Os gatos e o Senado

José Horta Manzano

Tem dias em que os acontecimentos nos atropelam a tal ponto, que nos sentimos invadidos pela desesperança, pelo desalento.

Observo meus gatos e me ponho a pensar que eles, sim, têm sorte. Alheios a tudo o que se passa fora de seu pequeno universo de alguns metros quadrados, vão vivendo sua vidinha de gatos. Comem e dormem quando têm vontade, não sentem raiva, nem rancor, nem inveja. Não são desonestos, nem falastrões, nem fingidos. Não sabem esconder seus sentimentos. Quando estão alegres, rolam pelo chão. Quando sentem medo, escondem-se debaixo de algum móvel.

Não se organizam em sociedade, não dão nada a ninguém, tampouco pedem o que quer que seja. Não têm a dirigi-los um Congresso, não elegem deputados, não se desapontam com suas más escolhas, não se arrependem, não reclamam. Não sabem sequer que existem, portanto, não têm ideia de que vão morrer um dia. Uma bênção!

O homem, que é um ser ― dizem ― mais evoluído, tem problemas de outra ordem.

Neste comecinho de fevereiro, os brasileiros deveriam cobrir-se de luto da cabeça aos pés. Principalmente a cabeça, que é para esconder a vergonha.Luto 1

No Senado da República, de cada 4 votantes, 3 escolheram para conduzi-los um senhor que já tinha sofrido a reprovação de seus pares, não faz tanto tempo assim. Um indivíduo de sombria reputação, sobre cujos ombros pesam acusações de crimes pesados.

Esse quadro, inconcebível em qualquer país civilizado ― «emergente» ou já assomado ― parece perfeitamente aceitável no Brasil. Muitas aberrações são admitidas em nosso País, desde que as aparências estejam salvas. A dignidade de nossas instituições escorreu pelo bueiro, mas poucos parecem estar preocupados. As regras foram respeitadas. Portanto, podemos todos louvar nossa grande democracia, que se afirma a cada dia.

Está aí a prova de que o problema não está nas instituições. O buraco é mais embaixo. O problema está no caradurismo e na ganância de uns poucos, assentada na ignorância da esmagadora maioria.

Qualquer observador isento, honesto e de boa-vontade, após análise desses fatos, chegará necessariamente à mesma conclusão. É de uma evidência mais clara que sopa de asilo: o baixíssimo nível de instrução do grosso da população propicia espetáculos indecentes como esse com que nos brindaram nossos nobres senadores. Não só propicia, como encoraja.

Como mudar isso tudo? É aí que surge a amarga conclusão: não há jeito. As leis são feitas exatamente por aqueles que dela se valem em proveito próprio.

Mas tem de haver uma solução! Uma revolução, talvez? É demais aleatório. Sabe-se como começa um levante, mas nunca se sabe onde vai parar. A única saída passa obrigatoriamente pela elevação do nível de instrução, do conhecimento e da cultura de todos. Se vai demorar? Vai. E muito. Mas o processo tem de ter início já. Quanto antes, melhor.

Só para a morte não há remédio. Sapateiros, costureiras e outros pequenos artesãos ― hoje em via de extinção ― costumavam ostentar uma plaquinha na parede com os dizeres: «o impossível fazemos na hora, milagres demoram um pouquinho mais». Continua válido.

Em dias como hoje, dá uma vontade danada de ser gato.

Arrombada a porta, põe-se a tranca

José Horta Manzano

Nos idos de 1967, eu estava trabalhando na Suécia. Travei conhecimento com uma senhora muito simpática. Poliglota e inteligente, teria ali pelos 40 anos. Tinha nascido no Brasil, mas, casada com um sueco, vivia em Malmö fazia já vários anos. Vamos chamá-la senhora Almgrén, mas não posso garantir que fosse esse o nome. Passou muito tempo e já não tenho certeza.

Uma música francesa, gravada por Sacha Distel (1933-2004), estava nas paradas de sucesso, como se dizia na época. Na crista da onda, muito popular. Era ― como explicar? ― um «samba europeu». Um ritmo um tanto desengonçado que grande parte do povo do Velho Continente acreditava ser música brasileira. Aliás, muitos ainda acreditam, acreditem.

O compasso da canção, divertida e bem animada, hesitava entre cumbia, conga e rumba. Chamava-se «L’incendie à Rio», o incêndio no Rio. Meu conhecimento de francês, precário à época, não me permitia entender a letra.

Comentei com a senhora Almgrén que eu gostava muito daquela música. Maliciosamente, ela me replicou que, se eu entendesse a letra, por certo gostaria menos. Fiquei um tanto perplexo. “Ué” ― pensei ― “e por quê?”

Sacha Distel

Sacha Distel

Indulgente, minha amiga explicou que a letra relatava um incêndio imaginário numa torrefação de café no Rio de Janeiro. E descrevia a atrapalhação dos bombeiros que não encontravam as mangueiras, nem o esguicho, nem a escada. Somente no final da noite, quando todo o quarteirão estava reduzido a cinzas, os petrechos foram encontrados. Assim mesmo, os bombeiros continuavam não podendo sair do quartel porque o caminhão estava enguiçado e ninguém sabia onde estava a manivela para dar partida no motor.

Uma zombaria total, como se vê. Retratava nosso País como era visto pelos europeus, um lugar muito alegre e animado, mas totalmente bagunçado. Quem quiser recordar (ou conhecer) L’incendie à Rio, pode dar uma espiada aqui. Vem com vídeo, música e letra.

O bem informado blogue de Sonia Racy, alojado no Estadão, nos informa neste 30 de janeiro que a Câmara Federal do Brasil não tem brigadistas de incêndio. Pior que isso, a Casa não dispõe sequer de servidores treinados para casos de incêndio(!). Não acredita? Pois confira aqui.

Quando a canção de Sacha Distel fez sucesso, fazia 3 ou 4 anos que se encerrara a «Guerra da Lagosta», um daqueles conflitos sem batalha e sem sangue. Foi nessa época, dizem, que De Gaulle teria pronunciado a célebre frase «o Brasil não é um país sério». Dizem outros que jamais o general teria cometido tal afronta. Ele nunca confirmou. Tampouco desmentiu. Vamos deixar para voltar ao assunto noutra ocasião.

Neste finzinho de janeiro, passados alguns dias do pavoroso drama de Santa Maria, aparecem outros podres, aos borbotões: casas de espetáculo funcionando sem alvará, proteção contra incêndio inexistente, pessoal não treinado. Em resumo: é a ganância de braço dado com a irresponsabilidade. Se nem a Câmara ― a casa dos representantes do povo brasileiro! ― escapa do descaso, imagine o resto. Nossos 513 deputados devem, realmente, estar totalmente ocupados com outros assuntos.

É urgente que os poderosos que mandam no Brasil tomem um banho de integridade e de probidade. Queira o destino que o inconcebível drama gaúcho tenha sido a última tragédia decorrente de desleixo aliado ao descaso e à cupidez. Já está na hora levar as coisas a sério.

Que o clichê sublinhado pelo irreverente Incendie à Rio possa ser atirado à lata de lixo do passado. Para nunca mais voltar.

Em boca fechada…

José Horta Manzano

Artigo da Folha online de 29 de janeiro nos dá conta de uma palestra proferida por um coronel. Em sua fala, o militar exprime temor de que ataques cibernéticos possam «acabar com a Copa do Mundo de 2014».

