Casus belli

José Horta Manzano

O fato de

Lula
ir a Buenos Aires para um compromisso,
não ter encontro com Milei,
em vez disso, visitar a ex-presidente Cristina Kirchner
(atualmente condenada e comprindo prisão domiciliar)

equivale a

Milei
vir a Brasília para um compromisso,

não ter encontro com Lula,
em vez disso, visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro,
(atualmente inelegível e réu em processo criminal).

O distinto leitor e a encantadora leitora, se assim o desejarem, podem fazer uma visita dessas sem causar dano a ninguém. Mau gosto é sempre atributo pessoal e indiscutível. No entanto, se o protagonista da historieta for o presidente da República, o fato sobe uns degraus na escala de importância. O que é permitido ao reles cidadão comum nem sempre é admissível se provier de um alto dignitário.

Em termos despojados, estou falando da visita que Lula fez, dias atrás, a Cristina Kirchner, condenada por corrupção e atualmente cumprindo pena de prisão em regime domiciliar. Desconheço os montantes envolvidos nos processos nos quais foi condenada, desconheço também se ela provém de família abastada, mas avalio que o preço da tapeçaria que ela exibe na parede da sala deva corresponder a um certo número de meses do salário que recebia como “presidenta”. Madame tem bom gosto, ninguém há de contestar.

Lula da Silva, Mauro Vieira, o nobelizado Adolfo Pérez Esquivel e um quarto senhor, dois deles segurando cartazes de “Cristina libre” e um anacrônico “Lula livre”, todos posando com fundo de tapeçaria de valor, formam um conjunto desengonçado e ridículo. Brandir cartazes com reivindicações combina com jovens, que manifestam em passeata de avenida, megafone na mão. Na mão de nosso presidente, esse cartaz, francamente, não tem lugar de ser.

Como de costume, Lula da Silva não se limita ao script. Ele faz questão de falar, ao microfone ou em entrevista. São as horas mais perigosas, momentos que seus auxiliares temem. Não deu outra. Depois da visita à ex-presidente argentina, Lula afirmou: “Acredito na inocência de Cristina Kirchner”.

Sem se dar conta, Luiz Inácio cometeu afronta à Justiça do país vizinho. Vejam só: acreditar na inocência de um indivíduo já julgado, considerado culpado e sentenciado equivale a dizer que a Justiça argentina faz trabalho malfeito.

Lula é reincidente nesse tipo de ofensa. Na época de Cesare Battisti, fugitivo da Justiça italiana, chegou a dizer a mesma coisa: que acreditava “na inocência” do italiano. Anos mais tarde, foi obrigado a se retratar publicamente, um vexame.

Em tempos mais civilizados, o dirigente máximo de um país, em visita a um país vizinho, jamais ousaria ofender as instituições do anfitrião. Se o fizesse, sua tagarelice poderia ser considerada um “casus belli” – ato que provoca ou justifica uma guerra.

Se os antigos códigos de honra ainda estivessem em vigor, Lula da Silva seria considerado tão perigoso quanto Bolsonaro. Que São Benedito nos ampare!

O teto da igreja

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Parece que, no Brasil, a gente só toma consciência da degradação quando é tarde demais. O incêndio do Museu Nacional, alguns anos atrás, causou comoção na sociedade. Pouca gente sabia que aquele palácio, além de haver abrigado reis e rainhas, encerrava a maior parte da escassa memória nacional. Na fogueira daquela noite, só não se perdeu o que era de pedra, como o meteorito Bendegó, que despencou no céu baiano e lá foi encontrado no século 18. O resto ardeu, virou pó, não volta mais.

Dirão os cínicos: “Quem precisa daquelas velharias, se a IA pode reconstituir tudo, tim-tim por tim-tim?” É, pode-se comparar com o(a) namorado(a) que um dia se vai mas deixa uma foto. Ainda que o retrato seja um holograma em tamanho real, com a boca que se mexe e os braços que se abrem, será sempre uma imagem eletrônica, fria de temperatura e de calor humano. Por minha parte, dispenso a IA e fico com o original.

Aconteceu agora outra desgraça. Desta vez foi na Bahia e a vítima foi a Igreja de São Francisco de Assis, no Pelourinho, templo que também responde pela preciosa alcunha de Igreja de Ouro (ou Igreja do Ouro). Além de ser tombada pelo Iphan, foi eleita uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, junto com outras 6 construções espetaculares espalhadas no mundo todo. Apesar dessas credenciais, parte da alvenaria do teto desabou semana passada. Deixou um morto e meia dúzia de feridos. A igreja continua de pé mas, como se vê, está literalmente caindo aos pedaços. Convém não protelar o início de uma reforma geral das estruturas.

Ao tomar conhecimento do desastre, Lula da Silva aproveitou o primeiro microfone que lhe ofereceram para se pronunciar sobre o assunto. Lamentou o ocorrido e disse que o problema é a facilidade com que se tombam edifícios sem se preocupar em saber se a cada tombamento corresponde uma dotação destinada à manutenção.

Sua Excelência tem razão. O bom senso recomenda que, a cada nova incumbência que se dá ao poder público para zelar por um edifício, deve corresponder a respectiva dotação financeira. É assim que, num mundo ideal, as coisas funcionam. No Brasil, infelizmente, muitas autoridades vivem num país de fantasia, como Alice do outro lado do espelho. Tomba-se o edifício, auferem-se os louros da vitória da boa causa. Mais tarde, é só quando o palácio queima por falta de sprinklers (chuveiros automáticos) ou o teto desaba por falta de manutenção que o mundo vai perceber que não havia verba. Tarde demais.

Lula da Silva tem razâo, mas faltou ir até o fim do raciocínio. O presidente não é um cidadão como os outros. Ele pode mais do que a maioria de nós. Só reclamar da falta de verba, podemos você e eu, mas ele tem de ir além. O bom discurso teria que apontar o problema e a solução.

Sua Excelência tinha de ter dito algo assim: “Amanhã vou encarregar meu ministro da Cultura de preparar um projeto de lei vinculando todo tombamento – municipal, estadual ou federal – à garantia de uma dotação para a respectiva manutenção. Sem verba, não se fará mais nenhum tombamento.”

Pronto, assim o discurso teria sido mais produtivo do que a simples reclamação estéril do cidadão desiludido. Teria mostrado que o bom presidente não foi eleito somente para se lamentar e chorar em público, mas também – e principalmente – para resolver problemas. Ele sempre pode mais que nós.

2002: Serra x Lula

Folha de S. Paulo, 11 out 2024

José Horta Manzano

Estávamos lá por setembro de 2002 e o Brasil estava fervendo na reta final da campanha presidencial. Tirando os candidatos folclóricos, os dois que contavam mesmo eram Lula da Silva e José Serra. Naquele tempo, acho que residentes no exterior não o tinham direito de votar. Se tinham, eu é que não sabia. Assim sendo, não me apresentei e, naturalmente, não votei.

Mas isso não me impedia de ter minhas simpatias e preferências. Meu candidato natural era Serra. Do PT, sempre desconfiei. Imaginei que acabassem instalando uma república sindical, em moldes assemelhados aos do fascismo italiano.

Na época, não havia internet como a conhecemos hoje. Redes sociais não funcionavam como hoje. Assistir à tevê por internet era uma aventura, com recepção pixelizada, tremida, entrecortada. Notícia mesmo vinha por jornal online.

Um dia, fiquei sabendo que José Serra era de opinião que o Mercosul não servia para nada e que melhor seria acabar com ele. Enquanto isso, o candidato Lula se mostrava todo favorável, considerando que era um bloco útil e importante.

