A marcha dos 4 milhões na França envergonha o Brasil

Cláudio Tognolli (*)

Paris

Paris

A marcha dos 4 milhões, em Paris, envergonha a América Latina em geral e o Brasil em particular. Prova que, tecnicamente, abandonamos a cidadania há muito.

Magro e grave, outro dia um comerciante dos Jardins comentava: «Em São Paulo, se mata apenas para ouvir o barulho do tombo. Mas deixa pra lá, sempre foi assim». No Brasil roubos e matanças já se incorporaram ao nosso biótipo: saem pela urina. E sem pedrinhas machucantes.

Há finais de semana em que se matam 50 pessoas em São Paulo. Homicídios mataram 56 mil brasileiros em 2013. Qual o hino da Irlanda? Na prática, a balada Sunday Bloody Sunday, do U2. Sabe quantos morreram no Domingo Sangrento em janeiro de 1972? Quatorze ativistas. Quantos morreram no nosso Carandiru? Cento e onze. Os números brutais de matanças no Brasil não mais nos emocionam.

O brasileiro incorporou à sua sub-rotina o acostumar-se com mortes a quilo e roubos a tonelada. Uma vez, em Israel, um ministro caiu por desviar seis mil dólares. Por aqui, todos seguem firmes com o petrolão. E Dilma vai muito bem, obrigado.

Interligne vertical 11aNo livro Os Sertões, Euclydes da Cunha descreve o brasileiro como o Hércules-Quasímodo: «Falta-lhe a aparência impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente».

Somos Hércules porque ainda sobrevivemos nesta pré-coerência estilizada que é a cidadania brasileira.

Os 4 milhões de pessoas nas ruas não protestaram apenas contra as mortes. Protestaram contra o estado de coisas que o terror traz.

Bordeaux

Bordeaux

Sabem o que é o terror? É o medo sem objeto. Por isso, a Bruxa de Blair fez tanto sucesso: não eram tubarões ou Jasons ou Chucks no ataque: eram ventos, galhinhos. Era o Nada. Por isso, Heidegger e Sartre diziam que a questão mais fundamental da filosofia do século 20 era o Nada.

A França não quer viver no estado do Nada. Neste sábado, os policiais franceses foram orientados a retirarem suas fotos das redes sociais porque «o ataque terrorista pode vir de qualquer canto». Ninguém suporta o terror sem objeto.

Isso serve para os dois lados. Logo depois do ataque às torres gêmeas, o presidente George W. Bush mostrava a foto dos 19 terroristas. Mais tarde, proibiu a divulgação. Saía de cena o «terrorista» e entrava o «terrorismo», o que justificava combatê-lo onde interessasse a Bush. Foi assim que se forjou a invasão do Iraque.

Marselha

Marselha

O cineasta Alfred Hitchcock admitia que «não existe terror no estrondo, mas na antecipação dele». Richard Nixon, que foi presidente dos EUA, gostava de dizer que «as pessoas reagem ao medo, não ao amor». E Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, orgulhava-se de ter detectado que «falamos sempre não para dizer algo, mas para obter algum efeito».

O terrorismo vive de efeitos. Quer se fazer presente mesmo onde jamais vai estar. A França não protesta apenas contra as mortes, mas contra um estado de coisas no ar.

Mas o brasileiro jamais vai conhecer esse tipo de sensibilidade. Afinal, Hércules-Quasímodo não tem tempo pra essas coisas…

(*) Claudio Tognolli é escritor, jornalista e músico.

Interligne 18cObservação deste blogueiro
Analisando os 56 mil homicídios que ocorrem no Brasil a cada ano, chegamos à média de 153 por dia. Dá 6,4 por hora. Desde o momento em que o distinto leitor iniciou a leitura deste artigo, é enorme a probabilidade de (pelo menos) um humano ter sido assassinado. Comparados a nossa cifra impressionante, os caídos em guerras e guerrilhas de Afeganistão, Iraque, Síria & adjacências – todos juntos! – são café pequeno. Nesse ramo de atividade, pelo menos, somos campeões do mundo. Fazemos mais e melhor que qualquer país em guerra.

Indignação e catarse

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Atos violentos, como os ataques terroristas perpetrados na França há alguns dias, costumam gerar forte indignação em todo o mundo. Em mim também. No entanto, o que mais tem chamado minha atenção nos últimos meses é a repetição por toda parte de comportamentos que têm por objetivo primário o de impor de forma violenta as próprias percepções, crenças e visões de mundo a todo o restante da humanidade.

Cagoule 1Exemplos desse tipo de conduta incluem desde casos corriqueiros, como carros circulando com o aparelho de som ligado na potência máxima, passando por comentários raivosos nas redes sociais diante de literalmente qualquer tipo de opinião expressa, até os assim chamados “hate crimes” – crimes de ódio. É como se os outros tivessem se transformado em simples obstáculos que impedem que cada um acesse e desfrute tudo aquilo que lhe dá prazer. Assassinatos em série com requintes inimagináveis de perversidade, esquartejamentos, estupros, casos de pedofilia e violência doméstica multiplicam-se exponencialmente, atingindo agora não apenas os desafetos habituais mas também as pessoas mais próximas do círculo familiar, do ambiente de trabalho ou com as quais o infrator possui laços afetivos. Não há escrúpulo, culpa ou remorso. Nenhuma emoção penosa o suficiente para demover o mal-intencionado do desejo de causar dor, sofrimento e morte.

Frente a esse cenário catastrófico, uma pergunta insiste em percorrer meu cérebro: o que leva um ser humano a romper com as as regras civilizatórias mais básicas? Desconfio instintivamente do diagnóstico pontual de transtornos mentais. A coisa está mais para epidemia do tipo ebola do que para asilo de loucos. O vírus do rancor, do ódio e da vingança dissemina-se em velocidade francamente espantosa em todos os cantos do mundo.

A agressividade não é estranha nem rara no mundo animal. Lutas de vida ou morte são bastante frequentes entre animais que disputam território, comida, água ou parceiros sexuais mas, até onde eu saiba, não há notícia de embates sangrentos que não envolvam essas causas.

