O soneto e a emenda

José Horta Manzano

Não fui o único a mostrar indignação quando nossa ínclita presidente, dias atrás, proclamou que «investigar não é função da imprensa». Analistas e outros brasileiros pensantes se alevantaram contra a enormidade.

Dona Dilma há de ter sentido o baque. Mas palavra dita, como flecha lançada, não se consegue recolher. Falou, tá falado ― diz o povo esperto. Restou a ela afirmar que burros somos nós, que não entendemos nada. «A imprensa pode investigar, claro! O que não pode é julgar» ― emendou madame, corrigindo a si mesma.

Disse isso sem se dar conta de que toda opinião traz necessariamente embutido um juízo de valor. Pode não ser judiciário ― nem teria cabimento ― mas sempre julgamento será. A mãe que se queixa com a vizinha sobre o mau comportamento do filho está emitindo juízo sobre a conduta do rebento. O jornalista, quando descobre um «malfeito» e anuncia que o mal está feito, está igualmente julgando.

Tonto 1Assim mesmo, foi um alívio saber que a inteligência continua no andar de cima. Fica mais uma vez provado que somos governados por gente esclarecida. Melhor assim. Durmam tranquilos, cidadãos, que estamos em boas mãos!

Tsk, tsk, brincadeira, gente! Esse pessoal que estendeu teia em Brasília e domou os escaninhos da administração federal não tem jeito. São primitivos. Enxergam o brasileiro como povo bronco e imaginam que tenhamos todos a mente embotada.

Costumam dizer o que lhes passa pelos débeis neurônios, na certeza de que, de qualquer maneira, quase ninguém vai entender. E os poucos que entenderem vão se calar porque têm interesse em que as coisas continuem como estão. Verdade ou não?

Não precisa responder. O silêncio é, às vezes, estridente.