Falam de nós – 4

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Algemas 1Estelionatário
O jornal irlandês The Irish Times dá destaque ao voto do STF em favor da extradição de um certo Michael Lynn, cidadão da República da Irlanda. O homem é procurado por dezenas de crimes de estelionato. Está encarcerado em Pernambuco.

Em princípio – digo bem em princípio – a presidente deve assinar, em breve, o decreto de extradição. Com aquela gente, nunca se sabe. Está ainda na memória de todos o caso Battisti. Foi quando assistimos todos ao constrangente espetáculo de ver o italiano, acusado de numerosos crimes de sangue, ser acolhido pelo Brasil companheiro como perseguido político.

Portanto, todo cuidado é pouco. Talvez seja um pouco tarde para salvar o fugitivo irlandês. Se ele tivesse pensado em se afiliar ao partido dominante, quem sabe? Teria muita chance de ser acolhido nesta terra onde ainda sobram algumas palmeiras e poucos sabiás.

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Plataforma petróleoInvestimento
O portal financeiro alemão Finanzen informa que o governo brasileiro pretende investir estes próximos anos na construção naval e portuária. O objetivo é apoiar a exportação de petróleo, cuja produção deve dobrar daqui a seis anos.

Li e reli para ter certeza de que o que estava escrito era isso mesmo. Era. Não sou previsor financeiro nem perito em exploração de petróleo. Mas a situação atual aponta para um futuro menos risonho. O bom senso faz crer que seis anos não serão suficientes para desempacar a construção naval e a extração de petróleo. Muito menos para fazê-los subir de patamar.

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Visto americano
O Portal Univisión – braço da gigante mexicana Televisa – traz informe interessante. Transcreve estudo solicitado pelo governo dos EUA sobre as consequências de hipotética ab-rogação da obrigatoriedade de visto para brasileiros que desejem viajar àquele país.

Disneylandia 1Caso fosse concedida isenção, estima-se que turistas brasileiros deixariam nos EUA 5,5 bilhões de dólares extras nos próximos cinco anos. É mais de um bilhão por ano, quantia significativa até para político corrupto ou para assaltante da Petrobrás.

Com a abolição do visto, o período 2015-2019 deveria registrar afluxo de 14,3 milhões de brasileiros. Desse total, calcula-se que 1,2 milhões terão decidido viajar em consequência da queda do visto.

Com a exceção dos dinossauros que se deixam guiar por ideologia jurássica para orientar a política externa brasileira, autoridades não costumam desprezar entrada de divisas. Portanto, é forte a probabilidade de a exigência de visto cair.

Vamos! Enterre o boné no cocuruto e vamos andar de xícara!

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Você acredita?

José Horta Manzano

Estatísticas 1Saiu o resultado da última sondagem do Ibope. Mede a aprovação do atual governo. Segundo o instituto, a maneira de governar de dona Dilma, que era aprovada por 48% dos entrevistados em setembro, subiu a espantosos 52%.

Uma conclusão se impõe: escândalos de corrupção nas altas esferas são proveitosos para o governo. Se outras falcatruas continuarem a ser descobertas – e tudo indica que ainda há muita sujeira a ser revelada – a presidente periga terminar seu quadriênio com aprovação staliniana, coisa de 90%–95%.

Desse jeito, ainda vai conseguir cacife para modificar a Constituição e obter um terceiro mandato. O Lula que se cuide!

Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Ah, essas pesquisas…

Sem complexo

José Horta Manzano

Os ucranianos votaram para escolher novo parlamento. Por coincidência, a eleição caiu no mesmo dia de nosso segundo turno, 26 out°. Por lá, o regime é parlamentar, sustentado por uma coalizão de cinco partidos pró-União Europeia.

Diferentemente das agremiações tupiniquins, que se dividem entre os partidos meio corruptos e os partidos totalmente corruptos, a linha demarcatória da política ucraniana é o grau de simpatia (ou repulsa) pelo grande irmão russo. Os pró-russos se contrapõem aos pró-ocidentais.

O resultado da eleição deu, como esperado, vitória esmagadora aos que sonham com o hipotético dia em que o país será aceito como membro da União Europeia.

A novidade veio agora, com o anúncio do novo ministério. O parlamento decidiu que o primeiro-ministro permaneça no cargo. O mesmo ocorreu com boa parte dos demais ministros. Só alguns foram substituídos. Entre os novatos, no entanto, uma surpresa: três deles são estrangeiros, fato inédito no país e raríssimo em qualquer lugar do mundo.

Ucrania 2O primeiro forasteiro é lituano e foi nomeado ministro da Economia(!). Até o presente, o homem era dirigente da filial ucraniana de importante fundo de investimento internacional.

O segundo escolhido vem da Geórgia, país onde já foi ministro da Saúde e do Trabalho. Na Ucrânia, vai assumir a pasta da Saúde, um posto importante.

A última estrangeira é uma americana de origem ucraniana. A moça nasceu e cresceu nos Estados Unidos, onde fez parte de sua carreira no Departamento de Estado – o Itamaraty de lá. Na Ucrânia, fica com o Ministério das Finanças.

O decreto de naturalização dos três está tramitando a toque de caixa.

