Crise não chegou ao Planalto

Jorge Oliveira (*)

As viagens da Dilma para o exterior são infrutíferas, não trazem benefícios ao país. Servem para ela fugir da crise e gastar R$ 2 milhões por ano apenas com comida a bordo do avião presidencial, dinheiro do contribuinte que, como idiota, continua sustentando o luxo dela e bancando suas despesas em bons e sofisticados restaurantes lá fora.

Banquete 3O jornalista José Casado, do Globo, fez levantamento minucioso dos gastos da estrutura presidencial e chegou a números espantosos. Foram R$ 9,3 bilhões no ano passado para sustentar o entourage que gira em torno dela com alimentação, vestuário, viagens aéreas, servidores, jardinagem, deslocamentos internos e externos, carros, combustível, cartões corporativos, vigilância privada e órgãos à sua disposição.

(*) Jorge Oliveira é jornalista e assina coluna no Diário do Poder.

Efeito colateral

José Horta Manzano

Um dos trunfos da Suíça é a atratividade turística. E não é de hoje: este é considerado o primeiro país a ter hospedado turistas regulares.

DiligenciaAté 150 anos atrás, viajar era muito complicado. Por mais dinheiro que se tivesse, viajava-se em desconfortáveis carroças puxadas por cavalos. Estradas eram pedregosas, pontes eram precárias e estalagens de beira de estrada, duvidosas.

A Revolução Industrial, que desabrochou no Reino Unido duzentos anos atrás, teve duas consequências que afetaram diretamente o deslocamento das gentes. Por um lado, a invenção da máquina a vapor permitiu a implantação de estradas de ferro, que facilitaram as viagens. Por outro, famílias burguesas subitamente enriquecidas passaram a ansiar por temporadas longe das brumas britânicas.

Para essa gente enricada, a Suíça era excelente opção. Não temos aqui o sol nem o calor da Itália ou do sul da França. Em compensação, para quem vem da Inglaterra, a distância é menor e a viagem, mais rápida. Como na orla mediterrânea, aqui também os britânicos escapam à umidade, à chuva e ao vento – fenômenos constantes em suas ilhas.

Suisse 3Naqueles tempos, eles não vinham para alguns dias. Quando viajavam, traziam família, armas e bagagens. Vinham para temporada de alguns meses. Montreux era ponto turístico apreciado, assim como toda a orla do Lago Léman.

Turismo 3Mas o mundo gira e as coisas mudam. Nas terras da rainha Elisabeth, a sociedade se transformou um bocado. A Suíça já não é o destino principal de ingleses e escoceses. Com o passar das décadas, outros visitantes foram substituindo os ingleses ricos.

Antes da popularização dos voos fretados (em brasileiro: charter flights), turistas da Europa do Norte eram fregueses habituais. Hoje em dia, a Tailândia e a República Dominicana, accessíveis em poucas horas de viagem, nos fazem concorrência. E os preços são até inferiores.

Ricos árabes dos Emirados continuam a visitar estas montanhas. Vêm nos meses de verão para escapar da fornalha em que se transformam suas terras desérticas. Russos e chineses endinheirados também apreciam esta região.

Mas, no fundo, bom mesmo é turista brasileiro rico. São gente animada, vêm com a família inteira, ficam semanas, gastam muito, dão gorjetas de nababo, compram tudo o que lhes passa pela frente. São clientes ideais para as butiques de luxo, bem-vindos onde quer que apareçam. Qual é o comerciante que não abre os braços para freguês abonado?

Suisse 2Mas… tudo o que é bom acaba. Juízes malvados estão mandando nossos amados visitantes para a cadeia, pode? É muito injusto. O comércio helvético já está começando a se ressentir da falta desses preciosos turistas.

Já ouvi dizer que associações comerciais helvéticas estão preparando um protesto oficial a ser encaminhado a quem de direito, no Brasil. Rogam às autoridades brasileiras que sejam clementes. Imploram a juízes que ponham a mão na consciência e não permitam que a ausência prolongada desses figurões – verdadeiros benfeitores do comércio suíço – provoque uma crise no país alpino.

Como veem meus distintos leitores, a alegria de uns pode ser a tristeza de outros.

Tapeação de Salomão

José Horta Manzano

Em artigo publicado no Estadão deste 25 de julho, Diego Zanchetta informa que, ao final de quatro anos de obras que saíram por 680 milhões(!), o novo Templo de Salomão está sendo inaugurado em São Paulo.

Pertence a uma conhecida seita neopentecostal autodenominada Igreja Universal do Reino de Deus, controlada por um senhor chamado Macedo.