Sempre fui de opinião que nós, a humanidade inteira, vivemos num mesmo planeta. Não havendo planeta bis, estamos condenados a viver todos em cima desta bola que gira sem parar. Desse modo, é melhor tratar de nos entender, que não há outro jeito. Não há para onde fugir nem escapar. Melhor conversar e resolver disputas sem sacar a arma. Instituições como a União Europeia e o Mercosul promovem uma abertura na boa direção.

Quando vi a posição de Serra e de Lula, mudei de posição. Olhei para aquele barbudinho de língua presa, a vista não me agradou. O homem falava demais, com ar de quem estava sempre enervado, chutando pé de mesa. Mas sua visão do Mercosul me pareceu mais judiciosa do que a do adversário. Disse para mim mesmo: “É com esse que eu vou”.

“É com esse que eu vou” é modo de dizer, que eu não podia (ou achava que não podia) votar daqui do exterior. Mas torci e, acho que pela primeira vez, “ganhei” uma eleição.

Passaram-se mais de duas décadas. Tratado a bofetadas, exposto aos caprichos do governante de turno, o Mercosul deu passos de bolero: dois pra lá, dois pra cá, dois pra frente, dois pra trás. Sem nunca alcançar o status de instrumento de Estado, a pobre organização continua sob a bota do governante de turno. Cada um considera o bloco um instrumento à disposição de seus caprichos. Os interesses permanentes dos Estados passam ao largo.

Hoje, ao ler a chamada de jornal que encabeça este escrito, entendo que José Serra tinha razão. Ele, que entende do riscado, já tinha se dado conta de que o Mercosul mais tem atrapalhado do que ajudado, e que teria sido melhor se nunca tivesse sido inventado.

Um Lula à época inexperiente talvez não tivesse percebido essa realidade. Ou quem sabe tinha entendido, mas já se preparava para encampar a instituição e usá-la para a promoção de interesses seus e de seu entourage.

Está aí uma pergunta cuja resposta talvez não venhamos a conhecer nunca.

Inútil troca de insultos

José Horta Manzano

Desde que Javier Milei, atual presidente da Argentina, fazia campanha eleitoral, já lançava insultos a nosso presidente tratando-o de “corrupto” e “ladrão”. Clamava que “o lugar de Lula é na cadeia”. Não sei se esse comportamento extravagante lhe valeu alguns votos a mais – é possível, neste mundo há bobo pra tudo.

Por seu lado, nosso Luiz Inácio não deixou os desaforos sem resposta. Torceu ostensivamente contra Milei. Deixou de comparecer à sua cerimônia de tomada de posse, atitude fortemente deselegante. É insultante deixar o presidente hermano assim, com a mão estendida no vazio.

Milei comprou a briga e botou o sarrafo mais alto. Faltou à cúpula do Mercosul, deixando assim meia dúzia de colegas chefes de Estado falando sozinhos, entre eles. Em linguagem diplomática, sua ausência soou como se ele dissesse: “Eu sou superior a todos vocês e não estou disposto a me misturar com essa ralé”.

A partir daí, os encarregados do cerimonial dos lugares em que os dois perigam estar presentes ao mesmo tempo (G20, por exemplo) caminham pisando em ovos para garantir que os dois jamais tenham de sentar lado a lado.

Na minha visão, esse tipo de querela pode ser admitida entre adolescentes. Já entre chefes de Estado vizinhos, hermanos e sem nenhum contencioso, é briga totalmente absurda. Aquele famoso “quando um não quer, dois não brigam”, que Lula opinou quando a Rússia invadiu a Ucrânia, teria de ser aplicado justamente num caso como este.

Foi Milei quem começou, estou de acordo. Os insultos de Milei foram gratuitos, emitidos sem provocação, estou de acordo. Lula faltou à posse do colega por temer ser vaiado em Buenos Aires, estou de acordo. Só que agora, chega. A brincadeira acabou, os dois foram investidos no cargo de chefe de Estado. Ficam pra trás as brigas pessoais e entram em cena os ritos do cargo.

Luiz Inácio, que é o mais velho e mais experiente, devia mostrar o caminho ao fogoso vizinho. Não é assim que um chefe de Estado deve se comportar. Atitudes assim não constroem, só dividem e destroem. Que se convide o argentino para uma visita oficial ao Brasil. Que se prepare recepção com a pompa devida a visitantes de primeira grandeza.

Fico feliz de constatar que a diplomacia do Itamaraty, apesar de Lulamorim, não parece ter sido contaminada por essas infantilidades. Na sequência da decisão de Milei de não reconhecer a “vitória” de Maduro, o ditador venezuelano cortou relações diplomáticas entre Caracas e Buenos Aires e ordenou a partida imediata do pessoal diplomático argentino.

Acontece que, além dos funcionários, a embaixada argentina em Caracas abriga meia dúzia de refugiados políticos. Que fazer? A Argentina pediu e o Brasil atendeu imediatamente: nossos diplomatas em Caracas vão substituir os argentinos que tiveram de ir-se. Vão dar o expediente burocrático (emissão de passaportes, por exemplo) e vão cuidar dos refugiados (que, sem isso, perigavam morrer de fome).

Na diplomacia mundial, é relativamente frequente que um país cuide dos interesses de outro cuja embaixada teve de ser fechada. A Suíça é muito solicitada para esse tipo de serviço. Por exemplo, desde que os EUA e o Irã cortaram relações diplomáticas, em 1980, a Suíça representa os interesses americanos em Teerã (Irã).

Em nosso atual episódio sul-americano, o Brasil aceitou imediatamente a solicitação argentina e já está exercendo as funções de representante diplomático de Buenos Aires em Caracas.

Aconteceu tão rápido, que eu me pergunto se Lula foi posto a par. Seja como for, a agilidade e a prestimosidade do Itamaraty continuam em plena forma. E isso é excelente notícia.

O que sei é que Milei , em publicação nas redes, agradeceu efusivamente pela colaboração do Brasil. Lula perdeu a oportunidade de fazer as pazes ao convidar o rapaz para uma visita e uma conversa olho no olho. Ou talvez ainda não seja tarde.

“Ô, Lula, vê se dá um jeito nesse menino travesso!”

Os presentes que os anos trazem

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 25 julho 2024

Correligionários e amigos do peito podem acompanhar teu corpo moribundo até o pé da cova. Podem chamar o padre para a extrema-unção. Podem até despejar pétalas quando teu caixão for baixado. Mas não esperes que algum deles se atire na cova contigo: nenhum o fará. Chega um momento em que o interesse pessoal de cada um sobressai e prevalece.

Basta ver o que aconteceu com Joe Biden. Correligionários antigos, admiradores fervorosos e financiadores generosos, daqueles que por anos o apoiaram, foram, um a um, se afastando da campanha de reeleição. Até personalidades célebres anunciaram publicamente ter desistido de apoiá-lo. Ponto alto da humilhação, o New York Times, jornal mais importante do país, declarou a seus milhões de leitores que considerava ser chegada a hora de Biden renunciar à candidatura e ceder o posto a outro pretendente.

Tudo se precipitou na sequência de um debate televisivo entre Joe Biden e Donald Trump. O desempenho de Biden foi tão calamitoso que o eleitor americano se pôs a duvidar que ele estivesse em condições de governar o país por mais quatro anos. Suas falas foram confusas e nebulosas a ponto de constranger a plateia.

Teorias de complô floresceram. Uma das mais interessantes garantiu que o ataque proveio de uma arma de energia dirigida, de origem russa, manipulada por agente infiltrado instalado no auditório, arma que bloqueou e baqueou Biden. Se os deslizes do presidente tivessem se resumido ao desempenho naquele debate, podia até ser. O problema é que ele foi vítima das mesmas perturbações em numerosos outros pronunciamentos. A “arma de energia dirigida” pôde, assim, ser descartada.