Há alguns meses, assisti a um debate capitaneado por um filósofo francês cujo argumento central era o de que a indignação não é um sentimento verdadeiramente moral. E explicava: nós só nos indignamos com o comportamento dos outros, nunca com nossa própria conduta. Caso alguém aponte um ato antiético que tenhamos eventualmente cometido, temos sempre uma justificativa na ponta da língua: eu estava desequilibrado naquele momento, não tive a intenção, foi um segundo de distração, não pesei as consequências, etc. etc. etc.

Cruzada 1Essa argumentação voltou à minha cabeça com força nos últimos dias. Temos, como sociedade, um novo bode expiatório já pronto para o abate: o fanatismo islâmico contraria os princípios mais caros do cristianismo, do judaísmo, do budismo e de muitas outras religiões “ocidentais”. O que fazer então? Treinar novos exércitos de combatentes e declarar nova guerra santa? Exterminar todos aqueles que agridem frontalmente nossa fé? Em nome de quê? É bem possível que os comandantes desses novos batalhões argumentem que estão apenas defendendo os valores da vida, da solidariedade, da compaixão, da harmonia e da conciliação.

Mas… espere um pouco: é somente a mim que esse convite à conflagração parece insano? Ou será que ainda há pessoas que se dão conta de que os dois lados do conflito estão contaminados pela mesma doença? Aquela enfermidade que nos obriga a colocar, como ponto de honra de nossa vida, a minha ideologia, as minhas crenças políticas e religiosas, o meu estilo de vida têm de prevalecer, custe o que custar.

by Diogo Salles, desenhista paulista

by Diogo Salles, desenhista paulista

A pergunta permanece: por quê? Um de meus professores de psicanálise me encantou com a teoria de que todas as pendengas sociais partem de uma sensação pessoal de insatisfação. Não de desequilíbrio de poder, repetia ele, mas de um desequilíbrio de satisfação. Um formulado bastante sensato, a meu ver. Se estou satisfeita com minha vida afetiva, profissional e financeira, que razão teria para ficar me perguntando se outras pessoas estão mais ou menos satisfeitas do que eu?

Em nossa sociedade psicologicamente imatura e egocêntrica, parece ser mais fácil confundir poder e força, conhecimento e sabedoria. Infelizmente, ainda estamos às voltas com as crises de birra típicas da infância e engatinhando na difícil arte de lidar com frustrações e limites.

O mais angustiante, entretanto, é que a indignação diante de acontecimentos tão nefastos dura apenas um segundo. Os protestos de massa podem aliviar significativamente a tensão do momento, mas a catarse não constrói. Quase imediatamente voltamos à rotina de engolir outros sapos pessoais, a tensão começa a se acumular novamente e a insatisfação nos empurra para a busca de novos bodes expiatórios.

A pergunta agora é: até quando vamos nos conformar em tratar dos sintomas e voltar as costas para a busca dos motivos de nossa insanidade coletiva?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Frase do dia — 218

«All the media of Europe should respond to the Islamist terrorist assassinations in Paris by co-ordinated publication next week of selected cartoons from Charlie Hebdo, and a commentary explaining why they are doing this. Otherwise, the assassin’s veto will have prevailed.»

«Semana que vem, toda a mídia europeia deveria reagir aos assassinatos perpetrados em Paris pelos terroristas islâmicos com a publicação sincronizada de algumas charges do Charlie Hebdo, acompanhadas por um comentário sobre o porquê de estarem agindo assim. Do contrário, o veto dos assassinos terá triunfado.»

Timothy Garton Ash, historiador britânico, in The Globe and Mail.

A rabugice e a kalachnikov

José Horta Manzano

Interligne vertical 12«Je défendrai mes opinions jusqu’à ma mort, mais je donnerai ma vie pour que vous puissiez défendre les vôtres.»
«Hei de defender minhas opiniões até morrer, mas darei a vida para que você também possa defender as suas.»

François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire (1694-1778), escritor e filósofo francês.

Nem sempre é fácil aturar o contraditório. Ter de suportar opinião contrária à nossa não é exercício agradável. Que fazer? Não tem jeito: a convivência entre desiguais é a base da sociedade civilizada. Não é agradável viver num grupo de pensamento único, onde a expressão individual é proibida.

Psiu 1O fato de não tolerar ideias distintas é mau sinal. No mínimo, mostra insegurança, medo, preocupação. É indicador seguro de fraqueza. O desconforto em coabitar com opiniões divergentes pode ser expresso de diversos modos. Vai da ranzinzice até o assassinato.

O sujeito de ideias liberais que não suporta o falatório inflamado do primo comunista prefere desaparecer quando o parente chega de visita. Já o fraco de espírito – pouco instruído, doutrinado e fanatizado – parte direto para o assassinato: foi o que vimos dia 7 jan° 2015 em Paris, quando doze viventes foram ceifados por rajadas de metralhadora.

Metralhadora 1Há os que fogem do primo falante. Há também os que sacam da kalachnikov. Há ainda outros métodos de calar opiniões que estorvam. Os que nos governam atualmente, vendo que a massa pensante do Brasil é barreira para a conquista de seus objetivos hegemônicos, procuram um meio de silenciar vozes discordantes.

Pisoteiam nossa história. A liberdade, em todas as suas facetas, tem sido o alvo maior da luta do povo brasileiro. O símbolo do apreço que temos por esse bem precioso aparece, logo de saída, na data mais importante do País. Nem a insituição da República, nem o dia de Natal, nem o dia de Tiradentes, nem o Dia das Mães é comemorado com a mesma ênfase que o 7 de setembro. E por quê? Porque marca a conquista da liberdade, nossa maior riqueza.

Censura 1Nossa presidente, que se autoproclama «democrata» e que costuma dizer que combateu a ditadura para que o Brasil recobrasse a liberdade, chefia um governo que insiste em instaurar a censura dos meios de comunicação.

O plano vem com nome adocicado, mas não consegue ocultar seu verdadeiro objetivo, que é calar vozes discordantes. Para evitar esse retorno ao obscurantismo, pressão tem de ser exercida sobre nossos distraídos parlamentares. Em última instância, a aprovação desse monstrengo legislativo depende deles.