Tenho dois reparos a fazer. O primeiro vem perfeitamente expresso por um velho provérbio italiano: «certe cose no si dicono, si fanno», certas coisas não se dizem, se fazem.Psiu 1 Nós outros temos também um refrão, muito popular, que dá o mesmo recado. Costumamos dizer que «o segredo é a alma do negócio». No frigir dos ovos, os dois ditados vão na mesma direção. Lá, como aqui, a sabedoria popular costuma pairar acima de atitudes impensadas.

Anunciar aos quatro ventos que um hipotético malfeito pode até vir a realizar-se não ajuda ninguém, nem esconjura o perigo. Pelo contrário, pode até dar más ideias aos que, mal-intencionados, não tinham pensado nisso. É atitude contraproducente.

Certos riscos podem ― e devem ― ser sopesados, avaliados, considerados no âmbito de comitês, círculos e departamentos criados justamente para esse fim. Não é prudente subir ao telhado e gritar ao povo o nome do perigo e a estratégia que será usada para combatê-lo. Pouco estímulo já basta para que mentes malfazejas passem do plano ao ato.

Piratas, que antes arriscavam a pele ao atacar caravelas a fim de subtrair-lhes o precioso carregamento, hoje se ocultam por detrás da tela anônima de seus computadores. E podem ser tanto ou mais maléficos do que foram seus predecessores. A ver meu, a prudência impõe a discrição em assuntos sensíveis como esse de que o coronel tratou.

O segundo reparo que tenho a fazer é ainda menos alentador. Tantos são os possíveis ― e altamente previsíveis ― problemas que atropelarão nosso País durante a Copa e os Jogos Olímpicos, que a venda de bilhetes falsos parece um mal menor, se é que assim me posso exprimir.

Psiu 2Logística, acomodação, alimentação, intercompreensão, criminalidade corriqueira não dependem de especial malevolência de mentes tortuosas. São empecilhos que já estão aí e que atormentam nacionais e estrangeiros a cada dia. Com toda certeza, estorvarão também as manifestações esportivas previstas. A fala do militar só veio borrifar um pouco mais de combustível às brasas que dormitam.

Às vezes, é melhor trabalhar calado.

Alvíssaras!

José Horta Manzano

Séculos de presença árabe na Península Ibérica deixaram marcas. Visitas tão demoradas não se esquecem assim tão facilmente. O tempo se encarregou de apagar muita coisa, mas a língua tratou de guardar o que lhe pareceu apropriado. Entre milhares de termos, expressões, palavras, uma cai especialmente bem hoje. Alvíssaras!Visages

Os dicionaristas não são uníssonos quanto à origem da expressão. Para o Houaiss, o Aulete e o Priberam, virá do árabe al-bixra ou al-buxra. Para o Aurélio, o termo é descendente de al-basara. Pouco importa. Todos concordam que se trata de uma boa nova. Uma excelente nova!

A notícia, publicada pelo Estadão de 28 de janeiro e repercutida por Exame e pela Veja, é um começo de uma suspeita de uma esperança de um início de um primórdio do advento de uma solução para o gravíssimo problema da concentração urbana que marca o Brasil atual.

A falta de visão ― sempre ela! ― que caracteriza nossos governantes desde Tomé de Souza gerou um filhote bastardo: a falta de planejamento. Bastardo ou legítimo, o fruto não costuma cair muito longe da árvore. Temos aí mais uma prova. Governantes que exercem sua função com a ideia única de enricar e de preservar seu poder não se preocupam em preparar um futuro melhor para seus governados.

O vácuo total de planificação do crescimento populacional de nosso País engendrou uma desorganização na implantação da infraestrutura. Enquanto algumas poucas regiões concentram uma oferta regular de serviços básicos, outras carecem do estrito necessário. O Brasil, potência econômica de que mutos se orgulham, tem ainda municípios sem esgoto, sem água tratada e até sem estrada de acesso. Um desequilíbrio incompreensível. Visível e perigoso.Multidão

A atração que os centros dotados de alguma oferta de serviços tem exercido, ao longo das décadas, é irresistível. O resultado é o inchaço desmedido de algumas concentrações humanas e o despovoamento de territórios inteiros, largados ao deus-dará.

Não é fenômeno exclusivamente brasileiro, longe disso. É característica dos países do Terceiro Mundo, hoje pudicamente chamado de «países em desenvolvimento» ou até, com certo exagero, de «nações emergentes».

A concentração de multidões em espaço exíguo acaba por provocar efeito perverso. Ao invés de se elevar, o nível dos serviços decai. Ao final, o que se vê é um amontoado humano em que uns poucos bem-nascidos ou bem-sucedidos se locomovem em helicóptero, enquanto aos demais resta apinhar-se em sacolejantes e improváveis transportes coletivos. Lentos, ruidosos, desconfortáveis e sobretudo perigosos.

A melhor notícia do dia ― e das últimas semanas ― é a intenção do governo paulista de implantar 400km de linhas férreas radiais regionais, a partir da capital do Estado. Entendamo-nos bem: estamos, por enquanto, na fase das boas intenções. Nada nos garante que o desafogo da região central venha a ser realidade tão já.Multidão 2

Assim mesmo, intenção por intenção, essa é das boas. Caso ― digo bem: caso ― se concretize, servirá de exemplo para outras concentrações populacionais por esses brasis afora.

Resta-nos esperar que não esteja longe o dia em que nossas «metrópoles», de que tantos parecem se orgulhar, perderão suas características africanas e se aproximarão de padrões aceitáveis.

Alvíssaras, pois! Pior que está não fica. O resto se vê depois.

Para comemorar o aniversário

José Horta Manzano

1900 - Antigo Viaduto do Chá

1900 – Antigo Viaduto do Chá

Hoje é 25 de janeiro. A cidade de São Paulo comemora seu aniversário oficial. Para os paulistanos, é feriado, viva! Mas há polêmica em torno da data.

Uns dizem que os jesuítas não podem ter construído a igreja da noite para o dia, portanto, marcar uma data de fundação da cidade é termo equivocado. A missa realizada às 6h da manhã de 25 de janeiro de 1554 simbolizaria apenas a inauguração de um núcleo já fundado e habitado.

Outros invocam o fato de já existir, naquela altura, um outro núcleo colonial mais antigo, situado em Santo André da Borda do Campo. O mandachuva do lugar era o português João Ramalho, aquele que nossos livros de História nunca explicaram direitinho como é que tinha conseguido subir ao planalto antes dos jesuítas, desbravadores oficiais.

O novo povoado inaugurado em 1554 nada mais seria do que a transferência do bastião já existente em Santo André para um local mais seguro, mais facil de proteger. Se a colônia já estava lá, não pode ter sido fundada no dia e no ano que nossa historiografia reteve. O 25 de janeiro seria, portanto, apenas o dia da mudança.

1925 - Antigo Viaduto do Chá

1925 – Antigo Viaduto do Chá

Seja como for, na falta de provas cabais com firma reconhecida em cartório, fiquemos com a data oficial. Vale tanto quanto qualquer outra.

Para combinar com o dia, quero falar-lhes sobre o Viaduto do Chá, um dos símbolos maiores da cidade. O que nem todos sabem é que o viaduto que conhecemos hoje não é o original. Um outro existiu antes dele.

Jules Martin (1832-1906), um imigrante francês bastante ligado às artes e à arquitetura, apegou-se de tal modo à cidade que passou a se empenhar em resolver alguns de seus problemas. Muito conhecida é sua planta de São Paulo, feita com arte e esmero em 1877. Por essa mesma época, veio-lhe a ideia de construir uma ponte ligando o centro da cidade aos novos bairros que surgiam do outro lado do vale do Anhangabaú.

