Adeus, mordomias!

Em Orlando, funcionária do aeroporto entrega cartão de embarque a Bolsonaro dando-lhe as costas.

José Horta Manzano

Desde que tomou posse do cargo, em 2019, Bolsonaro se habituou a viver cercado de reverências e mordomias. Foram quatro anos durante os quais não teve de se preocupar em abrir portas, fazer compras, arrumar a cama, mandar um eletrodoméstico para o conserto, conduzir a filha até a escola, levar o carro para a revisão, pagar a conta do telefone, fazer fila no banco, comprar aspirina na farmácia, apertar o botão do elevador. Até o pastel que comia no boteco – sempre em frente às câmeras, naturalmente – era pago por um serviçal.

Derrotado, o ex-presidente ainda conseguiu dar uma espichadinha no mundo da fantasia. Dois dias antes de entregar o cargo, escapuliu do Brasil em avião oficial e estacionou três meses pras bandas da Disneylândia. Lá continuou cercado de serviçais e de apoiadores, concedeu autógrafos, posou para selfies, comeu hambúrguer e pizza (longe das câmeras) e visivelmente engordou algumas libras.

Mas chegou a hora do retorno. Prolongar a estada equivalia a pavimentar a estrada para outros potenciais candidatos à Presidência em 2026. Medroso como é, o capitão há de ter engolido meio vidro de remédio tranquilizante pra poder embarcar de volta.

Já no aeroporto de Orlando, levou seu primeiro susto de ex-presidente. Como qualquer mortal, teve de fazer fila e passar o controle de bilhetes. Chegando ao guichê, Bolsonaro, que não carrega a própria passagem mas deixa a tarefa para um assessor, parou e ficou esperando que lhe dessem autorização de seguir adiante.

Nesse instante, o assessor carregador de bilhete espicha o braço e entrega a tarjeta informando que é do senhor que está de pé. A mocinha do embarque cata o papel, confere, e devolve o cartão de embarque ao ex-presidente. Faz isso com um gesto displicente, dando as costas a Bolsonaro e espichando o braço para trás enquanto conversa com outra pessoa. Para o ex-presidente, há de ter sido um susto!

Logo em seguida, ele teve de embarcar num voo comercial (coisa que não fazia havia anos), espremido como qualquer cidadão comum. Ouviu aplausos, mas também teve de aguentar gritos hostis. Parece que não dormiu durante a viagem. Ao desembarcar, não viu multidão nenhuma. Foi levado em viatura da PF até a sede de seu partido. Na porta, esperando por ele, havia meia dúzia de gatos pingados.

À noite, depois que uma dia calamitoso o fez cair na real, acho que ele teve de tomar remédio pra dormir.

Ai, ai, ai. A dor de ser ex é a dor de quem era mas deixou de ser. E com pouca esperança de voltar a ser.

Grippette

José Horta Manzano

Le Figaro, tradicional diário francês de direita, publicou um artigo por ocasião dos 700 mil mortos de covid, terrível marca alcançada pelo Brasil estes dias. O texto lembra que nosso contingente de vítimas só é superado pelo dos EUA, país em que a covid matou mais de um milhão. No mundo todo, foram 6,8 milhões de mortos.

O jornal – de direita, repito – não se esqueceu de mencionar a atitude debochada com que Bolsonaro “enfrentou” a pandemia. Lembrou a seus leitores a “gripezinha” do capitão. Aqui estão o trecho original e a tradução.

Une «grippette»
La gestion de la crise du Covid au Brésil a été marquée par un grand nombre de polémiques entre les milieux scientifiques notamment et l’ancien président d’extrême droite Jair Bolsonaro. Celui-ci a longtemps dit que le Covid était une «grippette», préconisé des traitements inefficaces et s’est opposé à la vaccination. Il a refusé de confiner la population au nom de la préservation de la première économie d’Amérique latine, tout en multipliant les bains de foule, le plus souvent sans masque.

Uma “gripezinha”
A gestão da crise da covid no Brasil foi marcada por numerosas polêmicas entre a comunidade científica e o ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro. Durante muito tempo, ele chamou a covid de “gripezinha”, defendeu tratamentos ineficazes e se opôs à vacinação. Ele se recusou a confinar a população em nome da preservação da maior economia da América Latina, enquanto aumentava o número de banhos de multidão, geralmente sem máscara.

Como se vê, mesmo além-fronteiras o “legado” de Bolsonaro é reconhecido e lembrado.

Estratagema
Para traduzir “gripezinha”, o Figaro recorreu a um estratagema raro: criou uma palavra. Em tempos normais, uma gripezinha se diz “une petite grippe”. Nunca ouvi ninguém dizer “grippette” para se referir a um resfriado.

Resultado do jogo
Nosso ex-presidente era tão esquisito que, para traduzir seu comportamento, foi preciso criar uma palavra em francês. Bravo! Essa façanha não é comum! É pena que o capitão só sobressaísse em contexto negativo e nunca tenha sido manchete com notícia boa.

10h10

Relógios novos – Todos marcam 10h10 (clique para ver)

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a graciosa leitora já tenham reparado numa característica dos relógios novos expostos à venda: todos marcam 10h10. Se não prestou atenção, pode botar reparo. É curioso, não? E qual seria a razão dessa uniformidade? Teorias, há várias.

A mais sofisticada conta a história da introdução da hora de referência universal (GMT). Foi um acordo multinacional assinado ao fim da Conferência Internacional de Washington de 1884. Vinte e cinco países debateram durante quase um ano. A adoção não foi  por unanimidade: dos 25 países participantes, só 22 aprovaram que o meridiano de Greenwich fosse oficializado como marco zero das longitudes. Brasil e França se abstiveram, enquanto a República Dominicana votou contra. Mas a maioria venceu e a introdução da hora universal foi oficializada. O documento final foi assinado exatamente quando os relógios marcavam 10h10. Por esta hipótese, a hora mostrada até hoje pelos relógios novos seria uma homenagem ao Acordo de Washington.

Uma segunda explicação, embora também histórica, é um bocado tétrica. Relata que o infeliz Luís 16, rei da França destronado pela Revolução Francesa, subiu ao patíbulo exatamente às 10h10 para ser guilhotinado. O relato é de arrepiar. Muitos acreditam que, até hoje, os relógios novos marcam a hora desse regicídio.

Uma terceira versão, não de todo fantasiosa, fala da mensagem positiva transmitida de modo subliminar pelos ponteiros apontando pra cima, formando o V da vitória. De fato, um par de ponteiros marcando 8h20 (e apontando para baixo) evocaria tristeza e desencorajaria clientes potenciais.

