Querido delegado

José Horta Manzano

Um lapsus calami ‒ erro que escapa por inadvertência ‒ aparece numa chamada do jornal O Globo deste 15 de março.

Nosso guia anda tão desprestigiado que já nem mais tem direito a inicial maiúscula. Seu nome já vem escrito lula, assim mesmo. É sintomático.

Chamada do jornal O Globo, 15 mar 2016

Chamada do jornal O Globo, 15 mar 2016

O mingau

José Horta Manzano

O pedido de prisão de nosso guia, feito pelo MP de São Paulo, está dando pano pra mangas. A notícia apanhou meio mundo de surpresa. Todos imaginávamos que viria um dia, mas ninguém acreditava que o pedido fosse feito agora. Até a televisão suíça dedicou um bloco ao assunto.

Analistas, que ainda não tiveram tempo pra digerir a notícia, emitem opiniões contrastadas. Há os entusiastas incondicionais, que aplaudiram de pé. Há os moderados, que enxergam nessa informação um lado bom mas um caminho pedregoso. Há, por fim, os reticentes, que acreditam que o pedido de prisão foi intempestivo, despropositado. Quanto a mim, não me encaixo em nenhuma das categorias, muito pelo contrário!…

Mingau 1Acredito que, se o pedido for excessivo, o juiz designado não o acolherá. Muitos cogitam que a súbita intromissão do MP paulista possa “enfraquecer” a Operação Lava a Jato ‒ seja lá o que isso possa querer dizer.

Quanto a mim, não acredito que o que ocorreu ontem tenha influência nas investigações diligenciadas desde que a Lava a Jato foi lançada. Não me parece que nosso guia saia desse episódio reconfortado. As evidências e os indícios de crimes e de ilegalidades acumulados até agora são uma baciada.

IMingau 2Isso tudo me faz lembrar esses filmes americanos em que aparece briga de soco. Nenhum dos contendores vai a nocaute com um golpe só. Um dá um soco, o outro cai, levanta-se, revida, o primeiro cai, levanta-se, revida. E assim por diante. A cada pancada, o bandido vai ficando mais fraquinho. No final, o mocinho sempre vence. Pelo menos, nos filmes.

Ainda que nosso guia não vá para trás das grades desta vez, o golpe não há de lhe ter feito bem. Se ainda não se esborrachou no chão, está cada dia mais combalido. O personagem que já foi visto como semideus vai-se dessacralizando inexoravelmente.

Como se diz nas Minas Gerais, mingau se come pelas bordas. Não convém enfiar a concha no meio da gamela, que o perigo de se queimar é tremendo. Vamos com calma que, aos pouquinhos, o prato se vai esvaziando.

Frase do dia — 291

«A visita de Dilma ao antecessor em solidariedade por sua condução coercitiva pela força-tarefa da Lava a Jato não deixa dúvidas de que a chefe do governo apoia o líder dos investigados na operação policial. E não os investigadores.»

José Nêumanne Pinto, escritor e jornalista, em artigo publicado no Estadão de 9 mar 2016.

A jararaca

Eliane Cantanhêde (*)

Lula caricatura 2Se o Instituto Lula recebeu R$ 20 milhões das empreiteiras da Lava a Jato e se o ex-presidente Lula ganhou R$ 10 milhões dessas mesmas empreiteiras por palestras, por que raios ele não comprou o sítio de Atibaia por R$ 1,5 milhão e reformou as áreas internas e a piscina por R$ 700 mil para desfrutar dele 111 vezes, guardar as 200 caixas do Alvorada, levar o barquinho da família e os pedalinhos dos netos?

E por que Lula não deu para Marisa Letícia o triplex do Guarujá, instalou aquele elevador chique, mobiliou a cozinha e os quartos, tudo de primeira? Dinheiro ele tinha, de sobra. Como diria o jornalista Carlos Marchi, ainda sobrariam uns bons trocados. Aliás, o que Lula fez com os R$ 10 milhões, mais o salário de oito anos de presidência, com cama, comida, roupa lavada e uísque de graça? Gastar com os filhos não foi, porque os meninos estão muito bem, obrigada.

De duas, uma: ou Lula é patologicamente pão-duro, desses que escondem o dinheiro debaixo do colchão para os amigos pagarem até o cafezinho, ou… a questão é de outra natureza: política. Apesar de milionário, ele precisava do mito do menino pobre de Garanhuns, que não tinha o que comer, perdeu um dedo nas fábricas e virou o eterno pobre dos pobres, que veio ao mundo salvar os desvalidos como ele próprio.

Lula caricatura 2aSó assim, mantendo a mítica do grande líder, do pastor de almas, do salvador da Pátria, Lula teria, mesmo acuado e ferido, poder para jogar milhares de ovelhas (ou feras) para confrontos de rua contra adversários, imprensa e o algoz Sérgio Moro, um juiz a serviço dos ricos e poderosos – ah, e do PSDB!