Abram o olho, compatriotas! Guardadas as devidas proporções, rabugice, kalachnicov e «regulação da mídia» são farinha do mesmo saco. Todas elas exprimem intolerância para com opiniões divergentes.

Uma paisagem diferente

Carlos Chagas (*)

Voltaire tinha acabado de chegar a Paris. Jovem voluntarista, ao saber que o regente, Philippe d’Orléans, por medida de economia, decidira vender metade da real cavalaria, escreveu que, em vez de se desfazer dos cavalos, o soberano deveria livrar-se dos asnos que gravitavam ao redor do trono.

Passeando no Bois de Boulogne, o regente deparou-se com Voltaire e ofereceu-lhe uma paisagem por ele desconhecida: uma cela na Bastilha, com vista para a capital francesa.

Cisnes no lago do Bois de Boulogne by Auguste Grass-Mick (1873-1963), artista francês

Cisnes no lago do Bois de Boulogne
by Auguste Grass-Mick (1873-1963), artista francês

Depois de alguns meses, arrependido, Philippe mandou soltar o prisioneiro e ainda lhe outorgou uma pensão mensal. O irreverente crítico agradeceu, em carta, acentuando a satisfação pelo fato de o governo provê-lo de alimentação. Mas abria mão da hospedagem…

Não se deve interpretar os julgamentos pelo que eles não são. Os mensaleiros vêm sendo dispensados da hospedagem a eles oferecida e da inusitada vista de Brasília pelas janelas da Papuda. Parecem felizes por cuidar da própria alimentação…

Carlos Chagas é advogado, jornalista e radialista. O texto é excerto de artigo publicado no Diario do Poder, 2 jan° 2015.

Viagem de 1600 km para votar!

Wilma Schiesari-Legris (*)

Neste primeiro turno, nossa embaixada aqui em Paris contabilizou 7500 brasileiros votando na França. Um desses eleitores é minha colega dos tempos de escola, Maria Cristina Michalany.

Maria Cristina, que vive em Marselha (sul da França), percorreu 775km para cumprir sua obrigação. Isso dá quase 1600km ida e volta.

Ontem, véspera do primeiro turno das eleições, fomos, meu marido e eu, jantar com nossa amiga e o marido, numa charmosa brasserie de Saint-Germain des Près.

Quis o destino que, ao partirmos às 23h, ali encontrássemos um diplomata brasileiro, que respondeu a algumas questões nossas de ordem administrativa. Para isso, abandonou por instantes a esposa e um grupo de convivas. De certo modo, fez «hora extra» a fim de nos orientar para a votação deste dia 5.

Embaixada do Brasil, Paris

Embaixada do Brasil, Paris

A gentileza do diplomata não parou por aí. No domingo, logo cedo, encontramos nossas dúvidas devidamente dissipadas através de um email que ele nos enviou pessoalmente.

Nos 36 anos em que tenho vivido aqui, constato há algum tempo, primeiro com a Rose, depois com a adida cultural e, agora, com o Luiz Roberto, que a atenção dedicada a nós extrapola as dependências dos guichês consulares e os salões nobres do palacete do Cours Albert I.

Deu pra sentir a nova atmosfera tanto no Salão do Livro de 2012, como na sala do Serviço Cultural, em 2013, quando fui entregar um projeto teatral de artistas paulistas. Ontem, no restaurante, a boa experiência se repetiu: não tenho visto mais arrogância e até certo desprezo que foram a marca de alguns funcionários décadas atrás.

Tudo isso para lhes dizer que, ainda desconhecendo os resultados das eleições, dado que agora são 23h25 em Paris, já sei que poderei rever a minha colega e amiga dia 26 próximo. Ainda por cima, quando precisar, sei que poderei contar tanto com os funcionários que aqui citei como com outros, anônimos, com os quais tenho tratado durante minhas peregrinações administrativas.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Este artigo foi publicado em seu blogue IeccMemorias.wordpress.com em 5 out° 2014.

A greve

José Horta Manzano

A palavra que utilizamos para indicar uma parada de trabalho ― organizada voluntária e coletivamente na esperança de alcançar melhora salarial ou vantagem laboral ― vem do francês. Tem longa história.

Na época em que rei detinha poder absoluto, decisões dependiam, naturalmente, de sua excelsa vontade. Na Paris do século XII, a burguesia pleiteava um espaço público adequado para cerimônias e festas. O rei Luís VII aquiesceu, mas impôs uma condição: exigia que, em troca, os burgueses lhe pagassem a soma de 70 libras, montante considerável para a época. Concluído o trato, um terreno às margens do Rio Sena ficou reservado para cerimônias e festejos. O rei deu garantia de que nunca se construiria ali.

Place de Grève em 1746 Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

Place de Grève em 1746
by Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

A proximidade do rio era bem prática. Tirando ocasiões especiais, o espaço era utilizado como atracadouro para barcaças que traziam carvão e outras mercadorias para abastecer a cidade. O solo era coberto de cascalho, um tipo de seixo que os franceses chamam de grève. Daí o nome de Place de Grève ― a Praça do Cascalho.

O enorme espaço retangular existe até hoje. Séculos depois da promessa do rei, a majestosa sede da prefeitura foi construída à beira da praça. Desde então, ela passou a ser conhecida como Place de l’Hôtel de Ville ― Praça da Prefeitura. O nome chegou até nossos dias.

Nem só de festas viveu a Place de Grève. Execuções públicas foram praticadas lá, desde fogueiras medievais reservadas para bruxas e hereges até as primeiras cabeças guilhotinadas pelos revolucionários de 1792.

A Revolução Industrial deu nascimento às primeiras manufaturas e, em consequência, aos primeiros operários. O grande espaço que a praça oferecia era raridade na Paris de princípios do século XIX ― uma teia irregular de ruelas estreitas e malcheirosas. Assim, em pouco tempo, tornou-se ponto de encontro de homens à procura de trabalho. Donos de manufatura à cata de mão de obra passavam por lá para engajar pessoal.

