Reiva

José Horta Manzano

Doutor Aécio foi «tornado réu», como convém dizer. Apesar de acusado de crime pesado, continua no circuito Elisabeth Arden da justiça brasileira. Permanece na crista da onda, por cima da carne seca e, principalmente, longe do juiz Moro. Distinção é pra quem merece.

A gente se exaspera com as estrepolias do pessoal lá de cima. É crime que não acaba mais. Deputado, senador, ministro ‒ não há fronteira para o malfazer. Mas até no campo criminal, uns atos são mais graves que outros.

O «malfeito» de doutor Aécio é particularmente grave. Esse moço teve mais de 50 milhões de votos ‒ inclusive o meu. Não é que eu o conhecesse ou o apreciasse em especial, mas era a barreira contra doutora Dilma.

Do lulopetismo, já se conhecia boa parte da podridão. O ex-governador de Minas se apresentou como paladino da justiça, como guardião da retidão. Daí a maior gravidade de seus crimes.

Os delitos materiais ‒ malas de dinheiro pra cá e pra lá ‒ têm peso definido pela lei. Já a afronta moral operada por esse senhor contra a metade do povo brasileiro que lhe deu o voto tem alcance incomensurável. É verdadeiro atentado, ainda que não catalogado na lei. A gente se sente despeitado pela ousadia do elemento que, embora vestisse trajes de cavalheiro, não passava de um cafajeste, um canalha que deu uma rasteira em 50 milhões!

Como diria Adoniran Barbosa, dá «uma baita duma reiva»(*).

(*) Num dos falares paulistanos dos anos 1950, “réiva” era raiva. Aparece no Samba do Arnesto, de Adoniran Barbosa e Alocin.

Prisão após segunda instância

Políbio Braga (*)

A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a prisão em segunda instância, que deve ser tomada esta semana, pode levar à soltura de milhares de presos em todos os Estados.

Caso a corte mude seu entendimento sobre a antecipação de pena, detentos condenados em tribunais de segundo grau, que ainda recorrem aos tribunais superiores, poderão deixar o encarceramento.

De acordo com dados do Painel do Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), levantados pelos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense, o número de presos provisórios que ainda não foram julgados em última instância chega a 22 mil num universo de 130 mil cadastrados.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Quando se fala em prisão em segunda instância, logo vêm ao pensamento os réus da Lava a Jato, como o ex-presidente condenado Lula da Silva e o ex-ministro Antonio Palocci. Mas eles estão acompanhados de pessoas condenadas por homicídio, tráfico e porte de drogas, estelionato, estupros e outros crimes.

Se a maioria dos ministros decidir revogar o entendimento sobre o assunto, que prevalece desde 2016, esses detentos ganham direito a aguardar o processo em liberdade, até que eventuais recursos sejam julgados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

A assinatura do Lula ‒ 1

José Horta Manzano

Nos anos setenta, tomei aulas de grafologia. A técnica me interessava. Não levei adiante a prática, mas guardei as noções de base. A escrita de certas pessoas é tão marcante que nem precisa ser grafólogo pra diagnosticar algum traço da personalidade.

Donald Trump – assinatura

Aqui acima, a assinatura de Donald Trump. Impressionante, não? Saltam aos olhos a profusão de ângulos pontiagudos e a ausência de traços arredondados. Esse jamegão em forma de ancinho passa impressão de agressividade. De fato, o mandatário americano é muito agressivo. A grafologia detecta ainda um caráter intransigente, abrupto, firme, tenaz e cabeçudo. São adjetivos que colam perfeitamente ao personagem.

Outro dia, topei por acaso com a assinatura de Lula da Silva. Fiquei curioso pra saber como ela evoluiu com o tempo. Encontrei uma amostra de 1994 e outra de 2016. Em duas décadas, a assinatura amadureceu, mas a peculiaridade mais marcante permaneceu. Comento mais abaixo.