Pouco habitual, essa escolha escandalizaria muita gente. Não a mim. O essencial, na minha visão, não é a cor do passaporte, mas a capacidade do indivíduo e sua adequação à função. A história guarda lembrança de estrangeiros que acederam a posição de destaque.

Napoleão era um quase estrangeiro. Nasceu e cresceu na Córsega, ilha que tinha sido comprada pela França poucos anos antes de seu nascimento. A vida toda, falou francês com carregado sotaque.

Henry Kissinger, figurão da politica americana da segunda metade do século XX, nasceu alemão e foi para os EUA como imigrante. Arnold Schwarzenegger nasceu austríaco. Até Hitler era alemão naturalizado – tinha nascido austríaco.

Por enquanto, no Brasil, parece algo inimaginável. Mas, pouco a pouco, mentalidades evoluem. Quem sabe, um dia?

Clube dos salafrários

Fernão Lara Mesquita (*)

«Desde 2003, a Petrobrás vem sendo assaltada em ritmo de carro forte recheado de dinheiro, um atrás do outro, puxado pro clube dos salafrários. Só na refinaria Abreu e Lima a conta subiu de 4 para 24 bilhões e nada.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

A Dilma doa-a-quem-doer e toda aquela diretoria chefiada pela amiga do peito só deu pela falta de alguma coisa quando a turma da delação premiada começou a confessar suas proezas.

Como eles agem dentro daquela empresa onde qualquer gerentinho tem conta de 100 milhões de dólares na Suíça, caminhão de dinheiro lá some e ninguém nota.»

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

Qui nome qué?

José Horta Manzano

Urna 7Uma das afiliadas ao Partido Comunista do Brasil, atualmente cumprindo mandato de deputada federal, está cotada para dirigir o Ministério da Cultura. Nada menos que isso.

A moça já foi prefeita de Olinda. Sua maior qualidade – salientada pelo Estadão – é ser próxima de ambas as cabeças da hidra bicéfala que encarna nosso Executivo. Trocando em miúdos: é vista com bons olhos por dona Dilma e por nosso guia.

Das dezenas de siglas que compõem a aquarela de nosso sistema partidário, o(s) partido(s) comunista(s) são, em teoria, os que contam com alicerce ideológico mais profundo. Em teoria, continuam aferrados à doutrina que, posta em prática por Lênin, terminou no desastre que vimos.

Manif 10Na ideologia comunista, «cultura» é termo dúbio, perigoso, ambíguo – um quase tabuísmo. Cultura é bom na medida que se encaixa nas diretrizes do partidão. Nada de arte degenerada, nada de peças, espetáculos, livros, novelas ou filmes que possam trazer embutida alguma crítica ao regime. Nem a mais leve desviação será tolerada. A censura é fortemente recomendada.

Que nosso Ministério do Esporte tenha estado, estes últimos anos, nas mãos de um nostálgico do paraíso soviético é compreensível. A exaltação da excelência física foi (e continua sendo) característica de regimes autoritários. Em competições olímpicas, a antiga União Soviética era páreo duro. É verdade que, no Brasil, a gestão do ministro comunista foi pífia. A culpa há de ter sido dos loiros de olhos azuis. Que fazer?

Já entregar as rédeas da cultura nacional a um membro de carteirinha do partidão parece-me temeridade. Se a ministra se encasquetar em impor o pensamento único, pode dar um angu danado. A não ser…

… a não ser que as siglas já não signifiquem mais nada. Pensando bem, acho que é isso mesmo.

Partido 1Faz tempo que o Partido dos Trabalhadores abandonou os trabalhadores para dar prioridade aos milionários. O Partido Progressista, bem mais conservador do que seu nome indica, congrega alguns dos milionários mais contestados do país: o Maluf à frente de todos. E por aí vai.

Desconfio que o partido comunista não fuja à regra. De comunista, só tem o nome. Essa insignificância da denominação de fachada de nossos partidos me lembra historinha antiga.

Interligne vertical 7Ao pedir ao cliente que escolhesse a cor da mercadoria, o caipira perguntou:
«Di qui cô qué?»

E o freguês:
«Di caqué cô.»

Vale transpor ao sistema político brasileiro. Na hora de escolher o nome do partido, fica assim:

Interligne vertical 7«Qui nome vai?»
«Caqué um, uai!»

Proponho que o nome de agremiações políticas seja abolido. Que se passe a conhecê-las unicamente pelo número. É mais que suficiente. Sou do 37. Só voto no 59. Prefiro o 83. Que tal?

Efeito colateral

José Horta Manzano

Um dos trunfos da Suíça é a atratividade turística. E não é de hoje: este é considerado o primeiro país a ter hospedado turistas regulares.

DiligenciaAté 150 anos atrás, viajar era muito complicado. Por mais dinheiro que se tivesse, viajava-se em desconfortáveis carroças puxadas por cavalos. Estradas eram pedregosas, pontes eram precárias e estalagens de beira de estrada, duvidosas.

A Revolução Industrial, que desabrochou no Reino Unido duzentos anos atrás, teve duas consequências que afetaram diretamente o deslocamento das gentes. Por um lado, a invenção da máquina a vapor permitiu a implantação de estradas de ferro, que facilitaram as viagens. Por outro, famílias burguesas subitamente enriquecidas passaram a ansiar por temporadas longe das brumas britânicas.