O problema de Joe Biden parece ligado a uma afecção neurológica fomentada pelo avanço da idade. A rápida degradação de sua higidez mental foi observada atentamente mundo afora. Na França, parlamentares já estão propondo um limite de idade para cargos eletivos. Um exemplo dessa prudência já existe no Brasil, com a aposentadoria compulsória dos ministros do STF.

Em princípio, velhice não rima obrigatoriamente com caduquice. Mas há que convir que, quanto mais avançam os anos, mais propenso fica o indivíduo a sofrer certa diminuição do desempenho mental. Para um cidadão qualquer, é chato mas… que fazer? Já para o dirigente máximo de um país, o cenário é mais dramático. Aos 81 anos, Biden não resistiu à pressão e finalmente decidiu entregar as rédeas. Devia tê-lo feito antes. Uma desistência assim, de última hora, ficou com cara de derrota.

Por falar em idade, Luiz Inácio da Silva completa 79 aninhos daqui a três meses. Caso a saúde não lhe falte, ele é bem capaz de tentar a reeleição em 2026. Se o fizer (e se for bem sucedido), já terá completado 81 anos ao assumir o próximo mandato – exatamente a idade de Joe Biden hoje.

Lula é impulsivo e falante. Como se sabe, quem fala muito às vezes desliza. Temos visto as encrencas que as falas de nosso presidente lhe têm trazido. Arrumou briga feia com Israel, se desentendeu com o presidente argentino, deixou os países vizinhos assustados com o apoio explícito a Maduro, causou ressábio geral na Europa com seu respaldo a Putin e seu rechaço a Zelenski. Nenhum dirigente de país grande tropeçou tanto.

Pesquisa recente diz que 55% dos eleitores acham que Lula não merece nova chance em 2026. A dois anos da eleição, não se pode cravar, mas esse resultado deveria acender no Planalto um pisca-pisca amarelo vivo. É sinal sério e grave. Com o drama de Biden ainda fresco na memória, o eleitorado pode se assustar.

Logo será dada a partida da corrida presidencial de 2026. Por enquanto, os candidatos principais não se apresentaram. Vai chegando o momento em que Lula, em seu íntimo, deveria reconhecer que chegou a hora de designar seu herdeiro político. O mais importante é convencer-se de que esse é o melhor caminho. O anúncio público pode vir mais tarde. Se Lula insistir em se apresentar como candidato, a crescente rejeição que ele sofre vai poluir a campanha. Uma avenida estará então aberta para a volta dos bolsonaristas.

É sempre melhor saltar do bonde por vontade própria do que ser atirado fora do veículo.

Lunático

José Horta Manzano

Para falar de um homem pouco confiável, daqueles que mudam de ideia a toda hora, antigamente se dizia que era lunático. Em mediquês moderno, deve haver uma ou várias traduções. Não vou me aventurar por esse caminho, que é vespeiro, e não sou do ramo.

Continuo achando que lunático é uma boa expressão. Ampla, não ofensiva, tem a vantagem de abarcar muitas patologias, desde a leve cabeça de vento até formas mais graves de mentes que ziguezagueiam.

Lunático é expressão criada em analogia à Lua. De fato, de todos os corpos celestes, é aquele que dá a volta à Terra em tempo mais curto. Além disso, muda rapidamente de aspecto. Você dá uma cochilada, e a Lua já aparece com outro aspecto.

Temos um presidente que, embora continue, no fundo da alma, agarrado firme à vanguarda do atraso, hesita muito nas ações do dia a dia, oscila pra lá e pra cá, vacila entre a visão real e técnica do que deve ser feito e a expectativa de seus eleitores, que esperam dele o conforto de uma boa palavra.

Faz meses que espanca diariamente o presidente do Banco Central acusando-o de ser o responsável pelo mau desempenho das finanças da nação. De repente, certamente orientado por assessores, Luiz Inácio mudou de ideia. De uma hora para a outra, deixou de criticar o dirigente do BC.

Fica a impressão de os assessores terem alertado o presidente para uma realidade: de tanto criticar publicamente o chefe de um banco, forma-se a ideia de que o presidente é fraco, que não pode tudo, que é tutelado por forças superiores à sua vontade. Um perigo para sua popularidade!

Eis senão quando, uma pesquisa Genial/Quaest detecta que as críticas de Lula à política do BC são aprovadas por 66% dos brasileiros. De cada 3 brasileiros, 2 acreditam na conversa fiada de Luiz Inácio, pela qual os juros estão elevados só porque o presidente do BC é “um homem malvado que quer prejudicar os pobres”. Como todos sabem, Lula é homem sensível a críticas e a pesquisas. Esta da Genial/Quaest não há de deixá-lo indiferente.

A situação agora se complicou. Se Lula quebrar seu voto de silêncio e voltar a martelar o chefe do BC, vai apenas gritar no deserto sem obter o que exige. Vai acabar reforçando a ideia de ser um presidente fraco, sem o poder de baixar os juros que prejudicam os pobres. Se, no entanto, guardar silêncio e não mais criticar o desafeto, vai acabar desagradando aqueles 66% de brasileiros que aprovavam suas críticas.

Agora a sinuca é de bico. Vamos ver como ele sai dessa.

Dirigentes provincianos

José Horta Manzano

“O Brasil se solidariza com a Rússia” – foram as palavras que Jair Bolsonaro, então presidente da República, dirigiu a Putin quando de sua visita ao Kremlin naquele fevereiro de 2022. O horizonte da Europa se assombreava naqueles dias, com a perspectiva da invasão da Ucrânia pelas tropas russas, na guerra que estouraria uma semana depois e que dura até hoje.

“Eu espero que o Biden ganhe as eleições” – foram as palavras de Lula da Silva em fevereiro deste ano em entrevista a um canal de tevê.

Há certas coisas que um presidente não deve dizer, certos pareceres que ele não pode dar, certas opiniões que ele não precisa externar. Pelo menos em público. Em privado, em sua sala de visitas diante de amigos e longe da imprensa, está livre para dar opiniões pessoais. Assim mesmo, é sempre bom ter cuidado porque, como se sabe, amigos são amigos até o momento em que deixam de o ser.

Já em público é outra conversa. As opiniões de um chefe de Estado têm o dom de comprometer o Estado inteiro.

Bolsonaro bajulou Trump e aplaudiu Putin, mas insultou a primeira-dama francesa e ofendeu o presidente argentino.

Lula apoiou a reeleição do presidente da Argentina e aplaudiu o Partido Socialista português, mas encrencou com Milei e desdenhou o presidente da Ucrânia.

Tanto Bolsonaro quanto Lula fizeram o que não deviam. Mostrar preferência por um dirigente estrangeiro, especialmente em época de eleições, é comportamento desajeitado, leviano e perigoso.

Quando o dirigente adulado perde, como é que fica? Digamos que Biden venha a perder, o que é não é improvável, com que cara Lula vai encarar Trump?

Em vez de atiçar Luiz Inácio e incutir-lhe doses de antiamericanismo radical, o “assessor” Amorim deveria abrir os olhos do presidente para evitar esse tipo de comportamento e fugir a futuras saias justas.

Se nossos provincianos dirigentes fossem mais cuidadosos no trato internacional, enfrentariam um caminho menos pedregoso.

Lula e os novos tempos

José Horta Manzano

Quando vejo a dexteridade de meus sobrinhos-netos ao lidarem com telefone celular e outros teclados ainda mais sofisticados, fico aliviado. Acho ótimo que essas modernidades tenham chegado agora, quando já não preciso mais delas. E desconfio que, mesmo mais jovem, eu não teria sido capaz de escrever mensagens num tecladinho de faz-de-conta, utilizando só a pontinha de dois dedos. Para os que, como eu, fizemos curso de dactylographia em mil novecentos e nada, escrever num celular é desafio. Ainda bem que escapei dessa.