É assim que, aos 70 anos, Lula encarna até hoje o líder juvenil que incendiou os metalúrgicos paulistas, depois os sindicalistas de outros setores e por fim os intelectuais do País inteiro. Não pode se dar ao luxo de comprar com o próprio dinheiro um sítio, um triplex. Senão, como vai olhar a massa olho no olho, falar de igual para igual, jogar os pobres contra os ricos?

(…)

(*) Eliane Cantenhêde é jornalista. O texto é excerto de artigo publicado no Estadão de 6 mar 2016.

O presidente que mudou o Brasil

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 março 2016

As coisas são como são e nem sempre como a gente gostaria que fossem. Escapulindo soberbamente ao contrôle do homem, o sol, a chuva, o vento, a seca, o frio e o calor sobrechegam como e onde se lhes dá na telha. Quando o destino decide tomar as rédeas, não há prece, novena ou reza braba capaz de afrontá-lo.

Todos gostaríamos de deixar para a posteridade um rastro marcante, simpático, admirado. Entre o querer e o poder, no entanto, o vão é difícil de atravessar. Nem todos conseguiremos ser lembrados com a alta estima que costumamos dedicar a nós mesmos.

Retrato 1Para o cidadão comum, ser lembrado com carinho pelos netos já está de bom tamanho. De toda maneira, estudiosos afirmam que, além da terceira geração, a memória dos que já se foram vai esmaecendo. Essa premissa não se aplica, naturalmente, a figuras públicas nem a grandes personagens que a história registrou. A memória desse seleto grupo de privilegiados será perpetuada em museus, estátuas, livros, nome de ruas e outras marcas de distinção.

Guilherme Tell e o filho

Guilherme Tell e o filho

Há casos de gente que entrou nesse clube por obra do acaso. A Guilherme Tell, personagem cuja existência não foi comprovada até hoje, bastou um golpe certeiro de alabarda para perenizar-se como herói nacional, nome de rua, efígie de moeda e até protagonista de ópera. Outra figura nebulosa cultuada há séculos é Joana d’Arc. A escassez de provas documentais dá margem a muita especulação sobre os atos e gestos que a jovem teria perpetrado nos tempos remotos da Guerra de Cem Anos. A despeito disso, é reverenciada na França como se mãe da nação fosse.

Há os que entraram nos livros de história de caso pensado, por esforço próprio. Um deles foi Gavrilo Princip, aquele jovem tresloucado que, ao tirar a vida do arquiduque Francisco Ferdinando, acabou acendendo o estopim da Primeira Guerra. Só que o criminoso entrou na galeria da fama andando de costas. Longe de ser glorificado, seu nome é amaldiçoado até hoje.

Charles de Gaulle

Charles de Gaulle

Em matéria de entrar na história com o pé direito, alguns campeões sobressaem. O general de Gaulle é caso exemplar. Inconformado com a rendição que seu país concedera ao inimigo em 1940, rebelou-se. Contra tudo e contra todos, persistiu na busca do que lhe parecia ser o melhor caminho para seus conterrâneos. Suas boas intenções e sua obstinação foram bem-sucedidas. Até hoje, é alvo de reconhecimento e de reverência dos concidadãos.

Casos há de personagens que deixaram marca controvertida. Mikhail Gorbachev é figura significativa. Divergindo da política dos antecessores, o dirigente fez o que pôde, de boa-fé, para aperfeiçoar o regime e as instituições. A roda do destino, no entanto, escapou-lhe das mãos. Seus atos precipitaram o desmonte do sistema comunista, resultado que não constava em seus planos. Boa parte dos conterrâneos guardam dele uma lembrança mitigada. Passado um quarto de século, veem nele o responsável pelo empanamento do antigo esplendor e pelo esfacelamento do império soviético.

Mikhail Gorbachev

Mikhail Gorbachev

Em 2003, ao assumir a presidência do Brasil, Luiz Inácio da Silva era depositário da confiança da maioria dos brasileiros. Seus primeiros tempos no exercício do poder pareciam avalizar as promessas de campanha. Num primeiro momento, não só os que lhe haviam dado o voto, mas também numerosos outros brasileiros passaram a botar fé no presidente e a enxergá-lo como aquele que imprimiria rota de ascensão a nossa República. Parecia evidente que nova era se estava iniciando e que o gigante enfim despertaria da dormência e se levantaria do berço esplêndido.

No entanto… o caminho mostrou não ser tão suave. Pedras foram surgindo que sacolejaram a carruagem. Por razões que o futuro se encarregará de esclarecer, a nova era iniciada por Lula e prorrogada por sua sucessora desandou. Hoje, atravancado por corrupção, roubalheira, compadrio, incompetência e degradação moral, o sonho virou pesadelo.