Há uma última explicação, que aliás me parece lógica e credível. A marca comercial do relógio costuma aparecer no alto do mostrador, logo abaixo do número 12. Com o relógio marcando 10h10, o nome comercial cabe entre os ponteiros e fica visível. E ainda homenageia o Acordo de Washington e o rei decapitado. De quebra, o V transmite mensagem positiva. Que mais se pode desejar?

O Estadão continua a vasculhar os presentes dados a Bolsonaro nos anos em que ele foi presidente. Descobriram mais um estojo da Maison Chopard (Genebra) contendo: uma caneta, um par de abotoaduras, um anel, um masbaha (rosário muçulmano) e… um relógio Rolex. Todas as peças são de ouro branco e cravejadas de diamantes. Um mimo estimado, por alto, em meio milhão de reais, estimação que me parece até baixa levando em conta o prestígio do joalheiro genebrino. Pode valer bem mais que isso.

O conjunto, cuja foto está aqui abaixo, foi oferecido pelo príncipe da Arábia Saudita diretamente a Bolsonaro. Entregue em mãos. Sem cerimônia, o então presidente entendeu que o presente era objeto de uso pessoal. Não foi esclarecido qual seria a contraparte de tamanha “generosidade” dos príncipes árabes. Um dia talvez fiquemos sabendo.

Uma olhada ao relógio informa que ele não marca 10h10. Sabendo que todos os relógios novos (mormente os de luxo) mostram a mesma hora, conclui-se que Bolsonaro, o feliz destinatário do regalo, já tinha usado a joia antes mesmo de confiá-la aos almoxarifes do Planalto para ser fotografada, registrada e encaminhada a seu acervo pessoal.

Fica agora a curiosidade. Em que ocasião o capitão teria dado corda no relógio, acertado a hora e afivelado a pulseira?

Dificilmente teria sido no dia em que comeu farofa com as mãos – o relógio teria aparecido na foto.

Tampouco foi no dia em que convocou o corpo diplomático para dar a Suas Excelências a crucial informação de que as eleições brasileiras eram fraudadas.

Uma possibilidade é que ele tenha usado o Rolex numa motociata.

Ou talvez, hipótese plausível, tenha simplesmente dormido com ele e sonhado que era imperador.

A aposta errada

Folha de SP, 28 março 2023

José Horta Manzano

Alguns integrantes do governo Lula 3 não têm medo de escorregar em público. São daquele tipo de gente que, ao ver uma casca de banana do outro lado da rua, não resiste à tentação: atravessa só pra pisar na casca.

Como é natural, o mais ávido é o próprio chefe, mas ministros não ficam muito atrás. Não sei se se trata de cacoete indesejado que nos vem dos quatro anos de Bolsonaro, mas o fato é que Lula se tem mostrado à vontade pra soltar palavrões em entrevista e pra acusar Moro de malfeitos imaginários. Outro dia, o ministro das Comunicações também se sentiu livre para agredir verbalmente uma jornalista, em entrevista ao vivo pela CNN.

Toda essa energia jogada fora pela janela seria mais bem empregada se canalizada para projetar o Brasil das próximas décadas. Goste-se ou não, o futuro chegará. Visto que o tempo do terraplanismo e da negação acabou, é hora de largar mão de negar a realidade.

Os combustíveis fósseis estão sendo banidos por toda parte. Inúmeras cidades europeias já anunciaram que, já em 2030, veículos com motor térmico serão proibidos de circular. Outras cidades fixaram data ainda mais apertada, como 2025 por exemplo. Poluente e vilão climático, o combustível fóssil está com os dias contados.

Investir para alimentar essa tecnologia é dar murro em ponta de faca. Cada centavo gasto em exploração de petróleo em território brasileiro será um centavo a menos para alavancar o País e trazê-lo ao mundo atual. Ainda que o governo Lula acredite ter mãos de aço, não tem. De tanto dar murros na faca, vai acabar estropiando a mão. Investir em prospecção de petróleo, nestas alturas, é um contrassenso.

Nosso país é ensolarado e ventoso. Temos à disposição, de graça, a matéria prima principal da produção de energia limpa: sol e vento. No mundo, usinas eólicas e parques fotovoltaicos se multiplicam. Na Europa, a invasão da Ucrânia pela Rússia veio acelerar o processo. Na Suíça, por exemplo, tornou-se obrigatório cobrir de placas fotovoltaicas o telhado de toda construção nova.

O que é que o governo Lula pretende? Quer que o Brasil faça concorrência com a Venezuela em matéria de petróleo? Talvez queira também que nosso país siga os passos de Caracas em matéria de decomposição política?

Que deixem o petróleo tranquilo. Um dia, ele pode até vir a ser precioso para aplicações novas, que hoje nem conseguimos imaginar. As futuras gerações agradecerão por não termos queimado essa preciosidade que a natureza levou milhões de anos pra fabricar.

Perguntar não ofende ‒ 9

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Nas últimas semanas, o Brasil de Lula enviou uma delegação à Venezuela, recusou-se a assinar uma resolução da ONU condenando as violações dos direitos humanos na Nicarágua, permitiu que navios de guerra iranianos atracassem no Rio de Janeiro, recusou-se terminantemente a enviar armas para permitir à Ucrânia se defender da invasão russa.

A pátria inquieta vê surgir no horizonte um Lula bolsonarizado. Além de não desgarrar dos cacoetes do passado, diz palavrões, expõe rancores em público. Tudo vem envolto num bolsonaresco perfume de obstinação.

Para onde ele pretende levar o país?

Brazil: too big to fail

Brazil: too big to fail

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 25 março 2023

Nos anos 1980, firmou-se a expressão “too big to fail” – grande demais para falir. A frase lembra que certas empresas, em razão de seu porte, não devem ser abandonadas quando enfrentam tempos difíceis. Grandes bancos são expostos a esse risco. Quando a situação de um deles periclita, o governo costuma socorrer rápido, para acalmar o mercado e evitar contaminação sistêmica.

A débâcle do Crédit Suisse, semana passada, é exemplo de um banco “too big to fail”. Fosse abandonado na tempestade, o segundo estabelecimento bancário suíço teria falido em poucos dias por não ser capaz de estancar a sangria de depósitos que se avolumava desde a semana anterior. O governo suíço pressionou o maior banco do país a encampar o concorrente em apuros. Sem isso, estaria armado o cenário de uma crise planetária como a de 2008.