Nos dias atuais, não seria possível aguentar o tranco de uma vida profissional sem utilizar telefones e outros instrumentos que todos usam. Para voltar à ativa, eu teria de me dobrar à evidência: é indispensável me atualizar. Só que eu não quero nem pretendo retormar o batente, portanto estou dispensado de reciclagem.

Mas tem gente que, após uma pausa de anos, decide voltar à ativa sem passar pela fase de reciclagem, porque acha muito chato ter de aprender. E vai em frente e mete as caras, crente que sua esperteza vai vencer todos os obstáculos.

Talvez o distinto leitor já se tenha dado conta de que estou pensando em nosso atual presidente, Lula da Silva.

Afastado dos negócios durante uma dúzia de anos – inclusive porque esteve preso –, Luiz Inácio quis porque quis voltar à Presidência. Dos oito anos que havia passado no cargo, só guardava lembranças felizes, de reis e rainhas, de honras e louvores, de mares de bonança singrados com sucesso. Tendo descido a rampa com 80% de popularidade, pareceu-lhe ter atingido o ponto máximo, lugar de onde não se desce mais até o fim da vida.

A realidade é mais cruel. Não é permitido a nenhum mortal conservar para sempre seu prestígio no patamar mais elevado. Se até os que morreram na glória são, com o passar dos anos, rebaixados, imagine os vivos.

O fato é que o tempo passou, novos ventos sopraram e aquela aura de demiurgo que Lula carregava se dissipou. E ele não percebeu. Ou achou que seu olho vivo daria conta de reinflar o que houvesse murchado.

Descurou a voz da experiência, que ensina o óbvio:


“Tem que reciclar, Lula! Não se opera telefone celular só com diploma de dactylographia! Tudo mudou no mundo. Toma cuidado, que tu não és mais esperto que a esperteza!”


E lá se foi o Lula, com demasiada confiança em si mesmo, achando-se capaz de dar daquelas piruetas que a idade já não lhe permitia. Estivesse, ainda, cercado de profissionais de qualidade superior a aconselhá-lo (e estivesse ele disposto a seguir os conselhos), a coisa ainda teria jeito. Mas Lula é orgulhoso e cabeçudo. Além de sua equipe nem sempre ser lá essas coisas, ele refuga os conselhos bons e acolhe os maus.

A imagem que o governo envia é um cenário todo feito de desencontros, de hesitações, de morde e assopra, de batalhas palacianas, de dois passos à frente e dois atrás. Adivinha-se um Lula com sinais inquietantes de ter perdido a mão. O que antes dava certo já não funciona, e ele não encontra a chave para resolver problemas novos. Tenta soluções antigas, que não dão cabo do enrosco.

Não sei se Luiz Inácio acha que está abafando, como nos velhos tempos, ou se já admitiu, para si mesmo, em seus pensamentos mais recônditos, que os truques e mágicas do passado já não funcionam e que ele perdeu o pé.

De um lado, temos um Bolsonaro inelegível e amedrontado, aflito para escapar da justiça; de outro, temos um Lula passivo, preocupado com picuinhas, distante dos grandes projetos do passado, mais reagindo do que agindo.

Nossa gerontocracia vem a galope, já aponta o nariz na esquina. E não vem sorridente.

Irã e prisões de segurança máxima

José Horta Manzano

O ataque lançado pela República Islâmica do Irã sobre o Estado de Israel, na noite de sábado passado, envolveu mais de 300 foguetes, incluindo 170 drones, 30 mísseis de cruzeiro e pelo menos 110 mísseis balísticos.

Para se defender, Israel contou com a ajuda de três potências: os EUA, a França e a Grã-Bretanha. Esses países contam com bases militares na região, e conseguiram deter e destruir boa parte das armas voadoras antes que atingissem território israelense. O exército de Israel fez o resto. Daí os estragos terem sido tão limitados.

Não precisa ser especialista em assuntos militares pra se dar conta de que o Irã lançou mão de apreciável quantidade de foguetes – arsenal fabricado por eles, ainda por cima. Tivessem atirado três bombinhas, é possível que Israel, ao constatar a fragilidade do inimigo, já estivesse enviando seus próprios foguetes para destruir Teerã.

Acredito que a amplidão do ataque seja um dos fatores que estão fazendo o governo de Tel Aviv hesitar. Se os dois países entrarem em guerra de verdade, o risco é grande de o equilíbrio regional (e talvez mundial) sentir o baque e sair abalado.

Faz quase duas décadas que o Irã vive sob sanções pesadas aplicadas pelos EUA e também pelos países aliados. Na teoria, o Irã deveria estar exangue, com a língua de fora, pedindo arreglo. Não foi o que se viu sábado passado. Analistas tentam minimizar a força do Irã, argumentando que o arsenal é antiquado, fora de moda, impreciso e isto e aquilo. Me parece mais é desculpa de despeitado.

Antiquado ou não, o arsenal despachado pelo Irã não bate com a imagem de um país mendigo, de pires na mão, pária do mundo civilizado. Como é possível? “Fatta la legge, fatta la burla”, como dizem os italianos (a lei nem bem acabou de ser feita, já se dá um jeito de fraudá-la).

Nosso cândido Lula da Silva gosta de se apresentar como “aliado” deste ou daquele país, o Irã entre eles. Ser aliado é mais do que sair na foto ao lado do “parceiro”. Inclui unir forças em busca de um objetivo comum. Qual é o objetivo comum entre Brasil e Irã, além de buscar o progresso do povo respectivo? Concluo que o Brasil não é “aliado” de fato do Irã. Ainda bem.

O fato é que o Irã tem petróleo e o mundo precisa de petróleo. Pronto, a conexão está feita. Dinheiro não compra tudo, mas quase. Petróleo pode ser excelente moeda de pagamento. Se uns se recusam a comprar óleo iraniano, outros fecham os olhos para os excessos do regime dos aiatolás e entram na fila dos compradores.

Assim, com dinheiro na mão e meio quilo de esperteza, qualquer país “pária” dá logo um jeito de passar por cima das sanções e adquirir tudo o que quiser. Com os equipamentos assim importados, os iranianos vão construindo seus drones e seus mísseis. Não vamos esquecer que, junto com a Turquia, o Irã está entre os melhores fornecedores de drones da Rússia.

Tudo isso mostra que impor sanções é o mesmo que tapar um cano d’água com peneira de taquara: o fluxo pode até diminuir, mas a água continua passando.

Os protocolos de segurança de uma prisão “de segurança máxima” funcionam de forma semelhante. Por mais medidas que se tomem, como celas revistadas, algemas no passeio, informação compartimentada e encarcerados isolados, sempre resta alguma brecha. E é por ali que passa toda a comunicação que não devia passar.

Em conclusão, vamos dizer que não somos “aliados” de papel passado do Irã nem temos prisões de absoluta “segurança máxima”. Jair Messias já quebrou os dentes quando levou um ‘chega pra lá’ de Viktor Orbán, seu “aliado” húngaro. Não me venha agora Luiz Inácio com suas manias de considerar seus ditadores de estimação como “aliados do Brasil”.

Tanto Bolsonaro quanto Lula estão errados. O capitão, após a decepção da embaixada, já caiu na realidade. Entendeu que, em política internacional, não existe amizade.

E tu, Lula, vais continuar batendo na mesma tecla?

Fim de ano, Lula e extrema direita

Hidra de Lerna
monstro de múltiplas cabeças da mitologia grega

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 dezembro 2023

As pesquisas de opinião revelam um Lula da Silva que vai se segurando apesar de um tropeção aqui ou ali. Ao final de um ano de mandato, sua popularidade não parece ter sofrido desgaste significativo. Entre outras razões, estão duas especificidades.

