Resenha – 2

José Horta Manzano

Por que parou? Parou por quê?
O frisson do momento fica por conta dos escritos que a PF encontrou ao esquadrinhar os guardados de Anderson Torres, ministro de Bolsonaro, ora refugiado nos EUA.

Pelo jeitão do documento, não se trata de “rascunho”, como tenho lido. As letras impressas e o juridiquês caprichado revelam que o texto não é um devaneio rabiscado em papel de padaria ao fim de uma noite de uísque abundante. Longe disso, é a prova de que havia trama para revirar o resultado das urnas, e que o projeto estava em estado adiantado. O “rascunho” é, na verdade, uma minuta pronta para ser impressa em papel timbrado e assinada pelo capitão.

Discute-se sobre a autoria. Discute-se sobre a constitucionalidade do frustrado decreto. Discute-se sobre o peso que a descoberta vai exercer na culpabilidade de Bolsonaro. Todas essas questões são válidas e justas. No entanto, a meu ver, uma pergunta paira no ar, intrigante e sem resposta:

Por que é que a minuta foi descartada sem nunca virar decreto?

Responder a essa pergunta equivale a esclarecer o mistério.

Caçoar do Lula
O jornalista e escritor português Ricardo Araújo Pereira é conhecido por seu afiado senso de humor. É dele a fala seguinte (que já vem com sotaque):

“Agora, é tempo de caçoar do Lula. Sem medo de que este governo vá falhar. Até porque vai falhar. Já agora, aproveito para dar essa novidade. O governo brasileiro vai falhar por dois motivos: primeiro, por ser um governo; segundo, por ser brasileiro. É uma combinação que costuma ser fatal.”

Ironia do destino
O destino costuma espalhar cascas de banana na estrada para apanhar incautos. Ai de quem não prestar atenção.

Dia 5 de janeiro, uma empertigada primeira-dama convocou a Rede Globo para narrar o “estado de ruína” em que os Bolsonaros haviam deixado o Palácio do Planalto. Uma ponta de tapete esfiapada, uma quina de móvel esgarçada, um estofado rasgado – coisas desse jaez.

Não se sabe exatamente qual era a intenção da boa senhora, se era acusar os locatários antigos de serem selvagens ou se era para embasar futura requisição de verba para reforma.

Mal sabia a primeira-dama que, apenas três dias depois, nada mais restaria do mobiliário do palácio. O que lhe tinha parecido “ruína” tinha sido apenas aperitivo da desolação que viria depois.

KFC
No começo do mês, o canal de tevê TF1, o de maior audiência na França, não deixou passar em branco a imagem insólita. Enquanto Lula recebia as honras de presidente e assumia suas funções em Brasília, um solitário ex-presidente, despejado do poder e homiziado nos EUA, comia uma fritura no KFC. Com as mãos, como é de lei.

Fuga inútil
Contropiano, jornal comunista italiano online, repica o que afirmaram veículos da mídia brasileira e revela que Bolsonaro pensa em homiziar-se na Itália para evitar possível prisão no Brasil.

Dois meses atrás, lembrei a meus distintos leitores a triste e decepcionante história de Henrique Pizzolato, diretor de marketing do Banco do Brasil nos tempos do Petrolão e da Lava a Jato. Titular de dupla nacionalidade – brasileira e italiana – o cidadão, enrolado com a justiça brasileira, julgou que refugiar-se na Itália seria excelente ideia. Depois de muitas peripécias, terminou extraditado pela Itália e recolhido diretamente à Papuda, onde cumpriu a pena imposta.

Nos dias de hoje, está cada vez mais difícil escapar ao próprio destino. Incluído na lista vermelha da Interpol, nenhum réu tem mais sossego. Não estou aqui para dar pistas a Bolsonaro, mas ele que se lembre que, uma vez inculpado, não adianta fugir porque será perseguido até seus últimos dias. Onde quer que esteja, inclusive na Itália.

Digital
Em certos aspectos, o universo petista continua a se comportar como se estivéssemos nos anos 1980, na era pré-internet. A esse propósito, o jornalista Pedro Dória publicou um artigo pertinente do qual um trecho vai aqui abaixo.

“Este governo, o governo Lula, é um governo terrivelmente analógico. E, num momento de democracia em risco, o governo não pode se dar ao luxo de ser analógico.”

O brasileiro e o soluço

Ricardo Araújo Pereira (*)

Por que o brasileiro suporta a pandemia, mas se verga perante o soluço?

Veja como é caprichosa a medicina. Há pouco mais de um ano, o presidente do Brasil fazia aquela declaração célebre: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria, ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

E, nesta semana, o atleta indestrutível que é indiferente a uma pandemia planetária foi hospitalizado com uma crise de soluços. A Covid, que mata milhões de pessoas no mundo inteiro, pode vir à vontade, que não causa transtorno, mas isto, hic, por amor de, hic, não se aguenta, hic, por favor, hic, alguém chame uma, hic, ambulância depressa, hic.

A teorização da invulnerabilidade nacional ao coronavírus atingiu novos cumes com a também famosa observação: “Brasileiro não pega nada, o cara pula no esgoto e não fica doente”. Mas, tal como o Super-Homem sucumbe à kriptonita, também o brasileiro, que resiste a vírus e a germes, não aguenta um soluço. Difíceis de entender os desígnios da natureza. Por que razão há de o brasileiro suportar a doce pandemia e o gentil esgoto, mas se vergar perante o cruel soluço?

Em defesa do brasileiro, talvez seja importante referir que o soluço tem intrigado o ser humano desde sempre. E que, ainda assim, permanece misterioso. O soluço não tem solução. Ou tem, mas não é muito eficaz.

A certa altura d’O Banquete, de Platão, chega a vez de Aristófanes falar. Sucede que não consegue fazê-lo porque é acometido por um persistente ataque de soluços. Erixímaco, o médico, sugere então: “Experimente, Aristófanes, ir para o hospital e tirar uma fotografia descomposto, intubado e sem roupa, para tentar excitar nos seus conterrâneos uma compaixão pelos seus soluços que você não teve pelas doenças graves deles”.

Minto. O que Erixímaco recomenda é que Aristófanes sustenha a respiração, gargareje com um pouco de água ou faça cócegas no nariz até espirrar. E resulta. A estratégia da fotografia no hospital é que já não convence ninguém.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.