Place de l'Hôtel de Ville nos dias atuais

Place de l’Hôtel de Ville
nos dias atuais

Com o passar dos anos, os operários foram-se dando conta de que, unidos, podiam pressionar por melhores salários ou por melhores condições de trabalho. A maneira mais evidente de mostrar descontentamento era deixar de comparecer ao emprego. A Place de Grève encontrou vocação nova: tornou-se ponto de agrupamento dos que se recusavam a trabalhar.

A praça acabou emprestando seu nome à novidade. A língua francesa adotou o termo grève para designar paralisação de trabalhadores. Cada língua encontrou sua própria solução para descrever o fenômeno novo. Das 30 línguas mais faladas, somente duas adotaram o termo francês: o turco e o português.

Eis por que, enquanto outros dizem huelga, sciopero, Streik, stávka, nós permanecemos fiéis ao original.

Parcimônia

José Horta Manzano

Você sabia?

O General de Gaulle, ao tomar posse do cargo de presidente da República Francesa, em janeiro de 1959, transferiu residência para o Palácio do Eliseu como manda a tradição.

Contam que, logo depois que lhe mostraram a ala particular destinada à residência do chefe de Estado, mandou que instalassem ali um relógio de luz. O propósito era controlar seu consumo pessoal de energia elétrica.

Como diria o outro, «igualzinho no Brasil». Sic.

Lua de mel em Paris

José Horta Manzano

Você sabia?

Lua de mel em Paris! Taí um sonho que, acalentado por muitos, só chega a ser realizado por um punhadinho de sortudos. Milhões de apaixonados aspiram a celebrar o casamento ou, pelo menos, a festejar o enlace com passeio de alguns dias na capital francesa.

Casamento 2Orientais são particularmente afeiçoados a esse tipo de viagem simbólica. A Europa, por si, já exerce grande atração. Mas a França ― e Paris em especial ― é o fino do fino.

Todo ano, na bela estação (entre maio e setembro), tem-se notícia de casamentos individuais ou coletivos protagonizados por turistas estrangeiros que visitam a França especialmente para isso.

Mas há um porém. De uns dez ou quinze anos pra cá, a rigidez das autoridades de imigração tem aumentado. Isso é consequência de realidades novas: terrorismo que se alastra, imigração clandestina que aumenta, taxa de desemprego que se eleva, estagnação econômica que persiste. Em resumo, o bolo tem crescido menos. Já não dá pra dividi-lo em tantas fatias como antes. Visitantes têm de convencer os controladores de que não estão vindo para ficar.

Leio hoje a (des)aventura vivida por um casal brasileiro. A notícia não diz, mas imagino que devam ter arquitetado durante meses o projeto de se casar e, em seguida, passar a lua de mel em Paris. Compraram um pacote turístico, daqueles que já incluem passagem e hospedagem. Casaram-se e, tranquilos, embarcaram para a viagem dos sonhos. Deu pesadelo.

Ao desembarcar em Paris, nosso casal de pombinhos respondeu, como se deve, ao interrogatório dos prepostos. Verificação feita, o hotel onde deveriam se hospedar foi incapaz de confirmar a reserva. Desastre! Foi a conta. Estrangeiros jovens que não mostrarem reserva de alojamento, passagem de volta e dinheiro para manter-se tornam-se imediatamente suspeitos.

Casamento 1Inflexíveis, as autoridades obedeceram ao regulamento. Não permitiram que o par saísse do aeroporto. De lá mesmo, foram despachados de volta no primeiro avião. Dá pra imaginar a decepção.

Chegando ao Brasil, os viajantes, lesados e desenxabidos, processaram a operadora de turismo. Ganharam em primeira instância, mas a empresa recorreu da sentença. Finalmente, instância superior acaba de confirmar a decisão: a companhia de viagens está obrigada a indenizar os prejudicados. Receberão quase 24 mil reais, o triplo do valor do pacote.

A decisão de justiça me parece pra lá de acertada. A operadora de turismo, usando expediente comum no Brasil, tentou fugir da responsabilidade alegando que a culpa era do hotel. Pode até ser. Acontece que os viajantes tinham assinado contrato com a operadora, não com o hotel. Portanto, será a empresa turística a responder pelos percalços ― o que não a impede de mover ação contra o hotel posteriormente.

Nossos votos de felicidade ao casal!

Nem só de futebol

José Horta Manzano

Com o título “No Brasil, há outra coisa além do futebol!”, o jornal Le Parisien anuncia uma exposição de obras de Cândido Portinari (1903-1962) no Grand Palais de Paris. Pela primeira vez, o distinto público parisiense poderá apreciar a arte do pintor maior, um dos três mestres da pintura latino-americana.

Um longo artigo informa sobre vida e obra do paulista de Brodowski. Portinari, que havia visitado Paris em 1930, morreu prematuramente aos 59 anos vítima de saturnismo ― envenenamento provocado pelo chumbo contido nas tintas que utilizava.

Guerra e Paz, by Candido Portinari

Guerra e Paz, by Candido Portinari

Os painéis monumentais chamados Guerra e Paz (14m x 10m) são o ponto culminante de sua obra. Pintados em meados dos anos 1950, tinham sido encomendados pelo governo brasileiro para presentear a sede das Nações Unidas em Nova York.

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Esses painéis, exibidos em permanência na ONU, foram expostos no Brasil em 2012. E agora se oferecem ao olhar do público francês. Que os interessados tomem nota: a exposição abre as portas hoje, 7 maio, por cinco semanas. A entrada é grátis. Folga às terças-feiras.

Era uma vez… José Wilker

Wilma Schiesari-Legris (*)

A primeira vez que vi o José foi quando ele fez o papel do arquiteto, na peça de Arrabal O arquiteto e o imperador da Assíria, montada pela primeira vez no Brasil em 1970.

A peça começou no Teatro Ipanema, com direção de Ivan Albuquerque. O elenco era formado por Rubens Corrêa e José Wilker.