Por um lado, o turbilhão de fatos políticos nacionais gira com tanta velocidade que as ocorrências não têm tempo de se fixarem na retina. Cada notícia empurra e apaga a anterior, só permitindo que dramas chocantes permaneçam no ar por algum tempo a mais. Por outro lado, Luiz Inácio já deu amplas provas de ser do gênero “político teflon”, aquele em quem manchas e desdouros não grudam, desaparecendo logo.

Até aqui, falamos do Brasil insular, um país cujos habitantes acreditam que, circundados por fronteiras herméticas, vivem isolados do mundo. Na vida real, não é assim. As aves que aqui gorjeiam, trinam por lá também. Frases que Lula costuma tirar do bolso do colete ao dar palpite sobre graves assuntos internacionais podem passar despercebidas ao público brasileiro, mas fazem as manchetes no exterior. E acabam nos prejudicando a todos.

A acolhida fidalga e despropositada que Luiz Inácio, ao tomar posse, ofereceu ao ditador da Venezuela pregou um susto nas chancelarias estrangeiras. Os conceitos fora de esquadro que ele declamou sobre a guerra na Ucrânia e o conflito na Palestina fizeram murchar sorrisos em velhos admiradores estrangeiros. O anúncio, feito durante a recente COP de Dubai, do ingresso do Brasil na Opep+ mostrou que a extravagância de Lula é irrefreável, podendo confinar com a incongruência.

Ao final deste primeiro ano de governo Lula 3, numerosos líderes estrangeiros que muito esperavam dele tornaram-se desconfiados e precavidos. O troco já começou a chegar. Veja-se a maneira nada sutil com que Emmanuel Macron torpedeou o acordo UE-Mercosul. Vai longe o tempo em que o francês se deixava filmar exclamando “Lula, mon ami!”. A fraterna amizade parece não ter resistido aos percalços do primeiro ano de mando lulista.

Talvez por estar ressabiado, Lula abdicou de se expor em duas recentes ocasiões. Primeiro, ao declinar de saudar o ucraniano Zelenski no aeroporto de Brasília, quando este fez escala técnica a caminho de Buenos Aires para a posse de Milei. Segundo, ao recusar-se a viajar até a ilha caribenha em que os presidentes da Venezuela e da Guiana bambeavam entre guerra e paz.

Visto do exterior, Luiz Inácio termina o ano menor do que começou. É pena, mas é constatação inescapável: o Brasil entra em novo período de refluxo, enquanto o mundo lá fora continua a girar. Esse nosso negacionismo oficial é difícil de explicar.

Dez dias atrás, a Assembleia-Geral da ONU pôs em votação uma resolução condenando a violação de direitos humanos na Ucrânia invadida. A Europa inteira (até a Hungria!) aprovou. Nossos vizinhos Uruguai, Chile e Argentina também. O Brasil se absteve, preferindo fazer companhia ao Iraque, ao Vietnã, à Indonésia, à Etiópia e a outros recalcitrantes. O Itamaraty não se dá conta de que, quando o sofrimento humano está em jogo, seja onde for, a politicagem tem de se curvar e dar passagem à empatia. É doloroso constatar que um governo que se diz progressista cede a ideologias mortas e enterradas, e passa por cima de valores essenciais do humanismo.

Daqui a uma semana, o triste 8 de janeiro de 2023 completará um ano. Alguns veem nessa data o ato final da ópera, com a morte simbólica dos protagonistas. Antes fosse, mas é bom não facilitar. A hidra extremista tem múltiplas cabeças, cada uma representando um público diferente. Libertários, evangélicos, “anticomunistas”, sebastianistas, ultraegoístas, novos-ricos, racistas – cada um deles está associado a uma das cabeças. Embora se desconheçam entre si, esses grupos contribuem, quiçá sem se dar conta, para a perpetuação do extremismo. A existência de tantos ramos disparates explica a resiliência da direita extrema que, em nosso país, é nutrida por um em cada quatro eleitores.

Portanto, olho! Não é hora de baixar a guarda. Se nossa política externa declina, continuemos vigilantes ao que fermenta dentro de nossas fronteiras, que a hidra, embora sonolenta, continua viva.

Feliz ano novo a todos!

Speranza

José Horta Manzano

É provável que o distinto leitor e a graciosa leitora já tenham lido algum dia a frase


Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate (*)
Abandonai toda esperança, vós que entrais


É o 9° verso do terceiro canto do Inferno, parte da obra A Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri há 700 anos. A frase terrível está gravada na porta do inferno, aconselhando aos recém-chegados que percam as esperanças – estão entrando ali para nunca mais sair, que o castigo é eterno.

A frase é frequentemente usada como citação, como paródia ou como metáfora. Usa-se a frase, por exemplo, quando nos referimos a uma situação tão complicada que é melhor não insistir porque não há solução possível.

Lembrei disso hoje ao observar os altos e baixos da política externa do Brasil, inconstante como uma montanha russa de parque de diversões. Aliás, mais inconstante ainda. Uma montanha russa, apesar dos sustos que prega nos viajantes, tem percurso delineado, balizado, fixo, previsível. Ao término da sessão, costuma-se desembarcar inteiro, são e salvo. Já nossa política exterior não tem mostrado ser balizada nem previsível.

Lula, que imaginava ser candidato prioritário ao Nobel da Paz, tem bombardeado a própria candidatura com inacreditável frequência. Não falo tanto das ações internas, que essas têm visibilidade pequena para quem está fora. Falo das tomadas de posição do chefe do Estado brasileiro em assuntos internacionais, o melhor termômetro para aqueles que, de Estocolmo e de Oslo, observam, selecionam e julgam os candidatos finalistas para a premiação do Nobel.

Em disputas internacionais, Luiz Inácio parece fazer de propósito: coloca-se sistematicamente do lado que choca o mundo civilizado – justamente aquele que lhe poderia atribuir o almejado Nobel. Quando assumiu o trono, deu honras especiais ao ditador da Venezuela, recebido 24h antes dos demais e paparicado à beça. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, pôs-se ao lado da Rússia. Quando o grupo terrorista Hamas atacou populações civis em Israel, condecorou o embaixador da Palestina em Brasília. Parece ou não parece que ele faz de propósito?

A cada pronunciamento, mormente se for espontâneo, sem script, pode se preparar porque lá vem alguma enormidade.

Dizem, com razão, que a mentalidade de Lula estacionou nos anos 1970 e de lá nunca mais saiu. Há quem tenha esperança de que, com o tempo, ele consiga tirar os pés da areia movediça em que se enfiaram e assim arejar a mente e adaptar seu pensamento ao mundo do século 21.

Quanto a mim, não boto fé. Lula está a dois dedos de completar 80 anos. Nessa idade, falo de cátedra, não se muda mais. O que tinha de mudar, já mudou. O que está, é pra ficar. Seu antiamericanismo infantil está cristalizado. Encruou, não tem mais jeito. Já foi presidente por 9 anos, já viajou mundo, já conversou com reis, rainhas, presidentes, chefes de Estado e de governo. O que tinha de aprender, já aprendeu.

Não tem remédio: continua preferindo ditadores e chefes de regime fechado e autoritário. E não vai mudar. Continuará assim até o último suspiro.

Lasciate ogni speranza!

(*) Essa é a grafia original proposta por Dante. Em italiano moderno, escreve-se Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.

TPI – Tribunal Penal Internacional

José Horta Manzano

Em 7 de junho de 2002, o Diário Oficial da União publicou o Decreto Legislativo n°112, pelo qual o Congresso Nacional ratificou a adesão do Brasil ao termos do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. A partir de então, o Brasil é Estado Parte do Tribunal.

O Artigo 86 do Estatuto reza:
“Os Estados Partes deverão, em conformidade com o disposto no presente Estatuto, cooperar plenamente com o Tribunal no inquérito e no procedimento contra crimes da competência deste.”