Para essa gente enricada, a Suíça era excelente opção. Não temos aqui o sol nem o calor da Itália ou do sul da França. Em compensação, para quem vem da Inglaterra, a distância é menor e a viagem, mais rápida. Como na orla mediterrânea, aqui também os britânicos escapam à umidade, à chuva e ao vento – fenômenos constantes em suas ilhas.

Suisse 3Naqueles tempos, eles não vinham para alguns dias. Quando viajavam, traziam família, armas e bagagens. Vinham para temporada de alguns meses. Montreux era ponto turístico apreciado, assim como toda a orla do Lago Léman.

Turismo 3Mas o mundo gira e as coisas mudam. Nas terras da rainha Elisabeth, a sociedade se transformou um bocado. A Suíça já não é o destino principal de ingleses e escoceses. Com o passar das décadas, outros visitantes foram substituindo os ingleses ricos.

Antes da popularização dos voos fretados (em brasileiro: charter flights), turistas da Europa do Norte eram fregueses habituais. Hoje em dia, a Tailândia e a República Dominicana, accessíveis em poucas horas de viagem, nos fazem concorrência. E os preços são até inferiores.

Ricos árabes dos Emirados continuam a visitar estas montanhas. Vêm nos meses de verão para escapar da fornalha em que se transformam suas terras desérticas. Russos e chineses endinheirados também apreciam esta região.

Mas, no fundo, bom mesmo é turista brasileiro rico. São gente animada, vêm com a família inteira, ficam semanas, gastam muito, dão gorjetas de nababo, compram tudo o que lhes passa pela frente. São clientes ideais para as butiques de luxo, bem-vindos onde quer que apareçam. Qual é o comerciante que não abre os braços para freguês abonado?

Suisse 2Mas… tudo o que é bom acaba. Juízes malvados estão mandando nossos amados visitantes para a cadeia, pode? É muito injusto. O comércio helvético já está começando a se ressentir da falta desses preciosos turistas.

Já ouvi dizer que associações comerciais helvéticas estão preparando um protesto oficial a ser encaminhado a quem de direito, no Brasil. Rogam às autoridades brasileiras que sejam clementes. Imploram a juízes que ponham a mão na consciência e não permitam que a ausência prolongada desses figurões – verdadeiros benfeitores do comércio suíço – provoque uma crise no país alpino.

Como veem meus distintos leitores, a alegria de uns pode ser a tristeza de outros.

Pagar ou restituir?

José Horta Manzano

Está lá, bem na primeira página do Estadão online deste 15 dez°: “Receita Federal paga último lote de restituição”.

Estadão online, 15 dez° 2014

Estadão online, 15 dez° 2014

Pagar restituição? É complicação inútil. Por que duas palavras quando uma só daria o recado?

Simplificando: “Receita Federal restitui último lote”. Soa melhor, não?

Só para constar

José Horta Manzano

Novo personagem apareceu na trama do Petrolão, de infinitos desdobramentos. Trata-se do contínuo, daquele que entregava o produto do assalto, em dinheiro vivo, aos barões assinalados.

Angulo retoO sobrenome do indivíduo não é familiar a nossos ouvidos. Não sei como estarão pronunciando os jornais televisivos – que são os que mandam. Na mídia impressa, andam escrevendo Ângulo, assim, com circunflexo. Está errado.

Sei que a associação com ângulo é tentadora, mas o nome espanhol não é Ângulo, mas Angulo, sem circunflexo e com acento tônico no u. Pronunciado, fica assim: Angúlo.

Concordo que o comportamento do homem não tem nenhum parentesco com a direitura de um ângulo reto. Mas essa não é razão suficiente para que se lhe estropie o nome.

Quem com ferro fere…

José Horta Manzano

Todos teremos de ir embora um dia – essa é a lei. Já que a partida é inelutável, gostaríamos todos de deixar imagem positiva, pranteada, admirada, respeitada. Nem todos conseguem.

Janio 1Entre políticos e outros medalhões, uma vez cumprida a ambição de chegar lá, resta o consolo de cuidar da própria biografia. «Um dia não estarei mais aqui, mas, pelo menos, deixarei boa lembrança» – costuma ser o mote.

O falecido Jânio Quadros, por exemplo, batalhou para deixar imagem de estadista, de salvador da pátria. O que ficou foi a lembrança de um amalucado sem rumo.

Mandatários poderosos e longevos como Hitler, Stalin, Franco & companhia tiveram todos, um dia, a ilusão de que seriam lembrados como fundadores de nova pátria, de nova estirpe, de nova orientação. São hoje repudiados como arautos da desgraça que, por causa deles, se abateu sobre seu povo.

Aerolula 1O grupo político conhecido como PT pode espernear quanto quiser, que não vai adiantar. Sua imagem guardará a indelével marca da corrupção, da sujeira, do oportunismo e da malandragem. Daqui a alguns anos, quando os atuais figurões estiverem fora de cena, o partido (ou o que restar dele) certamente mudará de nome. Será maneira simbólica de apagar o passado. Há antecedentes no País.