Não foi empresa fácil. Reunir os fundos necessários, convencer os edis, obter ganho de causa na desapropriação de casarões pertencentes a figuras influentes, tudo isso foi uma batalha que consumiu 15 anos. O viaduto foi finalmente inaugurado em 1892, assentado em sólida estrutura de ferro importado.

A cidade cresceu muito e muito rápido. Trinta anos mais tarde, a obra começou a parecer acanhada, estreita, insuficiente. Novo projeto foi feito.

1945 - Novo Viaduto do Chá

1945 – Novo Viaduto do Chá

Desta vez, o leito da ponte teria o dobro de largura e ficaria assentado sobre um elegante arco de concreto sustentado por dois largos pilares. O novo viaduto, esse que está lá até hoje, foi inaugurado em 1938.

Mas… que fazer entre a demolição do primeiro e a construção do segundo? Como fariam bondes, automóveis e transeuntes para atravessar de um lado para o outro? A solução encontrada foi simples: primeiro, constrói-se o novo; só então, demole-se o velho. E assim foi feito.

O novo viaduto não ocupa, portanto, o lugar exato do antigo. Fotos, vistas, gravuras da velha construção e da nova encontram-se por toda parte. O que eu nunca tinha visto era um retrato das duas pontes coexistindo: a nova já pronta, e a velha ainda de pé. Consegui, por um desse acasos difíceis de explicar, uma foto de 1938, creditada a Benedicto J. Duarte, que mostra justamente o breve período em que as duas construções coabitaram, uma praticamente colada à outra. A raridade fotográfica está logo mais abaixo.

O viaduto da esquerda é o novo, mais largo. Talvez no futuro se encontre algum outro testemunho visual desse momento singular. Por enquanto, acredito eu ser essa a única imagem.

Atualmente - Novo Viaduto do Chá

Atualmente – Novo Viaduto do Chá

No primeiro plano, à direita, está o prédio da Light, hoje transformado em centro comercial. Sempre à direita, mais ao fundo, percebe-se o prédio Matarazzo em construção, um dos raros testemunhos da arquitetura mussoliniana existentes na cidade. Depois da débâcle do império Matarazzo, o prédio serviu de sede para o Banco do Estado (Banespa). Atualmente, abriga a Prefeitura do município.

No fundo, à esquerda, vê-se o Palacete Prates, na esquina da Praça do Patriarca com Líbero Badaró. Seria demolido nos anos 60 para ceder lugar a uma torre de vidro que guarda o nome do antigo proprietário. É o Edifício Conde de Prates.

Feliz aniversário, São Paulo!Viaduto do Chá I e II

Nota: Clique nas fotos para aumentar

Quem te viu, quem te vê

José Horta Manzano

«Je vous parle d‘un temps que les moins de vingt ans ne peuvent pas connaître». Essa é a primeira estrofe da belíssima canção ‘La Bohème’, obra de Charles Aznavour, um dos maiores letristas da língua francesa. Eu lhes falo de um tempo que os que têm menos de vinte anos não conheceram.

Também eu quero falar-lhes hoje de uma outra era, um tempo que a gente tem dificuldade em acreditar que tenha existido.

O Brasil é o gigante demográfico, industrial e econômico da América do Sul. Apesar de seus males ― que são muitos, sejamos honestos ― é o número um, sem concorrência nesta parte do mundo. No entanto, nem sempre foi assim.Para ti

Até meados do século XX, a nação preeminente do subcontinente não era nosso País, era a Argentina. Eram melhores que nós em quase tudo: poderio econômico, instrução pública, parque industrial, renda per capita, nível cultural, abertura para o mundo. Cem anos atrás, quando uma parte da população europeia, empurrada pela pobreza ou pelo espírito de aventura, tomou a decisão de emigrar, para cada um que escolhia o Brasil, dois se decidiam pela Argentina.

Em 1913, Buenos Aires já inaugurava sua primeira linha de metrô, feito que o Brasil só conseguiu igualar 60 anos mais tarde. Linhas marítimas que ligavam a Europa à capital portenha chegavam a anunciar acintosamente: «sem escala no Rio de Janeiro». As febres tropicais que se podiam contrair na capital de nossa República afastavam muita gente.

Nos anos 50, o Brasil ainda não podia se dar ao luxo de editar uma revista semanal dedicada exclusivamente ao público feminino. A Argentina já tinha a sua fazia muito tempo. Foi tentando soletrar os escritos do Para Ti, que uma velha tia-avó comprava sempre que lhe sobravam uns cobrinhos(*), que tive meu primeiro contacto com a língua de nossos vizinhos.

Nossos hermanos tinham tudo para continuar um caminho de sucesso. Era o que todos imaginavam. No entanto, não foi assim.

Que terá acontecido? Fica a impressão de que, em algum momento, alguma coisa se partiu, se interrompeu. O processo deu uma guinada. Quando e por quê? Economistas, sociólogos e cientistas políticos têm proposto explicações para essa deterioração. Não sendo especialista, não me cai bem especular. Não me resta senão constatar.

Fiquei surpreendido e, por que não dizê-lo, entristecido com uma reportagem transmitida pelo jornal da tevê suíça do dia 22 de janeiro. Conta a terrível história de uma mulher jovem, imigrante argentina vivendo atualmente em Genebra, na clandestinidade. A pobre gostaria de voltar para seu país, mas não tem dinheiro para comprar o bilhete.

A fim de obter a quantia necessária, a infeliz criatura propôs vender um de seus rins ou, eventualmente, uma parte de seu fígado. Uma história desatinada, inacreditável, de deixar boquiaberto.

Embora nunca tendo tido de enfrentar essa situação, creio saber que nossas representações diplomáticas têm obrigação de conceder uma passagem de volta a brasileiros que se encontrem em apuros no estrangeiro, como parece ser o caso dessa desventurada senhora.

Evidentemente, o bilhete de passagem posto à disposição do cidadão em dificuldade pelas autoridades consulares brasileiras nunca será dado de mão beijada. O repatriado não se safará com um simples «muito obrigado». Parece que nem mesmo um “Deus lhe pague” basta. O indivíduo terá de reembolsar o erário. Se não o fizer, dificilmente obterá novo passaporte.

Antes de mais nada, seria útil investigar a fundo a história dessa doadora singular. A ser verdadeira, é preocupante. Desconheço a regulamentação argentina no que tange à assistência que prestam a seus nacionais em caso de dificuldades no exterior. Tudo parece indicar que as leis de lá são diferentes das nossas. Como é que pode?Rico e pobre

Que o país vizinho esteja em situação econômica mais que complicada, disso sabemos todos. Mas que abandonem seus cidadãos ao deus-dará, obrigados a roçar atos desesperados como a ablação consentida de um órgão(!), aí já estamos passando dos limites. Entramos no cenário do salve-se quem puder.

De qualquer maneira, a lei suíça não permite a comercialização de órgãos. Doação, sim; venda, nunca. Portanto, não é por esse meio que a infortunada moça obterá sua passagem. Na Suíça, seus órgãos estarão salvaguardados.

Já disse alguém que uma nação só é grande quando consegue proteger seus cidadãos mais frágeis. Se, no Brasil, ainda temos um bom caminho a percorrer, parece que nossos hermanos estão metidos numa verdadeira camisa de onze varas.

Quem quiser assistir ao bloco de 2½ minutos do jornal suíço (em francês), clique aqui.