O objetivo é evidente: um tratado desse teor só pode funcionar se todos os Estados Partes se comprometerem a cumpri-lo. Do contrário, não faria sentido. O Estatuto de Roma congrega hoje 123 Estados Partes. Alguns países preferiram não se comprometer – entre eles, alguns importantes: os EUA, a China, a Rússia.

Em março passado, o Tribunal Penal Internacional emitiu ordem de prisão contra o cidadão Vladímir Valadímirovitch Pútin, presidente da Federação Russa. É coisa séria. Todos os Estados que assinaram o Estatuto têm o compromisso de cumprir a ordem. Não é à toa que Pútin declinou o convite para comparecer à reunião do Brics na África do Sul. Foi avisado que, caso desembarcasse no território sul-africano, poderia acabar preso.


Frase 1
”O que eu posso dizer é que, se eu sou o presidente do Brasil e ele for para o Brasil, não há por que ele ser preso”


Foi o que Lula da Silva declarou no sábado, todo sorrisos, em entrevista a um canal indiano de informação, quando lhe perguntaram se Pútin será preso se for ao Rio de Janeiro para a reunião 2024 do G20. E não parou por aí. Lula garantiu que vai mesmo convidar Pútin para o encontro. E completou seu pensamento:


Frase 2
“Ninguém vai desrespeitar o Brasil, porque tentar prender ele no Brasil é desrespeitar o Brasil”


Análise da Frase 1
O discurso suscita alguma reflexão. Ao pronunciar a Frase 1, Luiz Inácio mostra que acredita ser dono do país. Ele se faz de bobo, como se não conhecesse as atribuições do presidente da República. Vivemos numa democracia em que cada um dos Poderes é autônomo. “Mandar prender” não é assunto da quitanda dele. E ele sabe disso perfeitamente.

Ao se pronunciar assim, Lula deixa em ouvidos estrangeiros a convicção de que o Brasil vive sob um regime de republiqueta de bananas, em que o líder máximo detém poder absoluto sobre todas as instituições. É ele que “manda prender” ou “manda soltar”.

Ao agir dessa maneira, Luiz Inácio faz um desfavor a si mesmo e ao país inteiro. Está agindo como um certo capitão que o antecedeu, aquele que passou quatro anos tentando escantear as instituições. Lula entra de sola em paróquia alheia, o que nunca é muito bom.

Ao anunciar que, em caso de visita do russo, passará por cima da autoridade do TPI (Tribunal Penal Internacional), Luiz Inácio deixa claro que considera seu juízo melhor que o do próprio Tribunal. Os juízes da Haia (Holanda) lançaram mandado de prisão contra um indivíduo, mas Lulinha paz e amor resolveu estufar o peito e dar guarida ao procurado pela justiça.

Com essa ideia escrachada – um triste repeteco do caso Cesare Battisti –, Lula informa que o Brasil continua sendo um país acolhedor para fugitivos da justiça, mas pouco confiável no geral, visto não respeita nem a própria assinatura em tratados internacionais.

Análise da Frase 2
“Tentar prender ele no Brasil é desrespeitar o Brasil”. Como é que é? A princípio, achei que Lula quisesse dizer que o Brasil deixaria de ser um país de respeito se prendesse o ditador russo. Achei até que a ideia trazia um propósito patriótico, de um presidente preocupado com a imagem do país.

Só que não era isso. Ao reler, me dei conta de que Luiz Inácio não parece ter ideia do que seja um mandado de prisão internacional. As palavras que ele pronunciou mostram que ele teme que “alguém” (uzamericânu?) vá prender Putin em território brasileiro, o que seria “desrespeitar o Brasil”.

É urgente que alguém avise ao presidente que o temor dele é infundado. Nenhum comando armado até os dentes vai singrar as águas da Baía de Guanabara no mormaço noturno, todos vestidos de preto, para sequestrar o ditador russo e despachá-lo para a Holanda. Não é assim que costuma funcionar.

Conclusão
Por um lado, Lula acredita que “alguém” pode abduzir o visitante e fazê-lo desembarcar diante dos magistrados do TPI. Por outro, o mesmo Lula garante que o ditador russo pode vir tranquilo, que nada lhe acontecerá.

Ora, se a ameaça de sequestro vem de fora, Lula não tem como garantir a integridade física do visitante.

Enquanto isso, Pútin, que não é ingênuo e sabe os perigos que corre, não irá rever os encantos de nossa terra tropical. E será melhor assim.

De quem é a Crimeia?

José Horta Manzano

Acabo de assistir à coletiva de imprensa que Lula e Pedro Sánchez, o chefe do governo espanhol, deram na saída de uma conversa a portas fechadas. Em virtude do pouco tempo disponível, só foram permitidas duas perguntas, uma de uma jornalista brasileira e uma de um jornalista espanhol.

Ambas as perguntas foram múltiplas, com três ou quatro subperguntas embutidas, mas o tema principal das duas foi o mesmo: a guerra na Ucrânia. Está confirmado que as declarações contraditórias que nosso presidente tem dado nos últimos tempos retumbaram na Europa.

Uma das perguntas deixou Lula em saia apertadíssima. À queima-roupa ouviu: “Na sua opinião, presidente, a Crimeia e o Donbas pertencem a que país?”. Luiz Inácio engasgou. Disse que não tinha entendido a pergunta. O repórter repetiu pausadamente. O presidente do Brasil continuou reclamando que não havia entendido.

O chefe do governo espanhol se meteu na conversa, e Lula teve de entregar os pontos. Admitiu que tinha entendido. Mas logo se esquivou alegando que não cabia a ele responder a essa pergunta. Não lhe compete decidir quem é o dono da Crimeia e do Donbas. Espichou um pouco mais o raciocínio, mas acabou mudando de assunto.

Lula está gravemente enganado. Sua resposta está longe da realidade. Ao escapar por essa portinha estreita, ele mostrou que seus conhecimentos não lhe permitem meter-se em política internacional sem dar vexame.

Só para recordar, a Ucrânia era uma república integrante da União Soviética. Com o desmonte da URSS, o país tornou-se independente em 1991. Em dezembro daquele ano, o Brasil reconheceu a Ucrânia como país independente dentro de fronteiras soberanas e universalmente reconhecidas. O território incluía a Crimeia e a bacia do Rio Don, o Donbas. O próprio Lula visitou Kiev em 2009, como presidente do Brasil, quando o país estava inteiro e ninguém discutia a propriedade do território.

O fato de a Rússia ter invadido a Crimeia em 2014 e parte do Donbas em 2022 não altera o tabuleiro: essas duas regiões continuam fazendo parte integrante da Ucrânia. Portanto, a resposta que se esperava de Luiz Inácio era que, até que eventual novo tratado modificando fronteiras internacionais venha a ser assinado e reconhecido pelo mundo todo, o território ucraniano inclui, sim, a Crimeia e o Donbas.

Se um líder estrangeiro, indagado sobre quem é o dono do Acre, desse uma resposta à la Lula – “não cabe a mim decidir a que país pertence o Acre” –, causaria fúria em Brasília e indignação no resto do mundo. E com razão, pois não?

Escapar à pergunta, como fez Lula da Silva, é levar água ao moinho de Putin. Somente o ditador da Rússia põe em dúvida o que ficou acertado e sacramentado 30 anos atrás. Lula mostra que continua mal preparado para enfrentar as consequências de suas falas desastradas.

Que se prepare para as próximas vezes, que virão certamente.

Brasil à mesa dos grandes

José Horta Manzano


Este blogueiro não tem a menor simpatia pelo Lula. E jamais votou em candidato petista. Quem me lê sabe disso, mas não custa repetir.


