Honoris causa

José Horta Manzano

Você sabia?

Em 2014, a Universidade de Notre Dame, fundada em 1842 no Estado de Indiana (EUA), outorgou doutorado honoris causa a señor José Antonio Abreu Anselmi, cidadão venezuelano. Misto de músico, educador e economista, señor Abreu já havia recebido diversos diplomas de mesmo teor assim como prêmios, láureas e homenagens ao redor do mundo.

Seu feito maior é ter dado início, ao final dos anos 1970, ao Sistema Nacional de Orquestras e Coros Juvenis e Infantis da Venezuela, conhecido simplesmente como «El Sistema». Bem antes do obscurantismo fomentado pela era chavista, o visionário se tinha dado conta de que a educação musical é uma das alavancas do processo civilizatório.

Nestes quarenta anos, «El Sistema» progrediu. Todo jovem venezuelano que sinta vontade de receber iniciação musical tem direito a ganhar o instrumento de sua preferência. Como resultado, o país tornou-se, nesse particular, exemplo para a América Latina. Proporcionalmente, conta com número de músicos mais elevado do que qualquer outro país da região. Muitos venezuelanos de origem humilde conseguiram mostrar talentos que, sem essa instituição, se teriam perdido.

Orquestra Nacional da Juventude com maestro Gustavo Dudamel ao centro
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De vez em quando, «El Sistema» descobre uma pérola. É o caso do maestro Gustavo Dudamel, que se formou apoiado pela instituição. O moço, hoje com 36 anos, é nada menos que diretor musical e artístico da Filarmônica de Los Angeles. Apesar da pouca idade, tem sido convidado a dirigir orquestras de primeira linha, tais como as Filarmônicas de Berlim e de Viena. Tem recebido prêmios e condecorações em numerosos países da Europa. Ele é igualmente diretor da venezuelana Orquestra Nacional da Juventude, que congrega a fina flor dos jovens músicos do país, conjunto que dá frequentemente concertos no exterior.

Para o mês de setembro, a orquestra de jovens tinha apresentações marcadas en quatro cidades americanas: Washington, Chicago, Los Angeles e São Francisco. Indignado com o descalabro que a incompetência e a ignorância de señor Maduro têm causado à Venezuela, maestro Dudamel publicou artigo no New York Times criticando o regime. Nem era tão virulento assim. Clamava por soluções imediatas “para abrir as portas a um jogo democrático mais sadio”.

Foi a conta. Señor Maduro, truculento e bronco, não admite opiniões divergentes. Mandou avisar que a Orquestra Nacional da Juventude estava proibida de viajar. Frustrou, assim, o sonho de alguns dos jovens que «El Sistema» tinha arrancado do mau caminho. Desapontou os que contavam assistir aos concertos. Mostrou mais uma vez ‒ como se necessário fosse ‒ que nossos infelizes hermanos estão vivendo sob a bota opressora de um regime injusto, incompetente e vingativo. O PT, que emprestou apoio incondicional ao regime de señor Maduro, não se manifestou sobre o episódio.

Falando em diploma
O Lula recebeu estes dias um doutorado honoris causa conferido pelos alunos da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Note-se que o diploma é inválido. Alunos não têm autoridade para outorgar título a quem quer que seja. Essa decisão é prerrogativa de escalão mais elevado.

Numa demonstração de que a formação dos alunos do estabelecimento “superior” deixa a desejar, o diploma carrega defeitos de raiz. Aqui estão alguns deles:

O falso diploma
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1) O nome do diplomado aparece escrito em duas linhas e com letras de mesmo tamanho que o resto do texto, grafismo inadmissível nesse tipo de documento.

2) O texto diz: «(…) senhor Luiz Inácio Lula da Silva, o torneiro mecânico, (…)». As vírgulas que envolvem ‘o torneiro mecânico’ indicam que haveria vários Lulas da Silva. Elas não deveriam estar aí. No cargo de presidente da República, só tivemos um. Por la gracia de Diós.

3) Estranhamente, o documento não é datado. Você já viu um diploma sem data?

4) A sentença comporta uma vírgula entre o sujeito e o verbo: «A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, concede (…)». Trata-se de inadmissível e imperdoável frasecídio. O sujeito não pode ser separado do verbo por vírgula. Jamais.

5) Por fim, os alunos da universidade sediada em Cruz das Almas assinam com uma sequência de garranchos e se proclamam «dicentes»(sic) da UFRB. Meus cultos leitores sabem que discente se escreve com ‘sc’, assim como discípulo, disciplina e toda a família.

