A sala de visitas de Putin

José Horta Manzano

Em diversos países da Europa, o uso comercial da expressão “saldos” é protegida. Isso quer dizer que toda venda de saldos é regulamentada. A palavra não pode ser usada por qualquer comerciante, pra vender qualquer tipo de mercadoria, a qualquer preço, em qualquer época do ano. Só pode ser usada durante a época fixada pelas autoridades que regulam o comércio. Nem antes, nem depois. Isso lhe agrega valor. A época dos saldos é aguardada ansiosamente.

O período dos saldos é especialmente apreciado por comerciantes de roupas. E por seus clientes, naturalmente. É que o comércio de peças de vestuário, além de sazonal, é sujeito às variações da moda. Os saldos são autorizados durante algumas semanas em janeiro (para liquidar o estoque encalhado de roupas de inverno) e, de novo, em julho (para o vestuário de verão).

Conforme o país, as vendas especiais duram de 3 a 4 semanas, às vezes até mais. Os primeiros dias têm o efeito de uma sexta-feira negra (em português: black Friday). Antes da abertura das lojas, já tem gente encostada à porta. Comerciantes que não trabalham com vestuário também aproveitam o embalo pra fazer caixa, vendendo alguns de seus artigos a preço de pechincha.

Quinta-feira passada, Señor Alberto Fernández, presidente da Argentina, esteve de visita a Vladímir Putin, em Moscou. Na foto, entre os dois dirigentes, aparece uma mesinha dessas que se usam pra pousar uma xícara de chá e, se der, pra ajeitar um pratinho (pequeno) para o bolo. Na mesinha que separava os dois, de tão minúscula, acho que nem bolo ia caber.

Terminada a visita, chegou o fim de semana. Vladímir Putin, que não tem o hábito de ir à feira comer frango com farofa, deve ter inventado outro programa. A agenda do dirigente russo não confirma, mas é possível que ele tenha aproveitado a folga pra dar uma espiada nos saldos de alguma loja de móveis. Não conheço os costumes locais, mas pode ser que os saldos de Moscou se estendam até fevereiro.

O fato é que, na segunda-feira 7, Monsieur Emmanuel Macron veio visitá-lo. A exígua mesinha de chá tinha desaparecido. Não se sabe onde foi comprada nem quanto custou a mesa ao redor da qual se sentaram Macron e Putin, mas, convenhamos, ela é im-pres-sio-nan-te!

Daqui a alguns dias, será a vez de nosso capitão fazer sua peregrinaçãozinha nas neves moscovitas. Vamos ver qual das duas mesas sairá na foto. A mini de chá ou a XXL dos saldos? A conferir.

Em tempo
Quem lê jornais em vez de ficar mergulhado na bolha sabe que a Rússia e a Ucrânia estão em pé de guerra. Putin encostou na fronteira com a Ucrânia um contingente militar de assustar. Fotos de satélite avaliam que cem mil homens estão ali, à espera da ordem de atacar. Um tiro de chumbinho na hora errada pode ser suficiente pra assustar todo o mundo e desencadear uma carnificina.

Macron, que bobo não é, entendeu a fragilidade da situação. Numa hora dessas, visitar um e ignorar o outro significa automaticamente que se tomou partido na briga. É exatamente o que Macron, a França e a Europa querem evitar. Nesta terça-feira, terminada a visita a Moscou, o presidente francês está em Kiev para uma conversa com o presidente ucraniano, Zelensky – que, por coincidência, também é Vladimir (ou Volodímir, como dizem eles). Se o encontro vai evitar a guerra, só o futuro dirá. Mas, pelo menos, Macron guardará o mérito de haver tentado.

Nosso capitão, que bobo é, vai se meter onde não foi chamado. O infeliz não consegue entender o frágil e o delicado da situação. Com os dois a ponto de se morderem mutuamente a orelha, lá vai o paspalhão visitar um dos contendores, ignorando o outro. Em linguagem diplomática, que é entendida por todos os governos do planeta, essa visita significa alinhamento com um dos beligerantes. Uma imensa estupidez para um Brasil que não tem nada a ver com aquele peixe. Não temos nada a ganhar com essa demonstração explícita de preferência por um dos lados.

A visita unilateral de Bolsonaro vai acrescentar agressão gratuita e desnecessária a mais um povo. O gesto será somado à longa lista das afrontas que já fizeram, ele e seu clã, aos EUA, à França, à Itália, à Alemanha, à Noruega, à Argentina, ao Chile, ao Peru. E, naturalmente, à China, vítima preferencial de suas ofensas de babaca boca-suja.

Ucrânia, seja bem-vinda ao clube! Sinta-se honrada! Amigo do capitão bom sujeito não é.

Salve-se quem puder

José Horta Manzano

Quando este blogueiro ainda frequentava as carteiras da escola, em mil novecentos e antigamente, havia muitos estrangeiros no Brasil. Era gente vinda de muitos horizontes. Me lembro que a imensa maioria de meus colegas era composta por descendentes de estrangeiros chegados recentemente. Brasileiros quatrocentões, havia poucos.

Entre os colegas, havia filhos e netos de imigrantes. Cheguei até a ter um colega de ginásio, de quem tenho notícias até hoje, que tinha nascido no exterior, fato menos corriqueiro. Havia sírio-libaneses, judeus da Europa oriental, portugueses, italianos, alemães, suíços, franceses, japoneses. Muitos eram perfeitamente bilíngues; na escola, falavam como todos nós, mas em casa falavam outra língua. Vindo de família monoglota, sempre achei isso fabuloso.