Cúpulas do G7
As reuniões anuais de cúpula dos países mais industrializados começaram em 1975 e continuaram a ser organizadas anualmente. Os que têm mais de 30 anos hão de se lembrar que o grupo dos países mais industrializados se chamava G8. Isso foi enquanto a Rússia, que era um dos participantes, foi considerada terra civilizada. Tudo mudou em 2014, quando Putin mandou a tropa invadir e tomar a região ucraniana da Crimeia. A partir de então, a Rússia foi suspensa do grupo e nunca mais conseguiu seu bilhete de entrada.

Tirando o ano de 2019, em que a covid grassava freio, houve cúpula todos os anos. Desde a virada do século, o país que hospeda a reunião ganhou o direito de propor a líderes de países não-membros que participem como convidados de honra. Lula da Silva, então presidente do Brasil, foi convidado nas seguintes cimeiras:

2003, realizada na França
2005, realizada no Reino Unido
2006, realizada na Rússia
2007, realizada na Alemanha
2008, realizada no Japão
2009, realizada na Itália

Nosso Guia, como se sabe, deixou a Presidência em 2010. Coincidência ou não, depois disso, o Brasil nunca mais recebeu convite para participar. Nem Dilma, nem Temer, nem muito menos Bolsonaro tiveram a honra. A bem da verdade, diga-se que o capitão estava na lista de convidados para a cúpula de 2019, a ter lugar nos EUA durante o governo de Trump. A pandemia acabou com a festa e obrigou ao cancelamento.

Aqui vai uma curiosidade pra deixar o atual presidente verde de inveja. Sabe quem esteve entre os convidados de honra este ano, na cúpula que acaba de terminar na Alemanha? Pois foi Señor Alberto Fernández, representando a Argentina. Além dele, foram homenageados os líderes da Indonésia, da Índia, da África do Sul e do Senegal. O Brasil ficou na geladeira, fazendo companhia à Rússia (banida) e à China (que nunca entrou).

Sabe quando é que o Brasil de Bolsonaro vai voltar a ter alguma chance de participar? Nunca. Só depois que voltar ao normal, ou seja, após a partida de Bolsonaro. Nem que, por impiedade do destino, o homem fosse reeleito e ficasse mais quatro anos no palácio: seriam quatro anos sem Brasil entre os grandes. Agora, se Nosso Guia vestir a faixa em janeiro próximo, boas são as chances de o Brasil subir de novo ao palco.

Anote aí
As próximas reuniões de cúpula do G7 estão previstas para 2023 no Japão e 2024 na Itália.

Só vou de mulher

José Horta Manzano

 

“Ninguém gosta de homossexual, a gente suporta.”
Jair Bolsonaro, então deputado.
Vídeo do ano 1997.

 

“Pelotas é uma cidade-polo, né? Exportadora de veados.”
Lula da Silva, então sem função política definida.
Vídeo do ano 2000

 

“Um estudo publicado em 1996 no ‘Journal of Abnormal Psychology’ demonstrou que os homens homofóbicos – só eles, não os demais – se põem fisiologicamente excitados ao visionar vídeos explicitamente homossexuais.”
Boris Cheval, doutor em Ciências e pesquisador em Neuropsicologia da Saúde, Psicologia do Esporte e Epidemiologia Social.
Entrevista do ano 2016

O título deste post faz alusão a um samba fora dos padrões, composto por Luiz Reis e Haroldo Barbosa em 1961, aqui na interpretação bem-humorada de Ivon Curi (1928-1995).

Farinha do mesmo saco?

José Horta Manzano

Os candidatos que neste momento ocupam os quatro primeiros lugares na corrida presidencial têm um currículo(*) interessante.

Lula da Silva
Foi presidente e também presidiário.

Jair Bolsonaro
É presidente com boa probabilidade de tornar-se presidiário assim que descer a rampa.

Ciro Gomes
Foi ministro do Lula, aquele que foi presidente e presidiário.

Sergio Moro
Foi ministro de Bolsonaro, aquele que é presidente e tem risco de se tornar presidiário.

Como se vê, a escolha parece ampla, mas não nos tira do círculo vicioso no qual rodopiamos há duas décadas. Nosso mundinho político exala mau cheiro.

(*) Tem casos em que, em vez de currículo, o termo mais adequado seria prontuário.

O general e a gravata

José Horta Manzano

Curioso para conhecer Pazuello, o ex-ministro que eu nunca tinha tido oportunidade de ver nem de ouvir, fui dar uma espiada em seu depoimento de ontem na CPI. Devo admitir que fiquei um tanto decepcionado. Depois de tudo o que já li sobre ele, imaginava dar de cara com um General Trovão, um Figueiredo dos tempos atuais, um líder do tipo “deixa comigo, que eu mato e arrebento”. Em vez disso, o homem está mais pra Zangado, um dos anões que rodeavam a Branca de Neve, aquele que nunca sorria. Parece um Zangado falante, mas sempre de maus bofes.

Na foto tirada durante o depoimento, o general aparece de olhos fortemente avermelhados. Fica a nítida impressão de ele não ter dormido na noite anterior – o que poderia explicar o quase-desmaio que sofreu à tarde. É difícil imaginar que ele tenha passado a noite se agitando num baile funk, mas é concebível que tenha ficado acordado até altas horas recapitulando as respostas que lhe tinham sido aconselhadas pelos media trainers contratados pelo Planalto. Pode ser também que, nervoso, tenha simplesmente perdido o sono.

Fiquei surpreso com a inabilidade dos senadores para conduzir o interrogatório. O próprio interrogado parecia mais bem preparado que eles, quando deveria ser exatamente o contrário. Os inquiridores é que tinham de surpreender o convocado com perguntas inesperadas, incisivas e inescapáveis. Em vez disso, notei certa displicência entre os parlamentares, como se estivessem surpresos pelo fato de o general dar respostas firmes sem tropeçar. É verdade que senador não está necessariamente formado para a função de promotor público, mas a CPI tem como se fazer assessorar por especialistas trabalhando em tempo real. Se não o fez, foi porque não quis.

Fiquei encantado com a gravata do general. Não me esqueço de quando esse modelo foi apresentado ao mundo. Foi em Copenhague (Dinamarca), em outubro de 2009, no dia em que o Comitê Olímpico Internacional anunciou que atribuía ao Rio de Janeiro a organização das Olimpíadas 2016. Representando o Brasil, um grupo eufórico estava presente. Quando souberam do resultado, soltaram gritos e deram pulos de contentamento. Na época, a gente imaginou que fosse por patriotismo. Usavam todos esse modelo de gravata.

Como modelo, até que ela não é feia, com as cores da bandeira. Só que os primeiros usuários, além de não serem modelos de desfile de moda, tampouco eram o que se pode chamar de modelo de virtude. Os figurões mais proeminentes estão na foto acima, todos devidamente engravatados com o mesmo modelito do general. Vamos ver quem são. Da esquerda para a direita.

Eduardo Paes
Atual prefeito do Rio, é o único em atividade neste momento. Não chegou a ser preso, mas a lista das acusações de corrupção que o perseguem é longa como um dia sem comer.

Sergio Cabral
Foi governador do Rio. Condenado por corrupção e outros crimes, não só passou pela casa prisão, como ainda está lá. Condenado a mais de 200 anos de privação de liberdade, ainda deve permanecer encarcerado por algum tempo.

Carlos Arthur Nuzman
Era o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro à época. Acusado de corrupção, passou pela casa prisão em 2017.

Lula da Silva
Foi presidente do Brasil. Condenado por corrupção e outros crimes, passou pela casa prisão, onde purgou mais de ano e meio.

