não sei. Simplesmente considero que uma das pulsões humanas mais poderosas é a de tentar evitar o predomínio da lei das selvas e promover uma disputa civilizada.

Quanto ao lado “esquerdo” da presente crise, só posso me alegrar com a decretação do fim da apatia da população brasileira diante da política – com “p” minúsculo ou maiúsculo. Sabemos todos, ainda que não o confessemos, que somos um povo pouco afeito ao debate de ideias e crédulos quanto à possibilidade de soluções mágicas para todo e qualquer confronto. Somos o país das revoluções sem sangue, a pátria dos cordiais, o reino da contemporização festeira e festiva. O caráter e o propósito ideológico dos protagonistas da esquerda dirigente já estavam desvelados muito antes de eles terem assumido o poder. Se a população não os identificou a tempo, se a imprensa não os enfocou com a seriedade necessária e se os intelectuais de todos os matizes não apontaram em profundidade suas implicações, não há como escapar do fato inelutável de que somos parte do problema. Mais uma vez, pergunto: o que você teria feito lá atrás se fosse chamado a escolher um governante sabendo-se cidadão de segunda classe, desprovido de direitos, integrante de uma minoria ou faminto de reconhecimento de seus valores? E se fosse membro da imprensa, responsável pelo setor de política durante os períodos eleitorais, divulgaria ou não as informações privilegiadas de que dispusesse? E se, desde sempre, integrasse a elite intelectual e fosse afeito a análises econômicas, sociais e políticas, nacionais e internacionais, ousaria estabelecer claramente comparações, limitações e sequelas?

Esquerda x direita 2Que atire a primeira pedra quem se sentir acima das paixões humanas, ora bolas. Acusar uns aos outros pela miopia do passado decididamente não ajuda, a meu ver, a ampliar o campo visual de ninguém para encontrar saídas que pareçam mais sensatas no futuro.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Mosteiro Brasil

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Câmera abre, revelando aos poucos o rico interior da capela de um monastério.
Fumaça de velas e incenso ressaltam o clima místico.
Ao fundo, coral de monges beneditinos entoando suave canto gregoriano matinal.

Interligne 34

Monge auxiliar: Prior, está aí um jornalista querendo lhe falar.

Prior: Faça-o entrar, irmão, e encaminhe-o para meu gabinete.

Jornalista: Bom dia, prior. Vim entrevistá-lo sobre o projeto de abertura do novo mosteiro no Brasil.

Prior: Ah, meu filho, estamos entusiasmados com esse projeto. O prédio está praticamente concluído e já contamos com muitas adesões tanto de patrocinadores quanto de diáconos. Vai ficar uma beleza.

Jornalista: Há detalhes que me intrigam. Ouvi dizer que o mosteiro apenas abrigará leigos recém-convertidos à ordem religiosa. Queria entender o porquê da opção pelo Brasil, justo num período tão crítico de instabilidade política e social, além de aguda crise moral.

Prior: Pois foi exatamente por isso que o escolhemos. Talvez o senhor não saiba, mas os valores cristãos estão renascendo por lá. A providência divina tem operado verdadeiros milagres, principalmente na cúpula política do país. Depois de secular descaso, as virtudes cristãs vicejam novamente, como lírios no pântano.

Monastere 2Jornalista: Como assim? Pode explicar melhor?

Prior: Claro, meu filho. Antes, explico que dar hospedagem a peregrinos e viajantes é princípio basilar de nossa congregação. Serão sempre bem-vindos todos os que demonstrarem continência, obediência, capacidade de servir a Deus pela oração e pelo trabalho em prol da comunidade. “Ora et labora” é nosso lema.

Jornalista: Mas, prior, não há também certos requisitos morais para que leigos atuem como diáconos e possam ser acolhidos no mosteiro?

Prior: Sem dúvida. Nossa tradição exige que sejam homens respeitáveis e de palavra, não inclinados ao vinho nem à ganância sórdida e que guardem o mistério da fé com a consciência limpa.

Jornalista: E o senhor conseguiu encontrar candidatos com esse perfil?

Prior: Surpreendentemente, sim. A primeira pessoa que nos procurou rogando esquecimento de seus desvios do caminho do Senhor e proclamando o desejo de voltar a servir à comunidade foi justamente um dos governantes máximos daquele país. Tivemos uma longa conversa. Ele estava deveras machucado, a alma sangrando por causa da dura perseguição que sofreu. Disse-me que, apesar de tantas e tamanhas injustiças, sentia-se de alma limpa para recomeçar. Alegou mesmo que se considerava a alma mais pura do planeta. Fiquei profundamente comovido com tal capacidade de superação.

Jornalista: E o senhor acreditou nele? Não lhe pareceu exagero retórico?

Moine 1Prior: Acreditei, meu filho. Examinei friamente cada uma das graves acusações que lhe fazem e pedi provas de sua inocência. A minhas perguntas, respondeu sempre com humildade e contrição. Convenci-me de que foi vítima da própria ingenuidade. Veja bem, ele estava comprometido com a missão de tirar milhões da miséria e se descuidou da honorabilidade de seus auxiliares diretos. Ninguém fez mais pelos pobres do país do que ele. Botou comida na mesa dos humildes, ajudou a dar casa e até passagem de avião para visitarem a família. Além disso, colocou-se à nossa disposição para atrair novos investidores para o mosteiro, já que tem grande experiência administrativa e realiza frequentes palestras internacionais.

Jornalista: Mas… E quanto às acusações de que teria recebido privilégios de empresários que tinham contrato com o governo?

Prior: Mais uma acusação que não se sustenta. Sua atuação benemérita junto à classe operária gerou muita gratidão. Tudo o que recebeu de volta dos muitos amigos que fez foram pequenos mimos, como hospedagem gratuita na cidade, no campo ou na praia.

Jornalista: Além dele, o senhor acolheu também como futuros diáconos do Mosteiro Brasil a sucessora desse governante, um senador que foi líder do governo e um ministro de Estado, não é mesmo?

Prior: Perfeitamente. Todos eles imbuídos da mesma boa-fé e da vontade de servir ao próximo, sem reservas. Todos vítimas de incompreensão por terem mexido com os privilégios seculares das elites. A primeira, mesmo tendo multiplicado programas sociais, foi vilipendiada com acusações de incompetência, dificuldade de se expressar, acobertamento de corrupção e interferência nos demais poderes da República. O segundo, só porque, por questões humanitárias, ofereceu ajuda a um empresário encarcerado, foi afastado do cargo e caluniado. O último, vítima de um embaraçoso mal-entendido apenas porque estendeu a mão ao segundo. Meu coração se enche de alegria com esses exemplos. Eles se mostraram capazes de passar por cima dos erros de seus irmãos, numa demonstração de genuína generosidade cristã.

Monastere 1Jornalista: Uma última pergunta. Parece que já há casos de ministros do Judiciário solicitando acolhimento no novo mosteiro. É verdade?

Prior: É verdade, meu filho. Foram acusados de se deixar influenciar por agentes políticos e tomar decisões para favorecê-los. Não nos cabe julgar os insondáveis motivos que levam um ser humano a optar por este ou por aquele caminho, que dirá um juiz. De qualquer forma, ainda aguardamos a decisão final de nossos superiores. Nosso quadro de diáconos deverá estar completo em breve com a chegada de muitos parlamentares brasileiros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Perspectivas caninas

Reflexões para um 13 de março

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Manif 4Como sabem todos que me são próximos, a convivência com minhas cachorras ensinou-me muitas coisas. A lição mais comovente e mobilizadora que aprendi com elas foi a surpreendente capacidade de distinguir e reagir à qualidade da energia de quem as cerca. Meu coração se enche de esperança de que um dia nós, humanos, estejamos igualmente habilitados a nos valermos dessa estratégia de formação de vínculos.

