Presidenciáveis

José Horta Manzano

Eleitor 1Quem achar que é birra minha provavelmente terá razão. Assim mesmo, vou botar no papel, nem que seja pra esconjurar.

Estes últimos anos, surgiu a moda de atribuir o epíteto de «presidenciável» aos que pleiteiam o cargo de presidente da República. Não é termo adequado.

Em tese, presidenciáveis somos nós todos. Todo cidadão que preencher os requisitos exigidos pela Constituição é presidenciável. Para se habilitar, o cidadão precisa:

Interligne vertical 11― Ser brasileiro nato, ou seja, ter nascido com o direito à nacionalidade brasileira. Pouco importa o lugar de nascimento, desde que o neonato já tenha nascido brasileiro.

― Estar em pleno exercício dos direitos políticos

― Estar alistado como eleitor

― Ser filiado a um partido político

― Ser alfabetizado

― Ter acima de 35 anos de idade

Pronto. Como eu dizia, boa parte dos habitantes de Pindorama são presidenciáveis. O que falta à maioria é ser filiado a um partido. Com as dezenas de partidos que temos à mão, esse é problema de solução fácil.

O que é que distingue, então, os presidenciáveis (que todos somos) daqueles que hoje debatem na tevê e amanhã vão aparecer na telinha da maquineta de votar?

Ora, minha gente, é que eles se inscreveram como candidatos, e nós, não.

Interligne 18hResumo da ópera
Todos os candidatos são obrigatoriamente presidenciáveis, mas nem todos os presidenciáveis são candidatos. Melhor assim.

Frase do dia — 185

«Do Brasil, emergente titular das Américas, sétima economia do mundo, sócio-fundador do grupo Brics, o mundo talvez imaginasse um discurso à altura. Pena que tenha ouvido mais um programa do horário eleitoral, com tradução simultânea.»

Mac Margolis, colunista do Estadão, ao comentar o discurso de dona Dilma, pronunciado na abertura da 69a. Assembleia-Geral da ONU.

Mercosul imprescindível

José Horta Manzano

A editoria de arte da Folha de São Paulo produziu um diagrama sobre as importações que a Argentina tem feito, nos últimos dez anos, de produtos brasileiros e de produtos chineses.

Mercosul 3Salta aos olhos o declínio ― a degringolada! ― da importância dada pelos importadores argentinos ao produto brasileiro. No ritmo atual, bastarão poucos anos para que a China ultrapasse o Brasil como maior fornecedor do país hermano.

Cupula Mercosul

Fica mais uma vez escancarada a evidência. Uma nação não tem amigos, tem parceiros. A China tem sabido lidar com a Argentina, sem afagos, sem tapinha nas costas, sem subserviência.

Talvez fosse uma boa ideia o Itamaraty mandar estagiários a Pequim para aprender como funciona a diplomacia comercial laica, sem amarras ideológicas.

Uma outra ideia, talvez ainda mais coerente, seria convidar a China para ser membro do Mercosul. Aí, a coisa ia.

J’accuse…!

José Horta Manzano

Do ponto de vista ético, há situações que se situam no limite entre o lícito e o inadmissível. O médico, por exemplo. Prepara-se durante anos para curar doenças e salvar vidas. Um belo dia, diante de um paciente terminal atormentado por sofrimento insuportável, vê-se em postura delicada.

Acusação 2Os estudos e o tirocínio fizeram dele um salvador, um resgatador de vidas ameaçadas. No entanto, o caso de um paciente terminal sem esperança de cura é diferente. Caberá ao médico, à contracorrente do que dele normalmente se espera, contribuir para a extinção da vida? Daquela vida que ele, médico, se preparou para amparar e preservar?

É um dilema complexo que roça a medicina, a filosofia, o direito, a religião. Nossa sociedade ainda está longe de chegar a consenso. Seja qual for a decisão do legislador, certo é que desagradará ampla parcela da população.

Um outro caso me ocorre que, embora não envolva decisão de vida ou morte, situa-se também no limbo que separa o admissível do insuportável. É o conceito dito de «delação premiada», atualmente na crista da onda.

Acusação 3Todo agrupamento tem suas regras, escritas ou não. Toda família tem segredos ― que não devem ser revelados aos de fora. Toda sociedade comercial tem sua estratégia ― que não deve ser divulgada por nenhum membro, nem mesmo depois de ter deixado o emprego. Todo Estado tem uma parcela de confidencialidade ― que deve permanecer ad aeternum ao abrigo de olhares indiscretos. Todo aquele que, apartado do grupo, se puser a dar com a língua nos dentes estará traindo o juramento e renegando a ética.