Países não são empresas. Um país que deixa de pagar suas dívidas torna-se inadimplente mas não irá à falência. Por mais que ele esteja no vermelho, sua infraestrutura, suas riquezas naturais e seu povo não vão desaparecer. Portanto, seu ativo excederá sempre seu passivo.

Curiosamente, o verbo inglês “to fail” tanto significa “falir” como “falhar”. É aí que ouso um jogo de palavras complicado em inglês mas cristalino em nossa língua: Um país nunca será grande demais para “falir”, mas pode ser grande demais para “falhar” (‘too big to fail’ em ambos os casos). O Brasil se enquadra nessa afirmação, por ser grande e importante demais para se permitir falhar em suas obrigações perante o conjunto das nações. Sob pena de perder importância, o Brasil tem de garantir seu lugar no tabuleiro mundial.

Nestes últimos 20 anos, entra governo, sai governo, nossa diplomacia não parece entusiasmada para ver o Brasil assumir o lugar que lhe cabe no seio das nações. O antigo presidente Bolsonaro ousou elevar ao posto de ministro de Relações Exteriores um personagem isolacionista, que se alegrou em relegar nosso país ao papel de pária. Nos governos petistas, política externa se resumia a bravatas e a calotes a organismos internacionais, justamente àqueles em que almejamos assumir cadeira permanente. Ignoraram o velho adágio: “Não há bônus sem ônus”.

Não se refaz a História, mas nunca é tarde pra corrigir a rota. O mundo que se desenhou com o desmoronamento da União Soviética pareceu, num primeiro momento, apontar para um universo unipolar, com uma única superpotência. A fulgurante ascensão da China e a invasão da Ucrânia, entre outros fatores, deram o sinal do fim do recreio. Nosso país, que não é uma república de bananas, tem de entender que a brincadeira acabou. Foi-se o tempo em que se podia propor resolver conflitos internacionais com um simples jogo de futebol. A orquestra agora toca pra valer, e é bom não perder o compasso.

Faz um ano que a Rússia invadiu a Ucrânia, impondo uma guerra de conquista territorial a uma Europa que pensava haver esconjurado a guerra. A União Europeia, que é uma das três maiores potências comerciais do mundo, foi profundamente transformada por essa guerra. A aparição de um inimigo comum despertou a solidariedade e empurrou países neutros para a Otan, uma aliança militar. Gastos militares explodiram, até em países antes pacifistas. Fluxos do comércio internacional estão dramaticamente modificados pelas sanções.

Essa realidade não pode ser minimizada por nosso governo. Nossa “doutrina de não intervenção” tem de ser mais que política de fachada. Se nos abstemos de intervir em assuntos internos de outro país, a coerência nos obriga a condenar toda intervenção de um país em outro – mormente quando for invasão militar. Toda barbaridade tem de ser repelida com veemência.

Nosso governo tem feito movimentos erráticos e contraditórios. Mas nosso país conta. Não podemos fazer como se não tivéssemos nada a ver com o peixe. Que Putin não vale um saco de fertilizante, é ponto pacífico. O que o mundo espera de nós é uma posição civilizada de clara rejeição à agressão russa, que já matou centenas de milhares de inocentes, mandou 8 milhões para o exílio e continua destruindo o país. A retirada das tropas russas é pré-requisito para qualquer início de diálogo.

Nosso país não é um grotão. Nossa força econômica, nossa massa populacional e nossa tradição humanista nos autorizam a soltar a voz para condenar todo crime contra a Humanidade. É o que o mundo espera de nós, e não podemos falhar: “Brasil is too big to fail”.

A armação do Moro

NaniHumor.com

José Horta Manzano

Sabe aquela do tiro que sai pela culatra? Vamos aos fatos.

Houve um momento, faz poucos anos, em que o juiz Sergio Moro era reverenciado por boa parte da população. Tirando petistas de raiz, descontentes com as investigações que mandavam companheiros para a Papuda, os brasileiros estavam animados com a Operação Lava a Jato. Muita gente chegou a acreditar que a “limpa” ia erradicar a corrupção política no país. Moro estava prestes a entrar para o panteão nacional.

Deslumbrado com seu momento de ator, o juiz abandonou a toga e colou em Bolsonaro. Verdade seja dita, a vitória do capitão em 2018 se deve em parte à imagem do Xerife de Curitiba. Muita gente acreditou que Bolsonaro tivesse realmente intenção de enterrar a corrupção. Que nada, enterrou mesmo foi a Lava a Jato.

Escanteado e desprestigiado, o ex-juiz saiu atirando e renunciou à companhia do capitão. Tornou-se ex-ministro. Sua travessia do deserto levou alguns anos. Sem muita esperança, candidatou-se ao Senado em 2022. Foi eleito. Mas o problema é que ele já estava numa espécie de limbo, brigado com Lula e com relação bamba com Bolsonaro.

Tomou posse de seu assento de senador. Não devia estar se sentindo confortável, dado que é hostilizado por lulistas e olhado com desconfiança por bolsonaristas. Estava destinado a passar os próximos anos atolado, uma ex-estrela, um astro apagado.

Eis que de repente, a espuma fria do ódio aflorou à boca de nosso velho presidente. Lula ofereceu a Moro o posto de melhor inimigo. Esta semana, em duas ocasiões declarou em público toda a raiva que ele guarda do homem que o julgou. Como resultado, o antigo astro de Curitiba – que já foi a coqueluche de meio Brasil mas que agora percorria as penumbras do Senado feito alma penada – voltou à ribalta.

Se o Lula continuar a dirigir os holofotes para Sergio Moro (e tudo indica que continuará), dará ao ex-juiz a grande oportunidade de sua vida: eclipsar Bolsonaro e apresentar-se como candidato à Presidência em 2026.

O distinto leitor já imaginou: elegemos o Lula pra tirar Bolsonaro e agora perigamos ter de eleger Moro pra tirar o Lula? Que dança de cadeiras mais extravagante!

Tem boi na linha

José Horta Manzano

Lá pelo fim dos anos 1950, foi lançado o filme nacional “Tem boi na linha”, estrelado por Zé Trindade. Era uma chanchada – comédia leve e despretensiosa filmada em estúdio sem cenas externas, produzida com orçamento modesto.

Perto de minha escola, havia um cinema. Pela janela escancarada, dava pra ver o que estava passando: “Tem boi na linha”. Na fachada, o letreiro em letras enormes. Ao ler o nome do filme, nosso professor de Português, um mestre rigorista, escandalizou-se. Não entendia como tinham ousado pôr no título um linguajar tão vulgar. No seu entendimento, tinha de ser “Há boi na linha”. Outros tempos.

