Quem poderá contestar a moralidade do desejo?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Acabo de ler uma obra-prima. Refiro-me ao romance Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, escrito por Wilma Schiesari-Legris que, como eu, é caetanista(1) orgulhosa.

Wilma 1Sei que o critério usado para definir uma obra de arte é subjetivo. Pode-se gostar ou não dela, achá-la feia ou bonita, aprovar ou desaprovar a forma pela qual seus contornos foram estabelecidos. Seja como for, dela não se pode apenas dizer que é mentirosa. Ela retrata a sensibilidade do autor para apreender a realidade – talvez nem sempre a realidade do que se passa no mundo externo – mas certamente a realidade dos valores, sonhos, fantasias e desejos presentes no mundo interior de quem a concebe.

Posso afirmar sem medo de errar que o livro extrapola em muito o universo de interesses de quem estudou na Caetano. A leitura da obra pode funcionar muito bem como aula hipnótica de História, de Filosofia, de Ética, de Direito, de Sociologia e de Psicologia. Extrapola também o contexto social de uma época e de um local específico. É um retrato apaixonado da alma humana.

No centro da trama, o perpétuo embate entre moralidade e moralismo. Mesmo sem querer ser desmancha-prazeres, impedindo leitores em potencial de descobrirem por si mesmos os detalhes do roteiro e de se deliciarem com eles, preciso dizer que os protagonistas são uma jovem interiorana que vem para a capital estudar e é acolhida na residência de seu tutor e padrinho. Não é difícil imaginar os muitos percalços e desvios de rota que se abatem inexoravelmente por aqueles que ousam se aventurar por terrenos não trilhados antes – as dúvidas e hesitações diante do confronto entre a alegria da descoberta e os limites autoimpostos com antecedência.

Crime e castigo na Escola Caetano de Campos Noite de autógrafos – 2 dez° 2014

Crime e castigo na Escola Caetano de Campos
Noite de autógrafos – 2 dez° 2014

Saboreei cada minúscula contingência do roteiro. Me entediei com os detalhes burocráticos do caso. Senti minha temperatura subir ao entrar em contato com as minúcias dos encontros amorosos nos landaus de aluguel. Suei frio com a tensão dos desdobramentos da trama. Me angustiei na tentativa de antecipar os desfechos.

Ao terminar a leitura, alívio e gozo. Estranhamente, me senti leve, muito leve. Percebi que havia embarcado numa fascinante viagem ao passado – não só ao passado da escola, da cidade e da sociedade paulistana, mas principalmente ao meu próprio passado. Fui levada, com suavidade, a revisitar minhas aventuras e desventuras de adolescência, meus sonhos profissionais, meus imensos desafios na longa jornada para penetrar e sondar os mistérios do psiquismo humano.

Por tudo isso, convido quem quiser se deixar enredar por esse delicioso passeio pelo que há de mais delicado dentro de cada um de nós a procurar (e comprar, é claro) este livro ou, no mínimo, a buscar uma aproximação com a autora(2).

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Escola Caetano de Campos, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo – inaugurado em 1894

Escola Caetano de Campos, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo – inaugurado em 1894

(1) “Caetanistas” é como se autointitulam ex-alunos da Escola Caetano de Campos, antigo e tradicional estabelecimento público paulistano, que ocupou durante quase 80 anos prédio imponente, na Praça da República, onde atualmente funciona a Secretaria da Educação.

(2) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Radicada em Paris há várias décadas, edita o o blogue IECCmemorias.wordpress.com. Seu livro mais recente, Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, foi lançado esta semana pela Editora Luna, São Paulo. Para entrar em contacto com a autora, vá por este endereço: W.Legris@gmail.com.