Outorgantes e diplomado se equivalem. Tsk, tsk…

Novo aeroporto

José Horta Manzano

Como é bom ser grande empresário num país de gente apática! Nossa falta de noção de pertencimento a uma comunidade faz que cada um de nós reaja com um simples dar de ombros a qualquer notícia, seja ela boa ou má.

O máximo que se vê é algum protestozinho mole aqui ou ali ― alguma manifestação que acaba se desmanchando em vandalismo. De estudar, que é bom, não gostamos. De aprender, que é bom, não gostamos. De nos esforçar, que é bom, não gostamos. De dar o melhor de nós mesmos, que é bom, não gostamos. Passamos a vida à espera de que alguém faça alguma coisa. Costumamos ter a nítida impressão de que o problema não é conosco.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

Alguns poucos se apercebem dessa generalizada tendência ao descaso, ao «tô-nem-aí». Para desgraça nossa, nem sempre são os mais bem-intencionados. Vai daí, nossas portas estão abertas a aventureiros, predadores, espertalhões, inescrupolosos, aproveitadores. A conjunção deletéria do descaso da população com o oportunismo de uma meia dúzia trava o país. E perpetua o insuportável contraste entre a riqueza indecente de uns contra a miséria negra de outros.

Em seu blogue alojado no Estadão, Marina Gazzoni nos contava, semana passada, que está prevista a construção de novo aeroporto (mais um!) para servir a cidade de São Paulo. O projeto foi apresentado por um consórcio de grandes empreiteiras. A certeza de que seja aprovado sem reticências é tão grande, que as construtoras já compraram até o terreno. Afinal, convencer autoridades públicas é especialidade de grandes empresários…

Reinventando o avião by Glen Baxter, desenhista inglês

Reinventando o avião
by Glen Baxter, desenhista inglês

O adjetivo absurdo, de tão usado, já gastou. Dizer que a ideia é absurda soa banal. Contraditória? Incoerente? Insensata? Disparatada? Que cada qual escolha o termo que melhor lhe convier. Estamos diante de uma estupidez sem nome.

O aeroporto de Guarulhos, que há 30 anos serve a capital do Estado, viu passar 32 milhões de passageiros em 2012. No mesmo ano, o movimento de viajantes registrado nos dez aeroportos mais movimentados do planeta foi o seguinte:

    Dubai       = 58 milhões
    Djacarta    = 58 milhões
    Dallas      = 59 milhões
    Paris       = 62 milhões
    Los Angeles = 64 milhões
    Chicago     = 67 milhões
    Tóquio      = 68 milhões
    Londres     = 70 milhões
    Pequim      = 82 milhões
    Atlanta     = 95 milhões (!)

Guarulhos não aparece nem entre os 30 aeroportos mais movimentados do mundo. Como qualquer um pode deduzir, se outros conseguem acolher o triplo dos viajantes atendidos em Cumbica, por que, raios, não seríamos nós capazes de fazer o mesmo? Há maneiras mais práticas, mais baratas, mais eficazes e mais lógicas de melhorar o desempenho da estrutura existente.

Foi um erro ter construído o aeroporto onde se encontra? Muitos dizem que sim. Mas não tem mais jeito: feito está, feito ficará. O que não convém é repetir a asneira.

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário by Ross Thomson, desenhista inglês

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário
by Ross Thomson, desenhista inglês

Caieiras, o município «escolhido» pelos empreiteiros, é localidade encarapitada na Serra da Mantiqueira, a quase 800m de altitude, num dos raros pulmões verdes que ainda sobram à roda de São Paulo. Para coroar o desatino, aquela serra é considerada zona de mananciais. Uma parte do abastecimento de água da megalópole depende da preservação e dos bons cuidados que se dediquem à região. E tem mais: como localidade serrana, Caieiras é tão sujeita a nevoeiros como Guarulhos.

Antes de pensar em novo aeroporto, ainda há muito que fazer no velho. Ligação ferroviária rápida, aumento da capacidade dos estacionamentos, construção de novos terminais, desapropriação de terrenos circunvizinhos, melhora na logística de movimento de carga, aprimoramento da formação de pessoal, reforço da segurança. Tudo isso é mais lógico e sai mais barato do que construir mais uma estação aérea.

Não tem cabimento termos estádios padrão Fifa e continuarmos com aeroportos padrão Uagadugu.