Lembrei do caso estes dias ao ler a notícia de caranguejos que atravessaram a pista do aeroporto de Vitória do Espírito Santo e causaram momentânea interrupção de pousos e decolagens. Primeiro, um avião avisou à torre que “um monte” de caranguejos estavam na pista. Ato contínuo, a torre deu ordem de arremeter a um aparelho prestes a pousar.

Inspecionada a pista, descobriu-se que havia um só caranguejo. O crustáceo foi retirado e a movimentação de aviões pôde reiniciar. No avião que teve de arremeter, os passageiros foram informados do que tinha acontecido e riram muito, achando a situação engraçadíssima.

A Prefeitura de Vitória informou que o aeroporto se encontra próximo a um manguezal, o que propicia o aparecimento de algum “intruso” na pista. A meu ver, a informação foi dada pelo avesso. O manguezal já estava lá havia milênios quando o aeroporto foi construído. Os intrusos, portanto, são os humanos, não os crustáceos. Foram os homens que invadiram território alheio sem pedir licença.

A Prefeitura esclareceu ainda que estamos no período de reprodução dos caranguejos – época chamada “andada”. É quando, seguindo o próprio instinto, se deslocam todos na mesma direção, para copular no lugar adequado. Se o Brasil já tivesse chegado a um bom nível de consciência ecológica, a reação dos passageiros não teria sido tão hilária. O fato de ter sobrado só um caranguejo na pista pode indicar que o grosso da colônia já tinha atravessado.

Não tenho condições técnicas de aconselhar os responsáveis pelo aeroporto, mas acredito ser possível abrir uma passagem para os caranguejos. Por cima da pista não se pode, mas por debaixo, um túnel, quem sabe. Não custa dar uma mãozinha para perpetuar a espécie e evitar acidentes na pista.

No mundo todo, pistas asfaltadas e linhas de trem formam barreira intransponível para a passagem de animais (grandes e pequenos). Para evitar mortandade pelas estradas, cada ponto crítico vem recebendo solução adequada.

 

Passagem para ursos sobre via espressa
Alberta, Canadá

 

 

Passagem para tartarugas sob estrada de ferro
Kobe, Japão

 

 

Passagem para caranguejos sobre estrada de rodagem
Christmas Island, Austrália

 

 

Passagem para cervos sobre via expressa
Picardia, França

 

 

Vou ficar bem quando f**** com o Moro

José Horta Manzano

Logo de entrada, vamos relevar o palavreado de botequim (em linguagem moderna: passar pano). No passado, o Lula costumava escorregar de vez em quando, mas Bolsonaro elevou o calão à categoria de linguajar oficial do Planalto.

A pérola que o Estadão destaca na chamada reproduzida acima foi solta pelo presidente em extensa entrevista concedida à TV Brasil 247, rodada em pleno Palácio do Planalto.

As tristezas e as mágoas que persistem no coração do presidente são legítimas. O ressentimento que ele guarda contra o juiz que o condenou é compreensível. O Lula tem direito de desabafar com família e amigos. Já falar disso ao grande público é outra coisa.

Quando o presidente revela a todos os brasileiros a sede de vingança que lhe rói a alma, comete uma imprudência e dá um tiro no pé. Sem obter vantagem nenhuma.

A imprudência é a ameaça velada externada contra um hoje senador da República. Não sei que tipo de ameaça se esconde por trás do termo f****, mas coisa boa não é. Se amanhã algo feio acontecer com Moro, muitos olhares hão de se voltar contra Lula.

O tiro no pé é mais grave. Logo no discurso de vitória proferido na noite do segundo turno, Lula prometeu governar para todos os brasileiros (os que votaram nele e os demais) e que era hora de restabelecer a “paz entre os divergentes”. Agora, ao revelar publicamente que carrega um desejo de vingança tão entranhado, o presidente contradiz o lindo pronunciamento inicial e mostra que tudo não passava de palavras vazias escritas por algum discurseiro a soldo.

Ao fim e ao cabo, Lula:

  • mostra uma incômoda proximidade com o antigo presidente, aquela verborragia pesada que muitos gostariam de esquecer;
  • traz de volta o nós x eles, ao alargar o fosso entre dois campos políticos;
  • revela uma faceta inquietante de sua personalidade: tem espírito vingativo.

Além de tudo, Lula perde mais do que ganha. Se a eleição fosse hoje, uma fala desastrada como essa poderia fazê-lo perder sua estreita margem de votos e entregar a vitória ao adversário.

A eleição não é hoje, mas a impressão de ser um presidente rancoroso fica.

Os sucessores

José Horta Manzano

Essa foto sorridente foi tirada estes dias. Embora nenhum dos onze personagens apareça envolto na bandeira nacional, o fato de carregarem uma foto do antigo presidente – de faixa presidencial e tudo – deixa supor que sejam bolsonaristas. De alto coturno, sem dúvida, mas bolsonaristas.

Se não, vejamos. A ausência de diversidade do grupo é típica dos seguidores do capitão. É o retrato de um Brasil uniforme, que só existe nos sonhos deles, bem longe do Brasil real. Na foto, são onze homens e nenhuma mulher. São todos brancos sem mistura. Tirando um ou outro, estão todos na força da idade – nem muito jovens, nem muito velhos.

Estão todos bem alimentados, sem exagero. O infalível personagem que simboliza o atirador anabolizado, primitivo e supertatuado também aparece. O onipresente filho n° 03 também está lá. Dos onze participantes, cinco ostentam pelos faciais, que lhes acentuam a imagem de virilidade. O personagem anabolizado é justamente o mais barbudo, sabe-se lá por que motivo. Por alguma razão pessoal, os demais dispensam essa marca de masculinidade.

É curioso que a confraria tenha julgado necessário exibir uma foto do ex-presidente fugido. Mostrar retrato de pessoa viva é raro. É mais comum ver grupos ostentando a foto de um ente querido que já não está mais neste mundo. Quando eu era jovem, por exemplo, me lembro que nossas fotos de família eram tiradas contra uma parede onde estava pendurado um retrato do avô falecido décadas antes.

A inserção da foto do capitão é enigmática. Não ficou clara a mensagem que o grupo quis passar. Tudo depende da disposição de espírito dos confrades. Há diversas possibilidades.