(*) O nome da pequena quantia de dinheiro que se leva no bolso varia com o tempo. O que hoje dizemos “uns trocados” já se chamou “manolitas” e, antes disso, “uns cobrinhos”. Fazia referência às moedas de menor valor, então feitas de cobre.

Melhorou um bocado

El Malecón

El Malecón

José Horta Manzano

Dia 8 de janeiro, postei o texto De quoi je me mêle?  para expressar minha indignação contra o que me pareceu uma intromissão irresponsável da República Federativa do Brasil nos assuntos internos da vizinha Venezuela.

Mais do que a ingerência explícita, chocou-me o fato de a manifestação impertinente, que empenhava nossa nação, ter partido de um mero assessor especial da presidência da República.

Uma semana depois, em 15 de janeiro, nova intrusão ― anônima, é verdade, mas presumivelmente oriunda do mesmo gabinete ― obrigou-me a voltar à carga. Argumentei em novo post ― Ah, se Bolivar soubesse… ― que a Venezuela não era um protetorado brasileiro. Não cabia a nossas autoridades dar pitacos em seus assuntos internos.

Não acredito que os mandachuvas de Brasília se deixem guiar por minha visão de mundo, embora ache modestamente que, se o fizessem de quando em vez, talvez não lhes ficasse mal.

Deve-se dar a César o que lhe pertence. E razão, como sabemos todos, dá-se a quem tem. Hoje quero exprimir meu alívio. Finalmente, o Itamaraty deu mostra de que ainda guarda um resquício de bom senso. Alvíssaras!

A Agência EFE, em notícia repercutida por diversos órgãos de imprensa, informa que o titular das Relações Exteriores de nossa República ― ministro que leva o adequado e conveniente nome de Antonio Patriota ― foi muitíssimo mais prudente sobre o assunto.

Em entrevista coletiva, nosso chanceler evitou dar diretivas ao governo venezuelano. Diferentemente do desastrado assessor especial, ponderou que cabe às autoridades do país vizinho encontrar solução para o imbróglio político em que se enfiaram. A meu ver, ainda falou mais do que precisava, talvez levado pelo entusiasmo do momento. Assim mesmo, manteve postura profissional e não cometeu o irreparável. Veja aqui e aqui.

Talvez nosso iracundo assessor especial tenha sentido o desaveu, o discreto puxão de orelha. Talvez não. Em todo caso, permito-me dar a ele uma sugestão: faria melhor se decidisse passar uma temporada numa certa ilha caribenha. Se faltar dinheiro para a passagem, posso até oferecer pequena contribuição para completar a vaquinha. Meu óbulo não há de ser pesado, pois periga sermos muitos a querer contribuir.

A brisa suave que sopra por sobre o malecón(*) e o mormaço tropical não hão de lhe fazer mal. Poderia até aproveitar para congraçar-se com velhos companheiros, hoje já companheiros velhos.

Entrevistas coletivas não são comuns naquelas paragens. O silêncio evitaria, assim, que o mundo ouvisse o santo nome de nossa República atrelado a uma percepção política que estacionou nos anos sessenta.

Não custa sonhar, não é mesmo?

(*) Malecón é o nome do passeio marítimo de Havana.

O Brasil e a saúde

José Horta Manzano

Uma vez, de visita a uma unidade de saúde de Porto Alegre, um mandachuva graúdo, muito conhecido, daquele tipo que costuma dizer o que lhe vem à cabeça, saiu-se com esta: “Eu acho que não está longe da gente atingir a perfeição no tratamento de saúde neste país”. O séquito anuiu e aplaudiu. Cortesãos costumam dizer amém a tudo o que seu mestre diz.  Parece que houve até quem acreditasse na gabarolice.

Passaram-se 7 anos. Um artigo da Folha de São Paulo deste 18 de janeiro escancara uma realidade a anos-luz do que havia declarado o figurão. Nunca saberemos se ele foi sincero quando disse o que disse ou se sabia que suas palavras levianas visavam apenas a aparecer no jornal televisivo.Boné enfermeiro

Segundo a investigação da Folha, é conveniente que os paulistanos fujam de dores lombares e de fraqueza nas pernas. O exame necessário para encontrar a origem do mal tem fila de espera de 35 meses (= 3 anos!). Já para os que precisam se submeter a uma colonoscopia, o futuro é mais risonho: apenas 10 meses de paciência são suficientes.

Na espera de conseguir a graça de uma consulta ou de um exame na maior, mais rica e mais bem aparelhada capital brasileira, perto de 700 mil compatriotas usufruem seu quinhão da quase-perfeição alardeada em 2006. Continuam na fila.

Il faut choisir entre la peste et le choléra, dizem os franceses quando se defrontam com um dilema, com uma escolha obrigatória entre duas opções ruins.

Que Deus ajude os trabalhadores brasileiros, aqueles mesmos que entregam ao governo parte de seu salário magro sem lograr reavê-lo sob forma de cuidados públicos com a saúde.

Dia destes, vão ter de escolher entre câncer e aids. E isso não é metáfora.

Crime & castigo

José Horta Manzano

Andei lendo um artigo do sisudo Financial Times sobre práticas quase-legais, comuns no Brasil. A revista tenta explicar a seus leitores o que é e como funciona o jeitinho brasileiro. Poucos devem ter entendido. Palavras são insuficientes para descrever uma realidade da qual o leitor está muito afastado.

Achado não é roubado. Taí um provérbio perfeitamente plausível e aceito no Brasil, mas incompreensível para muitos povos, entre eles os europeus do norte. Para um alemão (ou um inglês, ou um suíço, ou um finlandês, ou um belga), o fato de alguém ter encontrado um objeto perdido por outro indivíduo não lhe confere posse automática.

Uma pessoa é possuidora daquilo que lhe tiver sido vendido, dado de presente, doado. Pode até apossar-se do que tiver sido atirado ao lixo. Mas não tem ― ou não deveria ter ― direito de propriedade sobre objeto a cuja posse o dono legítimo não tenha renunciado. O provérbio achado não é roubado pode servir para ladrões, não para gente honesta.

Disco de estacionamento

Disco de estacionamento

Leis variam conforme o lugar do planeta. O que é permitido aqui pode perfeitamente ser proibido ali, e vice-versa. Diferenças refletem a diversidade cultural entre países e regiões. No entanto, um princípio é básico e universal: leis são feitas para serem cumpridas.

Na teoria, pelo menos, é assim. Mas por que é que a teoria funciona em certos lugares e não em outros? Por que será que alguns povos cumprem virtuosamente os preceitos legais, enquanto outros são mais laxistas e convivem com jeitinhos?

A resposta está no empenho de cada sociedade em fazer que a lei seja cumprida. Quando há concordância sobre o fato de que as normas devem ser respeitadas, a própria comunidade se encarrega de coibir desvios. Em palavras mais chãs: quando todos entendem que a lei deve ser cumprida, uns vigiam os outros.

Uma vez, anos atrás, deixei o carro num lugar onde o estacionamento era permitido durante 15 horas. Parava-se o veículo e punha-se um disco horário, visível do lado de fora, indicando a hora de chegada. As 15 horas expiravam à 3h da madrugada, mas eu tinha intenção de ficar até as 8h da manhã. Que fazer? Pensei: «mas que bobagem, nenhum guarda vai aparecer para multar às 4h da madrugada, numa rua residencial, escura e tranquila». Fui dormir tranquilo, sem imaginar que havia cometido um erro de avaliação. Um guarda veio no meio da noite e grudou o desagradável papelzinho no para-brisa. Resultado: paguei a multa e nunca mais bobeei em matéria de estacionamento. A quase certeza de ser sancionado inibe o cidadão na hora de descumprir regulamentos.