Explico melhor aonde quero chegar: nossos pets são, sabidamente, capazes de perceber e responder de pronto ao que os espiritualistas chamam de “energias sutis” de seus donos. Se o dono está triste, o animal vai se deitar a seus pés e permanecer imóvel e em silêncio por muitas horas. Se o dono está alegre, ele vai procurar todos os estímulos à volta para propor brincadeiras e passatempos agradáveis. Se o dono está nervoso ou irritado, é muito provável que o animal se agite também e lata sem parar, reproduzindo em escala animal o grau de tensão que sente no ar. Se o dono está combalido, deprimido ou se sentindo impotente, o mais provável é que o animal busque máxima proximidade corpórea e durma com a cabeça apoiada sobre o peito ou joelhos de seu dono, dando e recebendo o calor do contato.

Manif 13Hoje o dia pareceu-me ter amanhecido com um misto intrigante de céu de brigadeiro e nuvens carregadas indicativas de que uma chuva benfazeja estava sendo gestada. Sem saber como reagir às nuances climáticas deste dia histórico e apostar se este seria um dia de celebração geral ou de conflagração generalizada, resolvi consultar minhas cachorras para descobrir como o mundo animal está enxergando as perspectivas que se descortinam para nosso país.

Molly, minha cachorra mais velha e filósofa por natureza, aprumou-se, cruzou as patas dianteiras como uma verdadeira “lady” e deu início às suas considerações. Como de hábito, suas palavras vinham embaladas por sua profunda veia poética:

Crédito: Yogi.centerblog.net

Crédito: Yogi.centerblog.net

“Nós, os cães, não conhecemos passado e futuro. Vivemos apenas o momento presente, com tudo o que ele carrega consigo em termos de possibilidades em botão. O que para vocês soa como limitação, para nós é música libertadora. Graças a essas diferentes condições, talvez seja mais difícil para vocês enxergar o rumo a ser tomado a cada dia se se deixarem contaminar pelos ressentimentos do passado e pela ansiedade de fazer o novo acontecer. O único conselho que posso lhe dar é: não se deixe impressionar em demasia por palavras e números. Eles são importantes, sim, mas podem ser enganadores, na própria medida em que distraem das mensagens que seu coração dita. É preciso prestar atenção também à direção dos ventos, aos odores que impregnam o ar, às cores e sons da natureza, assim como ao brilho e às sombras nos olhos dos que estão à sua volta. Depois, é necessário indagar-se por quais motivos você faz – ou não – parte desse panorama. Você bem sabe que é preciso coragem para não submergir sob a força esmagadora das crenças da maioria, bem como para engolir a dor terrível de se saber minoria. Por tudo o que você já me disse, está claro que o principal trunfo do Brasil é sua enorme diversidade étnica, racial, geográfica, econômica, religiosa e política. Se, historicamente, nada disso foi capaz de abalar a união da nação, me parece que há pouco a temer doravante. Lembre-se que as divergências humanas funcionam como um fermento, tanto para inspirar o crescimento do diálogo e da tolerância quanto para iluminar os meandros escuros das próprias convicções. A convergência, por outro lado, só pode ser entendida pontualmente. Insistir na busca de unanimidade de pontos de vista, na luta pelo triunfo do pensamento único, é indicativo de miopia e alienação”.

Respirei fundo quando Molly parou de falar, na tentativa de absorver ao menos parcialmente tantas questões. Voltei-me, então para a Aisha, minha cachorra mais nova e espevitada, que a tudo assistia parecendo um tanto amuada. Quando a incentivei a manifestar suas impressões, aproximou-se de mim com delicadeza, abanando o rabo e, de cabeça baixa, num quase resmungo, começou a falar:

Cachorro 7“Você quase nunca pergunta minha opinião quando o assunto é sério. Me incomoda um pouco que você só dê ouvidos à voz da Molly, por ela ser mais formal e contida. Eu posso parecer alienada e fútil, mas também tenho muita coisa a dizer. Por outro lado, alegra-me o fato de você não colocar sobre minhas costas o peso das reflexões compulsórias. A seriedade para encarar o mundo pode ser necessária às vezes, mas a leveza e o bom humor também são indispensáveis. Eu não gosto de fazer de conta que sou educada, culta e comportada só para inglês ver. Para mim, a vida tem de ser vivida com alegria. Você sabe que o que torna meus dias felizes é saracotear por aí, encontrar pessoas – principalmente as crianças que têm uma energia parecida com a minha – e brincar com outros cachorros. Não me sobra muito tempo para filosofias de botequim. O bom da vida é poder dançar conforme a música. Se pudesse, eu voaria junto com as borboletas e os passarinhos e me juntaria aos golfinhos e às baleias para viajar para longe, conhecer outros mundos. Quando não há mais ninguém por perto, eu me viro para me entreter sozinha com outras coisas. Não é lá muito agradável, mas dá para passar o tempo. Agora, o que dá sentido mesmo para minha vida é poder brincar junto. Se lhe vale de alguma coisa meu conselho, levante-se, vá para a rua e faça o máximo de barulho que puder junto com todo mundo que lá está. Se não adiantar, pelo menos você vai voltar para casa cansada e vai poder dormir o sono dos anjos”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

S.M.J.

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Era assim que um antigo colega de trabalho colocava o ponto final em todos os seus comunicados, fossem eles dirigidos a seus subordinados, pares ou superiores. Mineiro das antigas, pernóstico, de fala empolada e escrita mais ainda, ele fazia questão de evidenciar seus conhecimentos jurídicos, apesar de não trabalhar na área. Talvez quisesse também ressaltar sua humildade e liberalidade no trato com os demais.

SMJ 5Muita gente que recebia seus escritos ficava se perguntando que raios significavam aquelas três letrinhas. Não querendo passar recibo da própria ignorância, faziam de conta que aquilo era apenas mais uma de suas esquisitices e calavam-se. Até que um dia um subordinado recém-contratado resolveu perguntar a um colega qual era o significado de S.M.J. Tentando evitar o constrangimento de admitir que não sabia, o colega riu e acrescentou, aprofundando o mistério: “Isso é coisa dele”. A resposta só fez aumentar a curiosidade do rapaz e logo a investigação dos reais motivos da inserção daquelas três letras espalhou-se pelo departamento todo como um rastilho de pólvora.

SMJ 1aReunidos na hora do almoço ou em torno do café, os funcionários daquela figura exótica se revezavam sugerindo possíveis interpretações, a maioria das quais era prontamente descartada. O importante, alegavam eles, era encontrar um significado que não pudesse ser facilmente desmentido, nem mesmo pelo próprio. Foi quando um dos participantes daquelas divertidas reuniões lembrou de certas características físicas do chefe que, se aliadas à sua postura formal, jogavam alguma luz para a solução do quebra-cabeça: o queixo alongado, a boca grande com dentes pontiagudos, a pele enrugada, os olhos saltados e o hábito de dormitar várias vezes por dia. Foi o que bastou. O mistério estava resolvido: daquele dia em diante, assumiu-se oficialmente que as três letras significavam literalmente “Sua Majestade, o Jacaré”.

SMJ 4Ontem, ao assistir ao pronunciamento de nossa estimada mandatária-mor, durante o qual, sem pestanejar e sem corar, ela afirmou que “a oposição não pode sistematicamente dividir o país”, lembrei-me da estória acima e concluí um tanto a contragosto que, numa democracia, cada um pode adotar a óptica que quiser para interpretar os fatos. Faz parte do psiquismo humano o desejo de nos isentarmos de responsabilidade por eventuais atuações catastróficas e projetar em terceiros ‒ ou em certas circunstâncias da realidade externa – a culpa pelo mau jeito.