Disposição de espírito branca
“Somos apóstolos do capitão e ele continua sendo nosso guia. Aqui está a prova.”

Disposição de espírito amarela
“Nosso mestre está no momento fora do ar, mas ele volta logo. Ele é este aqui, ó!”

Disposição de espírito laranja
“Bolsonaro iniciou a ascensão da extrema direita. Agora, com ele ou sem ele, vamos seguir em frente.”

Disposição de espírito vermelha
“OK, ele está politicamente morto e talvez não volte nunca mais. Mas não estamos tristes, não, pelo contrário. Repare no nosso sorriso!”

Surrealismo

José Horta Manzano

No tempo em que anúncio se chamava reclame e jornais eram impressos em preto e branco, o anunciante tinha de espremer a imaginação para tornar a mensagem marcante. Não havia chegado a era de consumo. Os anúncios se limitavam a apregoar objetos úteis, do dia a dia. Boa parte deles promoviam remédios.

A ausência de cor exigia expressividade no desenho. Para ilustrar uma propaganda de fortificante, a imagem mostrava um indivíduo magro, esquelético, descarnado, exageradamente subnutrido.

A ilustração de uma loção para cabelo trazia uma figura feminina com cabelos compridíssimos, chegando à cintura.

O Elixir Doria (marca registrada!), que se apresentava como “o rei dos preparados para estomago figado, intestinos”, deu preferência a uma ilustração surrealista, como se pode ver na imagem acima. Intui-se que o senhor bem-posto do desenho tenha engolido um carneiro (ou um bode) inteiro, começando pelas patas, só faltando a cabeça e os chifres.

O desenho é tão assustador, que fica no ar a pergunta: será que algum paciente se animou a correr à “pharmacia” pedir esse elixir?

O Elixir Doria foi anunciado na segunda metade dos anos 1930. É interessante que, com 80 anos de antecedência, mencionasse o nome de dois políticos de nossos dias: João Doria e Michel Temer.

De fato, Doria aparece já no nome do remédio. E um “não a Temer” está visível entre os chifres do bode (ou carneiro).

De aluguel

Jornal O Globo, 12 março 2023

José Horta Manzano

Em matéria de desculpa esfarrapada, Madame Bolsonaro parece ter absorvido os costumes do clã em que se enxertou. Pensando bem, isso é importante para alguém que almeja dar continuidade aos passos do esposo impedido. É o que fez, 50 anos atrás, Isabelita Perón, ao assumir a Presidência da Argentina na sequência do falecimento de Juan Domingo Perón, seu marido.


“Estou morando de aluguel”


Convenhamos que há desculpas melhores para quem quer se livrar do estorvo de ter que cuidar de filhotes que estraçalham chinelos e fazem xixi pela casa toda.

“Meu apartamento é pequeno demais, um verdadeiro apertamento. Cachorrinho novo precisa de espaço” – seria aceitável.

“Estou levando uma vida extremamente agitada e não me sobra tempo pra paparicar filhotinhos que precisam de muita atenção” – também seria plausível.

“Meu marido já não mora no Brasil e isso me obriga a viajar frequentemente. Não gosto de deixar os bichinhos com cuidadores” – seria demonstração de coração sensível.

“Não gosto de animais. Detesto ter bicho em casa. Os que eu tenho já me dão dor de cabeça suficiente” – seria desculpa violenta, combinando com o espírito bolsonárico. Muita gente vibraria.

Há ainda uma bacia de pretextos cabíveis, basta pensar cinco minutos.

Agora, dizer que não pode ficar com as crias porque está morando de aluguel? Tremenda falsidade. E tremenda falta de imaginação.

Se morar de aluguel e ser tutor de bicho de estimação fossem realidades incompatíveis, haveria poucos cachorrinhos e gatinhos de família.

Merchandising online

Ricardo Araújo Pereira (*)


Jair Bolsonaro agora vende merchandising online para um público refinado


O ex-presidente e colecionador de joias Jair Bolsonaro criou uma loja na internet para vender merchandising. Merchandising é uma palavra estrangeira para designar bugigangas inúteis. Tecnicamente, é futuro lixo.

É fatal que o merchandising acabe no lixo, mas por vezes consegue ficar em nossas casas durante algum tempo.

A loja de Bolsonaro avisa logo à entrada que produz merchandising “com qualidade ímpar, para um público refinado e que preza por excelência”, e por isso é sem surpresa que verificamos que vende três tipos de produtos: calendários, canecas e aquilo a que eles chamam de “troféu de mesa”.

É muito raro os consumidores refinados que prezam por excelência desejarem outro gênero de mercadoria. Só pensam em calendários, canecas e troféus de mesa.

O troféu de mesa é uma tábua sobre a qual está uma silhueta de Bolsonaro e a frase “Nosso sonho segue mais vivo do que nunca”. De acordo com a Bolsonaro Store, a peça tem acabamento diferenciado.

Mas não é, felizmente, o único produto diferenciado. Também diferenciado é o layout dos calendários, que são feitos em “material personalizado de qualidade premium”.

É possível que quem tem um telefone celular já não dê muito uso a calendários, mas talvez mude de ideias quando souber que estes têm qualidade premium.

Pessoalmente, nunca tive um calendário de qualidade premium, e devo dizer que me arrependo. Creio que a minha vida teria sido muito diferente se eu tivesse investido um pouco mais na qualidade dos meus calendários.

Segundo a página da Bolsonaro Store, o calendário que eles comercializam “é um produto que acompanhará seu usuário durante todo o ano”.

Ao contrário dos calendários vulgares, e de menor qualidade (ou até de alguma qualidade, mas sem qualidade premium), o calendário da Bolsonaro Store acompanha-nos todo o ano. Sabe aquele tipo de calendário que, lá para novembro, desiste de indicar os dias? O da Bolsonaro Store não faz isso, graças a Deus, e segue até dia 31 de dezembro, obstinado e diligente.

As canecas são feitas, como não podia deixar de ser, a partir de “matérias-primas com excelência em qualidade”.

Quando penso numa vida de sonho, imagino-me sentado a uma mesa, sobre a qual está um troféu de acabamento diferenciado, e eu estou a registrar a passagem do tempo num calendário de qualidade premium, enquanto bebo de uma caneca excelente.

E agora esse sonho está ao alcance de todos os brasileiros, por apenas R$ 250 mais frete.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Este blogueiro é do tempo em que – 38

Jornal O Globo, 12 março 2023

José Horta Manzano

“Buscar naufrágio” é passatempo para espíritos sádicos que ficam na praia observando passarem os barcos e torcendo para que um deles naufrague. Este blogueiro é do tempo em que arqueólogos não se dedicavam a esse passatempo. Costumavam buscar destroços de uma embarcação naufragada.