Nosso ordenamento jurídico tem reconhecido, com frequência crescente, o instituto da «delação premiada», expressão infeliz. A própria palavra delatar carrega senso pejorativo. Quem delata é traidor. Joaquim Silvério dos Reis e Domingos Fernandes Calabar passaram à História Oficial do Brasil como traidores justamente por terem delatado ao adversário atividades de parceiros confiantes.

Não há como negar que a delação trazida por desertor de um grupo criminoso ajuda a desmantelar a quadrilha. Visto assim, o delator se aproxima da figura do herói salutar e proveitoso à nação. Por outro lado, o delator será sempre o alcaguete, o dedo-duro, aquele traidor que quebrou, em benefício próprio, o elo de confiança que o unia ao bando.

AcusaçãoÉ, de novo, um dilema complicado. Trair os sócios é feio, mas se for em benefício da sociedade maior é desculpável. Como ensinar isso às crianças? Não tenho a resposta. Modificar o nome da coisa já seria um bom começo. Em vez de «delação premiada», expressão paradoxal em que os dois elementos se excluem, por que não dizer «delação interessada»?

Mais vale dar a cada boi o nome que merece.

Interligne 18b

Observação:
J’accuse…! ― Eu acuso…! ― é o título de artigo publicado em 1898 por Émile Zola, escritor francês. O autor, naquela carta aberta dirigida ao presidente da República Francesa, se posicionava num caso judiciário complicadíssimo que sacudia consciências. O caso envolvia um oficial do estado-maior do Exército, de origem judia, que tinha sido condenado por alta traição ao cabo de um processo ressentido por muitos como antissemita.

As vantagens que a idade traz

José Horta Manzano

Você sabia?

Há quem acredite que, para vencer uma eleição majoritária organizada em dois turnos, é necessário obter 51% dos votos. Meus esclarecidos leitores sabem que não é exatamente assim.

Na verdade, basta obter 50% dos votos mais um, computados apenas os votos válidos. E o que vêm a ser votos válidos? Ora, toma-se o total de votos exprimidos, eliminam-se os nulos e os neutros (em branco). Restam os votos válidos.

Crédito: BlogdoJardsonMadeira

Crédito: BlogdoJardsonMadeira

Mas essa história de 50% mais um ― será que é verdade mesmo? Quase, minha gente, quase. A afirmação é válida somente no caso de o total de votos válidos dar número par. Se o total for ímpar, o candidato que, teoricamente, obtiver «meio voto» a mais leva a taça.

Ajuizadamente, a Constituição Federal de 1988 determina que ganhará a parada o concorrente que reunir maioria absoluta dos votos válidos, ou seja, mais que a metade deles. Pronto, assim fica claro.

Precavido, o legislador chegou a imaginar uma situação que, conquanto pouco provável, é assim mesmo possível: um empate entre os dois finalistas. E aí, como é que fica? O Parágrafo 5° do Artigo 77 da Constituição tira a teima: o mais idoso se elege.

Sobra ainda a possibilidade estatística ― pouco provável, mas não absurda ― de os dois concorrentes terem nascido no mesmo dia e na mesma hora. Essa eventualidade não está prevista. Afinal, ninguém é de ferro. Na hora, a gente vê o que faz.

Leilão cubano

Cuba leiloa com EUA e Rússia porto erguido pelo Brasil

Leandro Mazzini (*)

Uma nova Guerra Fria, em novo contexto. É o que se depreende do episódio.

O governo do Brasil fez papel de bobo, no Caribe, com o ‘aliado’ governo cubano. Bancou, via BNDES, com R$ 240 milhões a fundo perdido, a construção do Porto de Mariel, de olho na reabertura comercial e no fim do embargo americano ao país de Fidel.

Putin e CastroMas quem vai faturar bonito são os Estados Unidos e a Rússia. Depois de os EUA fazerem oferta para operar a área, agora foi o presidente russo, Vladimir Putin, quem avisou a Raúl Castro que tem pretensões sobre a área. Para isso, Putin perdoou aos cubanos a dívida de US$ 35 bilhões. A revelação é do jornalista Marcelo Rech, de Brasília, editor do site InfoRel.