O naufrágio de um agrupamento não significa necessariamente o afogamento coletivo de todos os seus membros. Assim como o senador Suplicy, até seu derradeiro dia de mandato, não terá sido atingido por nenhum respingo de escândalo, outros podem (ou poderiam) livrar a cara – para falar vulgarmente.

A perspectiva de ser lembrada como personalidade execrável não parece comover dona Dilma. Apesar de ter prometido mudança de atitude em seu discurso de reeleita, as últimas notícias não indicam redirecionamento no bom sentido. Aqui está um trecho do artigo publicado pelo jornalista Cláudio Humberto em seu Diário do Poder deste 14 dez° 2014:

Dilma AerolulaInterligne vertical 11a«Militares ganham pouco, ralam muito, são maltratados, sobretudo quem serve no Grupo de Transportes Especiais (GTE), responsável pelos aviões utilizados pela Presidência da República. Mas conseguem se divertir. Mostrando que esculacho não garante respeito, militares da FAB ridicularizam grosserias rotineiras de que são alvo chamando o jatão Airbus, que transporta Dilma Rousseff, de “Vassourão”.

Dilma está longe de ser uma Miss Simpatia a bordo dos aviões da FAB. A vingança veio a jato: passaram a se referir a ela como “Bruxa”

Taí. Ainda não é tarde demais. Dona Dilma ainda tem quatro anos pela frente para enfeitar a biografia. Se se obstinar nessa arrogância de menina mimada, periga ser um dia lembrada como aquela que já foi tarde.

Recordar é viver ― 6

José Horta Manzano

Herói do povo brasileiro
O arquiteto, urbanista e desenhista paranaense Roque Sponholz fez um achado. Foi ao fundo do baú e encontrou este recorte do Estadão impresso. Saiu na manchete e na página A5 da edição de 26 abril 2004.

Estadão, 26 abr 2004 página A5

Artigo do Estadão, 26 abr 2004
Página A5

Coincidência
26 de abril marca justamente o aniversário da explosão da usina atômica de Tchernobyl, o maior desastre nuclear acidental de que se tem notícia. O mundo dá voltas…

Manchetes de 26 abr 2004

Estadão: manchetes de 26 abr 2004

 

 

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A arte de criar problemas

José Horta Manzano

Cofrinho 2Ouvi agora no rádio que, no Brasil, há escassez de troco. Confesso que não sabia. Parece que comerciantes dão tratos à bola para não ouvir reclamação de fregueses. Tem padeiro que dá pãozinho a quem trouxer 50 ou 100 reais em moedinhas. Uma cadeia de lojas de sanduíche de carne moída (ambúrgui) oferta lanche tamanho família contra aporte de um punhado de moedas.

Nos anos 50, era crônica a falta de troco. Não só moedas, mas notas de pequeno valor – chamadas então ‘manolitas’ – eram bem precioso que a gente relutava em passar adiante.

Nas décadas seguintes, com o galope inflacionário, moedas desapareceram. Tudo melhorou a partir de 1994. Com a estabilização garantida pelo Plano Real, problema de falta de troco já deveria fazer parte do folclore nacional. Surpreso, descubro que não é bem assim.

Segundo a repórter que ouvi, não precisou delação premiada para designar o culpado: é o cofrinho. Foi afirmação convicta. A moça disse que, pouco afeito ao uso de moedas, o povo tende a tirá-las de circulação para entesourá-las.

Cofrinho 1Pouco afeito ao uso de moedas? Não faz sentido. Brasileiro com menos de 30 anos não conheceu a vida sem moeda. Até os mais velhos já se acostumaram (ou se reacostumaram) a manusear pecinhas de metal.

A Casa da Moeda se defende dizendo que fabricou não sei quantos milhões de moedinhas. Recomenda aos cidadãos utilizá-las em suas trocas diárias permitindo, assim, que circulem.

O distinto leitor certamente concordará comigo se eu disser que, no Brasil, criar problemas insolúveis é esporte nacional. Veja, pois:

Interligne vertical 16Por um lado, autoridades financeiras lamentam que a poupança média do brasileiro seja uma das mais baixas do planeta – o que é prejudicial ao País. Compra-se a crédito. Gasta-se o que não se possui. Contraem-se dívidas. Depositam-se todas as esperanças num amanhã que não se sabe de que será feito.

Por outro lado, as mesmas autoridades incentivam a população a abandonar o esboço do rascunho do começo de uma incipiente cultura de poupança. O cofrinho é excelente meio didático de infundir no pequerrucho o costume de guardar para dias incertos.

E pensar que a solução do problema é tão simples: basta cunhar mais moedas. Não é complicado, não?

Excerto do solilóquio de Hamlet, na peça homônima de William Shakespeare. Facsimile da edição de 1604

Excerto do solilóquio de Hamlet, na peça homônima de William Shakespeare.
Facsimile da edição de 1604

To be or not to be. As diretivas oficiais parecem indicar esquizofrenia. Mas a verdade é mais simples: os que dão essas ordens são simplesmente incapazes. Incapazes de refletir e incapazes de se pôr de acordo.