Lula da Silva – assinatura em 1994

Lula da Silva – assinatura em 2016

Diferentemente de Trump, a firma do Lula não transmite agressividade. A escrita de 1994 era solta, arredondada, despretensiosa. Vinte e dois anos mais tarde, alguns ângulos endureceram a assinatura denotando uma personalidade mais imbuída da própria importância.

Um traço marcante detectado em 1994, no entanto, se mantém. Falo da curiosa chicotada que o Lula dá em si mesmo e que se prolonga aos que lhe estão pela frente. O distinto leitor pode comprovar que, nos dois exemplos, quando o político chega ao final da assinatura, dá uma volta atrás sem levantar a caneta. Em seguida, faz meia-volta e lança o chicote para diante. A volta atrás serve apenas pra dar impulso antes da ferroada.

Essa chicotada suscita duas reflexões. Em primeiro lugar, denota personalidade traiçoeira. Apesar de o arredondado de algumas letras sugerir caráter afável e agradável, quando chega o fim da estrada, irrompe um golpe imprevisto mas certeiro. É a imagem do escorpião, bicho que tem o veneno dissimulado no rabo e ataca sem avisar. Um perigo!

A segunda reflexão é sobre um ponto paradoxal. A chicotada de Lula da Silva não passa acima nem abaixo da assinatura. Em vez de preservar a própria personalidade ‒ simbolizada pela rubrica ‒ o ferrão do Lula risca a assinatura, num gesto que grafólogos interpretam como verdadeiro atentado contra si mesmo. Assinatura barrada indica personalidade profundamente perturbada. Considerando que a firma é uma minibiografia, o talho que a percorre mostra que o autor, de certo modo, anula a própria pessoa.

Não há dúvida de que Lula da Silva tem personalidade complexa. Ao mesmo tempo, o demiurgo ataca o próximo e destrói a si mesmo. Um caso a ser estudado.

Faltam prisões

José Horta Manzano

Ouve-se frequentemente que as prisões brasileiras não são suficientemente numerosas para acolher os condenados e que, portanto, é necessário construir mais e mais presídios.

Não gostaria que minha argumentação parecesse contorcionismo verbal, mas acredito que o conceito está mal formulado. Não é correto dizer que as prisões não sejam suficientes. Elas até que existem em quantidade razoável. Os criminosos é que são em demasia, eis a verdade.

Pra embasar o que disse, tomo um exemplo. Imaginemos um elevador com a tabuleta: «Capacidade: 5 pessoas ou 400kg». De repente, entram quatro pessoas e a geringonça se recusa a viajar. Ué, o que é que houve? A capacidade não é de cinco passageiros?

Sem dúvida, essa é a capacidade nominal de um elevador concebido para indivíduos pesando em média 80kg, pouco mais, pouco menos. Acontece que, nestes tempos de hambúrguer e pizza, muitos têm abusado. Por consequência, às vezes quatro pessoas bastam pra exceder a capacidade do elevador.

Onde está o problema? O elevador está com capacidade baixa? Não é bem assim. Os cidadãos é que estão superalimentados. A questão tem de ser enfrentada pelo lado certo. Em vez de aumentar a capacidade de carga do elevador, será mais ajuizado tomar medidas para reeducar a população e trazê-la de volta à moderação alimentar.

by Auguste Rodin (1840-1917), escultor francês

Como exemplo de medida interessante, lembremos que a França proibiu que distribuidores automáticos instalados em escolas ofereçam produtos altamente calóricos ou gordurosos, tais como batatas fritas e bebidas açucaradas. A medida, por si, não resolve o problema da obesidade juvenil. Mas já é um passo na boa direção.

Raciocínio análogo vale para as prisões. Construir mais e mais penitenciárias não resolve o problema da criminalidade que assola o país. A solução segue estrada de duas pistas paralelas.

A primeira é empenho redobrado na apuração cuidadosa de atos criminosos, no devido julgamento e na aplicação efetiva da sentença. A segunda é a implantação de amplo programa institucional de educação e de sensibilização da população. Tem de abarcar todos os habitantes do país ‒ do jardim da infância à idade adulta. Vai levar anos pra surtir efeito, mas não há outro jeito.