As negociações para o perdão da dívida duraram 20 anos. Putin ainda avisou aos Castros que vai investir US$ 2,6 bilhões em Cuba – principalmente direcionados a Mariel. Putin correu para Cuba um mês depois de os americanos fazerem a oferta de operação do porto. Recomeçou, assim, uma nova ‘guerra fria’ entre EUA e Rússia.

(*) Leandro Mazzini é jornalista, escritor, cientista político e editor do blogue Coluna Esplanada, alojado no UOL.

Desincompatível?

José Horta Manzano

Inventaram o pesado verbo desincompatibilizar, não foi? Pois a prática da língua ensina que, como na vida real, todos os descendentes e dependentes têm direitos. Entre eles, o de existir. Os derivados do monstrengo têm, portanto, direito à cidadania.

Manda o figurino de nossa República que os titulares de cargos executivos (prefeito, governador e presidente) sejam acolitados por um substituto. O homem (ou a mulher) é inoperante. Está ali just in case, de prontidão.

Constituição 4Isso fazia sentido em 1889, quando um golpe militar despachou o imperador para a Europa e instaurou, à força, regime dito republicano. Cento e vinte e cinco anos atrás, viagem de mandatário durava, no mínimo, uma semana. Em alguns casos, meses. Comunicações eram precárias. O titular podia muito bem permanecer, dias e dias, fora do visor. Alguém tinha de assumir de facto suas funções.

Hoje já não funciona assim, que o mundo mudou. Até solitários navegadores que dão a volta ao globo em frágeis embarcações à vela costumam estar conectados ao resto da humanidade 24 horas por dia. Prefeitos, governadores e presidentes, então, nem se fala. Podem despachar de dentro de um avião exatamente como se estivessem em palácio.

O cargo de vice, assim, perdeu sua razão de ser. O artigo constitucional que institui essa figura continua a ser recopiado, de constituição em constituição, mais por inércia que por convicção. Talvez estejam esperando que seja antes abolido da Constituição do Grande Irmão.

Bom, deixei clara, mais uma vez, minha aversão pelo estranho cargo de vice ― aquela figura ociosa que fica no banco de reserva torcendo pra que algo de ruim aconteça com o titular. Agora passemos às atribulações do(s) vice-presidente(s) de nossa maltratada República.

Saiu nos jornais: o presidente do STF assumiu a presidência da República em caráter temporário. É um daqueles dois com sobrenome polonês ao qual parecem faltar algumas vogais. O referido senhor é o quarto suplente da presidência. Isso quer dizer que, para que chegue seu turno, é preciso que o presidente mais outros três substitutos estejam impossibilitados de exercer o cargo.

E como é que foi chegar até ele? Explicam os especialistas que, na ausência de dona Dilma ― ocupada em fazer campanha em Nova York ―, assume o vice. O vice, por sua vez, é candidato à própria sucessão. Para evitar contestação e impugnação, inventou uma viagem ao exterior e fugiu à responsabilidade.

Constituição 3Sobrou para o presidente da Câmara Federal. O homem está na mesma sinuca do primeiro substituto: é candidato a governador. Tem de se desincompatibilizar, senão, adeus eleição.

Sobrou para o presidente do Senado, que também tem problemas de compatibilização ― Senhor, que palavrão! Sua Excelência é pai de candidado. Não se desincompatibilizou, dançou.

O pesado encargo caiu no colo do ministro do Supremo. Seu nome aparecerá nos livros de História, assim como o de José Linhares, que se encontrou na mesma situação 70 anos atrás. Terá exercido a presidência do País.

Uma esquisitice me deu que pensar. O primeiro, o segundo e o terceiro suplentes foram impedidos de assumir a obrigação por problemas de… desincompatibilização. Poderiam ser suspeitados de utilizar o cargo para auferir sabe-se lá qual vantagem eleitoral. É isso, não?

E… a presidente, como é que fica? Ela, que é a principal interessada na própria reeleição, passa ao largo da desincompatibilização? Pode fazer campanha, aparecer na televisão, discursar na ONU, receber visitantes estrangeiros, subir em palanque, «fazer o diabo». Se ela pode, por que não os outros? Estão zombando de quem?

«Something is rotten in the state of Denmark» ― há algo de podre no Reino da Dinamarca.

Frase do dia — 184

«Ora, direis, olhar sapatos. Parece uma trivialidade, mas é uma aula de economia e de costumes. Dilma Rousseff calça a marca francesa Louis Vuitton, e Aécio Neves, a italiana Ferragamo. (…)

Marina Silva usa sapatos das marcas Beira Rio e Renner (100 reais pelo par).»