“Navio escravagista”? Nããão! Navio não tem ideologia. Escravagismo é atributo humano. Navio que carrega escravos chama-se navio negreiro. No tempo em que escola ensinava e aluno aprendia, o poema épico Navio Negreiro, de Castro Alves, um arrebatado libelo abolicionista, costumava fazer parte do programa.

Vamos reescrever a chamada?


Em Angra, arqueólogos buscam destroços que podem ser do último navio negreiro a vir ao Brasil.


 

Salvo pelo gongo

José Horta Manzano

O culto leitor e a esforçada leitora já tevem ter ouvido a expressão “salvo pelo gongo”. O significado de ‘ser salvo pelo gongo’ é escapar, no último momento, a um perigo ou a uma situação delicada.

Mas… de onde vem essa frase feita? Procurei saber qual é a origem. Nenhuma das fontes tem certeza absoluta da explicação que dá. Mas vamos lá.

Uma das explicações é de arrepiar os cabelos. Recorda que um dos pavores ancestrais da humanidade é ser enterrado vivo. Houve tempos em que, para remediar situação tão sufocante, famílias atavam uma corda ao pulso do defunto, sendo que a outra extremidade era amarrada a um sino (um gongo). Em caso de desconforto, bastava ao enterrado fazer um leve movimento de braço pra tocar o sino, chamar a atenção e ser liberado de tão incômoda situação. De dar medo, não?

Há outras versões. Entre elas, a desventura de um guarda palaciano de Londres que, acusado de dormir em serviço, safou-se relatando que, naquela noite, tinha ouvido o sino desregulado da igreja ao lado soar 13 vezes em vez de 12. “He was saved by the bell” – foi salvo pelo sino (ou gongo).

Todas as explicações são divertidas, mas pouco convincentes. Fico com a que me parece menos fantasiosa. Veja como a edição de 4 agosto 1929 do jornal Folha da Manhã descrevia o final de uma luta de box. (Conservei a grafia e a pontuação do original).


Eugenio e Armandinho abrem a “soirée” com um movimentado combate em quatro assaltos e cuja victoria cabe ao segundo. Juiz foi Cesar. Em seguida sobe Savino e lógo após, Bozzato. Lucta violenta. No terceiro assalto, Bozzato cahe tres vezes por sete segundos cada, tendo sido salvo pelo “gong”.


Foi só nos anos 1920 que a expressão começou a aparecer na imprensa brasileira, sempre relacionada ao pugilismo. Isso parece excluir a medonha explicação medieval. Nas primeiras décadas do século 20, escrevia-se “gong”, grafia fiel à palavra javanesa, provavelmente de origem onomatopaica.

Já a partir da década de 1940, o “gong” foi abrasileirado para “gongo” – que passou a soar também em programas radiofônicos de calouros. Quando o âncora considerava que o candidato era muito ruim, não tinha piedade: tocava o gongo e mandava o infeliz embora.

Hoje em dia, usa-se a expressão pra indicar que um indivíduo escapou por um triz a uma situação cabeluda. O Lula, por exemplo. Com a sorte que o tem acompanhado a vida inteira, está escapando de fininha de um problema espinhoso. Se não, vejamos.

Juscelino dos Santos Rezende Filho, ministro das Comunicações, requisitou jato da FAB sob falso pretexto de comparecer a encontros oficiais quando, na verdade, passeou quatro dias num leilão de cavalos de raça. Recebeu as diárias pelos dias de viagem. Na última declaração, tinha ocultado alguns milhões de reais em patrimônio. Quando deputado, utilizou a verba do orçamento secreto para pavimentar a estrada que conduz a sua fazenda no Maranhão. Enfim, um primor de comportamento. De fazer revirar-se no túmulo o Juscelino original, um dos maiores presidentes que o Brasil já teve.

Seria o escândalo do momento se não tivesse surgido outro de dimensões internacionais: a crise dos diamantes de Bolsonaro. Um escândalo suplanta outro, e o dos brilhantes venceu. A mídia tem se dedicado tanto a escarafunchar o “presente” das Arábias pela frente e pelo avesso, que acabou esquecendo os cavalos árabes do nobre ministro.

Lula foi salvo pelo gongo.

As joias contrabandeadas

José Horta Manzano

O caso das joias contrabandeadas (supostamente a mando do então presidente Bolsonaro) continua a provocar turbulência. A mídia, que se apossou do assunto, insiste em falar de um “presente para a então primeira-dama”. Está faltando ânimo pra largar as certezas do “ouvi dizer” e explorar o universo do “e se fosse outra coisa”.

Há fatos que saltam à vista.

Valor
Há controvérsia quanto ao valor. Sem ser diamantário, a simples observação dos mais de 50 diamantes grandes que formam colar e brincos, adicionados à baciada de pequenos brilhantes incrustados no relógio e no anel informa que o valor total – cuja avaliação por especialista ainda não foi divulgada – pode ser bem superior a 3 milhões de euros. Pode ser o dobro disso ou até mais, só a perícia dirá.

Origem
Há controvérsia quanto à origem do mimo. Um vídeozinho de 1 minuto demonstra. Logo no início da gravação, interrogado por jornalistas, Bolsonaro conta: “Eu estava no Brasil quando esse… esse… presente foi ofertado lá… [pausa] nos Emirados Árabes”. Ora, toda a mídia repete que o mimo foi generosidade dos donos da Arábia Saudita, mas Bolsonaro, o destinatário, confirma que as joias vieram dos Emirados Árabes. Confundir os dois é o mesmo que confundir Suíça com Suécia, ou Brasil com Argentina.

Desleixo
Há cheiro de queimado quando se vê que uma encomenda de milhões de euros foi transportada na mochila do assessor de um assessor. Pra completar o quadro, veio também uma estatueta equestre cinzelada à mão, arrancada de sua base e espatifada em quatro ou cinco pedaços. Vê-se que o centro das atenções não era a peça artística mas o conteúdo do estojo. Ou talvez quem se encarregou do carreto tinha sangue neandertal nas veias.

Desembaraço
O cheiro de queimado aumenta quando se sabe que foram feitas nada menos que oito tentativas (frustadas) de retirar, em nome do capitão, as peças da alfândega na lábia, no grito e na carteirada.