Lula discursoComo nunca antes neste país, a história se desenrola diante de nossos olhos, só não vê quem não quer. Mas os ciclos são inexoráveis ‒ daqui a um par de anos, passado este período de desvario, o Brasil há de se reerguer. É inimaginável que a podridão ora revelada continue a nos corroer as entranhas.

Assim, ninguém discorda: o ex-metalúrgico mudou o país e tem lugar reservado no panteão. Lula entrará nos futuros manuais escolares como um divisor de águas. Contudo, sua efígie ‒ a malgrado dele ‒ não será pintada com as tintas que ele havia sonhado. C’est la vie. As coisas são como são e nem sempre como a gente gostaria que fossem.

Vem cá, baixinho!

José Horta Manzano

Lula a la català

Lula a la català

Não é a primeira vez, mas vale a pena voltar ao assunto. Razão dá-se a quem tem. Renovo meus parabéns à equipe encarregada de dar nome às operações de busca e apreensão da Polícia Federal. Dão mostra de imaginação fecunda e de saber abrangente ‒ artigo raro no Brasil atual.

Aletheia é o nome da 24ª fase da Operação Lava a Jato, que acaba de ser deflagrada. A palavra vem do grego αλήθεια, que se deve pronunciar alíthia, com acento tônico no . O th soa como no inglês think.

Lula alla romana

Lula alla romana

A operação poderia ter sido chamada “Vem cá, baixinho” ou “Apanhei-te, pilantra”. Preferiram Aletheia. Ponto pra eles.

Na linguagem de todos os dias, aletheia significa verdade. O conceito foi tomado emprestado pela filosofia, de modo especial por Martin Heidegger, pensador alemão que viveu de 1889 a 1976. A psicologia também costuma recorrer a essa palavra.

Mandado de detenção contra o ex-presidente Lula Chamada de La Libre Belgique, jornal belga de referência - 4 mar 2016

Mandado de detenção contra o ex-presidente Lula
Chamada de La Libre Belgique, jornal belga de referência – 4 mar 2016

Em 1889, Dom Pedro II foi destituído por golpe militar. Detido, foi despachado para a Europa no primeiro navio. Não teve de passar pelo vexame de enfrentar interrogatório policial.

Em 1930, Washington Luís Pereira de Souza foi destituído por golpe liderado por Getúlio Vargas. Detido, foi despachado para os Estados Unidos. Não teve de passar pelo vexame de enfrentar interrogatório policial.

Lula a la plancha

Lula a la plancha

O fato de nosso guia, presidente emérito do Brasil, ser levado coercitivamente (= à força) para enfrentar interrogatório policial é acontecimento nunca antes visto na história dessepaiz.

Há momentos em que a História se acelera. Estamos vivendo um deles.

Além da fronteira ‒ 1

Cláudio Humberto (*)

Lula caricatura 2Agora mais viajado, o presidente Lula não pagaria o mico outra vez, como na campanha de 1989. Em viagem para ganhar “envergadura internacional”, ele chegou a Lisboa sem agendar encontro com autoridades como Mário Soares, o simpático presidente socialista, que contou a história a um ex-embaixador do Brasil.

Soares estava na Estremadura espanhola, na cidade fronteiriça de Badajoz. Informado da visita de Lula, o solícito Soares telefonou-lhe para as boas-vindas: “Estou cá na fronteira, ó pá!”

“Fronteira com que país?” ‒ perguntou Lula.

Mário Soares desistiu de sacrificar sua agenda para ver Lula. Diz ter ficado chocado com o fato de o candidato a presidente do Brasil ignorar uma lição primária de geografia: Portugal só tem fronteira com a Espanha. E o mar.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

A brasilidade em tempos de folia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O que define a brasilidade aos olhos de um estrangeiro?

Futebol 3Eu diria que, se fossemos investigar há algumas décadas como outros povos conceituam nossa cidadania, três fatores seriam elencados em uníssono: futebol/Pelé, café e samba. O tempo passou, muita coisa mudou sob nosso céu de anil e outras percepções foram sendo agregadas para ajudar a formar um painel ilustrativo de nosso país varonil: exotismo tropical (sol, calor, belas paisagens de praia, campo e florestas), povo amistoso, alegre, tolerante e musical, belas mulheres desinibidas e semidesnudas, etc.

Décadas mais tarde, nuvens de chumbo passaram a cobrir os céus deste paraíso tropical e o quadro geral ganhou contornos tenebrosos para além de nossas fronteiras: o lar da corrupção, o campeão no ranking da insegurança pública, o berço das mais diversas endemias e epidemias, o abrigo de malfeitores internacionais, anão diplomático, o lugar no qual a elite é perversa e o povo é domado. Constrangedor, não é? Mas, tudo bem, deixa estar. Afinal, minha gente, é Carnaval! Vamos para a rua festejar!

