O mundo segundo os aiatolás

 

Piadinha publicada no site da embaixada do Irã na Tunísia

José Horta Manzano

É comum ouvir dizer que o Brasil não deu certo. Não há como discordar. De fato, ainda falta muito para nosso país tornar-se normal, justo e harmônico. É curioso que assim seja, visto que, diferentemente de muitos outros países, não temos linhas de fratura que oponham contingentes de população uns aos outros. O que temos atualmente, e que chamamos “polarização”, é fenômeno passageiro. Antes da coexistência de Lula e Bolsonaro, não havia; e depois que esses personagens tiverem descido do palco, deve desvanecer.

Por sorte, temos duas características de suma importância que deveriam nos unir – e, de fato, nos unem: a língua e a religião. O fato de falarmos a mesma língua, o que faz que qualquer cidadão possa entender e ser entendido em todo o território nacional, é uma qualidade rara para um país gigantesco e populoso como o nosso. Por seu lado, a imensa maioria da população é cristã – entre católicos, protestantes e neo-pentecostais. Portanto, os principais fatores de crispação simplesmente não estão presentes.

Nosso atraso e nossa inarmonia devem, assim, ter outra origem.

Ninguém aprecia que brinquem com sua religião ou com seus símbolos religiosos. Esse tipo de acontecimento, além de incomodar, é de extremo mau gosto. No Brasil, não estamos acostumados a vilipêndios ou ultrajes religiosos.

Os fiéis de certas religiões são mais susceptíveis a brincadeiras com seus símbolos, ainda que a intenção não tenha sido de ofender. Maometanos têm prevenção especial contra quem se atreva a usar seus símbolos em vão.

O atentado contra a revista francesa Charlie Hebdo, cometido em janeiro de 2015, foi exemplo dessa intolerância. Doze profissionais foram assassinados e onze outras pessoas foram feridas pelos dois atiradores armados de fuzis. A chacina ocorreu como castigo aos profissionais que tinham ousado publicar desenhos cômicos com personagens ligados ao Islã.

A incentivar (e às vezes financiar) esse tipo de ataque, em geral estão os aiatolás do Irã. Pois são justamente esses aiatolás que estão por trás de uma brincadeira – um meme talvez? – publicado no site da embaixada do Irã na Tunísia. Apareceu na sequência dos desaforos que o Brasil vem sofrendo do presidente Trump e seus acólitos. Representa o Cristo Redentor que destrói a Estátua da Liberdade.

Como sabemos, a estátua do Corcovado é um símbolo duplo: de nosso país e de nossa religiosidade. Já a Estátua da Liberdade simboliza os Estados Unidos. O regime iraniano pôs em cena os dois símbolos, que se comportam da única maneira que o regime iraniano conhece: a força bruta que leva à destruição do adversário.

Entendo que a intenção era mostrar solidariedade para com o Brasil, um abraço entre vítimas do mesmo verdugo. O problema é que, para ilustrar o teatrinho infantiloide que bolaram, usaram um símbolo religioso respeitado por todos os brasileiros, católicos ou não. E isso não se faz. Queria ver o que aconteceria se o governo brasileiro tivesse a ideia debiloide de usar a figura do profeta deles se engalfinhando com a turma do Trump. Acho que não haviam de deixar por isso mesmo.

Pra não complicar, é melhor deixar como está, e não levar a coisa adiante. Mas bem que valia a pena fazer chegar a Teerã uma mensagem discreta para que eles, da próxima vez, evitem usar um símbolo religioso. Que ponham o Pelé, por exemplo, dando um chute magistral na estátua americana, ninguém há de se ofender.

Raios que o partam

José Horta Manzano

Você sabia?

Os franceses costumam dizer que «on ne parle jamais des trains qui arrivent à l‘heure», ninguém fala dos trens que chegam no horário. É verdade. Os acontecimentos corriqueiros não costumam aparecer nas manchetes. Em compensação…

… em compensação, quando sobrevém uma desgraça ou uma catástrofe, a história muda de figura. Vai direto para a primeira página de todos os jornais. E também para a abertura de todos os informativos de rádio e tevê. Na falta de grandes desastres, qualquer fato fora do costumeiro também serve.

Faz uns dias, um raio acertou um dedo da estátua do Cristo Redentor, no alto do Corcovado. Estima-se que 32 milhões de raios atinjam o solo do planeta a cada ano. Isso dá quase 90 mil por dia. Assim mesmo, não é todos os dias que a natureza demonstra pontaria tão certeira. Bem na ponta do dedo!

Frequência de raios que atingem o solo (n° de ocorrências por km2 por dia) Crédito: Nasa.gov

Frequência de raios que atingem o solo (n° de ocorrências por km2 por dia)
Crédito: Nasa.gov    –    Clique no mapa para ampliar

Jornais online não deixaram de enriquecer sua galeria com fotos do raro acontecimento. Entre outras, aqui está a do Nouvel Observateur, de Paris. Com um certo humor, relatam que a gigantesca imagem acidentada teve de levar pontos de sutura.

É voz corrente que o Brasil é o país onde o maior número de raios atinge o solo. Deve ser verdade. Esse fenômeno elétrico é muito mais frequente em zonas equatoriais e tropicais do que no resto do globo. O Brasil está situado entre equador e trópico. Além disso, é dono de imenso território. Portanto, a afirmação faz sentido.

Comprai, irmãos!

José Horta Manzano

Você sabia?

Não prometi, mas achei que tinha ficado devendo o final da novela. Estou falando do voto popular que tivemos na Suíça ontem, 22 de setembro. Para quem não sabe mais do que estou falando, é a continuação da história que comecei a contar no meu artigo É dia de votar!, de 9 de setembro. A questão palpitante se referia ao horário de abertura dos supermercadinhos acoplados a postos de gasolina.

As urnas falaram, como se costuma dizer. Por maioria de quase 56%, os cidadãos deste país deram sua aprovação à lei que altera o horário de funcionamento das lojas de conveniência instaladas em postos de gasolina. Podem agora funcionar 24h por dia. Demorou anos, mas o grande dia chegou.

Local de votação, Suíça

Local de votação, Suíça

Mas atenção! Tão somente esses convenientes estabelecimentos comerciais caem no campo de abrangência da nova legislação. Quanto aos outros, neca! A proibição de abertura noturna de supermercados e de outros estabelecimentos comerciais continua tão rigorosa quanto antes.

Uma outra pergunta feita ao povo ontem foi se aceitavam a extinção do serviço militar obrigatório. Como era esperado, os suíços se mostraram radicalmente opostos a essa novidade. Três em cada quatro votantes recusaram-se a aceitar a inovação. Afinal, no imaginário popular, um exército forte e bem preparado é o principal sustentáculo da nação. É símbolo do país e faz parte de sua cultura. Enfraquecer as forças armadas seria como demolir o Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Inconcebível.

Cerca de 46% dos eleitores compareceram às urnas para exprimir sua opinião. Até que não é uma porcentagem tão baixa como parece. Dado que o voto aqui não é obrigatório, a participação de metade do eleitorado já é festejada.

Veja os resultados aqui.