Não foi no Rio que assisti à peça, mas no TBC, em São Paulo, numa matinée de domingo. O ator José Wilker havia chegado ao teatro no mesmo momento que eu, como um hippie, vasto chapéu feito de retalhos de couro ― provavelmente adquirido na feira artesanal da Praça da República ― e uma calça branca boca de sino de cintura baixa.José Wilker 1

Foi num cenário deslumbrante feito de retalhos de jornal, engolindo aquele palco de alto a baixo, que pressenti estar na presença de um enorme ator.

Jamais, durante aquele espetáculo, poderia imaginar que ele pudesse entrar também na minha vida. Explico melhor. Nos anos 70, minha melhor amiga da época, colega de escola, foi viver com ele. Um casamento de dez anos, do qual tive notícias unicamente através das cartas que me chegavam, primeiramente em São Paulo e, depois de 78, na França.

Pois bem, foi dentro dos envelopes que acompanhei a vida de ambos, que habitavam um apartamento muito simpático, no Jardim Botânico, que lhes fora alugado através da atriz Debora Duarte.

Estive uma única vez naquele lugar e o que mais me impressionou foi uma coleção de LPs, que precedeu a outra, de 4.000 filmes em videoteipe. Aquilo era um templo de cultura: os discos enfileirados ocupavam uma estante que dava a volta num cômodo amplo e os livros abarrotavam as prateleiras de outra sala.

Depois os vi aqui em Paris. Foi em 1979, atravessando um corredor do metrô na estação Trocadéro, de onde voltavam, de mãos dadas, de uma festa do Partido Socialista, quando Giscard ainda era o presidente da França. Dali, seguimos até a minha kitinete, e o José nos ofereceu, ao meu marido e a mim, um de seus livros, que ele dedicou assim:

Interligne vertical 12Para Wilma e Pierre,
Com carinho, meu primeiro livro a atravessar o Atlântico.

E assinou. Era Em algum lugar fora deste mundo, o título do livro e a situação.

Minha amiga estava grávida e desconhecia o seu estado. Quando eles souberam o que os esperava, o José também ficou grávido e dentro dos envelopes jamais havia alusões à vida artística de ambos, dois atores de muito sucesso na ocasião. Eram sempre cartas adoráveis, longe das luzes da ribalta e dos estúdios de filmagem, com fotos da minha amiga envergando uma linda barriga, depois substituídas pelas imagens da Mariana que crescia. Guardei-as todas, até ela se mudar de casa.

Um dia a sua vida se partiu e a minha amiga partiu também, instalando-se no Leblon e levando adiante a educação da pequena, até que a nossa amizade também murchou, me deixando órfã, assim, até hoje.

José Wilker 2Quando José Wilker esteve em Paris em 2007 para presidir o Festival de Cinema Brasileiro, foi condecorado com altas distinções tanto pela França como pelo Brasil.

O festival também fazia uma homenagem ao José, que esteve ali presente durante alguns dias. Sempre na plateia, eu também estive lá e tomei coragem para conversar com ele numa daquelas noites.

Será que ele se lembraria de mim, depois de mais de 35 anos sem nos vermos? De quando lhe preparei ovos fritos com linguiça, tudo o que havia na geladeira de casa?

Falamos de muitas coisas na ordem e na desordem dos meus pensamentos. Havia muito tempo que minha melhor amiga saíra de sua vida e, agora, da minha.

Foi quando ele me disse que Mariana, morando com ele, estava sendo formada pelo Carlos Diegues para ser roteirista do filme deles. José tinha o peito estufado ao falar da filha, agora interessada menos por psicologia e mais por arte. A sétima!

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

Hoje soube que José Wilker morreu. Constatei que deve ter partido feliz, pois ele mesmo, grande epicurista, dizia do bem que faz um bom vinho e o amor de uma mulher.

Deixa órfão o cinema brasileiro, os palcos cariocas e os estúdios de televisão. Deixa infelizes todos os que o amaram.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora

Rodízio eleitoreiro

José Horta Manzano

Desde que veículos automóveis proliferaram, as grandes aglomerações passaram a sofrer forte poluição atmosférica. Quando chove ou venta, o problema diminui. Já quando fica aquela pasmaceira, sem chuva nem vento, as partículas finas não se dispersam. Respirar essa sopa química é fonte de males diversos.

Cada metrópole tem lidado com o problema a seu modo. Há as que não fazem nada ― a maioria. Deixam como está para ver no que dá.

Algumas adotam sistema permanente de rodízio de veículos, como é o caso da cidade de São Paulo. Com isso, as autoridades conseguem retirar da circulação 20% da frota. Não é muito, mas sempre ajuda.

Estocolmo: pedágio urbano

Estocolmo: pedágio urbano

Outras, como Londres e Estocolmo, optaram pelo pedágio urbano. É medida mais vigorosa. Transpor os limites estabelecidos custa caro e faz que automobilistas pensem duas vezes antes de fazê-lo.

Paris não impõe, em princípio, nenhuma medida destinada a refrear o volume de tráfego. A abundante oferta de ônibus e de metrô, aliada à raridade de vagas de estacionamento, se encarrega de convencer a população a utilizar transporte público.

No entanto, depois de quase duas semanas sem chuva e sem vento, o ar parisiense ficou estes dias saturado de porcariada. Os habitantes, especialmente os mais frágeis ― idosos e crianças pequenas, começaram a apresentar problemas respiratórios.

O nó da questão é que, na França também, este é ano eleitoral. Cada um dos mais de 36 mil municípios do país deverá escolher prefeito. Medidas que atrapalham o tráfego são, por natureza, impopulares. Mas… com eleição ou não, cairia muito mal se o governo mostrasse despreocupação com a saúde do povo. Que fazer?

Resolveram cortar a maçã ao meio ― nem muito pra lá, nem muito pra cá. Esperaram até que os serviços de meteorologia predissessem o fim da calmaria atmosférica. Quando, enfim, vento e chuva estavam para chegar, o primeiro-ministro decidiu instaurar um rodízio pra lá de restritivo.

Paris: rodízio urbano Crédito: François Guillot, AFP

Paris: rodízio urbano
Crédito: François Guillot, AFP

O revezamento, baseado no algarismo final de cada placa, exclui da circulação metade da frota. Em dia par, circulam aqueles cuja placa tem número par. Em dia ímpar, vice-versa.