Nada pode ser e não ser ao mesmo tempo – que se há de fazer? Quatrocentos anos atrás, Shakespeare já punha na boca de Hamlet essa incontornável obviedade.

Pega pra cassar

José Horta Manzano

Discussão 1Já discorri, no artigo Voando baixo, sobre o constrangedor episódio protagonizado por dois eleitos do povo, um deputado e uma deputada, integrantes da Câmara Federal.

Os dois têm o que se costuma dizer ‘gênio forte’, próprio daqueles que não costumam levar desaforo pra casa. Ela provocou. Ele devolveu. Foi uma baixaria. Espetáculo deprimente.

Numa roda de amigos, numa conversa de boteco, na sala de visitas de sua própria casa, cada um tem o direito de se exceder, de dizer palavrão, de se exprimir como lhe apraz. As consequências – se houver – ficarão restritas ao círculo íntimo. Quando se é figura pública, o feitio tem de ser diferente.

A partir do momento em que a dama e o cavalheiro se candidataram e foram eleitos, seus menores fatos e gestos passaram a extravasar do âmbito pessoal para adentrar o domínio público. A dama e o cavalheiro não estão no Congresso – em princípio – defendendo seu mesquinho interesse pessoal. Funcionam ali como representantes do naco da população que os elegeu. Aureolados pela glória, nem sempre se dão conta. Mas assim é.

Deputado não é diarista nem recebe por hora. Está investido de sua função 24 horas por dia, esteja em plenário ou não. Se o distinto leitor e eu podemos cometer pequenas faltas, que ninguém é de ferro, a coisa se complica quando o autor do deslize é um eleito do povo.

Discussão 2Voltando ao caso de suas excelências Maria do Rosário e Jair Bolsonaro, devo dizer que o comportamento escrachado de ambos mostrou que nenhum dos dois está apto a exercer as funções para as quais foi eleito. Degradam ambos, ainda mais, a imagem que o povo tem do parlamento. Além da ladroagem, da desonestidade e da incapacidade, suas excelências adicionam outra característica ao arsenal dos parlamentares: a descompostura.

Quando um funcionário não funciona, o que é que se faz? Manda-se para o olho da rua. Que se casse o mandato dos dois! E que se aproveite agora, que o voto deixou de ser secreto. Já que o povo nem sempre mostra discernimento ao eleger seus representantes, que o Congresso se encarregue de autoexpurgar-se.

Mariel funciona!

José Horta Manzano

Enfeudada há mais de meio século pelo clã dos Castros, faz tempo que a República de Cuba não sabe o que é imprensa livre. Quem quiser se informar sobre o que ocorre – de verdade – na ilha, tem de se valer de outras fontes. O jornal oficial do partido não vai além de platitudes louvatórias ao regime.

Cubanos exilados, principalmente no Estado da Florida (EUA), estão geográfica e sentimentalmente próximos à pátria. O portal Martí Noticias é um dos porta-vozes da comunidade expatriada. Apoiando-se no relato do jornalista independente Moisés Leonardo Rodríguez, o portal deu notícias frescas e pouco glamorosas sobre o Porto de Mariel.

Como meus cultos leitores hão de se lembrar, a construção desse porto, situado a 45km de Havana, ficou por conta de financiamento do BNDES, o banco brasileiro de desenvolvimento econômico. Sim, senhor, o dinheiro usado foi o nosso. O SEU dinheiro, sim, senhor.

O custo total se aproximou do bilhão de dólares, boa parte dos quais foi entregue a fundo perdido, isto é, de mão beijada, de presente, sem necessidade de devolver. Guarda, que é teu! Doaram o fruto do nosso, do SEU trabalho, sim, senhor. País rico é país que doa à ditadura cubana.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

Faz seis meses que, terminada a primeira etapa, o porto está funcionando. Sabe quantos barcos acolheu de lá pra cá? Apenas 57, o que equivale a 9 navios por mês ou 2 por semana. Dois por semana! Segundo o jornalista, esse volume de tráfego está longe de ser suficiente para justificar as instalações. Fica patente o fracasso do investimento multimilionário feito – em nosso nome e com nosso dinheiro – pelos estrategistas do Planalto.

Não precisa ser especialista em economia nem em comércio internacional para entender. Cuba pouco produz além de açúcar. Suas importações não atingem nem o mínimo vital, visto que a população bambeia no limite da linha da miséria. Se o país não se desenvolveu até hoje, não foi por falta de porto. O que faltou foi dinamismo econômico, há decênios sufocado pelo dirigismo estatal.

Mas peraí. Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Vá lá que os estrategistas de nosso governo não sejam visionários, mas tampouco são completamente tapados. Investir por inverstir, mais valia pôr essa dinheirama em obra mais promissora. Por que, então, terão enterrado a avalanche de dólares (nossos) justamente num país cuja economia é atualmente inviável?

Duas possibilidades me ocorrem. A primeira é que tenham antecipado o que acontecerá quando os bondosos irmãos não forem mais deste mundo. A aposta terá sido que o regime se abrirá, que capitais do mundo inteiro fluirão para a ilha, que o porto funcionará a pleno regime, que o povo cubano será eternamente grato ao Brasil pelas bondades concedidas.