Em psicologia, isso tem até nome próprio: egodistonia. Em palavras comuns do cotidiano, significa apenas que não reconhecemos como nossas características psicológicas que são condenadas socialmente ou que nos envergonham diante do tribunal de nossa consciência.

SMJ 2Outra lição básica e tradicional da psicologia diz respeito à necessidade de recorrer frequentemente a autoelogios. Nos manuais da profissão, esse impulso é sempre associado ao traço de baixa autoestima. Quando sentimos que não recebemos o reconhecimento devido por aquilo que julgamos mérito e, do lado de dentro, não encontramos nada para amenizar a dor da rejeição alheia, adiantamo-nos aos fatos e proclamamos nossa superioridade moral, intelectual ou sensitiva. Infelizmente para a pessoa que utiliza a estratégia, o resultado quase sempre é o de reforçar a resistência de terceiros e, indiretamente, aprofundar ainda mais a sensação de desvalia e isolamento. Isso é evidenciado até mesmo no ditado popular que diz que “elogio em boca própria é vitupério”.

SMJ 3É muito provável que você seja capaz de identificar em seu círculo mais próximo de relações pessoas que parecem ter o poder de desequilibrar emocionalmente todos à sua volta. Embora, à primeira vista, pareçam ser gentis e afáveis, esse tipo de personagem revela rapidamente sua alma tosca e cínica tão logo algum julgamento mais crítico seja lançado contra ele. Com voz calma e pausada, respiração tranquila, meio sorriso estampado nos lábios, eles contra-atacam com pesado sarcasmo a qualquer acusação, o que, com o passar dos minutos, acaba provocando total descontrole emocional e agressividade crescente em quem está diante deles.

Quando isso acontece, essas criaturas perpetram sua façanha final: você é quem passa a receber olhares de desaprovação e a enfrentar o ônus de ser considerado histérico, desequilibrado, descompensado, desqualificado para a convivência harmônica com desiguais. Uma tática infalível em qualquer circunstância.

SMJ 6Já passei por esse tipo de situação e sei o quanto dói. Escapar da armadilha requer a perseverança de um verdadeiro Hércules. Por isso, engolindo em seco e me esforçando para me posicionar acima dos humores da galera, preciso fazer um comunicado: sinto que está sendo gestada uma tentativa de golpe contra as instituições democráticas de nosso país. É, é isso mesmo que você leu. Sem querer relativizar o impacto de minha afirmação, digo “tentativa” porque não acredito que nenhum golpe venha a ser concretizado de fato. De qualquer forma, creio que muito sangue, suor e lágrimas ainda vão rolar sob o céu azul anil de nossa pátria. Confrontos violentos me parecem inevitáveis, ainda que me pareçam um preço justo a pagar pela verdade que liberta.

O que virá depois? Talvez, provavelmente, a simples constatação de que “o inferno são os outros”. Salvo Melhor Juízo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Fecharam todos os shoppings do Brasil

Fernão Lara Mesquita (*)

Em entrevista a uma das meninas da Globonews na semana passada, Flávio Rocha, dono da Riachuelo, deu um número de arrepiar.

«Em 2015 fecharam 100 mil lojas pelo Brasil afora. É como se tivessem fechado todos os shopping centers do país. Somados, eles abrigam isso: 100 mil lojas».

Loja 1Sobra em pé só o grande comércio, mais estruturado. Quer dizer: é uma obra monumental de concentração da renda, essa do PT. Os funcionários de 100 mil lojas ficaram simplesmente a zero, sem saber se vão ter o que pôr na mesa dos filhos amanhã. Cem mil pequenos e médios empreendedores que, sabe-se lá à custa de que epopéias tinham conseguido emergir do brejo e montar seu negociozinho, foram expulsos do mercado. As lojas gigantes engoliram o que sobrou do massacre.

Loja 2O resultado é o que se observa nas caóticas megalópoles brasileiras: nos bairros ricos os milionários que sobram, cada vez mais ricos, compram as casas vizinhas e levantam os muros. Lá fora, a pátria do Aedes aegypti: perifavelas de bloco sem urbanização nem saneamento crescendo em metástase. Menos gente rica, cada vez mais rica, cercada de miséria por todos os lados. No meio, nada.

Se dermos mais tempo pra isso, acabamos como na Idade Média. Vão sobrar quatro ou cinco castelos cheios de salões dourados por trás de muralhas intransponíveis. Em toda a volta, um favelão gigante onde, saiu na rua, se ficar vivo volta pra casa nu, rapado e rapelado.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista, articulista do Estadão e editor do blogue Vespeiro.

A jararaca

Eliane Cantanhêde (*)

Lula caricatura 2Se o Instituto Lula recebeu R$ 20 milhões das empreiteiras da Lava a Jato e se o ex-presidente Lula ganhou R$ 10 milhões dessas mesmas empreiteiras por palestras, por que raios ele não comprou o sítio de Atibaia por R$ 1,5 milhão e reformou as áreas internas e a piscina por R$ 700 mil para desfrutar dele 111 vezes, guardar as 200 caixas do Alvorada, levar o barquinho da família e os pedalinhos dos netos?

E por que Lula não deu para Marisa Letícia o triplex do Guarujá, instalou aquele elevador chique, mobiliou a cozinha e os quartos, tudo de primeira? Dinheiro ele tinha, de sobra. Como diria o jornalista Carlos Marchi, ainda sobrariam uns bons trocados. Aliás, o que Lula fez com os R$ 10 milhões, mais o salário de oito anos de presidência, com cama, comida, roupa lavada e uísque de graça? Gastar com os filhos não foi, porque os meninos estão muito bem, obrigada.

De duas, uma: ou Lula é patologicamente pão-duro, desses que escondem o dinheiro debaixo do colchão para os amigos pagarem até o cafezinho, ou… a questão é de outra natureza: política. Apesar de milionário, ele precisava do mito do menino pobre de Garanhuns, que não tinha o que comer, perdeu um dedo nas fábricas e virou o eterno pobre dos pobres, que veio ao mundo salvar os desvalidos como ele próprio.

Lula caricatura 2aSó assim, mantendo a mítica do grande líder, do pastor de almas, do salvador da Pátria, Lula teria, mesmo acuado e ferido, poder para jogar milhares de ovelhas (ou feras) para confrontos de rua contra adversários, imprensa e o algoz Sérgio Moro, um juiz a serviço dos ricos e poderosos – ah, e do PSDB!

É assim que, aos 70 anos, Lula encarna até hoje o líder juvenil que incendiou os metalúrgicos paulistas, depois os sindicalistas de outros setores e por fim os intelectuais do País inteiro. Não pode se dar ao luxo de comprar com o próprio dinheiro um sítio, um triplex. Senão, como vai olhar a massa olho no olho, falar de igual para igual, jogar os pobres contra os ricos?

(…)

(*) Eliane Cantenhêde é jornalista. O texto é excerto de artigo publicado no Estadão de 6 mar 2016.

Problematizando a questão

Ruy Castro (*)

Livro 6Cenas de um provável futuro. A mãe repreende a filha de 11 anos por ela nunca lavar um copo depois de usá-lo, e ouve como resposta: “Mamãe, precisamos problematizar uma questão de gênero”. A garota quer dizer que não veio ao mundo para lavar copos. Enquanto isso, seu irmãozinho de oito anos pode ser reprovado na escola por ter fracassado na arguição sobre sublevações intestinas na África subsaariana. E o pai já pensa em contratar um professor particular de gê e tupi para o menino tirar o atraso na escola.