O sistema começou na segunda-feira, 17 de março, e se aplicou ao município de Paris e aos municípios vizinhos. Os congestionamentos habituais diminuíram 60%, um espetáculo! Em compensação, o descontentamento dos que não puderam sair de casa quase gerou uma nova Revolução Francesa.

A experiência durou apenas um dia. Já foi suspensa. Terá servido para acalmar alguns e para enervar outros. Não se pode agradar a gregos e a troianos. Será que a população gostou? Daqui a algumas semanas, as urnas vão tirar as dúvidas.

Da alma?

José Horta Manzano

Você sabia?

A morte precoce de Diana, Princesa de Gales, comoveu o mundo. A tragédia aconteceu em Paris na noite de 31 agosto 1997. Foi consequência de um violento desastre de automóvel na via expressa que passa sob uma das pontes que atravessam o rio Sena. A construção, erigida entre 1854 e 1856, chama-se em francês Pont de l’Alma.

Na época, a mídia brasileira hesitou na hora de indicar o local do acidente. Houve quem conservasse a grafia original. Outros ficaram no meio do caminho e mencionaram a Ponte Alma. E houve até quem ousasse afirmar que a desgraça tinha acontecido debaixo da Ponte da Alma. Ficou pra lá de esquisito, coisa de assombração. Passar embaixo da Ponte da Alma seria como passar debaixo de escada ou cruzar gato preto numa sexta-feira?

Riacho Alma, Crimeia

Riacho Alma, Crimeia

A história é diferente e bem menos charmosa. Essa «alma» não tem nada que ver com crenças religiosas nem com predestinação de família real. O nome faz simplesmente referência a um rio às margens do qual a coalizão franco-britânico-otomana ganhou sua primeira batalha, contra o Império Russo, na Guerra da Crimeia (1853-1854).

O rio ― que, de tão magrinho, está mais para riacho ― chama-se justamente Alma. Corre a meio caminho entre Sebastopol e Simferopol. A batalha entrou para a História como Batalha do (rio) Alma. Donde, a Ponte do (rio) Alma ou, mais simplesmente, Ponte do Alma.

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Mesmo havendo perdido a guerra, o Império Russo conseguiu, no tapetão, conservar a Crimeia. Eis mais um argumento a reforçar o que previ faz alguns dias: os russos não abandonarão aquela península por nada deste mundo.

Que vexame!

José Horta Manzano

«Enquanto não recebermos o salário em dia, não retomaremos o atendimento», disseram os funcionários do Consulado-Geral do Brasil em Paris enquanto fechavam as portas.

Atendimento restrito a emergências

Atendimento restrito a emergências
devido à falta de pagamento dos auxiliares locais

Quem nos traz a notícia é Roberta Namour, correspondente em Paris do site 247.

Como se não bastassem os desacertos de nossa diplomacia, os compatriotas do exterior são largados ao deus-dará. De barriga cheia, nossas autoridades se esquecem de que o mundo não se resume às mordomias palacianas de Brasília.

Deveriam ter sempre em mente que:

Interligne vertical 91. Todo trabalho merece salário.

2. Há três milhões de brasileiros no exterior.

3. Os bilhões de dólares enviados mensalmente ao Brasil pelos expatriados não são dinheiro especulativo. São fundos injetados definitivamente na economia nacional, sem contrapartida.

4. Os brasileiros do exterior votam para presidente da República.

Crédito: 247.com.br

Crédito: 247.com.br

Fica desbeiçada a imagem de Brasil grande que nossa atual administração gostaria de ressuscitar. O país mostra que continua com pés de barro. Deixar de pagar seus funcionários não é sinal de grandeza. Muito pelo contrário.

Raios que o partam

José Horta Manzano

Você sabia?

Os franceses costumam dizer que «on ne parle jamais des trains qui arrivent à l‘heure», ninguém fala dos trens que chegam no horário. É verdade. Os acontecimentos corriqueiros não costumam aparecer nas manchetes. Em compensação…

… em compensação, quando sobrevém uma desgraça ou uma catástrofe, a história muda de figura. Vai direto para a primeira página de todos os jornais. E também para a abertura de todos os informativos de rádio e tevê. Na falta de grandes desastres, qualquer fato fora do costumeiro também serve.

Faz uns dias, um raio acertou um dedo da estátua do Cristo Redentor, no alto do Corcovado. Estima-se que 32 milhões de raios atinjam o solo do planeta a cada ano. Isso dá quase 90 mil por dia. Assim mesmo, não é todos os dias que a natureza demonstra pontaria tão certeira. Bem na ponta do dedo!

Frequência de raios que atingem o solo (n° de ocorrências por km2 por dia) Crédito: Nasa.gov

Frequência de raios que atingem o solo (n° de ocorrências por km2 por dia)
Crédito: Nasa.gov    –    Clique no mapa para ampliar

Jornais online não deixaram de enriquecer sua galeria com fotos do raro acontecimento. Entre outras, aqui está a do Nouvel Observateur, de Paris. Com um certo humor, relatam que a gigantesca imagem acidentada teve de levar pontos de sutura.

É voz corrente que o Brasil é o país onde o maior número de raios atinge o solo. Deve ser verdade. Esse fenômeno elétrico é muito mais frequente em zonas equatoriais e tropicais do que no resto do globo. O Brasil está situado entre equador e trópico. Além disso, é dono de imenso território. Portanto, a afirmação faz sentido.

O presidente normal

José Horta Manzano

Nicolas Sarkozy, antigo presidente da França, é um ser frenético, dono de personalidade hiperativa. Esse traço de caráter marcou sua presidência. Estava por toda parte, falava pelos cotovelos, ocupava a cena, ofuscava seus ministros. Divorciou-se, casou-se de novo e foi pai ― tudo isso durante seu mandato de 5 anos.

O presidente na garupa

O presidente na garupa

Chegado o momento de escolher novo presidente, Sarkozy naturalmente candidatou-se à reeleição. Seu adversário-mor, na intenção de marcar terreno e enfatizar a diferença entre seu estilo e o bulício da presidência que findava, proclamou aos quatro ventos que, se eleito, seria um presidente normal.