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

Para os que não sabem o que isso significa no contexto do imaginário nacional, eu explico: antes de mais nada, Carnaval é o espaço da fantasia, da utopia e da autoafirmação nacional. Durante quatro dias, a pirâmide social se achata, papéis sexuais são invertidos, o machismo é suspenso temporariamente, a hipocrisia social desmancha-se no calor dos corpos em êxtase. O país todo se detém mesmerizado para assistir à deslumbrante parada de luzes e sons. Economia e política perdem totalmente seus significados. Não há “sofrência” amorosa que se sustente, não há negativismo capaz de toldar a alegria geral, não há preocupação com o futuro capaz de desbotar as cores da festa. Tudo o que se quer é que o mundo inteiro caia de joelhos diante de nossa criatividade, nossa genialidade, nossa capacidade de superação. Vira-latas são mais belos, mais resistentes, mais amorosos e mais simpáticos do que outras raças, bradamos a plenos pulmões.

Entender um brasileiro que não goste de Carnaval, que não se sinta tentado a jogar tudo para o alto e cair de boca na folia, é coisa que gringo nenhum consegue fazer. Cá para nós, também não há brasileiro que não pense que seus compatriotas avessos ao samba são ruins da cabeça ou doente dos pés. Pois bem, feliz ou infelizmente, esse é o meu caso.

Café 5Trancafiada em casa, tento fazer de conta que o mundo é normal lá fora. Ligo a televisão, ansiosa para mergulhar de cabeça em outra dimensão que exale um pouco de racionalidade, sensatez e compostura. Ledo engano! A mercadoria que você procura não está disponível no momento, alertam todas as emissoras, inclusive os assim chamados canais educativos. Talvez seja essa a época em que o pensamento único seja mais glorificado e incensado.

Nem mesmo os telejornais escapam do delírio geral. Encurtados para não atrapalhar a cobertura dos desfiles nas principais capitais, eles passam atabalhoadamente de um tema para outro, sem aprofundar nenhum. Terremoto atingiu cidade no interior de Mato Grosso? Ai, que hora mais ingrata para acontecer isso! Dilma se suicidou para evitar a cassação? Nossa, não esperava por isso, mas prometo que na Quarta-feira de Cinzas vou entrar na internet para ver os detalhes do velório e as discussões sobre quem vai ser o sucessor. O Lula assumiu que se lambuzou todo com o melaço que nunca havia comido antes e entrou para um convento franciscano, doando todos os seus bens para a caridade? Poxa, se ele tivesse feito isso antes eu ainda votaria nele! O Papa Francisco assumiu que é gay e decretou que, de agora em diante, só haverá mulheres à testa da igreja? Que bom, eu sempre achei esse cara sensacional, mesmo ele sendo argentino. O dólar foi cotado a 8 reais e a CPMF foi aprovada? Isso não me abala em nada, eu já tinha cancelado mesmo minha viagem para Miami.

Samba 3Nada ganha destaque, nada consegue prender a atenção do telespectador por mais de dois minutos. Uma vez transpostos os temas chatos do cotidiano, a mídia toda abre enormes espaços para o deslumbramento da rainha de bateria, para o escândalo causado por uma socialite que tirou toda a roupa em plena avenida, para a descontração dos blocos de rua. E dá-lhe festa.

Quem não se deu ao trabalho de assistir aos desfiles, não precisa se preocupar. Basta acessar a Internet para ver um resumo dos melhores momentos de cada escola, as fotos mais constrangedoras, as chamadas mais empolgantes do que ainda está por vir. Nas redes sociais, bem ao lado das fotos da participação doméstica na folia, comentários irados de quem dela não fez parte: Já imaginou uma multidão dessas saindo às ruas para protestar? Por que as mulheres aceitam fazer esse papel? Depois se queixam da violência…

Carnaval 1Quer um conselho? Não tente entender nem explicar nada, nem para os moralistas de plantão nem para os estrangeiros atônitos. Somos secularmente o país da improvisação. Depois damos um jeito de colocar a casa em ordem de novo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Cachaça não é água

Sebastião Nery (*)

Lula caricatura 2O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Em 1978, o prefeito Walmor de Luca, líder estudantil, deputado federal eleito no levante eleitoral do MDB em 1974, realizou um seminário trabalhista nacional com destacadas lideranças sindicais e com os políticos que se reorganizavam lutando pela anistia.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, o bigodudo gaúcho, bancário do Rio Grande do Sul, depois prefeito de Porto Alegre e governador do Estado. E também Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo, e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia, um assunto centralizou os debates: o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos já funcionando ou outros a nascerem?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Discutimos dois dias. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas (José Talarico, a brilhante advogada Rosa Cardoso, o exemplar João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido liderado pelo incansável Brizola, que deixara o exílio no Uruguai e, em Portugal, articulava sua volta.