Elio Gaspari, em sua coluna no jornal O Globo, 24 set° 2014.

A chave da cadeia

Ruy Castro (*)

Desvendaram ― de novo ― o mistério de Jack, o Estripador. Não é a primeira, nem a segunda vez. De trinta em trinta anos, alguém se apresenta como tendo descoberto a identidade do assassino. Jack, como se sabe, foi o homem que, na Londres de 1888, matou cinco prostitutas, mutilou seus corpos, retirou-lhes ovários, útero e outros órgãos. E a Scotland Yard nunca o apanhou.

O suspeito da vez é Aaron Kosminski, imigrante polonês, então com 23 anos, e seu acusador, Russell Edwards, escritor e detetive diletante. Ele diz ter examinado o DNA das manchas de sangue e esperma contidas num xale encontrado junto a Catherine Endowes, a quarta vítima de Jack, e tê-lo confrontado com o patrimônio genético de descendentes diretos de Catherine e de Kosminski. O resultado está no livro Naming Jack the Ripper (Identificando Jack, o Estripador, que não demora a sair por aqui). Já é um best-seller ― como todos sobre Jack nestes 126 anos.

London oldPessoalmente, meu suspeito favorito ainda é o príncipe Albert Victor, neto da rainha Vitória. Pelo menos, Albert tinha um motivo: matar a prostituta que dizia estar grávida dele e eviscerá-la para arrancar o feto. Como o príncipe não sabia direito quem era, o jeito era ir matando até encontrar. Quando aconteceu, ele parou de matar. Um médico da rainha acompanharia Albert em cada crime. Mas, como nos outros casos, nada ficou provado.

Na Inglaterra, há mais de cem livros em catálogo sobre Jack: Jack de A a Z, enciclopédia de Jack, as cartas de Jack, o diário de Jack, guia turístico de Jack, Jack para crianças. Só falta um livro de receitas. E não será o de Edwards que esgotará o assunto.

No Brasil é diferente. Nos casos de corrupção, por exemplo, sabe-se quem foi o ladrão, seu DNA, o nome dos cúmplices, o caminho do dinheiro e quem se beneficiou. Só não se sabe onde fica a chave da cadeia.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista da Folha de São Paulo.

Frase do dia — 183

«Com todo o respeito que tenho por Antônio Houaiss, sua iniciativa para padronizar a escrita dos países lusófonos foi um desastre. Passados 24 anos da assinatura do acordo, as ortografias adotadas no Brasil e em Portugal continuam diferentes e nós, do lado de cá do Atlântico, passamos pelo levemente traumático, relativamente custoso e absolutamente inútil processo de reaprender a escrever.»

Hélio Schwartsman, filósofo, colunista da Folha de São Paulo, 20 set° 2014.

O soneto e a emenda

José Horta Manzano

Não fui o único a mostrar indignação quando nossa ínclita presidente, dias atrás, proclamou que «investigar não é função da imprensa». Analistas e outros brasileiros pensantes se alevantaram contra a enormidade.

Dona Dilma há de ter sentido o baque. Mas palavra dita, como flecha lançada, não se consegue recolher. Falou, tá falado ― diz o povo esperto. Restou a ela afirmar que burros somos nós, que não entendemos nada. «A imprensa pode investigar, claro! O que não pode é julgar» ― emendou madame, corrigindo a si mesma.

Disse isso sem se dar conta de que toda opinião traz necessariamente embutido um juízo de valor. Pode não ser judiciário ― nem teria cabimento ― mas sempre julgamento será. A mãe que se queixa com a vizinha sobre o mau comportamento do filho está emitindo juízo sobre a conduta do rebento. O jornalista, quando descobre um «malfeito» e anuncia que o mal está feito, está igualmente julgando.

Tonto 1Assim mesmo, foi um alívio saber que a inteligência continua no andar de cima. Fica mais uma vez provado que somos governados por gente esclarecida. Melhor assim. Durmam tranquilos, cidadãos, que estamos em boas mãos!

Tsk, tsk, brincadeira, gente! Esse pessoal que estendeu teia em Brasília e domou os escaninhos da administração federal não tem jeito. São primitivos. Enxergam o brasileiro como povo bronco e imaginam que tenhamos todos a mente embotada.