Alguns meses atrás, recebi uma multa por excesso de velocidade. Fui flagrado por um radar. Não havia como reclamar: dia, hora, minuto e lugar exato estavam anotados e fotografados. Um detalhe: o excesso foi de… 1 km/h (um quilômetro por hora!). Não adiantava reclamar. Paguei. Dura lex, sed lex.

Quero ainda contar uma aventura acontecida com um conhecido meu, faz já alguns anos, no tempo em que telefones de bolso não existiam. Ele tinha estacionado na rua, junto à calçada, com um carro atrás e outro na frente. Na hora de ir embora, fez uma manobra desastrada e amassou de leve o para-choque de um dos que estavam estacionados. Em casos como esse, o costume aqui é deixar um cartão de visitas, um papelzinho, um recado qualquer, preso no vidro do carro atingido. O autor do descuido deixa-se um pedido de desculpas e seus próprios dados, para que o dono do outro carro possa entrar em contacto com vistas ao ressarcimento.

Meu conhecido não tinha cartão, nem papel à disposição. Teve, então, uma ideia. Memorizou o número da placa do carro acidentado. Chegando em casa, ligou imediatamente para a polícia, identificou-se, contou o que tinha acontecido e deu o número da placa que havia decorado. O policial disse-lhe textualmente: «ainda bem que o senhor ligou, porque já tínhamos recebido três denúncias feitas por pessoas que testemunharam o ocorrido».Acusação

.:oOo:.

Espantoso para quem não está acostumado, não é? Pois é assim que funciona. Costumo dizer que um alemão (ou um sueco, ou um holandês, ou um austríaco) não é mais nem menos honesto do que um brasileiro. Se ele cumpre as leis, é porque sabe que, se não o fizer, dificilmente se livrará da sanção. Se não for flagrado pela autoridade, não escapará da vigilância da sociedade.

No dia ― ainda muito distante ― em que os brasileiros se compenetrarem de que fazem todos parte da mesma sociedade, no dia em que se derem conta de que o malfeito de um prejudica a comunidade inteira, a criminalidade e o jeitinho entrarão em queda acelerada.

Mas ainda vai levar tempo, que ninguém se afobe. Até lá, muita água ainda vai correr pelo Amazonas.

Parceria estratégica

José Horta Manzano

Já faz uns dez anos que, na onda de alinhamento automático com tudo o que lhe soasse antiamericano ou antieuropeu, o governo brasileiro houve por bem incentivar as curiosas relações político-comerciais ditas «sul-sul». Stricto sensu, a expressão é gritantemente inexata. É um tremendo equívoco sustentar que China, Rússia e Índia sejam países «do sul». Mas relevemos a impropriedade geográfica e passemos ao que interessa.

Todas las monedas tienen dos caras ― dizem os espanhóis. Para nós, a cara está de um lado apenas. E a coroa, entalhada no verso, nem sempre é tão reluzente como parece.

Desdenhando as economias ricas ― hoje conhecidas como «países centrais» ― o Brasil preferiu cortejar nações periféricas. Após um rufar de tambores que prenunciava futuro radioso, a mágica está dando chabu. A realidade é cruel e começa a revelar-se pouco faceira.

Ninguém se deu conta de que as nações ditas emergentes têm necessidades semelhantes às nossas. Nossos manufaturados não são de grande valia para esses novos parceiros. A complementaridade que se buscava tinha outro nome: concorrência. Competição feroz.

Nossa obstinação tinha objetivos muito mais políticos do que comerciais. Em vez de seguir o sábio exemplo de países que alavancaram o nível de vida de seu povo fortalecendo a economia discretamente, na moita, sem se preocupar em aparecer como grandes potências, o Brasil instalou a carroça à frente dos bois. Deu-se ares de nação poderosa sem se preocupar em reforçar seu esqueleto, em sanar suas próprias deficiências. Nossa infraestrutura continua rudimentar, a calamitosa instrução pública continua a prover nossa juventude de formação tosca.

Deu no que deu. O Brasil, um gigante em aparência, continua assentado em pés de barro. Ações são tomadas apenas em caráter de emergência, no sufoco, sem planejamento de longo prazo. Remenda-se aqui, tapa-se um buraco ali, constrói-se um puxadinho acolá. Toca-se a trombeta, mas a banda não acompanha.

Mas não reclamemos, gente impertinente! Ainda nos resta… o feijão! Esse é nosso, e ninguém nos tira. Será?

A China ― sempre ela, o nosso melhor «parceiro estratégico» ― tem usufruído de nossa ingenuidade. Não acredita? Pois então continue a leitura.

O bacalhau vem de Portugal ou da Noruega. E o feijão preto, evidentemente, é produto da terra, brasileiro legítimo. Certo? É o que imaginamos todos. A realidade é um pouco diferente.

Crédito: Die grüne Speisekammer

Crédito: Die grüne Speisekammer

Artigo pra lá de instrutivo publicado pela Folha de São Paulo deste 15 de janeiro nos informa que a China se tornou nosso maior fornecedor de feijão preto. Estamos comprando feijão da China, companheiros!

E não é só. Nos últimos quatro anos, a importação de produtos agrícolas cultivados em terras chinesas quadruplicou. Passou de 0,8 a 2,3 bilhões de dólares por ano. E a gente que imaginava que o grande país oriental, superpovoado, não tinha espaço nem para enterrar seus mortos na horizontal. Vivendo e aprendendo.

Já faz anos que nosso país se desindustrializa. Disso, já sabíamos todos. Pois agora ficamos sabendo que nos tornamos dependentes da China para o feijão nosso de cada dia. E para o bacalhau também, pasmem.

Como é reconfortante saber que estamos sendo governados por gente de visão. Viva a parceria estratégica!

Mais um

Àqueles que acham que me excedi ao criticar a intromissão da diplomacia brasileira no caso da vizinha Venezuela ― cujo presidente eleito está impedido de tomar posse do cargo por problemas de saúde ―  recomendo dar uma espiada no artigo de Elio Gáspari publicado pela Folha desta quarta-feira. Ultraexperiente em política, o jornalista não só vai direto ao ponto, como também faz um paralelo com situações já vividas pelo Brasil no tempo dos militares. Vale a pena conferir.

Identidade de análise

José Horta Manzano

Publiquei ontem um post que chamei  De quoi je me mêle. No escrito, eu me insurgia contra o fato de o governo brasileiro interferir desabridamente em problemas internos de um país vizinho.

Vejo hoje, reconfortado, que um dos editoriais do Estadão vai exatamente pela mesma linha e com os mesmos argumentos. É bom a gente sentir que não está só. Confira.

Da nacionalidade

Passaporte BRJosé Horta Manzano

Universidades costumam distribuir ― nem sempre judiciosamente ― títulos de doutor honoris causa a cidadãos preeminentes. Poíticos e artistas são as escolhas mais frequentes. É um excelente investimento: não custa grande coisa, aumenta a visibilidade da universidade e bajula um figurão.

A mim sempre pareceu uma homenagem inadequada. Um título de doutor se consegue depois de muita luta, de grande esforço, de enorme dedicação, de incontáveis sacrifícios. É um atestado de capacidade e, principalmente, de mérito. Não fica bem distribuí-lo como mimo a figurões. Chega a humilhar os que transpiraram para chegar lá.