As metas são ambiciosas mas indispensáveis. Sem isso, estamos condenados a continuar curvados e de joelhos para o crime.

Quem jogará a final?

José Horta Manzano

A abundância de partidos que abarrota a cena política nacional há anos é de mentirinha, uma ilusão. Nenhuma das siglas menores chega a cutucar as três grandes.

No frigir dos ovos, é forçoso constatar que, neste último quarto de século, a presidência da República ‒ o cargo maior ‒ tem sido rateada entre duas siglas: PSDB e PT. É o que alguns chamam impropriamente de «direita x esquerda». Não é assim que eu rotularia, mas essa é história pra outro capítulo.

Pelo ranger da carroça, as eleições de 2018 vão soar o fim desse monopólio. Lula da Silva, eterno candidato do Partido dos Trabalhadores, está atrás das grades e, se nada de extraordinário acontecer, lá deverá continuar por bom tempo. Segundo as pesquisas eleitorais, nenhum candidato logrará herdar os votos do demiurgo. Nem nomes de siglas nanicas nem mesmo os do próprio PT. A sobrevivência do partido está ameaçada.

by João Bosco de Azevedo (1961-), desenhista paraense

No polo oposto, o ex-governador de São Paulo, candidato do PSDB, não conseguiu decolar até agora. A propaganda eleitoral certamente vai granjear-lhe votos, mas não há garantia de que ultrapasse os concorrentes.

Já doutor Bolsonaro parece ter lugar garantido na final do campeonato. A pergunta à qual ninguém pode responder neste momento é: quem será o adversário?

Uma coisa é certa. Pela primeira vez desde o triste fim de doutor Collor, o resultado da corrida é nebuloso. O vencedor permanece incógnito, o que não é um mal em si. Pelo menos, teremos subidas de adrenalina.

Candidatos de ficha pra lá de limpa hão de atrair a simpatia do eleitor. Cansados de assistir aos crimes, à corrupção, à roubalheira, à desfaçatez, à impunidade que reina no andar de cima, os brasileiros darão o voto àquele (ou àquela) que apresentar maior garantia de integridade. É certeza. Nosso Guia, ainda que estivesse livre e solto, não venceria.

Como é que é? ‒ 4

José Horta Manzano

Revista Época, 14 abr 2018

É verdade que “dinheiro em espécie” ou “dinheiro vivo” são expressões impressionantes. Mas, pensando bem, se os dólares não fossem “em espécie”, seriam como? Em cartão de crédito? Em conta bancária? Em cheques?

Não tem jeito: dinheiro apreendido na casa de alguém só pode ser “em espécie”.

O mais corrupto

José Horta Manzano

O Instituto Ipsos, gigante de origem francesa especializado em pesquisa de opinião, fez uma sondagem centrada na percepção que têm os brasileiros da Operação Lava a Jato em geral e de Lula da Silva em particular.

As perguntas foram feitas a 1.200 adultos no fim de semana passado. O entrevistador leu uma série de frases e perguntou ao entrevistado se concordava ou não com cada uma delas.

A frase que mais me chamou a atenção foi a seguinte: «A Lava a Jato está mostrando que Lula é mais corrupto que os outros políticos». Olhe que a afirmação é forte e ousada. Não declaram que o Lula é tão corrupto quanto os outros, mas que é mais corrupto que todos os outros. É pesado!

Pois imagine o distinto leitor que 44%(!) dos entrevistados concordou com a afirmação. Enquanto isso, 5% ficaram na dúvida e 51% discordaram. Somando os que concordam com os que ainda não sabem direito, chegamos praticamente à metade da população. E tem mais. Dos que discordaram, não ficou claro se acreditam que Lula da Silva seja honesto ou tão corrupto como os demais políticos.

Metade dos brasileiros acredita que o Lula seja mais corrupto que os outros políticos, veja só… E era esse senhor que queria voltar à presidência? Supondo que se candidatasse e, por desgraça, chegasse ao segundo turno, é garantido que perderia a eleição, fosse quem fosse o adversário. Com essa fama de ladrão que lhe cola à pele, perderia até para um Bolsonaro.