Essa possibilidade sofre de um pecado original. O perigo é grande de, uma vez enterrados os Castros, o Brasil ser rejeitado por ter sido financiador da ditadura e amigo dos opressores. Por jamais ter movido uma palha em socorro dos infelizes que, por delito de opinião, apodreciam nos calabouços. Sejamos francos: todo cubano sonha mesmo é com os EUA, não com o Brasil. Ter construído Mariel não faz diferença.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

A segunda possibilidade já me tinha ocorrido algum tempo atrás. Na época, fiquei meio sem jeito de expô-la, a hipótese era ousada demais. Hoje faz sentido. O saqueio da Petrobrás se encarregou de preparar os espíritos para revelações ainda mais extraordinárias.

Não se pode (por enquanto) provar nada, mas não é absurdo imaginar que as obras do porto tenham sido hiperfaturadas. Afinal, as empreiteiras são as mesmas que trabalham para a petroleira brasileira, logo…

E o que terá acontecido com o hiperfaturamento? Ora, não é proibido imaginar uma partilha fraterna da propina entre companheiros: de um lado, a gerontocracia cubana e, de outro, a nomenklatura de Brasília. Uma ação entre amigos, por que não?

Por enquanto, ficamos na conjectura. Mas deixe estar, que indícios e registros ficam na história e, um dia, acabam vindo à tona. Quanto mais gente envolvida, maior o perigo de vazamento. Planejamento, arquitetura, construção e gestão de um porto marítimo exigem uma multidão.

É garantido que, no dia em que a ditadura cubana for banida, processos de expurgo vão ser abertos. Quando cai um regime ditatorial, é a regra. Entre os que forem apanhados, alguns podem muito bem solicitar o benefício da “delação premiada”, tão em voga atualmente. É aí que muita gente, por aqui, periga ver destruída sua biografia.

Voando baixo

José Horta Manzano

Urubu anda voando baixo na Câmara dos Deputados. Dois eleitos andaram fazendo papelão. E justamente no dia dedicado aos direitos humanos.

Parece que a deputada xingou o colega tascando-lhe o epíteto de estuprador. O nobre parlamentar não deixou por menos: rebateu a ofensa em dobro. Declarou, em plenário, que não a estupraria «porque ela não merece». Um barraco total, coisa de gentinha.

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Churchill and AstorA historinha me fez lembrar o diálogo travado entre Sir Winston Churchill e Lady Nancy Astor, a primeira mulher a aceder a um cargo de representante do povo na House of Commons (Câmara Baixa britânica). Os dois personagens, ambos donos de forte personalidade, não eram exatamente o que se poderia catalogar como amigos íntimos.

Certa feita, Churchill foi convidado para um jantar de cerimônia em casa de Lady Nancy. Depois da refeição, a anfitriã se encarregou de servir pessoalmente o café.

Quando chegou a vez de Sir Winston, ela lançou-lhe um olhar feroz e disse: «Winston, if I were your wife, I’d put poison in your coffee.»«Winston, se eu fosse sua mulher, eu poria veneno no seu café.»

Língua afiada, Churchill devolveu de bate-pronto: «Nancy, if I were your husband, I‘d drink it.»«Nancy, se eu fosse seu marido, eu o beberia.»

Gente fina é outra coisa.

Mãos ao alto!

José Horta Manzano

A UNODC – Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime – publicou a edição 2013 de seu Estudo Global sobre Homicídios, baseado em dados de 2012. Quem estiver interessado pode obter o original aqui (em inglês).

Assalto 2Quando o assunto é brutalidade, a gente já começa a folhear o relatório com certo temor. O País que nos interessa dificilmente aparece em boa posição. Notícias encorajantes são raras. Dito e feito.

Nosso Brasil detém um triste recorde: em números absolutos, é campeão mundial de assassinatos. Foram mais de 50 mil(!) no ano de 2012. Isso dá quase mil por semana, perto de 140 por dia. Um a cada dez minutos, minha gente! Quando você chegar ao fim deste artigo, alguém terá sido assassinado em território nacional. Quem foi mesmo que classificou nosso País como cordial, acolhedor e pacífico?

Comparar nossa situação com a da Dinamarca ou a do Japão é covardia. A situação não é a mesma. O estágio civilizatório é diferente. O número de habitantes é distinto.

Mas vale comparar com os outros três componentes da sigla Bric. São todos considerados ‘emergentes’, têm território imenso, população numerosa e renda per capita média. Comparei. Ficou assim:

País         Total    Por 100mil
—————————————————————————————————-
Brasil      50.108      25,2
Rússia      13.120       9,2
Índia       43.355       3,5
China       13.410       1,0

A primeira coluna dá o total de humanos assassinados em 2012. A segunda mostra o número anual de homicídios por 100 mil habitantes. Os dados da China são de 2010, mas a taxa de homicídios vem caindo por lá ano após ano. Nos últimos oito anos, caiu pela metade.

Revolver 1Em conclusão, para um assassinato na Rússia, há 3 no Brasil. Para cada indiano trucidado, trucidamos quase 8 brasileiros. E – este dá vergonha – para cada homicídio chinês, respondemos com 25 cidadãos massacrados.