Esses são alguns dos itens dos currículos a ser aplicados pelo MEC com a iminente aprovação da “Base Nacional Comum Curricular”, uma reforma do ensino destinada a fazer do brasileiro um povo politicamente correto. No país dos novos comissários do pensamento, só interessam a herança ameríndia e africana, a luta das mulheres, os direitos das minorias e outros quesitos cuja importância ninguém discute, mas que os donos do poder julgam ser de sua exclusiva propriedade.

Livro 5Acusam-se os historiadores brasileiros, por exemplo, de nunca terem dado atenção suficiente à questão indígena e negra. Mas isso não é verdade. Há bibliotecas abarrotadas de livros sobre a África, o tráfico, a vida em cativeiro e como, contra todas as probabilidades, a cultura negra sobreviveu e se impôs junto à cultura “oficial” no Brasil. Os indígenas também têm vasta bibliografia, com destaque para os livros sobre as tribos da Guanabara –como o recente e monumental “O Rio Antes do Rio”, de Rafael Freitas da Silva, cuja dedicatória é reveladora: “Aos nossos gregos, os tupinambás”.

Mas não importa. O MEC decidiu que é preciso rever tudo, o que fará com que milhões de livros didáticos se vejam superados e multidões de professores tenham de se reciclar ou ser substituídos. O jeito é problematizar a questão.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Além da fronteira ‒ 1

Cláudio Humberto (*)

Lula caricatura 2Agora mais viajado, o presidente Lula não pagaria o mico outra vez, como na campanha de 1989. Em viagem para ganhar “envergadura internacional”, ele chegou a Lisboa sem agendar encontro com autoridades como Mário Soares, o simpático presidente socialista, que contou a história a um ex-embaixador do Brasil.

Soares estava na Estremadura espanhola, na cidade fronteiriça de Badajoz. Informado da visita de Lula, o solícito Soares telefonou-lhe para as boas-vindas: “Estou cá na fronteira, ó pá!”

“Fronteira com que país?” ‒ perguntou Lula.

Mário Soares desistiu de sacrificar sua agenda para ver Lula. Diz ter ficado chocado com o fato de o candidato a presidente do Brasil ignorar uma lição primária de geografia: Portugal só tem fronteira com a Espanha. E o mar.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Meu anjo

Anjo 1Myrthes Suplicy Vieira (*)

Conto sempre para as pessoas mais próximas – para as desconhecidas, não, porque não quero passar por louca – que sinto uma forte presença espiritual ao meu lado sempre que tenho de escrever. Na minha cabeça, trata-se de uma figura masculina poderosa, mas cheia de compaixão. Eu o chamo de “meu anjo”.

Não, ele não é um anjo da guarda comum, desses que se esfalfam por aí para salvar seus protegidos de atropelamentos, quedas, incêndios, bala perdida, etc. Ao contrário, ele já me colocou várias vezes no olho de furacões e em muitas saias justas. Não faz isso por maldade, já que é um ser do bem, mas porque gosta de me desafiar. Fica em pé às minhas costas, impávido e solene, esperando para ver se eu consigo contornar sozinha os obstáculos que enfrento no dia a dia e, quando jogo a toalha, entra em ação me acalmando, como se me dissesse “respira fundo e aprende como se faz”.

Anjo 5Ele atua na minha vida como consultor e conselheiro para assuntos linguísticos. Pode ser de ajuda num número incontável de situações, já que é articulado, culto, sábio, poliglota, versátil, dono de saber enciclopédico e está sempre de bom humor.

Ele não fala comigo. Apenas cochicha no meu ouvido as palavras que procuro em desespero quando tenho de redigir algum texto. Sugere termos coloquiais em outros idiomas quando estou às voltas com minhas traduções e quero impressionar. Alerta para as consequências negativas dos meus exageros, mas também me incita a não ter medo de optar por expressões provocativas. Já chegou a me soprar frases inteiras. Muitas vezes o ritmo de seus ditados é tão intenso que eu me sinto mergulhada numa atmosfera de psicografia – ou, melhor dizendo, de “psicodigitação”. Meu único trabalho é tentar copiar com a máxima rapidez possível as palavras que fluem como se estivéssemos conversando.

Anjo 2Não erra nunca. Certa vez, eu estava à beira de um ataque de nervos tentando passar para o inglês um texto muito complexo, fora da minha área de especialidade. Ele então cochichou no meu ouvido uma palavra que eu desconhecia. Aflita e sem tempo para conferir, digitei a palavra e concluí o trabalho. Mais tarde, ao revisar o texto, fui procurar no dicionário a palavra para ter certeza de que ela se encaixava bem na frase. Um arrepio frio percorreu minha coluna de alto a baixo quando constatei que era a palavra precisa, a mais adequada para transmitir com elegância a mensagem que eu queria.

Outra de suas especialidades é inspirar ideias e projetos sempre que minha criatividade está em baixa. Quando meu cérebro se agita para encontrar saídas para situações difíceis com que me deparo, uma lampadazinha se acende magicamente na minha cabeça. Corro para o computador e começo a digitar febrilmente uma série de lembretes – a respeito de autores, livros, conexões com outros temas, etc. – para investigar mais tarde, com calma. Depois, basta acionar um mecanismo de busca qualquer na rede mundial de computadores para encontrar as referências de que preciso ou investigar nos dicionários possíveis significados das palavras que elenquei ou as ilações que precisam ser mais bem compreendidas.

Anjo 4É nesses instantes que meu anjo entra na área de sua máxima ‘expertise’. Coloca no meu caminho uma série de pistas, assim como quem não quer nada. As pistas podem vir sob forma de uma conversa casual com um vizinho ou amigo, uma experiência na natureza, um comportamento inesperado de minhas cachorras, um livro que surge inesperadamente na minha frente, ou até uma reportagem na televisão.

Foi o que aconteceu ontem. Eu tinha ido dormir com uma sensação de impotência e incredulidade frente aos acontecimentos trágicos do dia. Acordei, porém, maravilhada e embalada por um discurso para lá de otimista de meu anjo. Suas palavras eram tão sábias e doces que me pareciam estrofes de um poema. Falava de esperança, incentivava a procurar novos ângulos de visão para atacar velhos problemas, instilava fé na capacidade de adaptação e superação que é típica do humano. Aconselhava a ir além das aparências e descobrir os sentimentos que estão por trás da realidade violenta de nossos dias.

Anjo 3A mensagem que julguei ter recebido e que me encheu de alegria foi, em resumo, a de que é chegado, enfim, o tempo da delicadeza. As reações exacerbadas de tudo e de todos à nossa volta nada mais são do que meros indicativos de que um ciclo se finda. Já não há mais espaço para dicotomias nem para o maniqueísmo. De agora em diante, seremos todos convidados a nos posicionar ao longo de um contínuo que vai do branco ao negro, do masculino ao feminino, da razão à emoção, da certeza à dúvida. Novas nuances de significados se abrirão diante de nossos olhos atônitos. Bem e mal se misturam e se diluem num oceano de possibilidades de aconchego e de tolerância.

Eu, que sempre fui tão catastrofista, mesmo a contragosto me deixo levar por essa delicada cantiga de despertar. Extasiada, ainda sentindo a onda de esperança evolucionária bater forte no meu peito, só consigo torcer para que outros anjos, ao passar por perto, a ouçam também e digam amém.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Brasil, o triturador de empresas

Rubens Menin (*)

No último mês de dezembro, foram criados 200 mil postos de trabalho nos EUA. No mesmo período, foram extintas 150 mil vagas de emprego no Brasil.

Por que isso aconteceu? As causas são muitas e variadas, mas a grande maioria delas resulta de opções equivocadas ou ineficientes tomadas por aqui, tanto na área política como na econômica.