Com informações do Estadão, 14 abr 2018.

Competir o Bocuse?

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 14 abr 2018

O autor da chamada escorregou. Os verbos competir e disputar, embora tenham sentido similar, não são sinônimos perfeitos.

Competir não pode ser empregado como transitivo direto. Pra acertar, o moço devia ter escrito:

  • Brasil garante vaga para competir no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para disputar o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para concorrer no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para brigar pelo Bocuse…
  • Brasil garante vaga para pleitear o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para lutar pelo Bocuse…

Sexta-feira 13

José Horta Manzano

Hoje é sexta-feira 13. Para uns, é dia de jogar na loteria ou fazer uma fezinha na Paratodos. Para outros, é dia de tomar cuidado ao sair de casa. Os mais exagerados preferem nem pôr os pés na rua. E se calha de cruzar com um gato preto? É azar garantido por sete anos. Te esconjuro!

Não sei se por sorte ou azar, temos hoje nova presidente da República. Não se trata da ressureição da doutora de triste memória, felizmente. Quem está hoje no trono é a discreta ministra Cármen Lúcia, do STF. Em realidade, ela é a quarta na linha sucessória da presidência. Só assume por estarem ausentes do país os três precedentes.

O primeiro sucessor é o próprio doutor Temer, que se tornou presidente permanente desde a destituição da doutora. O segundo é doutor Maia, presidente da Câmara. O terceiro é doutor Eunício Oliveira, presidente do Senado. Por razões que lhes são próprias, todos os três estão fora do país. Eis por que dona Cármen Lúcia é nossa presidente por um ou dois dias.

Ao embarcar para o exterior, doutor Temer entregou o poder a dona Cármen. Em princípio, ele vai levar a voz do Brasil à reunião de cúpula que terá lugar em Lima, no Peru. Só que a situação é grotesca. O bom senso ensina que é impossível ser e não ser ao mesmo tempo. Ora, a partir do instante em que entregou o poder a dona Cármen, doutor Temer deixou de ser presidente do Brasil. Quem vai à reunião de Lima é o cidadão Temer que, embora seja figura conhecida, não é o presidente da República. Trata-se de um usurpador. Bizarro, não?

O instituto da vice-presidência é uma excrescência, uma reminiscência que já devia ter sido abandonada há tempos. Fazia sentido no passado, quando uma viagem ao exterior do imperador ou do presidente podia levar semanas ou meses, período durante o qual o viajante ficava incomunicável. Hoje, com o avanço tecnológico, nenhuma viagem interfere no exercício da função. O presidente, ainda que esteja do outro lado do globo, dispõe das mesmas facilidades de que disporia se estivesse no gabinete.

As funções do vice-presidente estão vagamente estipuladas no Artigo 79 da Constituição. Diz lá que o vice «auxiliará o presidente, sempre que por ele convocado para missões especiais». Mais vago, impossível. O vice, portanto, não tem função definida a não ser ficar, como urubu, à espreita da vacância do cargo maior. Apesar de não ter deveres nem obrigações, goza de todas as (caríssimas) benesses do cargo: um palácio só pra ele com a respectiva principesca mordomia.

Assim que baixar a poeira que atualmente estagna sobre a Praça dos Três Poderes, seria bom começar a pensar na eliminação do inútil cargo de vice-presidente. E do de vice-governador. E também vice-prefeito. É tão simples: na vacância do cargo principal, convoca-se nova eleição e estamos resolvidos.

Se não tivéssemos tido vice quando a doutora foi apeada, três meses mais tarde teríamos elegido novo presidente e muitos problemas teriam sido evitados.

Quanta hipocrisia!