Esse amontoado de informações às vezes contraditórias me lembra a peça Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello. Os fatos estão aí, só falta a arte e a perspicácia de organizá-los numa sequência lógica. Proponho um esboço de organização.

Por alguma razão que o inquérito esclarecerá, o capitão pediu (ou o mandachuva árabe propôs) uma recompensa por algum favor recebido ou a receber. O valor estipulado foi de 3 milhões de dólares (ou 4 milhões, ou 5 milhões – montante a comprovar). Quando o emir (ou sultão ou rei) pediu o número da conta bancária de Bolsonaro a fim de fazer a transferência, este explicou que não era possível, visto que o mundo mudou e não se pode mais ter conta secreta no exterior com a mesma liberdade de antes. Conversa vai, conversa vem, ficou acertado que, em vez de dinheiro, o valor seria convertido em diamantes, mais cômodos de carregar.

Nessa altura, com medo de ser apanhado pela Receita na hora de passar a alfândega, o capitão sugeriu que as pedras não viessem soltas, mas montadas em colar, brincos, relógio. Em caso de má surpresa, ficaria mais fácil explicar que era um presente para a primeira-dama. Ao fim da aventura, era só desengastar as pedras e vendê-las aos poucos em Antuérpia ou no mercado nacional mesmo.

O rei (ou sultão ou emir) argumentou que não dispunha de diamantes nesse valor, nem soltos nem montados. Precisava primeiro passar encomenda à Casa Chopard. Ficou assim combinado.

Quando as joias ficaram prontas, Bolsonaro despachou um assessor graduado (ministro da República) para ir buscar. Por medida de precaução, a encomenda não veio na bagagem pessoal do ministro, mas na de um assessor. O resto da história todos já conhecem.

A sequência dos fatos não há de ser muito diferente do que o cenário que tracei. A estas alturas, ainda não se pode saber como terminará o caso dos diamantes contrabandeados. O fato é que essa história vai enriquecer a galeria de crimes cometidos por Jair Bolsonaro.

O imperador africano

Sagração de Bokassa 1°

José Horta Manzano

O século 19 marcou o apogeu da colonização da África pelas potências europeias. No final do século, o continente estava fatiado e repartido entre poucos países colonizadores. França e Inglaterra detinham a parte do leão. Os ingleses controlavam boa parte da costa Leste, enquanto os franceses mandavam no Oeste – aquela protuberância rombuda da África, que se projeta no Oceano Atlântico.

As potências europeias saíram enfraquecidas da Segunda Guerra mundial. O nacionalismo africano encontrou terreno fértil para se afirmar. Nos anos 1950-1960, não houve como segurar o movimento: uma a uma, foram pipocando novas nações recém-independentizadas.

A República Centro-Africana alcançou a independência em 1960. Trata-se de um território sem saída para o mar, pouco populoso mas de bom tamanho (maior que a França e maior que o estado de Minas Gerais).

Nas primeiras décadas após a onda de independência, a França conservou forte influência sobre as antigas colônias. Hoje em dia, a presença francesa é menos marcante mas, naquele tempo, Paris era o fazedor de reis. Para ser bem sucedido, todo golpe de Estado tinha de ter o apoio do antigo colonizador.

Em 1965, por meio de um golpe e com apoio francês, Jean-Bédel Bokassa foi alçado à liderança da África Central. Enquanto o governo do novo ditador seguia conforme aos interesses de Paris, tudo foi bem. Em 1976, deslumbrado com o poder, Bokassa inventou que queria transformar o país em império, e que ele seria o imperador. Assim foi feito. Houve festa de coroação, com trono, manto, cetro, coroa, diamantes e pedras preciosas. Um remake da sagração de Napoleão.

Tornado imperador, Bokassa impôs uma política autoritária e excessivamente repressiva. Sua política tomou nova direção, que contrariava os interesses franceses. Três anos depois da proclamação do império, Bokassa foi destituído por um golpe de Estado fomentado e financiado pela França. Isso aconteceu em setembro de 1979.

Um mês depois, em outubro de 1979, o Canard Enchaîné, popular semanário francês de sátira política, revelou que Valéry Giscard d’Estaing, presidente da França, tinha sido presenteado pelo imperador Bokassa com 30 quilates de diamantes. Considerando que o preço médio do diamante lapidado é de 12.000 euros por quilate, isso dá um total de 360 mil euros (R$ 1,8 mi). O escândalo se alastrou mais rápido que fake news.

Giscard d’Estaing estava em plena campanha de reeleição à Presidência. A notícia não podia cair em momento pior. A oposição fez a festa e ajudou a pisar na ferida. Abafa daqui, abafa dali, a história nunca foi elucidada preto no branco. Fica ao gosto do freguês. Por minha parte, acredito que o propagador da notícia tenha sido o próprio imperador africano destituído. Foi vingança pelo golpe de Estado que o arrancou do trono, fomentado pelo governo francês. O caso entrou para a história como Les diamants de Bokassa (Os diamantes de Bokassa).

Giscard d’Estaing acabou perdendo a reeleição. O desastre de imagem causado pelos diamantes do imperador há de ter contribuído para a derrota.

Estourou semana passada, no Brasil, o caso dos diamantes de Bolsonaro. Assim que fiquei sabendo, lembrei imediatamente dos “diamants de Bokassa”. Se a história das pedras das Arábias tivesse vindo à tona antes, Bolsonaro poderia até ter perdido a eleição. Mas… que bobagem estou dizendo! Ele já foi derrotado!

A saga dos diamantes ainda vai dar pano pra manga. Ninguém dá um presente de 3 milhões de euros sem ter um bom motivo pra isso. Reis, xeiques e emires são podres de ricos, mas nem por isso saem distribuindo milhões assim, sem mais nem menos. Alguns pontos ainda estão nebulosos.

Por que razão esse mimo milionário foi dado a Bolsonaro? Qual foi a contrapartida?

Outra curiosidade é o fato de ter sido necessário designar o sub do sub para viajar à Arábia, tomar posse da encomenda e embarcar num avião de volta carregando essa fortuna numa mochila(!). Por que é que Bolsonaro não trouxe na bagagem presidencial? Por que é que o presente não veio por mala diplomática árabe, para ser entregue ao capitão em Brasília?

Quem sabe um dia teremos as respostas. Ou será que o escândalo vai continuar enevoado para todo o sempre?