Costumam dizer o que lhes passa pelos débeis neurônios, na certeza de que, de qualquer maneira, quase ninguém vai entender. E os poucos que entenderem vão se calar porque têm interesse em que as coisas continuem como estão. Verdade ou não?

Não precisa responder. O silêncio é, às vezes, estridente.

A função da imprensa

José Horta Manzano

Sintonizei a CBN para acompanhar o café da manhã deste sábado. Depois de ouvir as notícias da Europa, costumo me inteirar das novidades brasileiras. Com esses aparelhos de rádio atuais, conectados à internet, tudo ficou bem mais fácil.

Jornal mural ― anos 70

Jornal mural ― anos 70

Quando já é manhã por aqui, no Brasil são as que antigamente se chamavam «altas horas», não sei se os jovens ainda entendem. É quando o ponteiro das horas aponta lá pra cima. Os franceses costumam dizer «les petites heures » ― as pequenas horas ―, o que dá no mesmo. É hora boa pra ouvir notícia. Não se fala em tráfego, perdão!, em «trânsito».

Distraído, ouço de repente uma voz de mulher braba afirmar, em tom peremptório, que «investigar não é função da imprensa». Depois de um instante de estupefação, me dou conta de que é a presidente da República quem profere essa enormidade. E ela continua o discurso afirmando que cabe à imprensa apenas relatar o que já foi investigado por quem de direito.

Incomodada pela divulgação de um ‘malfeito’ atrás do outro, é compreensível que uma enfurecida Dilma Rousseff, incapaz (por enquanto) de calar a imprensa, lance suas flechas contra ela. Tem ela sorte de presidir um país cujo povo, calejado por tantos escândalos, já não dá mais atenção a miudezas.

Tivesse ela dito esse tipo de monstruosidade em terra civilizada, receberia de volta saraivada pesada vinda de uma nação indignada. Nossa presidente venturosa preside um povo ingênuo, amestrado a engolir mentiras com facilidade.

Jornal mural ― anos 70

Jornal mural ― anos 70

Relatar fatos é função de agências noticiosas. As grandes do mundo se chamam Reuters, France Presse, Associated Press, Ansa. Até o Brasil tem uma, chamada, com propriedade, Agência Brasil. Imprensa é outra coisa. Se sua função fosse unicamente relatar fatos, um jornal seria suficiente. Mas o mundo não funciona exatamente como dona Dilma gostaria.

Não se saberá jamais se a frase infeliz da presidente foi realmente de sua lavra ou se lhe terá sido soprada por alguma eminência parda. É até capaz de a enormidade ter sido bolada por suas eminências. Elas andam tão assustadas com a perspectiva real de derrota daqui a 15 dias que acionaram a metralhadora giratória. Fazem fogueira com qualquer madeira.

Pois a função da imprensa é justamente analisar, opinar, investigar, supor, debater. Para relatar fatos, bastavam os da dzi bao, jornais murais que o regime afixava na Praça da Paz Celeste, em Pequim, nos tempos de Mao Tzê Tung.

Jornal

Jornal

A fala de dona Dilma está em contradição flagrante com a boa acolhida que seu governo tem dado a Mister Greenwald. Falo daquele jornalista americano, residente no Rio de Janeiro, que deu eco planetário a informações sigilosas surrupiadas de agências de segurança americanas. Ele não se limitou a relatar fatos, mas foi parte ativa na investigação que acabou por descobri-los.

Não se pode aprovar Chico e repudiar Francisco, como está fazendo nossa presidente mandona. Isso dito, ela não precisa se desesperar. A pouca importância que, desde sempre, o poder público tem dado ao desenvolvimento cultural dos brasileiros faz que a estupefação se extinga com o último gole do café da manhã.

Frase do dia — 182

«Como resistir no país onde o que foi contratado e acertado entre dois homens — por escrito ou no ‘fio do bigode’ — é letra que já nasce morta? Como resistir quando o colega do lado, ao ceder à sedução de um advogado corrupto, aciona o patrão com base numa coleção de mentiras e lhe arranca, sem medo de errar, mais do que ganhou trabalhando anos a fio?

Lula tem razão: somos todos corruptos no Brasil que Getúlio nos legou. Daí a corrupção ‘não colar’ como fator decisivo de eleições: é contra a lei ser honesto no Brasil.»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em artigo publicado pelo Estadão, 19 set° 2014.