Orlando Silva
Dos retratados, este parece ser o mais maneiro. Foi ministro do Esporte. Teve problemas com a justiça por ter comido uma tapioca de R$ 8,30 e posto na conta da Viúva. Visto que é arraia miúda demais, não passou pela casa prisão.

Não conheço o sexto cavalheiro.

Tendo em vista a folha corrida dos primeiros portadores da gravata verde-amarela, vale indagar que motivo levou o general a enrolar essa gravata de corruptos em torno do pescoço ontem. Algumas suposições:

• Ele não assistiu à cerimônia de 2009, portanto não sabe que os que lançaram a moda são personagens pouco recomendáveis, pra dizer o mínimo.

• Imaginando que ia acabar preso, já veio paramentado para seguir os passos dos que o precederam.

• A coisa é o que parece: sabe-se lá por que, vestiu a gravata em homenagem à bandidagem.

• Distraído, saiu de casa de camisa aberta, como quem se prepara para um passeio num shopping de Manaus. Foi Bolsonaro que, ao vê-lo descamisado, emprestou sua gravata de estimação.

Pode ser alguma dessas razões. Ou nenhuma das anteriores. O distinto leitor o que acha?

Marina e a perereca

Ascânio Seleme (*)

Lula tem razão. Ele e Gleisi assinaram artigo na “Folha” mostrando preocupação com o meio ambiente e batendo na política criminosa de Bolsonaro para o setor.

Mas é bom não esquecer que o maior ícone ambientalista nacional, a ex-senadora Marina Silva, pediu demissão do Ministério do Meio Ambiente no governo Lula por falta de “sustentação política” para tocar sua pauta.

Também não custa lembrar que Lula sempre se queixou da “poderosa máquina de fiscalização” ambiental. Por isso disse, no longínquo 2010, que o Brasil não podia “ficar a serviço de uma perereca”. Criticava a paralisação das obras do Arco Metropolitano do Rio em favor da preservação de um anfíbio que habitava um charco por onde passaria a estrada.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 24 abril 2021.

Falas impróprias

José Horta Manzano

Qualquer um de nós, apanhado desprevenido, pode soltar alguma bobagem. Nem com muito treino e controle seria possível acertar todas, em todas as ocasiões. Mas gente mal preparada é um problema. Quando alguém, além de mal preparado, exerce função elevada, então, é desastre assegurado!

Com a exceção do curto interregno durante o qual Temer assumiu as funções da titular destituída, nossa história presidencial recente é rica em gafes verbais cometidas por dirigentes que não tomaram a medida exata do cargo. Foram indivíduos eleitos sem ter a formação necessária para o cargo. A bagagem que carregam não é suficiente para lhes permitir estar à vontade em todos os ambientes.

Jair Bolsonaro assegura a continuidade do festival de impropriedades iniciado por Lula da Silva e endossado pela doutora. Comedido e pouco palavroso, Michel Temer garantiu uma trégua temporária ao festival. Doutor Bolsonaro tem se esforçado pra recuperar o tempo perdido.

Lula da Silva, por exemplo, deixou uma impagável explicação da circulação das massas de ar ao redor do planeta. Foi no dia em que garantiu que a poluição atmosférica que castiga nosso país só existe porque a terra é redonda e gira. Fosse quadrada, não haveria poluição no Brasil. O vídeo (de menos de 1 minuto) continua no youtube à disposição de quem quiser rever.

A doutora deixou impressionante coleção de pérolas, desde a saudação à mandioca até a invenção da Mulher sapiens, em contraponto ao Homo sapiens.

Nesse contexto de falas deslocadas, as impropriedades soltadas por doutor Bolsonaro são tão numerosas, que seria aborrecido listá-las todas. Muitos o consideram não muito afeito ao trabalho. Acusam-no de ter passado 28 anos (sete mandatos!) na Câmara Federal sem ter relatado um único projeto. É fato que fala por si.

Seja como for, a continuidade do besteirol na Presidência está garantida. Depois de um Lula verborrágico e de uma Dilma que proferia uma inconveniência a cada duas palavras, temos um Bolsonaro que se inscreve como sucessor legítimo.

Seu adversário no segundo turno de 2018 era Haddad. Acontece que este não convinha para a Presidência. Para começar, era lulopetista – justamente a família política que a maioria queria evitar naquele momento. Mais que isso, carregava o peso de um pecado mortal: conseguia exprimir-se decentemente.

Estava muito evidente que não ia combinar com nossa tradição presidencial. De fato, não foi eleito. Dentro da coerência, quem levantou a taça foi doutor Bolsonaro.

Rodamoinho

José Horta Manzano

De criança, aprendi que se chamava rodamoinho. Era uma palavra misteriosa, cujo significado, para mim, não ia além da espiral que se formava acima do ralo da banheira quando a água escorria.

Com o tempo, entendi que havia outras formas de dar nome ao fenômeno: redemoinho, redomoinho, rodomoinho e o simples e poético remoinho.

Aprendi também que a palavra transborda do universo da banheira e pode dar nome, em sentido figurado, a fenômenos circulares que, a cada giro, descem um pouco mais, numa viagem inexorável em direção ao fundo.

Às vezes me ocorre que, desde que virou o século, nosso país entrou num rodamoinho, numa situação que, em vez de melhorar, piora a cada ano que passa, e nos puxa para baixo.

Junto com o hábito de comer arroz e feijão, que nos iguala a todos, está um outro fato nacional que nos põe em pé de igualdade: é a escolha do presidente da República. Dela participam todos – obrigatoriamente, aliás. O voto do abastado pesa tanto quanto o do desvalido. O do branco, do preto, do amarelo e do azul têm todos o mesmo valor unitário.

O distinto leitor há de convir que, em matéria de escolha de presidente – que é feita por todos, com um voto por cabeça –, a coisa vai de mal a pior. Dado que o voto representa um concentrado de Brasil e a soma dos anseios e expectativas de todos… ai ai ai. Parece que, em vez de visar para a frente e para o alto, estamos de olho na descida, loucos pra chegar ao fundo do poço.

Na virada do século, tínhamos FHC na Presidência. Goste-se dele ou não (pouco importa), há que reconhecer seus predicados: o homem, autor de uns 30 livros, era sociólogo e senhor de sólida cultura. Foi um dos raríssimos visitantes estrangeiros a serem convidados a visitar o Parlamento francês… e a proferir um discurso lá! Dava orgulho de um Brasil que parecia deslanchar.

De lá pra cá, desandou. Veio Lula da Silva, um malandro arrogante, sem-diploma e orgulhoso. Seguiu-se Dilma, falsa doutora, incompetente e de pensamento confuso. E agora temos doutor Bolsonaro. Este, só de encomenda. Potencializa os defeitos dos antecessores: é mais arrogante que o Lula, é mais agressivo e tem o pensamento mais confuso que o da falsa doutora. E ainda por cima, é de ignorância brutal, crônica e assumida.

Está aí. Já se vão duas décadas desde que entramos no rodamoinho. Deixar-se levar corrente abaixo é moleza; nadar corrente acima é que são elas. Depois que nos livrarmos desse estropício que está aí, o trabalho de reconstrução vai ser longo e pesado.

Remoinho
A palavra vem de moinho, numa alusão ao movimento rotatório das pás que giram, acionadas pelo vento ou, mais frequentemente, pela água corrente.

Remoinho combina com seu irmão castelhano remolino e com os primos-irmãos remous (francês) e mulinello (italiano) – todos de mesmo significado e derivados de moinho (molino, moulin, mulino).

Têm primos mais afastados em outras línguas europeias. Pra dizer moinho, o alemão usa Mühle e o inglês prefere mill. O sueco tem o verbo mala para moer e o substantivo mjölnare (miólnare) para moleiro, aquele que toca o moinho. Até o russo, ao chamar o moinho de мельница (mélnitsa), está se servindo de fruto da mesma árvore.