Outro costume me chama a atenção. É a outorga do título de cidadão honorário de um município. O afago foi instituído com bastante lógica, para saudar pessoas que, embora sendo originárias de um município, tenham trazido benefícios a outro. Este último mostra seu reconhecimento ao forasteiro, em homenagem pública.

Outra coisa é distribuir títulos de cidadão honorário a torto e a direito a figurões da política ou do mundo do espetáculo. Em geral, são gente que pouco ou nada fez em prol do município outorgante. É menos grave que um título de doutor dado a quem não merece, concedo. Mas não deixa de ser um escárnio com relação à população do município.

Jornais do mundo inteiro, entre eles o francês Le Monde nos informam que uma nova modalidade de homenagem está sendo inaugurada estes dias: a distribuição de passaportes. O ator francês Gérard Depardieu acaba de receber um passaporte russo. Foi-lhe concedido por simples decreto do presidente Putin. Antes disso, a ligação do ator com a Rússia se resumia a três pontos: ter decorado às pressas algumas palavras do idioma local; ter tido um pai comunista; ter recentemente representado o papel de Rasputin num filme girado no país. Mais nada.

Nem todos os russos apreciaram. Gérard Depardieu enalteceu a “grande democracia” russa, fato que enfureceu muita gente. Por outro lado, o ator tem a fama de «lever le coude» (= levantar o cotovelo), expressão caseira que os franceses usam para apontar alguém que exagera na bebida. Um dos simpatizantes de Putin ― cineasta russo nacionalista ― não apreciou a prenda ofertada pelo presidente ao ator. Sarcasticamente, comentou: «teremos um alcoólatra a mais!».

Um artigo do Estadão online nos informa que, indagado pelo entrevistador, Gérard Depardieu respondeu que sim, aceitaria de bom grado um passaporte brasileiro, se o documento lhe fosse oferecido.

Que se distribuam, a torto e a direito, títulos honoríficos de doutor ou que se espalhem títulos de cidadão deste ou daquele município já são práticas discutíveis. Agora, que se instale a moda de oferecer nacionalidade por capricho presidencial já estamos passando dos limites.

A nacionalidade ― sua aquisição e sua perda ― estão perfeitamente definidas em nossa Constituição e em leis complementares. Outorgá-la não é, nem pode ser, direito privativo e discricionário do chefe do executivo. Para obtê-la, há um caminho a ser trilhado.

Para casos de urgente necessidade de caráter humanitário, há outros expedientes à disposição das autoridades. A concessão da nacionalidade não é mimo que se ofereça, sem mais nem menos, a figuras populares.

Nacionalidade não é brinde, é bem mais sério que isso.

De quoi je me mêle?

José Horta Manzano

Caso você cometa a indelicadeza de se meter em assuntos alheios, caso se intrometa onde não foi chamado, os franceses têm uma receita pronta para exprimir irritação. «De quoi je me mêle?» ― lançam eles de bate-pronto. É sempre difícil traduzir expressões ao pé da letra. Mas o sentido da repreensão é claro: o que é que você tem a ver com isso?

Conhecemos todos várias expressões que vão pelo mesmo caminho. Sabemos que, em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher. Ninguém ignora tampouco que cada um deve saber onde lhe aperta o sapato. E até criança sabe que sapo de fora não chia. Todos sabemos disso. Eu disse todos? Engano meu, caro leitor, engano meu.

Tem gente por aí que deve ter perdido algumas aulas de bem viver. Enquanto opiniões indevidas se restringem ao âmbito privado, permanecemos no nível de desavenças familiares, de discussões de cortiço, de palpites de vizinho. O resultado pode ser, no máximo, uma cara-fechada.

O poder executivo brasileiro tem a felicidade de poder contar com os préstimos de diversos assessores. Em outros lugares do mundo, seriam chamados conselheiros. Um desses personagens ― que serviu ao presidente anterior e continua, firme e forte, aconselhando a presidente atual ― especializou-se em dar seus palpites em matéria de política estrangeira.

É um tanto inadequado, dado que temos um Ministério especificamente dedicado às relações com países estrangeiros. O assessor ao qual me refiro situa-se numa espécie de limbo, uma peça solta no organograma. Sua função parece ser a de corroborar, sempre que necessário se faça, que nosso País persiste em seu apoio a governos autoritários.

Esse senhor declarou estes dias que o Brasil apoia o adiamento da tomada de posse do mandatário da vizinha Venezuela. Confira aqui e aqui. Cada um é livre de ter sua opinião. Por enquanto, pelo menos. Mas aqui fomos mais longe. O assessor não disse que essa era sua opinião, mas exprimiu-se em nome de 200 milhões de compatriotas. É surpreendente que um simples conselheiro da República, que nem ministro é, esteja imbuído de poder tão excelso.Blabla 2

Alguns imaginaram que a malograda intromissão em assuntos internos de Honduras tivesse servido de lição a nossa diplomacia errática. Enganaram-se. Mais improvisação ainda estava por vir.

Outros acharam que a traiçoeira suspensão do Paraguai do Mercosul ― aprovada pelo Brasil ― era o vexame máximo, impossível de ser suplantado. Enganaram-se de novo. Os três sócios se irmanaram numa malandragem ainda mais audaciosa: valeram-se da ausência do parceiro privado de voz para determinar a entrada da Venezuela no clube.

Trágico é o destino de um País cujo governo não aprende com seus próprios erros. A reincidência está aí. Nosso sublime assessor especial alevantou um imenso auto de fé, lançou nele todos os manuais de recato e de prudência, e cedeu à soberba. Interferiu mais uma vez na política interna de um vizinho. Em nome de todos nós, frise-se.

Já dizia Tom Jobim que o Brasil não é um país para principiantes. Nem para amadores, completaria eu. Até prova em contrário, a Venezuela é um país de direito, adulto e vacinado. Rege-se por uma constituição. Se houver controvérsias, elas hão de ser resolvidas pelos próprios venezuelanos. Cabe a eles a decisão, e não a um assessor do governo brasileiro. Nem que esse assessor seja «especial».

O remendo

O remendo 1José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 janeiro 2013

A língua portuguesa escrita não está longe de completar um milênio. Nos primeiros séculos, escrever não estava ao alcance de qualquer um. Só os eclesiásticos e os bem-nascidos eram letrados. Naquele contexto, a grafia das palavras dependia do gosto do freguês. Cada escriba manejava sua pluma da forma que melhor lhe aprouvesse.

Hoje e oj eram equivalentes; ver e veer também; coraçon e corazon eram aceitos indistintamente. A escrita não estava codificada, nem muito menos normatizada. Era o paraíso dos escritores, que, livres e soltos, não precisavam consultar dicionários, nem gramáticas. O distinto público leitor era, de qualquer modo, minguado. E dicionários e gramáticas ainda não haviam surgido.

O tempo passou, Gutenberg redefiniu a arte de imprimir, a escrita pôde enfim se popularizar. A estagnação medieval foi perdendo sua característica de imutabilidade das gentes e das coisas. Copérnico e Galileu movimentaram planetas, e o universo deixou de ser estático.

O uso de nossa língua também se acelerou. Num movimento espontâneo, a grafia foi-se fixando. Na ausência de normas, a escrita se propagou por imitação. Oj, veer e corazon foram rareando, suplantados pelos modernos hoje, ver e coração.

O 7 de setembro nos separou da metrópole, mas não influenciou a língua. Durante os 50 anos seguintes, famílias abastadas continuavam a mandar seus rebentos a Coimbra. Mesmo assim, a distância linguística entre Portugal e o Brasil foi aos poucos se alargando.