Fabrica 1Quem perdeu com isso? Enganam-se aqueles que acreditam que perderam apenas as empresas e seus donos ou acionistas. Perderam os brasileiros.

Perderam salários, perderam renda, perderam a possibilidade de sustentar a si e à família com emprego garantido. Perderam dignidade e perderam, principalmente, a chance de prosperar na busca de um futuro melhor.

Rubens Menin é empresário. O texto integral está no Diário do Poder.

A brasilidade em tempos de folia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O que define a brasilidade aos olhos de um estrangeiro?

Futebol 3Eu diria que, se fossemos investigar há algumas décadas como outros povos conceituam nossa cidadania, três fatores seriam elencados em uníssono: futebol/Pelé, café e samba. O tempo passou, muita coisa mudou sob nosso céu de anil e outras percepções foram sendo agregadas para ajudar a formar um painel ilustrativo de nosso país varonil: exotismo tropical (sol, calor, belas paisagens de praia, campo e florestas), povo amistoso, alegre, tolerante e musical, belas mulheres desinibidas e semidesnudas, etc.

Décadas mais tarde, nuvens de chumbo passaram a cobrir os céus deste paraíso tropical e o quadro geral ganhou contornos tenebrosos para além de nossas fronteiras: o lar da corrupção, o campeão no ranking da insegurança pública, o berço das mais diversas endemias e epidemias, o abrigo de malfeitores internacionais, anão diplomático, o lugar no qual a elite é perversa e o povo é domado. Constrangedor, não é? Mas, tudo bem, deixa estar. Afinal, minha gente, é Carnaval! Vamos para a rua festejar!

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

Para os que não sabem o que isso significa no contexto do imaginário nacional, eu explico: antes de mais nada, Carnaval é o espaço da fantasia, da utopia e da autoafirmação nacional. Durante quatro dias, a pirâmide social se achata, papéis sexuais são invertidos, o machismo é suspenso temporariamente, a hipocrisia social desmancha-se no calor dos corpos em êxtase. O país todo se detém mesmerizado para assistir à deslumbrante parada de luzes e sons. Economia e política perdem totalmente seus significados. Não há “sofrência” amorosa que se sustente, não há negativismo capaz de toldar a alegria geral, não há preocupação com o futuro capaz de desbotar as cores da festa. Tudo o que se quer é que o mundo inteiro caia de joelhos diante de nossa criatividade, nossa genialidade, nossa capacidade de superação. Vira-latas são mais belos, mais resistentes, mais amorosos e mais simpáticos do que outras raças, bradamos a plenos pulmões.

Entender um brasileiro que não goste de Carnaval, que não se sinta tentado a jogar tudo para o alto e cair de boca na folia, é coisa que gringo nenhum consegue fazer. Cá para nós, também não há brasileiro que não pense que seus compatriotas avessos ao samba são ruins da cabeça ou doente dos pés. Pois bem, feliz ou infelizmente, esse é o meu caso.

Café 5Trancafiada em casa, tento fazer de conta que o mundo é normal lá fora. Ligo a televisão, ansiosa para mergulhar de cabeça em outra dimensão que exale um pouco de racionalidade, sensatez e compostura. Ledo engano! A mercadoria que você procura não está disponível no momento, alertam todas as emissoras, inclusive os assim chamados canais educativos. Talvez seja essa a época em que o pensamento único seja mais glorificado e incensado.

Nem mesmo os telejornais escapam do delírio geral. Encurtados para não atrapalhar a cobertura dos desfiles nas principais capitais, eles passam atabalhoadamente de um tema para outro, sem aprofundar nenhum. Terremoto atingiu cidade no interior de Mato Grosso? Ai, que hora mais ingrata para acontecer isso! Dilma se suicidou para evitar a cassação? Nossa, não esperava por isso, mas prometo que na Quarta-feira de Cinzas vou entrar na internet para ver os detalhes do velório e as discussões sobre quem vai ser o sucessor. O Lula assumiu que se lambuzou todo com o melaço que nunca havia comido antes e entrou para um convento franciscano, doando todos os seus bens para a caridade? Poxa, se ele tivesse feito isso antes eu ainda votaria nele! O Papa Francisco assumiu que é gay e decretou que, de agora em diante, só haverá mulheres à testa da igreja? Que bom, eu sempre achei esse cara sensacional, mesmo ele sendo argentino. O dólar foi cotado a 8 reais e a CPMF foi aprovada? Isso não me abala em nada, eu já tinha cancelado mesmo minha viagem para Miami.

Samba 3Nada ganha destaque, nada consegue prender a atenção do telespectador por mais de dois minutos. Uma vez transpostos os temas chatos do cotidiano, a mídia toda abre enormes espaços para o deslumbramento da rainha de bateria, para o escândalo causado por uma socialite que tirou toda a roupa em plena avenida, para a descontração dos blocos de rua. E dá-lhe festa.

Quem não se deu ao trabalho de assistir aos desfiles, não precisa se preocupar. Basta acessar a Internet para ver um resumo dos melhores momentos de cada escola, as fotos mais constrangedoras, as chamadas mais empolgantes do que ainda está por vir. Nas redes sociais, bem ao lado das fotos da participação doméstica na folia, comentários irados de quem dela não fez parte: Já imaginou uma multidão dessas saindo às ruas para protestar? Por que as mulheres aceitam fazer esse papel? Depois se queixam da violência…

Carnaval 1Quer um conselho? Não tente entender nem explicar nada, nem para os moralistas de plantão nem para os estrangeiros atônitos. Somos secularmente o país da improvisação. Depois damos um jeito de colocar a casa em ordem de novo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ética e utilidade pública

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Mesmo sem ter sido chamada, quero meter o bedelho nessa disputa entre o veterinário que resolveu dar plantões gratuitos para atender a população carente e os Conselhos de Medicina Veterinária ‒ Regional e Federal.

Sinto-me qualificada para dar alguns pitacos nessa questão, uma vez que desfruto de longa experiência de convívio com cães e veterinários de todos os tipos. Já enfrentei muitos conflitos com profissionais míopes e mesquinhos. Já disse com todas as letras a vários que a medicina veterinária herdou muito pouco dos méritos da medicina humana e todos os seus defeitos. Nas duas áreas de especialização, não é nada incomum encontrar aquilo que chamo de “mecânicos de corpos”, que se limitam a tentar consertar sintomas de mau funcionamento orgânico pedindo uma lista infindável de exames desnecessários, caros e, por vezes, dolorosos.

Cachorro 26Alguns exemplos ilustrativos do que quero dizer. Certa vez precisei localizar um veterinário que se dispusesse a adotar um tratamento alternativo para combater a leucemia de minha cachorra, que consistia em combinar a quimioterapia convencional com um medicamento antroposófico. Uma das médicas que consultei recusou-se terminantemente a atender o caso, alegando que, caso o tratamento desse certo, eu iria dizer que o mérito era da medicina alternativa e, se desse errado, eu culparia a quimioterapia e ela. Ponto para a insensibilidade.

De outra vez, uma amiga próxima viu um cachorro passando mal bem em frente a um consultório veterinário vizinho e foi correndo até lá solicitar atendimento de urgência. O profissional em questão sequer se deu ao trabalho de olhar para o pobre infeliz. Dirigindo-se à mulher aflita, disse calmamente que só o atenderia se ela se dispusesse a pagar pelo tratamento, já que se tratava de um animal de rua. Placar até aqui: insensibilidade 2 x profissionalismo 0.