Copo d'água 2Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? No último dia, vimos Lula já quase mudando de posição. Afinal, em 10 de fevereiro de 1980, nasceria o PT, marco da história política brasileira.

Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembro-me bem de que lá em Criciúma, já rouco de falar, Lula pediu:

‒ Me dá minha água.

Veio uma garrafinha de água bem branquinha. Aquela “minha água” me chamou a atenção. Joguei um gole no meu copo. Era cachaça e da boa.

Lula continua o mesmo. Sempre misturando cachaça com água.

Casa 1Minha casa, minha vida
Lula é um passarinho do céu, como aqueles da Bíblia, que não fiam nem tecem. A casa de São Bernardo não é dele mas é nela que ele mora. O sítio de Atibaia não é dele mas é nele que ele passa os fins de semana e pesca. O triplex do Guarujá não é de ninguém mas quem pôs o elevador lá foi ele, quem fez a churrasqueira foi ele, quem construiu as suítes foi ele, quem toma os porres lá é ele, quem paga… quem paga tudo… ah, quem paga tudo é a madrinha Odebrecht, a titia OAS, o vovô Teixeira.

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.

Visto de fora

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 fev° 2016

Os revolucionários franceses de 1789 viraram o país de pernas para o ar, guilhotinaram o rei e aboliram privilégios. Faz dois séculos que o povo daquele país procura alcançar patamar mais igualitário, de maior justiça social. No entanto, como se sabe, o uso do cachimbo faz a boca torta. O soberano foi-se mas deixou rastro: a pompa e o requinte permaneceram. Estão presentes até hoje, firmes e viçosos. Na falta do rei e da corte, o presidente e os eleitos da nação fazem as vezes.

Os vernizes, os esmaltes e as cornijas continuam nos palácios, fiéis, a cumprir a função para a qual foram concebidos: impressionar e, eventualmente, intimidar visitantes. A Assembleia Nacional francesa não foge à regra. Seu décor todo de ouro e veludo e seus ritos deliciosamente antiquados impressionam. Desde sempre, o recinto foi reservado para uso exclusivo do mundo político nacional ‒ nenhum estrangeiro foi convidado a participar.

by Eugène Delacroix (1798-1863), pintor francês

by Eugène Delacroix (1798-1863), pintor francês

Somente em 1993 é que a regra foi levemente afrouxada. Desde então, em casos excepcionais, a palavra tem sido cedida, para breve discurso, a uma que outra personalidade estrangeira. Assim mesmo, o acontecimento não deixou de ser raro ‒ neste quarto de século, somente 18 chefes de governo ou de Estado foram brindados com a deferência, menos de um por ano.

A seleção de celebridades é rigorosa. O britânico Tony Blair, o americano Bill Clinton, o alemão Gerhard Schröder, o chinês Hu Jintao e o rei da Espanha foram admitidos no seleto clube de medalhões estrangeiros que um dia discursaram em plenário. Em outubro de 2001, a honra foi estendida a Fernando Henrique Cardoso, então presidente do Brasil.

Assembleia Nacional francesa

Assembleia Nacional francesa

Não era coisa pouca. Implícito no convite, estava o reconhecimento do Brasil como país sério e promissor, o gigante que despertava. Aconteceu antes mesmo de o acrônimo Bric entrar na moda. Entre outros temas, o presidente brasileiro evocou as esperanças que se depositavam no Mercosul, criado havia não muito tempo.

Visto de fora, foi acontecimento pra lá de significativo. Expatriados, como eu, nos sentimos orgulhosos. Foi como se todos os brasileiros tivéssemos sido homenageados. O planeta, enfim, começava a dar-se conta de que havia mais Brasil além das praias, do fio dental, do futebol e do Carnaval.

A bem da verdade, reconheça-se que, a olhos estrangeiros, o entusiasmo com o novo Brasil continuou forte durante o governo de Luiz Inácio da Silva, pelo menos no primeiro mandato. A ascensão econômica de nosso país encobriu, para os que observavam de longe, mazelas persistentes e feridas não curadas. Visto à distância, o Brasil parecia estar transpondo o fosso que separa países adiantados dos demais.

by Florence Catrin, artista francesa

by Florence Catrin, artista francesa

A diplomacia brasileira, contudo, emitiu sinais estranhos. A aproximação carnal com vizinhos bolivarianos, os tapinhas nas costas do líder iraniano, o achegamento a brutais ditadores africanos, a abertura de embaixada na Coreia do Norte, a desastrada tentativa de intervenção no conflito médio-oriental deixaram perplexas muitas chancelarias. Ao observador externo, podem escapar detalhes de nossa política interna, mas atos e fatos diplomáticos são meticulosamente escrutados.