José Horta Manzano

O STF votou ontem o pedido de habeas corpus de doutor Antônio Palocci. Confesso que não tive tempo nem paciência pra assistir do começo ao fim. Só dei alguma bicadinha aqui e ali. Perto do final, vi que algumas poltronas de ministros já estavam vazias. Achei estranho. Num tribunal, não é comum ver juízes abandonando o picadeiro antes do final. Imagino que, como eu, estivessem entediados com aquela monotonia.

Que espetáculo enfadonho, não? Dos debates depreende-se que nenhum ministro está ali pra formar opinião ‒ todos já vêm com o voto pronto e empacotado. Assim mesmo, levam horas lendo laudas e laudas, numa ladainha aborrecida. A gente se pergunta por que razão não simplificam e não dizem logo a que vêm. Seria tão mais simples declarar o voto e, em seguida, publicar o calhamaço de alegações na internet. Quem quisesse consultar tim-tim por tim-tim que consultasse o site. Procedessem assim, o ritmo dos trabalhos se aceleraria.

Warum einfach, wenn es auch kompliziert geht? ‒ Por que fazer fácil, se complicado também funciona?, filosofam os alemães. Se levam dia inteiro pra julgar um caso, certamente está aí a razão do acúmulo de processos que entopem os escaninhos do tribunal.

Apesar da profusão dos «Vossa Excelência» pra cá e dos «Nobre Ministro» pra lá, paira no ar uma nuvem pesada. A gente percebe que, por detrás do verniz forçado das aparências, reina um clima de animosidade. Um dos togados trata as ministras com palpável desdém, enquanto se dirige aos ministros com deferência. A gente se sente até incomodado com os apartes sarcásticos e viperinos deste ou daquele magistrado. Há até quem lance um trocadilho ou uma zombaria, um horror. Dá arrepio ver sumidades do saber jurídico se comportarem como escolares na hora do recreio.

De qualquer maneira, quando o caso envolve algum corrupto da Lava a Jato, já se sabe de antemão qual será o resultado. Dá sempre um 6 x 5 cravado. Cá entre nós: é uma vergonha. A decência ensina que o resultado deveria ser sempre um 11 x 0 contra os corruptos, não é não?

Mas não tem jeito, os mesmos ministros sentem-se à vontade para votar sempre da mesma maneira. Também, pudera: na avolumada jurisprudência do tribunal, procurando bem, encontra-se embasamento pra tudo. Tanto um sim quanto um não podem ser sustentados com brilhantismo. Até para um talvez se encontrariam argumentos sólidos…

Tudo bem. Enquanto estiverem votando, ainda que por margem apertada, contra os interesses da bandidagem, a gente aguenta o palavrório. Mas… ai deles se começarem a desencarcerar criminosos!

Lula es inocente!

José Horta Manzano

É de lei. Todo ex-presidente da República ‒ ainda que tenha sido apeado do cargo ‒ tem direito a polpuda aposentadoria. E não é tudo. Dispõe ainda de automóvel com combustível e manutenção pagos, mais oito assessores cedidos pelo Planalto. Oito assessores! E tudo sustentado com o dinheiro dos contribuintes. Não precisava nem dizer mas, dizendo, fica mais claro.

A meu ver, presidente destituído por crime de responsabilidade não deveria ser contemplado com esses mimos. Mas é de lei, que fazer? Doutora Dilma tem aproveitado ao máximo essa excrescência da legislação. Tem viajado mundo afora, sempre em assento de primeira classe, para contar a lorota de que seu impeachment foi golpe de Estado. Faz dois anos e meio que a doutora insiste na pregação.

A mais recente viagem foi a Madrid, onde desembarcou faz dois dias. Viajou na primeira classe de avião da Iberia. Ao chegar ao aeroporto de Barajas, madame foi apanhar a mala de rodinhas, guardada no bagageiro acima do assento. Perdida como sempre, havia esquecido onde estava a mala. Levou bom tempo para encontrar. Não sabia mais nem de que lado procurar. Chegou a abrir uns quatro compartimentos. Um passageiro imortalizou a impagável cena em vídeo de um minuto e meio.