Dei mais uma olhada. Queria saber onde se situam os campeões mundiais em morticínio per capita, ou seja, onde é que se mata proporcionalmente mais. O resultado é inapelável: os primeiros 35 lugares da lista são ocupados por países americanos e africanos. São 19 da América e 16 da África. Os olhos precisam passear até o 36° lugar para encontrar o primeiro não americano e não africano. Trata-se do obscuro Quirguistão, que poucos saberiam situar num mapa-múndi.

Crime 1Dos países americanos, apenas dois estão propriamente na América do Sul: Venezuela e Brasil. Os outros fazem parte da América Central e do Caribe. O campeão mundial disparado neste gênero de esporte é Honduras. Com a impressionante taxa anual de mais de 90 homicídios por 100 mil habitantes, deixa El Salvador, segundo colocado, comendo poeira.

Ganha um bilhete de ida simples para Tegucigalpa (capital de Honduras) quem explicar por que razão a taxa de homicídios vem subindo no Brasil enquanto desce nos demais Bric.

Lei do Inquilinato

José Horta Manzano

«Extra! Extra! Saiu a nova Lei do Inquilinato!» Quarenta ou cinquenta anos atrás, era comum ouvir, pelas esquinas, pregão anunciando mudança nas normas que disciplinam contratos de locação imobiliária.

Pelas esquinas do centro da cidade, vendedores instalavam precária banquinha, que cobriam com livrinhos de capa mole. Em seguida, no grito, chamavam a atenção da clientela para a importância da nova legislação. A situação inspirou Lino Tedesco que compôs samba chamado justamente «A Lei do Inquilinato», lançado em 1957 pelos Demônios da Garoa.

Lei do Inquilinato – versão 29 dez° 1956

Lei do Inquilinato – versão 29 dez° 1956

Hoje em dia, alterações nas regras de locação são menos frequentes, o que é um passo no bom sentido. Só para dar uma ideia, saiba o distinto leitor que, entre 1950 e 1969, foram promulgadas 17 (dezessete) leis ditas «do inquilinato». Cada uma aposentava a anterior – era praticamente uma lei por ano. E todos compravam o livrinho de capa mole. Eram tempos em que o cidadão contava menos com o Estado e mais com sua própria diligência.

Tudo isso mudou muito. Hoje há direitos às pencas e parcos deveres. Como resultado da pletora de advogados, cresce a judiciarização das relações entre indivíduos. Onde, antes, uma conversa e um acordo resolviam, hoje se move processo. Onde, antes, um pedido de desculpas resolvia, hoje só uma compensação financeira destrinçará.

O cidadão tem o sentimento difuso de ser assistido por direitos inalienáveis. Em sua lógica, a correlação entre deveres e direitos não é automática. Direitos existem per se, independentemente dos atos que cada uma possa praticar. Essa percepção beata é problema de raiz, antigo, que o paternalismo exacerbado destes últimos anos vem agravando.

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Tudo, até aqui, foi digressão. Entrei por uma trilha lateral e quase me perdi. Volto ao cerne.

«Extra! Extra! Saiu a nova pesquisa Datafolha

A sondagem indica que 68% dos brasileiros atribuem a dona Dilma alguma responsabilidade pelo saqueio da Petrobrás. São sete entre dez cidadãos, um veredicto inapelável!

Pesquisa 4O que inquieta é o fato de, assim mesmo, 42% dos entrevistados julgarem boa ou ótima a gestão da presidente. Incongruente? Bota incongruência nisso, compadre!

Resumo da ópera
Saqueio, roubalheira, assalto, mentira, governo mafioso, propaganda enganosa, obras inacabadas, contratos superfaturados, dinheiro do contribuinte que termina no bolso de medalhões – nada disso tem importância. Dona Dilma, segundo 42% dos habitantes, gere bem o País. «Que roubem à vontade, desde que eu continue recebendo minhas migalhas» – parecem dizer.

Confusão mental? Esquizofrenia? Doutrinamento? Condicionamento que Pavlov explica? Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que dizem.

Falam de nós – 3

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

A desgraça de uns…
Os danos causados pela seca que assola boa parte do território brasileiro não se resumem à falta d’água para consumo humano. A região cafeeira do Brasil, situada dentro da zona climaticamente perturbada, também se ressente do desregramento climático.

O Brasil é o maior produtor mundial de café. A safra 2014-2015 foi afetada pela ausência de chuva, fato que causou aumento de preço da rubiácea no mercado mundial. Prevê-se que a safra 2015-2016 vá pelo mesmo caminho.

Café 2Quem ganha com isso são os demais países produtores. Entre eles, a Etiópia – mencionada em reportagem do Portal RFI (Radio France Internationale). Este ano, as exportações etíopes cresceram 6% em volume e 34% em valor justamente devido à valorização advinda da raridade do produto.

A Etiópia agradece a São Pedro.

Interligne 28aPiscina com suástica
A propagação da notícia da piscina catarinense azulejada com suástica ecoou mais fortemente em dois países: Alemanha e Israel. É compreensível.

Tanto o jornal israelense Haaretz quanto o alemão Bild deram destaque à bizarra notícia. (Já comentamos o assunto no posto Símbolos horizontais.)