Conquanto arranhada pelos desaires de nossas relações exteriores, nossa imagem, bem ou mal, manteve saldo positivo. As manifestações populares de junho 2013, contudo, marcaram o fim do crédito. Não falo de crédito comercial, mas de crédito de confiança. Aqueles protestos, maciços e espontâneos, sinalaram a inversão da curva. Atônitos analistas estrangeiros logo entenderam que a mostra de desagrado popular não decorria de simples aumento no preço do transporte público. O mal era mais profundo.

Bexiga 1De lá para cá, a condescendência para com nosso país desinchou como bexiga furada. Ressabiados, os olhares se tornaram críticos e cautelosos. A débâcle da economia confirmou que o gigante tinha pés de argila. A sucessão de escabrosos escândalos de rapina dos cofres públicos, com seu cortejo de figurões encarcerados, deu o golpe de graça. O mundo entendeu que a figura do gigante emergente não correspondia à realidade. Era vidro e se quebrou, era pouco e se acabou.

É pena. Vai levar muito tempo para restaurar a bela imagem que havíamos projetado no exterior. E vai demorar mais ainda até que um presidente nosso seja de novo incensado na Assembleia francesa.

Tem nada, não. O clichê continua de pé. Para quem vê de longe, continuamos sendo o país abençoado por Deus, com praias, fio dental, futebol e Carnaval. Viva Rei Momo!

Campeões das reformas

Ruy Castro (*)

Lula e Dirceu 2Os políticos de esquerda costumam lutar por reformas – agrária, política, bancária, fiscal, urbana, universitária, administrativa – e pagar caro por isso. O statu quo, por definição, não gosta de reformas e combate os políticos que tentam promovê-las.

O ex-presidente Lula também é partidário de reformas. Mas, cioso de seus amigos das elites, limita-se a reformas mais modestas. Uma delas, a do triplex que ele diz não ter comprado no edifício Solaris, na praia das Astúrias, Guarujá (SP). Por que alguém faria reformas num apartamento que não lhe pertence é um mistério. E por que sua mulher, dona Marisa, vivia visitando o apê se nunca iriam morar lá só ela e Lula – por enquanto – sabem.

Pode haver coisa pior do que uma reforma? Começa-se trocando uma escada comum por outra em caracol e, de repente, já se quer instalar um elevador privativo, só para os bacanas. Um rodapé de madeira torna-se de porcelana e, num instante, o porcelanato toma também as paredes das salas de estar, jantar e TV. Dona Marisa fez tudo isso no triplex que não é de Lula. Por sorte, os 777 mil reais que a obra custou lhe saíram de graça, cortesia de uma gentil construtora.

Lula e Dirceu 3Outra reforma pela qual Lula lutou foi a de um sítio de 173 mil metros quadrados em Atibaia, que também não lhe pertence, mas a sócios de seu filho. A obra envolveu construir ou ampliar um pavilhão, churrasqueira, piscina, campo de futebol e converter um lago em tanque de peixes – quase uma reforma agrária. E, que bom, ela também lhe foi oferecida pela construtora.

Igualmente campeão das reformas é o ex-ministro José Dirceu – no caso, a de seu próprio sítio em Vinhedo (SP), no valor de 1,8 milhão de reais, pago por um lobista. Dirceu nem precisou lançar mão da vaquinha que, um dia, seus correligionários fizeram para socorrê-lo. Lembra-se?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Falam de nós – 17

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Não é só no Brasil que as investigações de corrupção estão sendo avidamente acompanhadas pela plateia. Uns mais, outros menos, todos os países dão notícia do desenrolar de cada capítulo.

Interessante é notar que, no Brasil, o receio de arrumar encrenca vem impondo à mídia um certo recato na escolha do palavreado. Quando o santo nome de nosso guia está envolvido, calçam-se luvas e usam-se pinças para tratar do assunto.

Jornais preferem pôr verbos no condicional ‒ «teria feito», «haveria estado», «teria sido». Abusa-se de fórmulas como «supostamente», «hipoteticamente», «por suposição».

by Henriqe de Brito, caricaturista

by Henrique de Brito, caricaturista

Para relatar a mais recente encrenca em que nosso guia (& esposa) estão metidos, a imprensa nacional preferiu expressões do tipo «estão sendo investigados por envolvimento na compra de um apartamento».

Já a mídia internacional comporta-se diferentemente. Sem sentir a mesma pressão, costuma dar a notícia com palavras cruas, sem floreios e sem firulas. Dei um passeio pelas manchetes planetárias e deixo aqui o resultado da colheita.

Nenhum veículo fez rodeios em torno do assunto. Foram todos direto ao ponto. Dizem todos qual é a acusação pela qual o antigo presidente (& esposa) estão sendo investigados:

Interligne vertical 17aAlemão: Geldwäsche (lavagem de dinheiro)

Inglês: money-laundering (lavagem de dinheiro)

Italiano: lavaggio di denaro (lavagem de dinheiro)

Francês: blanchiment d’argent (branqueamento de dinheiro)

Espanhol: lavado de dinero (lavagem de dinheiro)

Turco: yolsuzlukla (corrupção).