O jogo não termina aí, felizmente. Posso dar testemunho do espírito de grandeza, nobreza de alma, solidariedade e compaixão de vários outros médicos veterinários. Já passei por situações comoventes em que esses profissionais largaram tudo o que estavam fazendo para atender a uma emergência com meus animais, abriram suas agendas gentilmente para encaixar uma consulta ou gastaram um bom tempo ao telefone respondendo a meus temores, dúvidas ou, ainda, discutindo opções de tratamento que eu poderia utilizar por conta própria – sem cobrar a mais por isso e, algumas vezes, aceitando que eu pagasse dias mais tarde ou parcelando o pagamento.

Cachorro 27Voltando ao caso em questão, acho que, dessa disputa, há no mínimo um efeito colateral positivo a comemorar: ficamos sabendo todos que o Conselho de Medicina Veterinária existe e nos enfronhamos com alguns detalhes do código de ética dos profissionais da área. Somente o fato de esse conselho de classe ter despertado de seu sono secular e ter vindo a público dizer o que pensa dos desafios da realidade brasileira já é um superavanço. Quem duvidar pode acessar o site do emérito Conselho paulista e tentar encontrar nele algum espaço para fazer contato, registrar uma reclamação ou esclarecer uma dúvida. Quem encontrar qualquer forma de transpor o muro da solene indiferença com que a população é tratada concorre a um saco de ração premium de 15 quilos!

Algumas perguntas não querem calar na minha cabeça. Onde estão os fiscais do Conselho para verificar as condições higiênicas e o tipo de ingredientes usados por muitos fabricantes de ração para cães e gatos e para afiançar que as promessas contidas nas embalagens e nos anúncios publicitários correspondem à verdade? Onde estão os auditores do Conselho para monitorar os preços escorchantes praticados pelos fabricantes de medicamentos veterinários, produtos de higiene e limpeza especializados, petiscos e acessórios e determinar se a relação custo-benefício é realmente satisfatória? Por que o conselho não se incomoda com a prática quase universal de misturar a administração de clínicas veterinárias com a de pet shops?

Cachorro 29A reação do presidente do Conselho paulista, ao reafirmar que não se pode considerar como de utilidade pública o atendimento gratuito se o profissional não estiver vinculado a uma ONG ou instituição de benemerência e ameaçar punir o “infrator”, lembrou-me a que teve um arcebispo da Igreja Católica em um caso famoso ocorrido no nordeste do Brasil há alguns anos. Uma menina de apenas 10 anos, estuprada pelo próprio padastro, havia engravidado. Aflita, a mãe da garota procurou um ginecologista para se aconselhar. O médico garantiu à mulher que a gestação era de alto risco, já que o corpo esquálido da menina não conseguiria sustentar o feto até o final da gravidez. Concordaram ambos que o melhor caminho a ser seguido seria um aborto. A mãe, penalizada e indignada, autorizou a cirurgia. Quando o sacerdote soube do acontecido, resolveu excomungar de uma só penada a mãe, a menina e o médico. Ao ser interpelado sobre a razão de haver excluído o agressor da pena de excomunhão, candidamente alegou que o crime por ele cometido era de menor gravidade, já que não atentava contra a vida.

Na minha santa ingenuidade, eu acreditava que os ministros da Igreja Católica eram escolhidos para defender a alma de seus fiéis e não seus corpos. Como convencer, então, uma autoridade eclesiástica de que o que havia ocorrido era, na verdade, o assassinato de uma alma infantil? Fiquei tão indignada naquela ocasião quanto estou agora. Da mesma forma, eu ingenuamente acreditava que a missão do Conselho era defender o bem-estar animal e não proteger humanos acomodados de eventual “concorrência desleal”. Será que o código de ética da categoria não contempla nem penas por omissão de socorro, como acontece com médicos de gente? Recorri até ao dicionário para tentar entender os meandros semânticos da expressão “utilidade pública” e constatei, horrorizada, que é de fato preciso que o governo reconheça o caráter benemérito de uma instituição (não pessoa) para conceder a ela algumas regalias.

Cachorro 28Pensando bem, faz sentido, ao menos no que tange à lógica humana e à lógica comercial. Nossas leis também não são feitas para premiar os justos e os de bom coração, mas sim para impedir o avanço dos oportunistas e malfeitores. O que é de estranhar ‒ e lamentar amargamente ‒ é que os dignos representantes do Conselho de Medicina Veterinária não tenham aprendido nada com seus clientes e pacientes. Se um dia eles não tiverem nada mais importante para fazer, aconselho que assistam a milhares de vídeos que circulam todos os dias na internet a respeito de ética animal.

Auxiliar semelhantes – sejam eles da mesma espécie ou não – em situação de fragilidade ou de perigo iminente, mesmo que para isso seja preciso oferecer a própria vida, é cláusula pétrea de toda Constituição animal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Cachaça não é água

Sebastião Nery (*)

Lula caricatura 2O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Em 1978, o prefeito Walmor de Luca, líder estudantil, deputado federal eleito no levante eleitoral do MDB em 1974, realizou um seminário trabalhista nacional com destacadas lideranças sindicais e com os políticos que se reorganizavam lutando pela anistia.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, o bigodudo gaúcho, bancário do Rio Grande do Sul, depois prefeito de Porto Alegre e governador do Estado. E também Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo, e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia, um assunto centralizou os debates: o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos já funcionando ou outros a nascerem?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Discutimos dois dias. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas (José Talarico, a brilhante advogada Rosa Cardoso, o exemplar João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido liderado pelo incansável Brizola, que deixara o exílio no Uruguai e, em Portugal, articulava sua volta.

Copo d'água 2Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? No último dia, vimos Lula já quase mudando de posição. Afinal, em 10 de fevereiro de 1980, nasceria o PT, marco da história política brasileira.

Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembro-me bem de que lá em Criciúma, já rouco de falar, Lula pediu:

‒ Me dá minha água.

Veio uma garrafinha de água bem branquinha. Aquela “minha água” me chamou a atenção. Joguei um gole no meu copo. Era cachaça e da boa.

Lula continua o mesmo. Sempre misturando cachaça com água.

Casa 1Minha casa, minha vida
Lula é um passarinho do céu, como aqueles da Bíblia, que não fiam nem tecem. A casa de São Bernardo não é dele mas é nela que ele mora. O sítio de Atibaia não é dele mas é nele que ele passa os fins de semana e pesca. O triplex do Guarujá não é de ninguém mas quem pôs o elevador lá foi ele, quem fez a churrasqueira foi ele, quem construiu as suítes foi ele, quem toma os porres lá é ele, quem paga… quem paga tudo… ah, quem paga tudo é a madrinha Odebrecht, a titia OAS, o vovô Teixeira.

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.

Campeões das reformas

Ruy Castro (*)

Lula e Dirceu 2Os políticos de esquerda costumam lutar por reformas – agrária, política, bancária, fiscal, urbana, universitária, administrativa – e pagar caro por isso. O statu quo, por definição, não gosta de reformas e combate os políticos que tentam promovê-las.

O ex-presidente Lula também é partidário de reformas. Mas, cioso de seus amigos das elites, limita-se a reformas mais modestas. Uma delas, a do triplex que ele diz não ter comprado no edifício Solaris, na praia das Astúrias, Guarujá (SP). Por que alguém faria reformas num apartamento que não lhe pertence é um mistério. E por que sua mulher, dona Marisa, vivia visitando o apê se nunca iriam morar lá só ela e Lula – por enquanto – sabem.

Pode haver coisa pior do que uma reforma? Começa-se trocando uma escada comum por outra em caracol e, de repente, já se quer instalar um elevador privativo, só para os bacanas. Um rodapé de madeira torna-se de porcelana e, num instante, o porcelanato toma também as paredes das salas de estar, jantar e TV. Dona Marisa fez tudo isso no triplex que não é de Lula. Por sorte, os 777 mil reais que a obra custou lhe saíram de graça, cortesia de uma gentil construtora.