No limiar do século 20, tanto lá quanto cá, muita coisa havia mudado. A produção literária se avolumava. A instrução pública havia dado alguns passos tímidos na difusão da alfabetização. A população brasileira crescia a taxas elevadas e já havia superado a de Portugal. Nossa imprensa, refletindo o falar nacional, já tomava certas liberdades com relação ao rigor da escrita lusa.

Parecia importante que a escrita dos dois países seguisse o mesmo diapasão. No entanto, entre reformas e acordos, o que se viu foi uma inacreditável sequência de contrarreformas e desacordos. De 1907 para cá, a história registra desencontros tais como: reformas impostas aos brasileiros mas não aos portugueses (1971), reformas impostas aos portugueses mas não aos brasileiros (1973), acordos cumpridos pelo Brasil mas não por Portugal (1943), acordos cumpridos por Portugal mas não pelo Brasil (1945), acordos ignorados por ambos (1931). Uma verdadeira casa de mãe joana.

Em 1990, foi costurado um enésimo «acordo», surpreendentemente tímido, confuso e ambíguo. As aberrações se exacerbam quando se chega ao capítulo dos hífens. Sabia o caro leitor que maria-sem-vergonha deve ser escrita assim, com hífen, enquanto maria vai com as outras não admite o tracinho? Sabia que para-choque se escreve separado, enquanto paraquedas se escreve de uma tacada só?

O governo brasileiro, no apagar das luzes de 2012, adiou por 3 anos a obrigatoriedade da nova escrita. A meu ver, fez muito bem. Poderia fazer melhor ainda: deixar o dito pelo não dito e simplesmente revogar esse famigerado «acordo».O remendo 2

Já tivemos reformas suficientes estes últimos 70 anos : 1943, 1971, 1990. Um cidadão de 80 anos está enfrentando seu quarto aprendizado de escrita. Quem tem mais de 50 anos está aprendendo a escrever pela terceira vez. É muita coisa.

O inglês da Inglaterra difere consideravelmente do inglês americano. Há diferenças lexicais, sintáticas, prosódicas e, last but not least, gráficas. Isso não impede que o inglês seja, de facto, a língua universal.

A argumentação dos que alinhavaram nossa nova reforma era de unificar a escrita dos dois lados do Atlântico. No entanto, o volume de exceções é tão grande que a justificativa inicial perde a força. Com ou sem acordo, a escrita de lá será sempre diferente da de cá.

Outra alegação era de que a unificação nos facilitaria a obtenção de cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU. Balela. Nem que a escrita fosse idêntica ― o que não está previsto no acordo ― nosso País estaria em condições de ser aceito naquela confraria. Há outras condições que, infelizmente, não preenchemos.

Quando o remédio parece pior que o mal, como é o caso do AO90, é melhor deixar como está para ver como fica. Se nunca nos pusemos de acordo antes, por que nos poríamos agora? Com acordo ou sem ele, teremos sempre diferenças gráficas entre as duas variantes de nossa língua.

Deixemos que o tempo faça seu trabalho. O que não tem remédio remediado está. No próximo século, voltamos ao assunto.

Contorcionismo contábil

José Horta Manzano

O assunto é meio árido. Melhor deixar que especialistas analisem, que não é minha seara. Assim mesmo, vale uma reflexão.

Jornais anunciam que, para «fechar as contas» de 2012, a União está lançando mão de contabilidade pra lá de criativa. Como um prestidigitador tira coelhos do chapéu, os guardiães das contas da nação têm se prestado a malabarismos nem sempre ortodoxos.

Os gregos, embora ortodoxos em religião, também tiveram o azar de contar com governantes que se valeram de expedientes bem distantes da ortodoxia para encobrir rombos nas contas nacionais. Alguns chamam a isso maquiagem. Os mandachuvas locais pediram ajuda a um grande banco internacional de investimentos e dele obtiveram cumplicidade. A malandragem durou anos. Quando a população descobriu, já era tarde demais.

Como todos sabem, mentira tem perna curta. O que tinha de acontecer aconteceu: o castelo de areia um dia desmoronou. O banco se safou lampeiro, quem pagou o pato foi o povo grego. A farra devastou a economia, além de afetar gravemente parceiros economicamente mais vulneráveis.Currencies

Já se passaram dois ou três anos e, neste momento, ninguém pode ainda afirmar ― com certeza ― que o euro, moeda única utilizada por 17 países, resistirá ao baque. Numa visão catastrófica, há quem enxergue até a extinção da União Europeia, tal como a conhecemos hoje.

Dá calafrios pensar que os magos da economia brasileira possam estar brincando com fogo. Malabarismo pode ficar bem no circo, mas contabilidade é ciência exata.

A contabilidade nada mais é que o espelho da realidade econômica nacional. Quebrar o espelho não vai consertar os problemas econômicos. Melhor atacá-los pela raiz.

Gol contra

José Horta Manzano

Tenho um amigo que viaja ao Brasil agora em janeiro. Como de costume, comprou sua passagem de avião por internet, no site da Swiss Air Lines. Hoje em dia é tudo tão prático, não? Você chega, se identifica, e logo aparece um hello ou um bonjour do outro lado. Você se sente em casa. Faz sua reserva, paga com seu cartão, e na hora já lhe mandam o bilhete por email. Se quiser, pode até marcar o lugar, escolher o tipo de refeição. Uma simplicidade.

Meu amigo quis comprar também uma passagem doméstica, de São Paulo para o interior, ida simples. A localidade de destino é servida por uma companhia chamada Gol (sic). Ele imaginou que fosse uma manipulação simples. Não foi. Ontem tentou, pelejou, não conseguiu. Pediu minha ajuda.Gol

Hoje resolvi dar-lhe uma mão. Imaginei fosse questão de poucos minutos. Engano meu. Obediente, li as instruções e segui tudo ao pé da letra. Nada feito. Só consegui obter mensagens de que havia um erro aqui, outro ali, que não havia sido possível, que tentasse de novo, que o login não havia sido reconhecido, enfim, um monte de baboseiras.

De repente, vejo um botão que me pareceu interessante: clicando ali, você pode conversar diretamente com um atendente ― por escrito, naturalmente ―, como numa sala de bate-papo. Tentei essa opção. Funcionou.

Do outro lado da linha, estava um rapaz muito bem educado, daqueles que transpiram boa vontade e gostam do que estão fazendo, sempre prontos a ajudar. Juntos, tentamos tudo o que se possa imaginar para comprar a passagem: como se o passageiro fosse residente no estrangeiro, como se residisse no Brasil, pagando com cartão Visa, pagando com Mastercard, entrando no site com cadastro, entrando pela porta dos fundos (sem cadastro). Todas as vias foram exploradas, mas nada adiantou.Nenhum cartão foi aceito, todos rejeitados. Impossível comprar a passagem.

O atendimento via sala de bate-papo durou das 11h26 às 13h56, exatamente uma hora e meia. Tempo perdido para o atendente e para nós aqui. Fomos derrotados por um sistema malfeito, um esquema pensado para o pão nosso de cada dia, mas despreparado para qualquer coisa que saia do ramerrão quotidiano. Um cartão emitido no exterior está, aparentemente, fora dos parâmetros. Não há meio de fazer que o sistema o reconheça.

Fico pensando na Copa do Mundo que o Brasil hospedará dentro de um ano e meio. Imagino os apuros em que vão se meter os turistas que pretenderem se deslocar de avião no interior do País. Se nós, que somos de lá, que conhecemos a língua, que temos condições de manter uma hora e meia de bate-papo online não conseguimos comprar uma simples passagem de avião, imagine a frustração programada para os temerários visitantes de 2014.