Direto ao ponto

Miguel Pellicciari

Só para deixar bem claro: quem nomeia diretores da Petrobrás é o sócio majoritário, ou seja, o governo federal, cujo presidente na época de Paulo Roberto Costa era o Lula. Quem endossa a nomeação é o conselho de administração, cuja presidente era Dilma Rousseff.

Portanto, o senhor Paulo Roberto Costa sabia muito bem qual seria sua missão na empresa.

Agora, o que mais intriga é ver o maior interessado nisso ― o pessoal do PSDB ― não explicar direitinho a coisa aos eleitores nem mostrar a fila de caminhões aguardando para ter acesso a nossos portos, comparada ao moderníssimo porto feito pelo PT em Cuba.

Citação extraída de comentário de leitor do Estadão, 19 set° 2014.

De eufemismos e distorções

José Horta Manzano

Petrobras 3Crise
Por que se fala em «crise na Petrobras» quando o que houve foi pilhagem da Petrobrás? Covenhamos, a crise não é na petroleira, atinge todo o andar de cima da ultraestratificada sociedade brasileira. Aliás, além de dona Dilma, quem garante que a pilhagem terminou?

Interligne 28aDiferenciado
Por que será que «diferenciado» substituiu diferente? Há de ser para marcar uma diferença ainda maior.
Os delinquentes que assaltaram ontem o cardeal-arcebispo do Rio pediram desculpas ao prelado. Mas cometeram o crime assim mesmo. Terão dado a Sua Eminência um tratamento… «diferenciado»? Será isso mesmo?

Interligne 28aViolência
Por que razão todos nós nos limitamos a apontar a atual «onda de violência» quando, na verdade, se trata de onda de crime?

Interligne 28aManif 9Ativismo
Por que chamamos «ativistas» os energúmenos que provocam baderna em praça pública? Arruaceiros é o que são.

Interligne 28aPerformance
Por que, diabos, usamos a expressão «performance» ― bizarro híbrido anglofrancês ― quando nosso velho desempenho dá o mesmo recado?

Interligne 28aRanking
Por que usar «ranking» em substituição à tradicional classificação? Ranking é filhote da mesma raiz ‘reg’ que desembocou em rei, regulamento, régua e regra. Ranking traz embutida a ideia de fila indiana, de ordenamento militar. Classificação tem mais classe.

Interligne 28aFacção
Os agrupamentos de facínoras que povoam prisões e ruas não merecem o sofisticado título de «facção». É nobre demais. Que se os chame por nome mais adequado: bando, quadrilha, gangue.

Interligne 28aCom certeza
Em português, assim como em numerosas outras línguas, usa-se a locução «com certeza» justamente em situações em que não se tem muita certeza. O uso tradicional costumava ser:
«Onde estará Joãozinho? Já é tarde, e ainda não chegou.»
«Ah, com certeza ficou trabalhando até mais tarde.»

O sentido da expressão tem-se invertido estes últimos tempos. Passou a designar exatamente aquilo que é certo, seguro, garantido. Por exemplo:
«Então, você vai ao comício do palhaço Itaparica?»
«Com certeza! Não perco uma fala daquele candidato.»

Interligne 28aComunidadeComunidade
Comunidade sempre foi um conceito vago, abrangente, pau para toda obra. O que se costuma definir como palavra-ônibus. Costumava ser usada como termo complementar. Uma vez que já se sabia do que se estava falando, comunidade podia substituir o substantivo principal para quebrar a monotonia. De uns tempos pra cá, comunidade assumiu valor absoluto. É usada sem maiores detalhes, tornando a comunicação imprecisa.

Se alguém lhe disser: «Lá, na minha comunidade, somos todos gente fina.», você vai entender que todos são gente boa, mas ficará sem saber que espécie de comunidade é. Melhor será refrear-se de ceder ao modismo. Vamos guardar o nome específico de cada comunidade. Favela, associação, cortiço, bairro, povoado, cadeia, seita, clube, vila, quilombo, grêmio são comunidades. Mas cada um desses nomes encerra realidade diferente. Vamos dar nome aos bois?

Para redourar a imagem

José Horta Manzano

Precisa ser muito caradura. Um correspondente do Estadão nos informa que o Brasil está para apresentar, ao plenário da ONU, proposta de combate à impunidade de crimes contra a imprensa e contra a liberdade de expressão.

Anúncio 1Logo o Brasil, quem diria! E pensar que, em assuntos de reprimir a livre expressão de ideias, nosso País poderia dar aulas a qualquer principiante.