Lula e Dirceu 3Outra reforma pela qual Lula lutou foi a de um sítio de 173 mil metros quadrados em Atibaia, que também não lhe pertence, mas a sócios de seu filho. A obra envolveu construir ou ampliar um pavilhão, churrasqueira, piscina, campo de futebol e converter um lago em tanque de peixes – quase uma reforma agrária. E, que bom, ela também lhe foi oferecida pela construtora.

Igualmente campeão das reformas é o ex-ministro José Dirceu – no caso, a de seu próprio sítio em Vinhedo (SP), no valor de 1,8 milhão de reais, pago por um lobista. Dirceu nem precisou lançar mão da vaquinha que, um dia, seus correligionários fizeram para socorrê-lo. Lembra-se?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Os problemas da esquerdização mental

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Demorou, mas tive um súbito insight a respeito do que anda acontecendo de errado com o mundo. Não, não estou me referindo a doutrinas políticas de esquerda, como o comunismo e o socialismo. Acredito apenas ter encontrado um fator importante em nossa forma de pensar o mundo capaz de explicar os muitos desarranjos que a humanidade vem sofrendo ao longo das últimas décadas.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

O tema tem ocupado minha mente há muito tempo. Por que, me perguntava eu, a civilização humana – no sentido de cultura e harmonia social – parece estar definhando e involuindo? Se a ciência progride a olhos vistos, apresentando a cada dia novas respostas para problemas que atormentam a sociedade desde priscas eras, por que o grau de alienação e solidão das pessoas parece só crescer? Se a tecnologia desenvolve a cada dia novos ‘gadgets’ que facilitam o cotidiano como nunca havíamos sonhado ser possível, por que eles vêm sendo usados primordialmente para encapsular as pessoas em mundinhos cada vez mais particulares, ao invés de reforçar e ampliar nossos laços afetivos? Por que a violência, a intolerância e o desejo de extermínio dos diferentes ocupam as manchetes dos jornais diariamente, enquanto a solidariedade, a compaixão e a generosidade só fazem perder cada vez mais valor de mercado?

A pista que me faltava veio através de uma frase do poeta Ferreira Gullar: “Só existe generosidade onde há utopia”. O raciocínio pode ser complicado e longo, mas me serviu de ponto de partida crucial para elaborar minha tese. Para explicá-la, preciso recorrer à teoria dos dois cérebros, uma teoria desenvolvida pelo cientista americano e ganhador do Prêmio Nobel de medicina de 1981, Roger W. Sperry. Para os que ainda não a conhecem, descrevo em mais detalhes algumas de suas implicações.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

Segundo os estudos de Sperry, o hemisfério cerebral esquerdo seria aquele que processa de forma linear, analítica, lógica e racional as informações, enquanto o hemisfério direito estaria envolvido nos processos de síntese, intuição e no manejo de sensações, sendo capaz de apreender a realidade de forma global e instantânea.

Em função dessas características, vários mitos foram criados e disseminados ao longo do tempo em torno da teoria. Um exemplo marcante: o hemisfério esquerdo passou a ser descrito como ‘cérebro masculino’ ou ‘cérebro matemático’, já que é nele que ocorre o processamento de palavras e números. O hemisfério direito, por sua vez, passou a ser associado com o universo feminino, uma vez que a matéria-prima com que opera seriam as imagens, as metáforas e a estética.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

A teoria sofreu uma série infindável de revisões e contestações desde que veio a público. Os conceitos de especialização e lateralização das funções mentais eram incômodos demais quando se tratava de explicar de que maneira os dois hemisférios se articulam para atuar de forma coesa no cotidiano de uma pessoa normal. Afinal, confabulavam seus opositores, ninguém pensa com metade de seu cérebro apenas.

Estudos de ressonância realizados posteriormente mostraram ser possível identificar áreas que são ativadas nos dois lobos cerebrais mesmo quando a operação mental é, em princípio, atributo especializado de apenas um deles ‒ como o processamento da fala, por exemplo.

Outra série de pesquisas buscava identificar e explorar eventuais diferenças na forma como destros e canhotos ativam circuitos neuronais para realizar uma mesma operação, considerando que o lado esquerdo do cérebro controla o lado direito do corpo e vice-versa. Essas pesquisas foram fundamentais para destruir vários dos mitos criados em torno da teoria ao determinarem que os hemisférios não atuam de forma autônoma. Razão e emoção caminham de mãos dadas na espécie humana, para o bem e para o mal. Equilíbrio, como sempre ensinaram os orientais, é o único caminho.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

Mesmo assim, voltando à minha tese, senti o impulso de elencar mudanças de paradigma ocorridas principalmente no sistema educacional e no campo científico ao longo do último século que poderiam ter a ver com o uso mais intensivo do cérebro esquerdo. Só para facilitar a compreensão de onde quero chegar, listo alguns exemplos que me ocorreram:

Interligne vertical 16 3Kf• Da valorização e do ensino prioritário da filosofia e das assim chamadas “humanidades” (ciências sociais, qualitativas), avançamos progressivamente para o culto das ciências quantitativas como base mais eficaz para explicar o comportamento humano. Esquizofrenia, depressão, câncer, tendência ao alcoolismo e ao abuso de drogas – só para citar algumas das preocupações contemporâneas – deixaram de ser crivados pela ótica das ciências humanas e sua causa passou a ser buscada em locais específicos dos genes. Escolas passaram a enfocar a transmissão de conteúdos técnicos especializados, deixando em segundo plano a proposição de atividades artísticas (como música, dança, pintura, trabalhos manuais, teatro, etc.);

• Junto com o novo paradigma das ciências exatas, assistimos extasiados ao florescimento e multiplicação explosiva de novas tecnologias. Inteligência artificial transformou-se aos poucos em sonho de consumo universal. Celulares, computadores e robôs passaram a ocupar uma posição central em nosso cotidiano e, com a criação das redes sociais, muitos passaram a delegar a máquinas a tarefa de registrar suas memórias e seus aprendizados, criar e fortalecer suas relações afetivas. As consequências estão à mostra para quem quiser estuda-las;

• No campo político, o final do século XX decretou o fim das ideologias. O pragmatismo político passou a comer pelas beiradas o desejo de construção de um mundo mais igualitário. O sonho da primavera árabe nunca evoluiu para sonhos de verão. Movimentos terroristas ganharam corpo e fôlego e os danos por eles causados são contados com horror apenas numericamente, sem que políticas de inclusão tenham sido desenvolvidas. Crise de refugiados convive com crise de representatividade dos governantes em todo o mundo. Movimentos de resistência civil crescem e minguam praticamente de acordo com as fases da lua;

• No campo religioso, o pragmatismo também mostrou ser capaz de substituir progressivamente o desejo de transcendência. Mais importante é verbalizar o amor a Deus do que praticar a comunhão entre os homens. Mais decisiva a ideia de garantir a sobrevivência neste plano do que lutar para alcançar a vida eterna.

Em tempo, uma piada circula pela internet: diferentemente do que acontece com outros hinos nacionais que enfatizam a fidelidade canina à pátria, o nosso começa com um descomprometido “ouviram…” como se não tivéssemos nada com isso.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A adega do Lula

Cláudio Humberto (*)

Lula caricatura 2Na reta final do governo, as visitas do Lula ao exterior foram marcadas por ligações do Planalto às embaixadas do Brasil informando que o então presidente “esperava receber de presente” algumas caixas de vinhos especiais, cuja lista era em seguida enviada.

Embaixadores do Brasil naquela ocasião afirmaram à coluna, pedindo anonimato, que recebiam o “pedido” do Planalto como um ultimato. Outros diplomatas interpretaram o pedido como uma “oportunidade de agradecer” pelo posto que ocupavam no exterior.