Os atributos do recinto são coisa de novo-rico, dignos de um castelo «medieval» de Las Vegas: quatro vezes a superfície do Santuário Nacional de Aparecida com espaço para 10 mil pessoas sentadas, revestimento de mármore cor-de-rosa italiano, iluminação garantida por 10 mil lâmpadas, oliveiras importadas de Israel, telão maior que os dos estádios da Copa das Copas. Pra ministro nenhum botar defeito, sô!

Foto Estadão

Foto Estadão

Aliás, não só ministro, mas presidente, ex-presidente, governador e prefeito foram convidados para a cerimônia de inauguração. Sem público, naturalmente, que é para prevenir vaias. Rapidinho, dona Dilma confirmou presença. É altamente provável que os outros convidados «de honra» compareçam também. Afinal, em época de campanha eleitoral, é permitido fazer o diabo.

Tem um detalhe que me incomoda. Fiel que ousar vir a pé, sozinho, movido por sua própria fé, não será admitido no local. Para frequentá-lo, é obrigatório vir em caravana. O adepto terá de inscrever-se junto à única empresa de ônibus coveniada com a seita. E terá de desembolsar obrigatoriamente 45 reais, ainda que resida a um quarteirão de distância. A notícia não deixa claro se o pagamento obrigatório da entrada será descontado do dízimo.

Em terras mais civilizadas, esse tipo de procedimento já teria sido denunciado como exploração da ingenuidade popular, num processo com excelentes chances de sucesso e de consequente interdição da seita no território nacional.

Mas em nossa terra, sacumé, a coisa é mais maneira. Já que pode servir de vitrina eleitoral, por que não fechar um olho? Afinal, parte importante de nossa vida política é alicerçada na exploração da crendice do povão. Ou não?

Vamos jogar golfe? É boca-livre

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno veio ter comigo hoje. Parecia indignado. Brandia um jornal dobrado na mão direita e, com ele, batia na palma da mão esquerda, balançando a cabeça e repetindo: «Como é que pode? Como é que pode?».

Pizzolato deixa Tribunal de Bolonha num camburão Imagem Mario Camera, FolhaPress Clique na imagem para ler reportagem

Pizzolato deixa Tribunal de Bolonha num camburão
Imagem Mario Camera, FolhaPress
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«Pode o que, Sigismeno?» ― atalhei ― «por que é que você está nesse estado?»

«Ora, pois é de novo o Pizzolato, aquele que, pra escapar da cadeia, se fez passar por um parente morto, se escondeu na Itália, mas… acabou inquilino de um presídio. E em regime fechado. Imagine você que eu estava lendo a Folha (de São Paulo) e dei de cara com uma reportagem estonteante.»

«E de onde vem essa tontura toda, Sigismeno?», perguntei.

Pizzolato e o Lula (antes dos apês na Costa del Sol)

Pizzolato e o Lula
(antes dos apês na Costa del Sol)

«É o seguinte: o repórter conta que, antes de ser preso, o fugitivo cometeu o desplante de comprar propriedades de luxo na Espanha. Não foi um, mas três apartamentos num condomínio de altíssimo padrão, colados ao campo de golfe de Torrequebrada, no município de Benalmádena, Província de Málaga. Lá na Costa del Sol, sul da Espanha.» E meu amigo escandiu: «Um-dois-três apês! Coisa de milhões!».

«Ué, Sigismeno, e cada um não tem direito de gastar seu dinheiro como quiser? O fato de o homem ter sido condenado não lhe tolhe o direito que todo cidadão tem de dispor de seus bens como lhe aprouver. Não lhe parece?»

«Olhe aqui, sô» ― e ele me pareceu enfurecido ao iniciar a frase ―, «gastar o dinheiro dele é uma coisa, gastar o dinheiro nosso é outra completamente diferente. O gajo foi condenado por ter desviado milhões que não lhe pertenciam. Onde foi parar essa dinheirama toda? Ninguém esclareceu até hoje».

Campo de golfe de Torrequebrada, Costa del Sol Altíssimo padrão com vista para o Mediterrâneo Imagem google Clique para ler reportagem

Campo de golfe de Torrequebrada, Costa del Sol
Altíssimo padrão com vista para o Mediterrâneo
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«E você estaria insinuando que o dinheiro dos apartamentos…» ― hesitei em terminar a frase. Sigismeno nem me deu tempo.

«Insinuando? Mas me parece uma evidência! Por mais que um salário de diretor do Banco do Brasil seja confortável, não é suficiente para comprar imóveis de luxo numa das regiões costeiras mais badaladas da Europa».