Ontem, na madrilenha Casa de América, a doutora deu conferência sobre a crise política no Brasil. Renovou a cantilena de que foi destituída ilegalmente na esteira de um complô parlamentar. Um vídeo de um minuto mostra o trecho em que madame, num portunhol pedregoso, explica que está em curso, na América Latina, um novo tipo de golpe armado em conjunto por parlamentares, pela mídia, pelo Judiciário e pelo mercado. Senhor, haja conspiração! Pra fechar a fala, a doutora lembra do padrinho e, en passant, reitera sua convicção de que o Lula é inocente.

O distinto leitor pode até balançar a cabeça e sorrir. Mas fique sabendo que, nas Orópias, muita gente acredita nisso. Afinal, é a palavra de uma antiga chefe de Estado! Não é habitual ver gente que exerceu cargo tão elevado sair contando balela por aí. O CV da palestrante empresta um quê de fidelidade à narrativa, o que é desastroso para o Brasil.

Resumo da história
Faz dois anos e meio que doutora Dilma faz incessantes viagens ao exterior e profere palestras com o intuito de denegrir as instituições brasileiras e consolidar, no espírito dos estrangeiros, a imagem de que a nossa é uma republiqueta de bananas. Faz isso com nosso dinheiro.

Chegou a hora de algum parlamentar apresentar um projeto de lei que iniba esse tipo de palhaçada. Afinal, congressistas são pagos pra legiferar em favor do país. Ou não?

Silepse de gênero

Dad Squarisi (*)

Silepse vem lá do grego. Significa compreensão. A concordância não se faz com o termo que está escrito, mas com outro, oculto, subentendido. Na língua, há muitos casos de silepse. Quer ver?

Santos é palavra masculina, não? Dizemos, normalmente, os santos. Mas, quando nos referimos à cidade, apelamos para a concordância com a ideia, não com o nome: Santos foi alagada na última enchente.

Percebe? Subentende-se o substantivo cidade: (A cidade de) Santos foi alagada.

Meandros do Rio Paraíba do Sul

Há mais. Paraíba é feminino. Até a música popular confirma-lhe o sexo: “Paraíba masculina, mulher macho sim, senhor”. Mas, ao nos referirmos ao rio, lá vem a silepse: O (rio) Paraíba é caudaloso.

Os pronomes de tratamento são os campeoníssimos da concordância ideológica. Excelência, majestade, senhoria, santidade são femininas. Mas os nomes que se referem a elas têm que ser flexíveis. Concordam com o sexo da pessoa (ai deles se não o fizessem): Vossa Excelência, senhor Presidente, é orador nato. Vossa Excelência, senhora senadora, é oradora nata.

Deixemos de cerimônia. A língua simples do povo está cheia de concordâncias ocultas. “Ele é um banana? Não, um besta”. Quantas vezes você ouviu essas gentilezas? Pois acredite: são silepses.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Yes, nós temos bananas!

José Horta Manzano

Você sabia?

A banana é, de longe, a fruta mais consumida no planeta. Em 2016, foram produzidas mais de 120 milhões de toneladas, uma enormidade. Fruta do pobre por excelência, está presente em todas as refeições de países da África Negra, onde o consumo por habitante atinge 200kg/ano ‒ um volume significativo. Os pratos da culinária africana costumam levar banana entre os ingredientes.

O Equador é o primeiro produtor, bem à frente dos demais. Supre um quarto do consumo mundial. O Brasil é grande produtor, mas praticamente não exporta. A razão é o persistente e incompreensível «custo Brasil». Empecilhos de logística aliados a lenta burocracia e pesada tributação fazem que a banana brasileira chegue ao porto com preço mais elevado que a dos demais exportadores.

Estes dias tornou-se público um acordo firmado em 2014 ‒ durante a gestão da doutora Dilma Rousseff ‒ entre o Brasil e o Equador. O pacto estipula que o Equador abrirá as portas para a importação de calçados brasileiros. Em contrapartida, o Brasil se compromete a liberar a importação de… bananas do Equador. Parece primeiro de abril, não? O Brasil importando banana!