Lula deixou o Alvorada com 1.403.417 itens transportados em 11 caminhões da Granero no trajeto de Brasília a São Bernardo (SP). Um dos veículos, climatizado, levou espantoso acervo de vinhos. Dona Marisa pediu à Granero “cuidado redobrado” com a adega do Lula.

A oposição planeja, este ano, esmiuçar a formação da adega do Lula, considerada como uma das mais valiosas de todo o País.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

O astral ataca de novo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha relação com o plano astral nem sempre é das mais cordiais. Às vezes percebo um sinal de que ele está tentando entrar em contato e me enviar uma mensagem, mas, por diversas razões, prefiro ignorar. É em momentos como esse que ele mostra sua força e cria situações que me forçam a parar o que estiver fazendo e prestar atenção, mesmo a contragosto, ao que ele tem a dizer.

Falta de tempo, medo ou simples voluntarismo da minha parte são os motivos mais frequentes. Especialmente quando tenho uma premonição e não quero que os fatos aziagos se concretizem, costumo espantá-la de minha cabeça cantando, lendo um livro ou assistindo televisão. Em vão. As cenas ficam rolando na tela da minha mente até que, cansada, eu decida acender uma vela ou pedir ajuda a alguém mais entendido, na tentativa de esconjurar a desgraça que está por vir.

Astral 1Outras vezes, a mensagem vem cifrada e me falta paciência para tentar decodificá-la. Acontece quase sempre quando tenho de interpretar sonhos estranhos, mas muito vívidos, que me intrigam. Passo dias relembrando detalhes, tentando estabelecer relação com fatos ocorridos ao longo do dia ou ousando interpretações psicanalíticas. Aos poucos, a necessidade de explicação vai perdendo intensidade, a rotina predomina e eu acabo incorporando o fenômeno à minha lista de “percepções a investigar”.

Já me aconteceu, no entanto, tropeçar em pistas aparentemente sem sentido durante o dia. O exemplo mais dolorido que me ocorre nessa categoria é o que descrevo a seguir.

Certa vez, há muitos anos, decidi assistir a uma palestra sobre o tema de vidas passadas. A palestrante era uma psicóloga, o que me tranquilizava parcialmente quanto à possibilidade de estar entrando numa cilada. Cheguei ao local um tanto adiantada. A sala estava totalmente vazia e, por falta do que fazer, comecei a explorar visualmente o lugar. No quadro negro à minha frente havia uma anotação: “Além do Cérebro, S. Grof”. Mesmo sem outras indicações, concluí que se tratava de um livro sugerido e, quase mecanicamente, anotei os dados em meu caderno.

Astral 2As pessoas começaram a chegar, a palestra interessante e divertida transcorreu sem percalços e sem que fosse feita qualquer menção ao tal livro – do qual, aliás, eu já tinha me esquecido. Várias semanas se passaram. Na época eu trabalhava no centro da cidade e, a poucas quadras de distância, havia uma livraria que eu costumava visitar na hora do almoço. Naquele dia, eu me dirigi, como de hábito, à prateleira dos livros de psicologia e psiquiatria.

O vendedor, velho conhecido, me acompanhava para falar dos lançamentos. Como o dia estava muito quente e a conversa se arrastou, ele apoiou a lateral do corpo na prateleira e dobrou o joelho, em sinal de cansaço. Nada em especial chamou minha atenção e, quando eu já me preparava para sair, ele levou o corpo à frente num gesto brusco, a prateleira se desequilibrou e lá do alto caiu um livro exatamente sobre o alto da minha cabeça.

Fiquei tonta por alguns segundos e o vendedor, envergonhado, tentava de todas as formas se desculpar e me consolar. Quando me recompus, disse a ele em tom de brincadeira que eu precisava, no mínimo, ver a capa do livro para descobrir se havia valido a pena ter experimentado todo aquele impacto. Quase tive uma síncope ao ler o título: Além do Cérebro, de Stanislav Grof! Até hoje não sei dizer com precisão qual foi a intenção do astral em me submeter a essa experiência, já que o livro faz referência apenas a imagens mentais associadas à vida intrauterina e a cada fase do parto.

Porto 3Outro exemplo, desta vez mais leve e divertido, aconteceu há poucas semanas. Eu dirigia meu carro distraída, confabulando com meus botões se eu devia ou não insistir na ideia de publicar meu livro. Embora eu me sentisse satisfeita com o conteúdo e com o título que dei a ele, temia ser ridicularizada por meus pares ou pelo público em potencial, dado o caráter inusitado da abordagem que escolhi.

O farol fechou e eu, ainda envolta em divagações, vi a curta distância um rapaz bem vestido indo de carro em carro para pedir dinheiro. Assustada, fechei a janela, tranquei as portas e disse para mim mesma que não daria dinheiro algum a ele, qualquer que fosse o motivo que ele me apresentasse. Quando ele se aproximou, abriu um largo sorriso e, com toda a educação possível, pediu que eu abrisse uma fresta de janela para que pudéssemos conversar. Sem graça, acedi. Ele me olhou bem no fundo dos olhos e disse com voz confiante: «Estou angariando donativos para publicar meu livro. Quero muito que isso aconteça, mas não tenho condições de financiar o projeto. Você gostaria de participar?»

Livro 4Não preciso nem dizer que, envergonhada, abri a carteira e dei o dinheiro que ele pedia. A mensagem do astral era clara demais para ser ignorada. Como retribuição ao meu gesto de boa vontade, ele me estendeu um leque de marcadores de livros e pediu que eu escolhesse um como brinde. Respondi que tanto fazia, qualquer um serviria. Cuidadosamente ele retirou um a esmo e me entregou. Agradeci, o sinal abriu e eu fui embora.

Ao estacionar o carro, vi o marcador sobre o banco e o peguei para guardar na bolsa. Era propaganda de uma editora. Curiosa, consultei os detalhes da obra que estava sendo divulgada. Mais uma vez, o espírito zombeteiro do astral que me rege se fazia valer e funcionava como uma espécie de tapa na minha cara. O título do livro era simplesmente Nada é por acaso.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pra tirar a pedra do caminho

Carlos Chagas (*)

Lula caricatura 2As esquerdas foram para o poder com João Goulart, vendo-se postas para fora pelo golpe militar de 1964. O tempo passou, veio a democracia e o PT acabou de novo no governo, com Lula e, depois, Dilma.

Só que o país se encontra em frangalhos. Arrasado. São negados os princípios e ideais que levaram o PT ao poder. Ao contrário do que pregavam, eles suprimem direitos sociais, comprimem salários, aumentam juros, beneficiam a especulação e as elites, geram desemprego, elevam impostos, degradam serviços públicos, favorecem latifúndios e metem a mão nos dinheiros públicos.

Fizeram o oposto do que pregaram. Logo virá a revolta. E o que vamos fazer? Chamar a direita não dá. Afinal, é a receita dela que os companheiros aplicam.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Falta ao país um projeto acorde com as necessidades nacionais. Capaz de atender não apenas as massas, mas a classe média e a população em geral. Adianta pouco ficar atrás de outro partido para substituir o PT. São todos iguais, ou seja, incompetentes.

Nossa memória é curta, mas fica impossível esquecer o governo dos tucanos, quando Fernando Henrique ensaiou aquilo que Lula e Dilma, ironicamente, aplicam outra vez.

Que forças disporiam de condições para dar a volta por cima e de governar para a maioria? Não dá para pensar nos militares, já tiveram sua oportunidade e deu no que deu. Melhor pensar rápido ‒ quem sabe acionando as universidades?

Carlos Chagas é advogado, jornalista e radialista. O texto é excerto de artigo publicado no Diário do Poder.