Interligne 28aRapina
A palavra, que significa roubo praticado com violência, é pouco utilizada no Brasil. Preferimos assalto. Tanto faz, o crime é o mesmo.

Assalto 1O Corriere Adriatico, jornal regional da Itália, traz a notícia do susto pelo qual passaram dois médicos italianos em visita ao Brasil. Tinham vindo participar do Congresso Mundial de Alergologia, no Rio de Janeiro. Um miniônibus, lotado com médicos italianos, foi assaltado, logo na chegada ao Rio, no caminho do aeroporto ao hotel. Assalto cinematográfico, com direito a arma apontada para a cabeça do motorista. O guia levou uma coronhada, e os médicos foram aliviados de seus pertences de valor – dinheiro, cartão de crédito, celular, relógio.

Benvenuti in Brasile!

Interligne 28aOlho vivo, chineses!
O Portal China Daily relata a formação que está sendo oferecida a representantes de companhias chinesas que tencionam se instalar no Brasil. Há muitas firmas na fila. Um grupo brasileiro especializado em aconselhamento de investidores estrangeiros está encarregado de informar e formar os principiantes.

Chinês 2Entre as dicas, os chineses aprendem que, no Brasil, o cipoal legal é denso. É imprescindível que todo contrato seja examinado por advogados e fiscalistas antes do jamegão.

Os potenciais investidores são também alertados para falsas promessas feitas pelos Estados. São incitados a tomar extremo cuidado com bondades do tipo terreno grátis, favores fiscais, aluguéis a preços de pai pra filho. Podem cair em cilada.

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Quem poderá contestar a moralidade do desejo?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Acabo de ler uma obra-prima. Refiro-me ao romance Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, escrito por Wilma Schiesari-Legris que, como eu, é caetanista(1) orgulhosa.

Wilma 1Sei que o critério usado para definir uma obra de arte é subjetivo. Pode-se gostar ou não dela, achá-la feia ou bonita, aprovar ou desaprovar a forma pela qual seus contornos foram estabelecidos. Seja como for, dela não se pode apenas dizer que é mentirosa. Ela retrata a sensibilidade do autor para apreender a realidade – talvez nem sempre a realidade do que se passa no mundo externo – mas certamente a realidade dos valores, sonhos, fantasias e desejos presentes no mundo interior de quem a concebe.

Posso afirmar sem medo de errar que o livro extrapola em muito o universo de interesses de quem estudou na Caetano. A leitura da obra pode funcionar muito bem como aula hipnótica de História, de Filosofia, de Ética, de Direito, de Sociologia e de Psicologia. Extrapola também o contexto social de uma época e de um local específico. É um retrato apaixonado da alma humana.

No centro da trama, o perpétuo embate entre moralidade e moralismo. Mesmo sem querer ser desmancha-prazeres, impedindo leitores em potencial de descobrirem por si mesmos os detalhes do roteiro e de se deliciarem com eles, preciso dizer que os protagonistas são uma jovem interiorana que vem para a capital estudar e é acolhida na residência de seu tutor e padrinho. Não é difícil imaginar os muitos percalços e desvios de rota que se abatem inexoravelmente por aqueles que ousam se aventurar por terrenos não trilhados antes – as dúvidas e hesitações diante do confronto entre a alegria da descoberta e os limites autoimpostos com antecedência.

Crime e castigo na Escola Caetano de Campos Noite de autógrafos – 2 dez° 2014

Crime e castigo na Escola Caetano de Campos
Noite de autógrafos – 2 dez° 2014

Saboreei cada minúscula contingência do roteiro. Me entediei com os detalhes burocráticos do caso. Senti minha temperatura subir ao entrar em contato com as minúcias dos encontros amorosos nos landaus de aluguel. Suei frio com a tensão dos desdobramentos da trama. Me angustiei na tentativa de antecipar os desfechos.

Ao terminar a leitura, alívio e gozo. Estranhamente, me senti leve, muito leve. Percebi que havia embarcado numa fascinante viagem ao passado – não só ao passado da escola, da cidade e da sociedade paulistana, mas principalmente ao meu próprio passado. Fui levada, com suavidade, a revisitar minhas aventuras e desventuras de adolescência, meus sonhos profissionais, meus imensos desafios na longa jornada para penetrar e sondar os mistérios do psiquismo humano.

Por tudo isso, convido quem quiser se deixar enredar por esse delicioso passeio pelo que há de mais delicado dentro de cada um de nós a procurar (e comprar, é claro) este livro ou, no mínimo, a buscar uma aproximação com a autora(2).

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Escola Caetano de Campos, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo – inaugurado em 1894

Escola Caetano de Campos, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo – inaugurado em 1894

(1) “Caetanistas” é como se autointitulam ex-alunos da Escola Caetano de Campos, antigo e tradicional estabelecimento público paulistano, que ocupou durante quase 80 anos prédio imponente, na Praça da República, onde atualmente funciona a Secretaria da Educação.

(2) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Radicada em Paris há várias décadas, edita o o blogue IECCmemorias.wordpress.com. Seu livro mais recente, Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, foi lançado esta semana pela Editora Luna, São Paulo. Para entrar em contacto com a autora, vá por este endereço: W.Legris@gmail.com.