Quem não se lembra do caso do jornalista americano Larry Rohter? Em 2004, era correspondente no Brasil do New York Times. Foi ameaçado de expulsão do País por ter ousado pôr no papel o que todos já sabiam: que o Lula, então presidente da República, era forte apreciador de uma branquinha.

Quem já se esqueceu da Operação Boi Barrica? Era investigação sobre os ‘malfeitos’ do filho de José Sarney, suspeito de ter sacado ― sabe-se lá de onde ― 2 milhões de reais em dinheiro vivo para financiar a campanha da irmã Roseana. Uma decisão judicial cassou ao jornal Estadão o direito de publicar uma linha sequer sobre o assunto. Faz mais de cinco anos que a mordaça continua atada.

E aquele banco que, pressionado pelo Planalto, teve recentemente de demitir uma penca de analistas financeiros que haviam recomendado cautela a seus clientes, diante das perspectivas econômicas nacionais? Se isso não for cerceamento da liberdade de opinião, o que será?

Jornal 1Quem se lembra de ter passado alguns dias, nem que fosse uma semaninha só, sem ouvir declaração de um sempre furibundo Lula acusando a imprensa de todos os males? Para ele e para seus áulicos ― incluindo a atual presidente da República ―, imprensa boa é aquela que proclama o lado bom do governo e cala sobre o que não convém publicar. Mídia que conta as coisas como são é golpista e preconceituosa.

Depois de passar 12 anos pressionando a mídia, vem agora o governo brasileiro propor ao mundo a proteção da liberdade de expressão? É como se a China propusesse a proibição do ‘dumping’. Ou se a Argentina patrocinasse a publicação de estatísticas transparentes. Ou se Cuba lutasse pela adoção planetária do princípio da livre circulação dos indivíduos.

Francamente, tem gente que não teme o ridículo.

A mentira no estado da arte

Fernão Lara Mesquita (*)

Ventriloquo 1Que Marina Silva é um produto perecível que se deteriora quanto mais aparece na TV é algo que me parecia claro desde sempre. Em matéria de falta de sex appeal, ela é páreo duro para a Dilma Rousseff real. A diferença é que os competentes marqueteiros do PT sempre souberam disso, mas os de Marina parece que ainda não tiveram tempo de perceber.

A Dilma real despencou naquela safra fortuita de entrevistas ao vivo e debates na tevê. A Marina virtual subiu como um foguete em função daqueles 15 dias que se seguiram à morte de Eduardo Campos, quando aparecia na telinha sem dizer nada – apenas um avatar.

Desde então a coisa se inverteu. A Marina real começou a falar com sua própria voz e expor suas próprias idéias. E quanto mais fala, mais cai.

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

Já a Dilma real calou-se. A desarticulação crônica de idéias saiu de cena. Foi substituida pela Dilma virtual, esse boneco de ventríloquo dos marqueteiros do PT ― bem editado, photoshopeado e produzido. Quanto mais eles mentem em seu nome, mais ela sobe.

Interligne 18e

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

Último ATTO

José Horta Manzano

Há quem ainda garanta que é iminente o perigo de «uzamericânu» invadirem a Amazônia a fim de se tornarem os maiores produtores de açaí e de cupuaçu.

Mas tudo tem seu lado bom. Se isso acontecer, o guaraná ― bebida nacional por excelência ― passará a ser importado. Exatamente como uísque escocês puro malte. Quer coisa mais chique?

Já no final dos anos 1980, diante do risco de perder o controle de um naco do território nacional, os governantes militares da época decidiram desenvolver o Projeto Sivam. O nome, que soa bem, é feliz abreviação de SIstema de Vigilância da AMazônia.

A intenção era instalar uma teia de radares para monitorar a região. Um problema barrava a estrada, entretanto: a tecnologia necessária não estava disponível no Brasil.

O Planalto foi obrigado a seguir o rumo inevitável: para se prevenir contra futuras invasões, solicitaram ajuda… ao pretenso futuro invasor. Encomenda foi passada a uma empresa dos EUA. Depois de os militares terem sido mandados de volta à caserna, os sucessivos governos federais cuidaram de levar adiante o programa.

Assim mesmo, ainda há quem garanta que a ameaça persiste. Asseguram que «uzgríngu» estão à beira de nos arrancar um naco do território, justamente aquela região que antigamente ninguém queria. Era até descrita, com certo desdém, como o «inferno verde». Estamos numa democracia ― a cada um é permitido cultivar suas fobias como bem entender.