Como se vê, dependendo de quem chama, o boi tem outro nome. Mas é sempre o mesmo boi.

A carapuça serviu

Medo 1José Horta Manzano

Às vezes a gente joga verde pra colher maduro. Falo daquelas insinuações que se lançam ao ar, como quem não quer nada, só pra ver o que acontece. Às vezes, tudo passa despercebido; outra vezes, atinge-se o alvo.

Com toda a pompa e todo o estrondo que o momento requer, a Polícia Federal disparou mais uma fase da operação de caça aos assaltantes de colarinho branco. Visava a pôr em pratos limpos o imbróglio que tem por núcleo um apartamento de alto luxo no Guarujá (SP).

Alguns cidadãos foram presos, outros levados a depor. Em nenhum momento, o nome de nosso guia foi mencionado ‒ nem entre os presos nem entre os convocados. Em princípio, o demiurgo nada tem a temer ‒ desde que não esteja ocultando algum esqueleto dentro do armário, naturalmente.

Chamada do Estadão, 29 jan° 2016

Chamada do Estadão, 29 jan° 2016

No entanto, a cúpula do Partido dos Trabalhadores está alvoroçada. Sem que o presidente de honra tenha sido acusado do que quer que seja, já anunciaram estar preparando ato para defendê-lo. Não faz sentido.

Devem defender-se aqueles que são acusados. Quem arquiteta defesa prévia, antes de qualquer acusação, mostra que tem algo a temer. O anúncio público de que defesa está sendo preparada mostra que a carapuça serviu.

A adega do Lula

Cláudio Humberto (*)

Lula caricatura 2Na reta final do governo, as visitas do Lula ao exterior foram marcadas por ligações do Planalto às embaixadas do Brasil informando que o então presidente “esperava receber de presente” algumas caixas de vinhos especiais, cuja lista era em seguida enviada.

Embaixadores do Brasil naquela ocasião afirmaram à coluna, pedindo anonimato, que recebiam o “pedido” do Planalto como um ultimato. Outros diplomatas interpretaram o pedido como uma “oportunidade de agradecer” pelo posto que ocupavam no exterior.

Lula deixou o Alvorada com 1.403.417 itens transportados em 11 caminhões da Granero no trajeto de Brasília a São Bernardo (SP). Um dos veículos, climatizado, levou espantoso acervo de vinhos. Dona Marisa pediu à Granero “cuidado redobrado” com a adega do Lula.

A oposição planeja, este ano, esmiuçar a formação da adega do Lula, considerada como uma das mais valiosas de todo o País.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

O caça cassado

José Horta Manzano

O protótipo do caça francês Rafale fez o primeiro voo em 1991. Fabricado pelas indústrias Dassault, o modelo corresponde às exigências da aeronáutica militar francesa. Paris comprometeu-se a comprar 180 aparelhos, dos quais 142 já foram entregues.

Avião 6Sofisticado mas muito caro, o Rafale não foi um sucesso de vendas. Mais de vinte anos depois de lançado, nenhum país, além da França, tinha mostrado interesse. Eis senão quando, um Lula no auge da popularidade, a pouco mais de um ano de terminar o segundo mandato, faz anúncio estrondoso.

Contrariando os interesses dos que entendem do assunto ‒ as Forças Aéreas Brasileiras ‒, tomou a decisão pessoal de entabular negociação firme em vista de adquirir 36 exemplares. Para comemorar e oficializar o acordo, convidou Nicolas Sarkozy, então presidente da França, para assistir aos festejos do 7 de setembro. Estávamos em 2009.

A forte limonada servida no almoço há de ter deixado os dois presidentes eufóricos. Imprudentemente, deram o fechamento do negócio por favas contadas. Garantiram que o Brasil estava comprando os aviões franceses.

Lula e SarkozyO tempo passou, os dois presidentes terminaram o mandato, e o assunto morreu. A razão do malogro das discussões não ficou clara, deixando a cada um liberdade para imaginar o que bem entender.

Em 2015, para alegria do fabricante, o Egito encomendou 24 aparelhos. Meses mais tarde, o Catar também adquiriu duas dúzias. São pedidos firmes ‒ aliás, os três primeiros aparelhos já foram entregues ao país das pirâmides.

Interligne 18h

Monsieur François Hollande, atual presidente da França, está de visita oficial à Índia este fim de semana. A principal razão da viagem é o interesse demonstrado por Nova Delhi em adquirir 36 Rafales. Escaldados pelo fiasco quando das tratativas com o Brasil, franceses e indianos se abstêm de apregoar que o negócio está no papo.

