Ignomínia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há meses venho tentando não me imiscuir no complexo debate político que atormenta, acabrunha e indigna milhares de brasileiros. Usei de muitos estratagemas para evitar colocar com todas as letras minha opinião pessoal, desde ironias, diálogos imaginários com minhas cachorras, até construção de fábulas e parábolas.

Camelo 2Hoje, no entanto, sinto a necessidade, a urgência mesmo, de externar meus pontos de vista pessoais e propor algumas reflexões. Não tenho feito outra coisa ao longo das últimas semanas a não ser acompanhar vorazmente todos os informes jornalísticos, análises de especialistas, opiniões de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com os dois lados da questão. Como um camelo, bebi toda a água disponível como preparativo para enfrentar a travessia deste deserto ético. Consumi toda a carne ideológica dos discursos a favor e contra cada um dos protagonistas da crise tal qual um leão faminto. Reservo-me agora o direito de regurgitar, vomitar e excretar os resíduos desse festim político a partir de uma perspectiva humana – a minha.

Começo por abordar o lado “direito” do conflito, em suas duas acepções: tanto a postura dos responsáveis pelo ordenamento jurídico brasileiro quanto a de todos os que se opõem à visão ideológica da esquerda. Preciso dizer que considero deveras preocupante que um juiz extrapole de suas funções constitucionais para trazer à luz as perversões de nossos atuais mandatários e guarde silêncio obsequioso quanto às distorções de caráter de outros tantos personagens da atual cena política. Tenho verdadeira ojeriza a salvadores da pátria, venham de onde vierem e independente dos mantos com que se cubram. Também tenho pavor dos que vestem suas togas, atendo-se aos detalhes eminentemente técnicos para emitir este ou aquele parecer e desconsiderando os aspectos mais propriamente morais da legislação em vigor. Sinto pânico ao constatar que muitos estão dispostos a acobertar os desvios de conduta dos que integram seu lado só para ajudar a destruir seus opositores. Os fins, me parece, não justificam os meios para nenhuma das partes deste ‘imbróglio’.

Esquerda x direita 1Como ainda não consigo identificar com clareza as motivações que se ocultam sob suas posições, adoto uma tática que sempre me valeu ao longo de minha vida profissional: chamo para mim mesma a solução do dilema. Em outras palavras, pergunto-me o que faria caso coubesse a mim julgar a causa tendo em mãos dados explosivos, capazes de fazer a balança pender mais para um dos lados do conflito. Já vivi situações desse tipo e confesso que quase sempre optei por oferecer armas de defesa à parte que me parecia mais fragilizada no momento. Se isso foi legal ou não, moral ou não, não sei. Simplesmente considero que uma das pulsões humanas mais poderosas é a de tentar evitar o predomínio da lei das selvas e promover uma disputa civilizada.

Quanto ao lado “esquerdo” da presente crise, só posso me alegrar com a decretação do fim da apatia da população brasileira diante da política – com “p” minúsculo ou maiúsculo. Sabemos todos, ainda que não o confessemos, que somos um povo pouco afeito ao debate de ideias e crédulos quanto à possibilidade de soluções mágicas para todo e qualquer confronto. Somos o país das revoluções sem sangue, a pátria dos cordiais, o reino da contemporização festeira e festiva. O caráter e o propósito ideológico dos protagonistas da esquerda dirigente já estavam desvelados muito antes de eles terem assumido o poder. Se a população não os identificou a tempo, se a imprensa não os enfocou com a seriedade necessária e se os intelectuais de todos os matizes não apontaram em profundidade suas implicações, não há como escapar do fato inelutável de que somos parte do problema. Mais uma vez, pergunto: o que você teria feito lá atrás se fosse chamado a escolher um governante sabendo-se cidadão de segunda classe, desprovido de direitos, integrante de uma minoria ou faminto de reconhecimento de seus valores? E se fosse membro da imprensa, responsável pelo setor de política durante os períodos eleitorais, divulgaria ou não as informações privilegiadas de que dispusesse? E se, desde sempre, integrasse a elite intelectual e fosse afeito a análises econômicas, sociais e políticas, nacionais e internacionais, ousaria estabelecer claramente comparações, limitações e sequelas?

Esquerda x direita 2Que atire a primeira pedra quem se sentir acima das paixões humanas, ora bolas. Acusar uns aos outros pela miopia do passado decididamente não ajuda, a meu ver, a ampliar o campo visual de ninguém para encontrar saídas que pareçam mais sensatas no futuro.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

2 pensamentos sobre “Ignomínia

  1. Sem dúvida, o que de mais notório está ocorrendo no país é a reação da população que tem ido para as ruas manifestar a sua repulsa pela incompetência dos responsáveis pela gestão politica e econômica a qual está provocando paradeira dos setores produtivos, desemprego, inflação, especulações e total inversão dos valores morais e éticos que devem nortear a sociedade e seus representantes.

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  2. Pingback: Nossa colega Myrthes Suplicy escreveu dois artigos excelentes para o BrasilDeLonge. | Caetano de Campos

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