Foram os dois para o segundo turno. Por uma margem de votos que, sem ser apertada, tampouco foi ampla, Sarkozy foi dispensado de suas funções e François Hollande tomou seu lugar.

Diferentemente do Brasil, os candidatos franceses, uma vez empossados, costumam ser cobrados pelos eleitores por suas promessas de campanha. Mas ninguém sabia direito o que seria uma presidência normal ― talvez até nem o próprio Hollande soubesse bem como tornar o slogan realidade.

Instalado no palácio presidencial há já quase dois anos, Monsieur Hollande bem que tem tentado mostrar-se menos falante, menos frenético, mas… não tem jeito. Anda amargando os níveis de popularidade mais baixos já experimentados por um presidente desde que esse parâmetro começou a ser medido. O desditoso está abaixo de Chirac, de Mitterrand e até do próprio Sarkozy, o hiperativo.

Semana passada, Closer, uma revista sensacionalista francesa, publicou uma reportagem bomba revelando a ligação amorosa do presidente com uma atriz quase 20 anos mais jovem que ele. Escândalo no país! Durante dias, não se falou de outro assunto. Jornais impressos, radiofônicos e televisivos abriam invariavelmente com as mais recentes informações, opiniões e palpites sobre o caso.

O amor secreto do presidente reportagem bomba da revista Closer

O amor secreto do presidente
reportagem bomba da revista Closer

Segundo Closer, o modo de proceder foi relativamente simples. A presidência da República mantém alguns apartamentos mobiliados, situados em imóveis discretos, onde costuma alojar visitantes temporários, gente cuja presença em Paris não deve ser tornada pública. O presidente tem autoridade para requisitar, quando lhe apraz, algum desses apartamentos para seu uso pessoal ― para encontrar-se discretamente com algum figurão, por exemplo.

Os repórteres da revista, não se sabe como, foram informados de que os encontros do presidente com a atriz ocorriam num desses apartamentos, a tal dia, a tal hora. A partir daí, foi fácil. Postaram seus fotógrafos na saída do palácio presidencial e na entrada do edifício que abriga a garçonnière.

Não deu outra: o presidente saiu de seu palácio, coberto por um capacete, na garupa de um scooter ― aquele meio de transporte que os antigos conheciam como lambreta ou motoneta. Dirigiu-se ao local onde já o esperava outro fotógrafo. As cenas foram registradas, mas o presidente nem se deu conta do que estava acontecendo.

A revista não perdeu a ocasião. Publicou a revelação em edição extra. A tiragem, que costuma ser de 150 mil exemplares, foi quadruplicada. Assim mesmo, esgotou-se em poucas horas. Atualmente, tem gente vendendo um exemplar (usado) daquele número pela elevada soma de 15 euros (perto de 50 reais).

É bem sabido que a desgraça de uns sempre acaba fazendo a felicidade de outros. Sixt, uma locadora de automóveis, saltou sobre a ocasião. Acaba de lançar uma divertida peça publicitária com os dizeres: «Senhor presidente, da próxima vez, evite o scooter. Sixt aluga carros com vidros fumês».

Da próxima vez, evite o scooter... propaganda de uma locadora de automóveis

Da próxima vez, evite o scooter…
propaganda de uma locadora de automóveis

O povo francês está começando a descobrir um dos traços que caracterizam um presidente normal. É pular a cerca de vez em quando, como fazem tantos maridos.

PS: No dia seguinte ao da publicação, a companheira fixa do presidente ― aquela que é considerada a primeira-dama ― foi internada com graves problemas de saúde. Não se sabe bem que mal a acomete, mas o fato é que, passados mais de 10 dias, continua hospitalizada. Pode ser coincidência. Ou não.

Frase do dia — 71

«Numa bravata para impressionar investidores menos avisados, a presidente Dilma Rousseff, ao falar a uma plateia de empresários no seminário Brasil-França, Oportunidades de Investimento, realizado em Paris em dezembro de 2012, afirmou que pretendia construir 800 aeroportos regionais no País. Caindo das nuvens, a presidente não demorou a baixar o número para 270 aeroportos.
(…)
Até o momento, 16 contratos foram assinados, não alcançando 6% do total.»

Editorial do Estadão, 4 jan° 2014.

Novo aeroporto

José Horta Manzano

Como é bom ser grande empresário num país de gente apática! Nossa falta de noção de pertencimento a uma comunidade faz que cada um de nós reaja com um simples dar de ombros a qualquer notícia, seja ela boa ou má.

O máximo que se vê é algum protestozinho mole aqui ou ali ― alguma manifestação que acaba se desmanchando em vandalismo. De estudar, que é bom, não gostamos. De aprender, que é bom, não gostamos. De nos esforçar, que é bom, não gostamos. De dar o melhor de nós mesmos, que é bom, não gostamos. Passamos a vida à espera de que alguém faça alguma coisa. Costumamos ter a nítida impressão de que o problema não é conosco.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

Alguns poucos se apercebem dessa generalizada tendência ao descaso, ao «tô-nem-aí». Para desgraça nossa, nem sempre são os mais bem-intencionados. Vai daí, nossas portas estão abertas a aventureiros, predadores, espertalhões, inescrupolosos, aproveitadores. A conjunção deletéria do descaso da população com o oportunismo de uma meia dúzia trava o país. E perpetua o insuportável contraste entre a riqueza indecente de uns contra a miséria negra de outros.

Em seu blogue alojado no Estadão, Marina Gazzoni nos contava, semana passada, que está prevista a construção de novo aeroporto (mais um!) para servir a cidade de São Paulo. O projeto foi apresentado por um consórcio de grandes empreiteiras. A certeza de que seja aprovado sem reticências é tão grande, que as construtoras já compraram até o terreno. Afinal, convencer autoridades públicas é especialidade de grandes empresários…

Reinventando o avião by Glen Baxter, desenhista inglês

Reinventando o avião
by Glen Baxter, desenhista inglês

O adjetivo absurdo, de tão usado, já gastou. Dizer que a ideia é absurda soa banal. Contraditória? Incoerente? Insensata? Disparatada? Que cada qual escolha o termo que melhor lhe convier. Estamos diante de uma estupidez sem nome.