Uma coisa é «conseguir trazer a Copa para o Brasil», como alardearam os autores do feito magistral, como se isso fosse a apoteose, o objetivo final. Outra coisa, bem diferente e bem mais complexa, é preparar o Brasil para receber a Copa. Para isso, não basta desejar ardentemente, há que trabalhar.

Infelizmente, estamos ainda engatinhando. O Brasil, como destino turístico, ainda está ensaiando, hesitante, seus primeiros passos. Os resultados não vão surgir assim, de um momento para o outro. Pelo andar da carruagem, ainda vai demorar décadas.

Advertência aos incautos: se você tiver de utilizar uma companhia chamada Gol (sic), tome cuidado. Pode ser bola fora ou, o que é pior, gol contra.

O Velho Chico

Nascente do São Francisco

Nascente do São Francisco

José Horta Manzano

Faz exatamente três meses que o professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, assessorado por dezenas de pesquisadores, fez um balanço do estado atual de conservação do Rio São Francisco. Essa contribuição rara e preciosa à visão científica de um dos patrimônios maiores de nossa terra foi reunida no livro Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação, publicado por Andrea Jakobsson Estúdio.

A análise dos especialistas aponta para uma extinção inexorável do rio. Difícil acreditar, mas parece que assim é.  Um artigo do Globo Ciência, publicado em setembro, dá explicação mais extensa sobre o problema. Confira aqui.

O trem-bala

José Horta Manzano

Uma primeira licitação está sendo preparada para a construção de um trem-bala ligando três grandes núcleos urbanos brasileiros: São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro. O valor estimado? Uma bagatela: 35 bilhões. Estimativa inicial, natualmente, sujeita a dobrar ou triplicar nos próximos anos. Mas isso é detalhe. O que são 50 ou 100 bilhões para um país rico e sem problemas como o nosso?

Primeira consideração:
São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro são cidades servidas por aeroportos de primeira linha. Uma ponte aérea funciona há mais de 50 anos entre o Rio e São Paulo, com partidas a cada 10 minutos. Quem tem pressa chega logo.

Train 2Segunda consideração:
Os mais de quarenta mil mortos (40’000!) em acidentes rodoviários que o Brasil registra a cada ano revelam uma desgraça nacional, um descalabro. Assistimos, indiferentes, a um genocídio continuado. Uma diminuição no volume de tráfego rodoviário seria mais que bem-vinda.

Terceira consideração:
Falta visão aos políticos brasileiros. Simplesmente porque são gente despreparada para as funções que pretendem exercer. A mentalidade que trouxe os primeiros povoadores europeus da terra tupiniquim continua valendo entre eles: après moi, le déluge. Depois de mim, pode vir até o dilúvio, porque estou aqui apenas para passar bem e ganhar dinheiro fácil. Se a coisa ficar preta, me mando pra Miami. Tchau e bença.

Quarta consideração:
Desde que se implantaram no Brasil nos anos 50, os fabricantes de automóveis, além de montar carros, montaram um grupo de pressão ― em bom português, um lobby ― destinado a abortar todo plano de expansão da rede ferroviária. As pressões foram tão fortes que desde então o governo central deixou até de investir na manutenção da malha existente. O resultado conhecemos todos: os caminhos de ferro do Brasil foram sucateados.

Conclusão:
Mesmo sem levar em consideração os inevitáveis «ajustes» de última hora, 35 bilhões de reais já é muita coisa. Melhor seria se o governo central investisse essa enxurrada de dinheiro na reabilitaçãTrain 3o do transporte ferroviário.

Na Europa, tirando algum caso muito especial e localizado, o transporte público intermunicipal se faz por estrada de ferro. Os trens são frequentes, limpos, bem cuidados, respeitam o horário, viajam a velocidades de cruzeiro entre 100 e 140km/h. Há sistemas de assinatura para viajantes frequentes: paga-se por mês ou por ano, com bom desconto. Tanto se pode escolher assinar por um determinado percurso ou pela rede nacional.

Aviões não se arriscam a levantar voo ou a pousar sob certas condições meteorológicas. Automóveis e ônibus não conseguem trafegar em pistas alagadas. Os trens são mais confiáveis. Chuva, vento, nevoeiro, frio, calor, neve, gelo ― nada impede que cumpram o prometido. O trem leva seus passageiros do centro de uma cidade até o coração de outra. Confortável e silenciosamente e, o que é ainda mais importante: sem poluir.

No Brasil, o material ferroviário foi liquidado, mas sobrou o traçado das linhas. Pode não parecer, mas a existência dessas rotas já é um grande passo: elimina ― ou diminui drasticamente ― o gasto com expropriações.

Por que não reabilitar a linha Campinas-SP-Rio, já existente? Que se refaça o traçado de certas curvas para permitir velocidade mais elevada. Que se reinstalem os dormentes. Que se invista em material, que se reabram as antigas estações, que se construam novas. Tudo isso custará infinitamente menos que um trem-bala. E ainda sobrará muito pano para mangas. Se as malversações permitirem, vai dar para reabilitar toda a rede ferroviária do Sudeste brasileiro.

Conosco ninguém podosco.

Cuidado com o cadinho!

Cadinho imageJosé Horta Manzano

Terá sido a mornidão, o mormaço, a malemolência tropical? Terá sido o fato de os primeiros estrangeiros que aportaram em nosso País terem vindo sem companhia feminina? Terá sido porque o português, em matéria de cama, é menos complicado que outros europeus?

Acho que ninguém pode afirmar ― qualquer resposta clara e definitiva seria mera conjectura. O fato é que, diferentemente da esmagadora maioria dos países colonizados por europeus, o nosso transformou-se num verdadeiro país miscigenado. Pouquíssimas são as nações com população composta de aportes raciais tão imbricados quanto o Brasil.

A colonização europeia na África não produziu miscigenação. Nem na Austrália, nem na Índia, nem na Nova Zelândia, nem na Indonésia. Se algum vestígio de mistura racial há nas antigas colônias espanholas, é coisa pouca ― com a notável exceção de Cuba. Na América do Norte, pretos e brancos constituem, até hoje, comunidades apartadas, que se toleram.

No Brasil, tutto andava secondo l’antichissima regola del mondo, como canta o segundo ato da Turandot. Seguindo seu destino, o País trilhava o caminho de uma mistura racial cada vez mais acelerada. Eis senão quando… alguns luminares se instalaram no poder e decidiram intervir no cadinho.

Os neorracistas ― que preferem a denominação mais suave de racialistas ― houveram por bem forçar um Congresso dócil a legislar sobre preferências raciais. É humilhante para uma parte da população. Se você for um pouco mais moreno e estiver cursando uma faculdade, todos imaginarão que entrou pelo sistema de quotas, ainda que não seja verdade. Ninguém ousará lhe fazer a pergunta diretamente, cada um imaginará o que bem entender. A partir de agora, os brasileiros são classificados segundo critérios raciais, decisão que seria considerada indecente até poucos anos atrás.

A Química tem suas leis. E leis são feitas para serem respeitadas. Há que dar tempo ao tempo. Aprendizes de feiticeiro andam tentando manipular o cadinho intempestivamente, para acelerar a reação.

Não vai dar certo. O feitiço periga virar contra o feiticeiro. Não se eliminam preconceitos por decreto.

NOTA: Este texto foi inspirado num artigo de Cláudia Collucci, publicado pela Folha de SP online neste 23/12/2012. Siga o link.