Em 1938, Braguinha e Alberto Ribeiro lançaram, pela voz de Almirante, a marchinha «Yes, nós temos bananas!», sucesso no carnaval daquele ano. A música era paródia de uma divertida canção americana de 1923.

Que o Brasil não apareça entre os grandes exportadores de banana já é surpreendente. Dá pena ver que há condições, o clima ajuda, a terra está aí à vontade, mas a burocracia trava tudo ‒ uma lástima!

Agora, importar banana do Equador? Como é que é? Pois a marchinha não dizia que «temos bananas pra dar e vender»? O que é que aconteceu de lá pra cá? Parece que descemos ao ponto de não dar mais conta de produzir bananas para o mercado interno. Aonde vamos parar?

Quem foi que xingou?

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 9 abr 2018

Entendo que a exigência do nobre advogado contribua para o objetivo maior, que é manter o Lula diariamente no noticiário.

Assim mesmo, se ele tiver intenção de investigar a autoria de cada ofensa dirigida a seu cliente, vai ter muito trabalho.

Que se danem!

José Horta Manzano

Toda seita é composta de adeptos aglutinados em torno de um guru. Quanto mais carismático e manipulador for o mentor, mais o grupo tenderá a se fanatizar.

Este blogueiro se lembra de um fato que estarreceu o mundo. Aconteceu 40 anos atrás, razão pela qual o distinto leitor ‒ que talvez nem fosse nascido ‒ pode não ter assistido. Foi o drama que exterminou uma seita nascida nos EUA e denominada People’s Temple (Templo do Povo).

Jim Jones, o paranoico guia supremo da seita, temia que os EUA fossem atacados por armas nucleares. Em 1977, para fugir ao perigo, trouxe cerca de mil adeptos para fundar um vilarejo na Guiana, nosso vizinho do norte. Ególatra, o pastor deu à aldeia o próprio nome: Jonestown.

Acontece que congressistas americanos andavam meio desconfiados de que algo estava errado com a seita. Uma comitiva, que incluía jornalistas, se dirigiu a Jonestown para investigar. Foi um desastre. Foram recebidos à bala.

Ao se dar conta de que o fim da brincadeira estava próximo, o guru resolveu suicidar-se. Mas foi mais longe: decidiu arrastar consigo todos os adeptos. Fez distribuir para todos um copinho de plástico com cianureto de potássio misturado com limonada. A quase totalidade dos fiéis aceitou de bom grado. Os poucos renitentes foram obrigados a tomar.

Uns poucos gatos pingados, que tinham conseguido refugiar-se na mata, sobreviveram e acionaram a polícia. Ao chegar, os agentes descobriram mais de 900 cadáveres e um mar de copos de plástico.

A descida aos infernos do Lula me lembrou esse episódio. Ao se dar conta de que chegou ao fim da linha, nosso guru tropical decidiu arrastar o partido consigo. Durante quarenta anos, ele foi fiel à estratégia de podar o topete de todo militante que se mostrasse capaz de assumir, um dia, a liderança da seita. Nunca designou braço direito e muito menos sucessor.

Chegada a hora em que a porca torce o rabo, o guia tinha uma derradeira ocasião para se redimir. Bastava apontar explicitamente o adepto que deveria continuar a luta. Mostrando o imenso desprezo que tem pelos afiliados ao partido, não o fez. Disse que Manuela d’Avila e Guilherme Boulos(*) são «bons candidatos» para a eleição presidencial.

Ora, todos sabem que esses dois não são afiliados ao partido e não têm a menor chance de chegar ao segundo turno. Todos sabem que Jacques Wagner e Fernando Haddad, membros da seita, teriam perspectiva melhor de sucesso.

Até na queda, o Lula mostra a aura escura que lhe envolve a personalidade. A conclusão é inevitável. Na cabeça do guru, o veredicto é taxativo: «se não vai de eu, vai de eu mesmo». Traduzindo para linguagem mais inteligível: se não for eu o chefe, que se dane a seita.

(*) Boulos é a forma árabe do nome Paulo.