Hollande IndiaQuando as negociações entre o Brasil e a França goraram, todos imaginaram que tivesse sido por razões técnicas ou ligadas à transferência de tecnologia. Hoje, desencadeada a Lava a Jato, sabemos que operações políticas envolvendo dinheiro gordo encerram mais mistérios do que sonha nossa vã filosofia.

Assim, fica no ar a pergunta: «Por que é mesmo que deixamos de comprar os Rafales?». Que cada um imagine o que quiser.

Frase do dia — 285

«Do alto de seu elevado discernimento, [o Lula] passou a tratar os brasileiros como idiotas. Sua biografia certamente se valorizaria se ele se dispusesse a seguir o conselho que deu a Fernando Henrique Cardoso em 2003: um ex-presidente da República não deve dar palpite em assuntos do governo.»

Editorial d’O Estado de São Paulo, 23 jan° 2016.

Sem escala

José Horta Manzano

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro eram para ser a cereja em cima do bolo, a consagração do Estado Novo reencarnado. Deviam cobrir de louros a cabeça de nosso guia genial simbolizando o ápice de sua estupenda carreira. Deviam gravar, no mármore do panteão nacional, a memória imorredoura do admirável líder-mor.

Mas a vida é cruel. O Mensalão, o Petrolão, a Lava a Jato, o vexame dos 7 x 1, as delações, as condenações, o espectro da Papuda, a catástrofe econômica, a inflação paralisante, a fuga de cérebros, a humilhação imposta por agências de notação, a aproximação de Cuba com os EUA, a desaceleração da China contribuíram para o desmoronamento do projeto.

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Televisão Suíça ‒ captura de tela

As Olimpíadas passaram a segundo plano. A cereja que devia enfeitar o bolo está podre. O golpe de graça está sendo assestado pelo vírus Zika. Em todas as línguas, o mundo está sendo alertado para o perigo. A mídia internacional desaconselha fortemente toda visita à América do Sul, em especial ao Brasil. A advertência é imperativa para grávidas.

No Brasil, há quem pressinta que estamos em meio a uma década perdida. Guardando as devidas proporções, a situação atual chega a evocar um panorama que não se observava havia mais de um século.

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Na virada do século XIX para o século XX, o Rio de Janeiro era uma cidade suja, infestada de focos de doenças tropicais ‒ malária e febre amarela principalmente. Antes do saneamento orquestrado por Oswaldo Cruz e apoiado pelo presidente Rodrigues Alves, europeus evitavam visitar a cidade.

Revolta da Vacina, 1904

Revolta da Vacina, 1904

Companhias italianas de navegação tranquilizavam os passageiros ‒ imigrantes que se dirigiam à Argentina ‒ garantindo que a viagem seria direta, «senza scalo a Rio de Janeiro», sem escala no Rio.

Mais cedo ou mais tarde, a epidemia de febre zika há de ser refreada. A endemia de violência e criminalidade, infelizmente, ainda vai afugentar visitantes por algum tempo.

Alguns alertas:
Televisão Pública, Suíça
Sydney Morning Herald, Austrália
La Repubblica, Itália
Portal Yle, Suécia

Pra tirar a pedra do caminho

Carlos Chagas (*)

Lula caricatura 2As esquerdas foram para o poder com João Goulart, vendo-se postas para fora pelo golpe militar de 1964. O tempo passou, veio a democracia e o PT acabou de novo no governo, com Lula e, depois, Dilma.

Só que o país se encontra em frangalhos. Arrasado. São negados os princípios e ideais que levaram o PT ao poder. Ao contrário do que pregavam, eles suprimem direitos sociais, comprimem salários, aumentam juros, beneficiam a especulação e as elites, geram desemprego, elevam impostos, degradam serviços públicos, favorecem latifúndios e metem a mão nos dinheiros públicos.

Fizeram o oposto do que pregaram. Logo virá a revolta. E o que vamos fazer? Chamar a direita não dá. Afinal, é a receita dela que os companheiros aplicam.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Falta ao país um projeto acorde com as necessidades nacionais. Capaz de atender não apenas as massas, mas a classe média e a população em geral. Adianta pouco ficar atrás de outro partido para substituir o PT. São todos iguais, ou seja, incompetentes.

Nossa memória é curta, mas fica impossível esquecer o governo dos tucanos, quando Fernando Henrique ensaiou aquilo que Lula e Dilma, ironicamente, aplicam outra vez.

Que forças disporiam de condições para dar a volta por cima e de governar para a maioria? Não dá para pensar nos militares, já tiveram sua oportunidade e deu no que deu. Melhor pensar rápido ‒ quem sabe acionando as universidades?

Carlos Chagas é advogado, jornalista e radialista. O texto é excerto de artigo publicado no Diário do Poder.