«Bom, Sigismeno, vamos admitir que as coisas sejam como você diz. Como é que fica, então? Que é que você e eu, reles cidadãos, podemos fazer?»

Campo de golfe de Torrequebrada, Benalmádena Málaga, Costa del Sol, Espanha Imagem google Clique para ler reportagem

Campo de golfe de Torrequebrada, Benalmádena
Málaga, Costa del Sol, Espanha
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«Ora, meu caro, a partir do momento em que a mutreta foi publicada num dos grandes jornais do País, é praticamente como se tivesse saído no Diário Oficial: ninguém mais pode dizer que não sabia. O Ministério Público ― ou quem de direito, não sou especialista no assunto ― tem de ir até o fundo da história. Se o repórter botou o dedo na ferida e denunciou, cai supermal que a Justiça brasileira não dê sequência à investigação. Seria confessar ao planeta que continuamos sendo uma republiqueta de bananas.»

«Ah, Sigismeno, acho que você pode estar tranquilo. Nossa Justiça tarda mas não falha. Sempre funcionou. Sossegue, homem!»

«Funcionou, funcionou» ― resmundou Sigismeno ― «funcionou aos trancos. É como carro velho: pra dar partida, tem de empurrar.»

Epílogo
O empurrão está dado. Vamos ver agora se polícia e Justiça fazem o que se espera delas. A ser verdade que essas propriedades são fruto de apropriação indébita, têm de ser confiscadas e devolvidas ao legítimo dono. Vamos ver como o caso evolui. O povo brasileiro tem muita facilidade para esquecer, mas Sigismeno grava essas coisas num excelente disco rígido incorporado. Se facilitar, qualquer dia destes ele volta ao assunto.

Não sabem nem mentir

José Horta Manzano

Um bando de trapalhões, é isso aí. O Brasil-potência está nas mãos de uma malta de trapalhões ignorantes e desonestos. Mas deixe estar — não passam de aprendizes.

Ainda não se deram conta de que o mundo mudou. Vivem ancorados nos anos 70, vociferam contra ditadores que já estão a sete palmos sob terra, desenterram esqueleto de presidente destituído, instauram comissões para investigar o lado da verdade que lhes interessa. Para essa gente cheia de mágoa e rancor, o passado parece mais importante que o futuro.

Insistem em seguir adiante de olhos vendados. Fazem como se o Brasil fosse povoado por jecas-tatus broncos, toscos, desdentados e ignorantes. Pois ignorantes são eles. Podem encher-se de botox, implantar fios de cabelo, tingir as melenas, mas não passam de gente tosca e primitiva. Civilização é artigo que não se vende em supermercado.

Dilma à saída do restaurante estrelado Crédito: Nuno Fox, Expresso

Dilma à saída do restaurante estrelado
Crédito: Nuno Fox, Expresso

Com o advento — e o contínuo aperfeiçoamento — dos modernos meios de comunicação, o sigilo tem encolhido. Fica cada dia mais difícil manter segredo sobre atos e fatos. Todos carregam no bolso máquina fotográfica, gravador, telefone, agenda e computador. Equipamento com que James Bond nem ousava sonhar cabe hoje num bloquinho de plástico de cento e poucos gramas, accessível a todos.

A última tentativa de trapaça de nossos medalhões foi desvendada no mesmo dia em que aconteceu. A presidente e sua alentada equipe de assessores e apaniguados planejavam, já há de fazer um bom tempo, desaparecer dos radares no fim de semana para gozar as delícias de uma gastronômica etapa lisboeta. Durante dois dias, atravessariam uma espécie de zona de sombra entre as neves suíças e o mormaço cubano.

Plano havia. Tanto é verdade que, já na quinta-feira, as reservas de hotel e alojamento já estavam feitas. A prova da exatidão dessa tese está na reportagem do brasileiro Estadão e na do lusitano Expresso. Nossos ingênuos dirigentes não imaginavam que alguém os pudesse surpreender durante a excursão clandestina. Realmente, é coisa de gente incompetente.

Dizem que dona Dilma, apanhada de calça curta, ficou furibunda. Note-se que, vindo dela, não é surpreendente. Para esquivar-se de interpelação embaraçosa, escapuliu do hotel pela porta de serviço e ordenou que seus cortesãos arrumassem uma explicação que satisfizesse a plebe.

Trocando os pés pelas mãos, os áulicos tentaram serzir, mas o buraco era grande demais. Não deu. Ficou pior a emenda que o soneto. Dá vergonha e nojo da mesquinhez dessa gente. Pior ainda é o medo que dá saber que nosso país está nas mãos de ineptos.

Se, até hoje, ainda não afundamos de todo é de crer que Deus é mesmo brasileiro.