Atto 1Um outro tipo de monitoramento se tem feito necessário estes últimos anos. As alterações climáticas que se anunciam não são ameaças regionais, mas planetárias. Apesar de continuar encolhendo à vista d’olhos, a região amazônica ainda tem peso considerável no meio ambiente global.

Faz alguns anos, formou-se um consórcio entre agências brasileiras e ― quem adivinha? ― americanas para monitorar o ecossistema amazônico. São várias instituições, algumas entrando com o financiamento e outras, com a tecnologia. A USP e até o Instituto Max Planck, uma espécie de MIT alemão, integram o grupo.

Atto 2Na prática, está em construção uma altíssima torre ― alguns metros mais alta que a Torre Eiffel ― em plena Amazônia brasileira. Deve ficar pronta até o fim do ano. Seu objetivo é coletar dados científicos que, reunidos e analisados, levarão a um entendimento mais amplo da evolução do meio ambiente da floresta tropical.

Só nos resta aplaudir. Com um reparo, porém. O projeto de trinta anos atrás foi nomeado seguindo o acróstico formado pelas palavras em nossa língua (SIstema de Vigilância da AMazônia). O novo empreendimento tomou caminho mais moderno.

A Torre Alta de Observação da Amazônia deveria ser conhecida por TAOA. Ou Taoam, que soa até melhor. Não foi o que decidiram. O projeto tem o nome oficial de ATTO, por Amazonian Tall Tower Observatory.

Fica no ar a sensação de que «uzamericânu» já tomaram conta da região. E ninguém nos avisou.

Frase do dia — 181

«Se algo ficou evidente nos anos de governo Dilma foi a incrível batalha que ela mantém com a língua portuguesa e com o próximo ― seja ele quem for.»

Frase inicial de Tortuosos trajetos do dilmês, editorial do Estadão deste 15 set° 2014. Vale a pena ler inteiro. Se estiver disposto, clique aqui.

Tico-tico no fubá

Everaldo José dos Santos (*)

Vibrante, buliçoso e ao mesmo tempo sentimental, Tico-tico no fubá é o exemplo perfeito do choro clássico, em três partes, composto na melhor tradição do gênero.

Predestinado ao sucesso, impressionou logo em sua primeira apresentação, em 1917, num baile em Santa Rita do Passa Quatro, quando ganhou o nome de Tico-tico no farelo. Razão do nome: a animação dos pares que dançavam em grande alvoroço, provocando o comentário do autor: “Até parece tico-tico no farelo…”.

Depois, talvez porque já existisse um choro homônimo (de Canhoto), passou a Tico-tico no fubá. No entanto, apesar da estréia vitoriosa, a obra-prima de Zequinha de Abreu só chegaria ao disco quatorze anos mais tarde, gravada pela Orquestra Colbaz, criada e dirigida pelo maestro Gaó. Sucesso absoluto, o disco permaneceu em catálogo até a década de quarenta, época em que a composição alcançou o auge da popularidade.

Tico-ticoContribuiu para isso sua internacionalização comandada pelos americanos que, no curto espaço de cinco anos, a incluíram em cinco filmes: Alô amigos (1943), A filha do comandante (Thousands Cheer, 1943), Escola de sereias (Bathing Beauties, 1944), Kansas City Kitty (1944) e Copacabana (1947). Neste último, foi cantada por Carmen Miranda.

A partir de então, recebeu dezenas de gravações, tornando-se uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos, no país e no exterior. Entre seus intérpretes, salienta-se a organista Ethel Smith (1910-1996), que levou a música ao hit-parade americano.

Tico-tico no fubá é regularmente executada por veteranos pianistas de Nova Orléans, como peça local. Sofre, no entanto, algumas alterações melódicas e rítmicas, que a fazem assemelhar-se a um tango, bem ao estilo da segunda parte de Saint Louis Blues.

Essencialmente instrumental, a peça tem letra brasileira de Eurico Barreiros e Aloísio de Oliveira e versão inglesa de Ervin Drake. Nenhuma das letras vingou, apesar do relativo sucesso das gravações de Ademilde Fonseca, em sua estréia em disco, e das de Carmen Miranda, nos Estados Unidos.

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(*) Everaldo José dos Santos, apaixonado pela MPB da Velha Guarda, edita o blogue Cifrantiga.blogspot.com.br/