Bise

José Horta Manzano

O Brasil é um país ventoso. Dizem, não sei se corresponde à realidade, que é onde mais venta no mundo, terra ideal para a implantação de parques eólicos. É verdade que, nas minhas memórias de antigamente, vejo uma atmosfera em movimento constante, se não venta de manhã, acaba ventando de tarde. É bem diferente de tantos outros lugares em que às vezes se passa uma semana inteira sem uma folha que se mexa.

A região onde vivo, às margens do Lago Leman (Lake of Geneva), não é especialmente ventosa. No entanto, por vezes, quando ocorre certa configuração de baixas e altas pressões, sopra um vento chamado bise, que pode ser impetuoso. Vem do quadrante Nordeste em direção ao Sudoeste.

Costuma-se dizer que, quando a bise se levanta, sopra sem parar durante 3 dias; se passar dos 3, serão 6 dias; e assim por diante, de 3 em 3. Nunca contei, pra dizer a verdade, mas o fato é que o vento é pra lá de dinâmico.

No verão, refresca, mas nos obriga a fechar portas e janelas pra evitar bateção e vidraça trincada. No inverno, o problema é menos agudo, dado que ninguém abre porta nem janela; mas sair à rua torna-se desagradável, visto que, dependendo da velocidade do vento, a sensação térmica pode baixar uns dez graus.

Semana última, a bise ventou fortificada, como se tivesse tomado umas boas colheradas de Biotônico Fontoura. Em alguns momentos do domingo passado, as rajadas foram muito fortes. As mais impressionantes, lá pelo meio-dia, passaram de 100 km/h – medida oficial do Instituto Meteorológico nacional.

É um vento seco, sem chuva que pode causar estrago. Esta semana, árvores foram desenraizadas, motos tombaram, placas de sinalização entortaram. O lago, habitualmente sem ondas e tranquilo como um espelho, fez a felicidade dos que apreciam surf à vela (em português: windsurf). Foi o episódio de bise mais violento registrado desde 1972.

Ainda bem que não há ventos anabolizados assim no Brasil. Se um dia houvesse, o estrago seria incalculável.

 

Carro escangalhado por uma árvore

 

 

Árvore desenraizada prestes a vir abaixo

 

 

O lago tranquilo se transforma em oceano furioso

 

 

Surfistas do lago

 

 

O Brasil está de volta

José Horta Manzano

Ao assumir a Presidência, Lula da Silva proclamou ao mundo: “O Brasil está de volta!”. Depois da maré baixa bolsonárica, que tinha rebaixado nosso país ao status de pária, a fala do novo presidente soou como um bem-vindo tsunami.

Países civilizados (e outros nem tanto) aplaudiram juntos, num coro de aprovação. Feliz, o planeta saudou um Brasil ressuscitado. Luiz Inácio foi convidado por inúmeros países para uma visita. Nesse aspecto, o governo Lula 3 começou com pé direito.

Só que tem uma coisa: embora Lula não pareça estar se dando conta, o mundo mudou muito desde seu primeiro mandato. No tabuleiro global, os atores principais já não ocupam a posição que ocupavam em 2002. A China cresceu incrivelmente e “se empoderou”. Os Estados Unidos continuam na dianteira, permanentemente ameaçados pela China.

A desastrosa invasão da Ucrânia pela Rússia – que Lula qualificou de simples “erro” – desestabilizou o coreto. A Alemanha, maior economia da Europa, abandonou 75 anos de pacifismo e está se rearmando a toque de caixa. Suécia e Finlândia, tradicionalmente neutras, pediram admissão na Otan, uma aliança militar. Os EUA, como haviam feito em guerras do passado, acudiram com forte apoio militar em favor do país invadido. A Rússia, sob pesadas sanções econômicas, dá sinais de estar sentindo o baque.

Até países neutros como a Suíça aderiram às sanções econômicas aplicadas pelos EUA, Canadá, União Europeia, Japão e Austrália. Em Berna, se diz que “neutralidade não rima com indiferença”. A situação é clara. A Ucrânia, um país livre e soberano, com fronteiras mundialmente reconhecidas, foi invadida por um outro país soberano, numa guerra de conquista. Isso contraria as bases da convivência entre nações. Fechar o olho para essa agressão é dar gás à Rússia para seguir invadindo seus demais vizinhos. Quem será o próximo?

Lula não dá mostra de estar entendendo a gravidade da situação. Com sua peculiar visão de política internacional, ele tem mostrado certa incapacidade de entender o mecanismo. Lula consegue distinguir conflitos localizados, como a questão da Palestina, o embargo americano a Cuba, a guerra desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia. No entanto, nosso presidente não parece entender que nem todos os conflitos são brigas de rua, que se resolvem com uma boa conversa ou com um jogo de futebol.

O mundo parece estar se dando conta dessa lacuna de Lula. Esta semana, tivemos dois exemplos que convergem para esse ponto.

Tomemos o caso do par de navios de guerra iranianos alegremente amarrados no cais do Rio de Janeiro. Sob o pretexto de que “o Brasil conversa com todas as partes”, o governo autorizou a estadia das embarcações em porto brasileiro. Os EUA já tinham solicitado que o Planalto não permitisse que os barcos acostassem. O Brasil deu de ombros. Agora é Israel, país que os aiatolás declaram ter intenção de destruir, que se dirige a Brasília solicitando que a permissão de amarração seja retirada.

Realmente, fica esquisito um país como o Brasil, que se esforça de promover a igualdade entre todos os sexos, acolher navios de guerra do Irã, país onde mulheres não têm nem o direito de sair sozinhas de casa, e perigam ir parar na cadeia se ajeitarem mal o véu obrigatório. Além disso, o Irã é bom fornecedor de uma parte das armas com que os russos castigam os ucranianos.

Outro caso recente é a conferência de vídeo que se realizou entre Lula e Volodímir Zelenski, a pedido deste último. Vendo que Lula não dá sinais de haver percebido a importância de apoiar a Ucrânia nessa guerra calamitosa, Zelenski convidou seu homólogo de Brasília para fazer uma visita a Kiev. As dezenas de dirigentes estrangeiros que já desfilaram por lá não esperaram convite: foram por achar que era importante. Até Joe Biden foi.

Lula agora não tem desculpa. Até convite oficial já recebeu. Que vá à Ucrânia o mais rápido possível. E que escute com atenção o que o presidente ucraniano tem a lhe dizer e mostrar.

Embora meio atolado em ideologias do passado, Lula já declarou ser “uma metamorfose ambulante”. Chegou a hora de provar. Que escolha seu lado numa disputa em não é permitido ficar em cima do muro. Ou se apoia a democracia ou se apoia a barbárie.