O aeroporto de Guarulhos, que há 30 anos serve a capital do Estado, viu passar 32 milhões de passageiros em 2012. No mesmo ano, o movimento de viajantes registrado nos dez aeroportos mais movimentados do planeta foi o seguinte:

    Dubai       = 58 milhões
    Djacarta    = 58 milhões
    Dallas      = 59 milhões
    Paris       = 62 milhões
    Los Angeles = 64 milhões
    Chicago     = 67 milhões
    Tóquio      = 68 milhões
    Londres     = 70 milhões
    Pequim      = 82 milhões
    Atlanta     = 95 milhões (!)

Guarulhos não aparece nem entre os 30 aeroportos mais movimentados do mundo. Como qualquer um pode deduzir, se outros conseguem acolher o triplo dos viajantes atendidos em Cumbica, por que, raios, não seríamos nós capazes de fazer o mesmo? Há maneiras mais práticas, mais baratas, mais eficazes e mais lógicas de melhorar o desempenho da estrutura existente.

Foi um erro ter construído o aeroporto onde se encontra? Muitos dizem que sim. Mas não tem mais jeito: feito está, feito ficará. O que não convém é repetir a asneira.

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário by Ross Thomson, desenhista inglês

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário
by Ross Thomson, desenhista inglês

Caieiras, o município «escolhido» pelos empreiteiros, é localidade encarapitada na Serra da Mantiqueira, a quase 800m de altitude, num dos raros pulmões verdes que ainda sobram à roda de São Paulo. Para coroar o desatino, aquela serra é considerada zona de mananciais. Uma parte do abastecimento de água da megalópole depende da preservação e dos bons cuidados que se dediquem à região. E tem mais: como localidade serrana, Caieiras é tão sujeita a nevoeiros como Guarulhos.

Antes de pensar em novo aeroporto, ainda há muito que fazer no velho. Ligação ferroviária rápida, aumento da capacidade dos estacionamentos, construção de novos terminais, desapropriação de terrenos circunvizinhos, melhora na logística de movimento de carga, aprimoramento da formação de pessoal, reforço da segurança. Tudo isso é mais lógico e sai mais barato do que construir mais uma estação aérea.

Não tem cabimento termos estádios padrão Fifa e continuarmos com aeroportos padrão Uagadugu.

Alô! Quem fala?

José Horta Manzano

Muito se tem falado em espionagem estes últimos tempos. Pouco, muito pouco sobre contraespionagem. Que bicho é esse? É uma atividade patrocinada por Estados para, entre outras funções, protegê-lo da bisbilhotagem alheia.

O escândalo que surgiu faz algumas semanas ― falo do anúncio de ações de espionagem monitoradas pelo governo dos EUA ― só espantou o distinto público. Governantes estão cansados de saber que espionagem entre Estados é prática mais antiga que o rascunho da Bíblia.

Governos de países mais desenvolvidos foram bem mais comedidos em sua reação. Mostraram um simulacro de indignação, mais para satisfazer a galeria. E ficou por isso mesmo. O mundo continuou a girar. Business as usual. Por que reagiram de maneira tão branda? Por dois motivos.

Telefone celular

Telefone celular

Primeiro, porque já faz tempo que se deram conta de que as maiores ameaças externas não provêm mais de armamento bélico. Foi-se o tempo em que possuir um grande número de tanques e de aviões era garantia de ganhar qualquer guerra. Os países mais bem orientados fazem a distinção entre objetivos do Estado (a longo prazo) e metas de governo (a curto prazo). Essas nações vêm-se dedicando, faz anos, a proteger-se desse tipo de ameaça cibernética. É atribuição de seus serviços de contraespionagem.

Em segundo lugar, a reação foi comedida justamente pelo fato de esses países mais desenvolvidos fazerem exatamente a mesma coisa que os EUA, cada um na medida de suas possibilidades. Quem tem telhado de vidro procura não atirar pedrinhas no telhado do vizinho. Ainda que o vizinho tenha sido flagrado roubando frutas do seu quintal, mais vale fazer de conta que não viu. Ou, melhor ainda, dizer: «Olhe aqui, que não se repita, hein!».

Muita informação não costuma ser divulgada. Não é preciso que todos saibam de tudo a todo momento. Seria malsão. Vazou hoje a informação de que o pessoal do andar de cima da França (ministros, secretários e figurões de alto escalão) estão proibidos de utilizar seus smartphones comuns para transmitir dados referentes a assuntos do governo. Já faz tempo que essa recomendação vigora. Os mandarins de Paris contam com cerca de 2300 telefones especialmente concebidos para esse fim. São smartphones só na aparência. Ultrasofisticados, enviam mensagem criptadas e passam por canais diferentes dos que nós, simples mortais, utilizamos. Em princípio, são ingrampeáveis.

Dez ou doze anos atrás, justamente quando as novas tecnologias começavam a dominar o planeta e a dar uma reviravolta nos antigos conceitos bélicos, o Brasil teve a má sorte de começar a ser governado por gente um pouco especial. Ingênuos, deslumbrados e despreparados, nossos mandachuvas não se deram conta de que as regras do jogo haviam mudado. Continuam temendo uma invasão da Amazônia. Por que não um desembarque de marcianos?

Telefone celular (não recomendado para ministros)

Telefone celular
(não recomendado para ministros)

O candor com que nosso ministro da Defesa declarou outro dia que «desconfia» que seu telefone tenha sido grampeado e o furor com que nossa presidente tem reagido à bisbilhotice americana atestam que nosso país não tem um serviço de contraespionagem. O estupor do ministro e a cólera da presidente são sinceros. Nossa defesa cibernética, se existe, não funciona.

Mas nunca é tarde para fazer benfeito. Chorar, espernear, bater o pé, fazer beicinho, ficar de mal, ameaçar, nada disso vai adiantar. Melhor farão se aprenderem com o erro. Se nossos governantes passarem a dedicar à função para a qual foram eleitos ou nomeados uma décima parte do tempo que gastam fazendo politicagem, já teremos dado um grande passo.