As origens eram diversas, mas um ponto era comum a todos. Ninguém emigra pra fazer turismo. Se uma família decide vender o que tem, abandonar as raízes, fazer as malas e dar um salto num país desconhecido, do outro lado do oceano, é por estar sendo impelida por razões muito poderosas. O mais das vezes, os imigrantes vinham por não enxergar futuro na terra natal ou por estarem arruinados depois de perder tudo em guerras e perseguições.

Com o passar das décadas, as cicatrizes da Segunda Guerra foram se fechando na Europa, nosso maior fornecedor de imigrantes. A partir do fim dos anos 1970, o fluxo praticamente se extinguiu. A Europa enricou e o fluxo se inverteu: de fornecedora de imigrantes, ela passou a receptora.

O problema é que, nos últimos anos, o volume de africanos que procuram chegar à Europa tem sido tão importante, que os governos decidiram restringir-lhes a entrada. Os candidatos mais temerários tentam forçar a porta. De canoa, a pé, escondidos em caçamba de caminhão, dentro de contêiner – os meios mais arriscados são utilizados. Uns conseguem chegar, outros são repelidos. Sem contar os que perecem no caminho.

Não conheço a história dessa refugiada congolesa que aparece na chamada da Folha de São Paulo que pus na entrada do artigo. Congoleses costumavam se refugiar na Bélgica (a antiga potência colonial) ou eventualmente na França. É possível que acolhida tenha sido negada a essa senhora, daí estar entre nós.

A frase que a mulher pronunciou dá uma tristeza infinita. “Não quero que meus filhos cresçam no Brasil” é uma das declarações mais terríveis que já ouvi sobre meu país. O pior é que a refugiada não é a única a pensar assim. A frase está na mente de muito brasileiro nascido e criado na pátria: “Não quero que meus filhos cresçam no Brasil”.

Por que isso ocorre? Onde é que erramos? O Brasil é feito por nós, minha gente! Nenhum dos que fazem as leis, dos que se sentam na cadeira presidencial, dos que dirigem municípios e estados é extraterrestre, descido de um disco voador. Todos foram escolhidos por nós.

Os dois personagens que dominam a cena de nossas próximas eleições presidenciais não são desconhecidos. Ambos já governaram o país. Portanto, a desculpa de 2018, quando um então quase desconhecido Bolsonaro foi eleito, não vale mais. Desta vez, sabemos com quem estamos tratando.

Sabemos que o país tem andado pra trás nos últimos 20 anos. As perspectivas de avanço de nosso processo civilizatório, o futuro decente ansiado pelos antigos imigrantes, foi pro beleléu.

Corrupção, roubalheira, migalhas jogadas aos pobres foi o que se viu com o lulopetismo. Além da violência crescente. Corrupção, baixaria, descaso com a população é o que se vê com Bolsonaro. Além da violência crescente. Por que é que os brasileiros insistem em dar seu voto de confiança a um desses dois estropícios? Nesta altura do campeonato, ninguém pode alegar desconhecê-los.

Se o brasileiro insistir nesse erro, não só os imigrantes recentes vão querer dar o fora. Os descendentes de imigrantes antigos vão seguir o mesmo caminho, esvaziando o país do que ele tem de melhor e deixando os que ficarem à mercê de milícias e braços do crime organizado.

Entre o cachaceiro e o farofeiro, cabe a você escolher.

Genocida, não!

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 janeiro 2022

A validade de um estudo científico só é autenticada depois de ele ter sido avaliado e abonado por um conjunto de reconhecidos cientistas da mesma área. É o que os ingleses chamam ‘peer review’.

Costuma-se traduzir essa expressão como ‘revisão por pares’, ‘revisão paritária’ ou até, um tanto desajeitadamente, ‘arbitragem’. A tradução flutuante vem do fato de não ser comum, entre nós, designar de “pares” os que exercem a mesma função ou os que pertencem à mesma categoria. Assim, qualquer tradução literal periga sair meio manca. Mas, pela atual tendência de integração de conceitos estrangeiros a nossa língua, a solução já foi encontrada: mantém-se a expressão inglesa, com casca e tudo.

A organização MedRxiv, cujo estranho nome se deve pronunciar “med-archive” (‘arquivo médico’) é um repositório online de preprints da área médica, clínica e de saúde. Preprint, como o nome sugere, é a publicação prévia de artigo científico ainda não validado pelos pares.

Agora vamos aos fatos. Alguns dias antes do fim de dezembro 2021, uma dezena de cientistas brasileiros assinaram, sob forma de preprint, um alentado estudo sobre a correlação entre vacinação, hospitalização e morte de maiores de 60 anos. A primeira constatação, como se imaginava, é de que a taxa de óbitos decresce à medida que a vacinação se generaliza.

Em seguida, os signatários do estudo valeram-se de fórmulas complicadas demais para serem descritas por não-iniciados como este escriba. O que interessa são as conclusões. E elas são comprometedoras para o governo brasileiro. O incrustado negacionismo gerado pela ignorância presidencial custou caro ao país. Em vidas humanas.

O estudo estima que milhares de idosos brasileiros foram salvos pela vacinação: um total de 75 mil, só no ano de 2021. Não fosse a vacina, esse contingente já não estaria mais entre nós. Essa é a parte decente da história. Em paralelo, há um lado bem mais sombrio.

Todos se lembram dos esforços envidados pelo capitão para frustrar – ou, pelo menos, retardar – a compra de vacinas anticovid. Baseados em análise dos dados e em cálculos atuariais, os cientistas chegam à conclusão de que, se a vacinação tivesse começado 8 semanas antes, 48 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Quarenta e oito mil mortes! Para efeito de comparação, essa hecatombe equivale à queda de 185 Boeings modelo 767 lotados, com 260 passageiros cada um, sem nenhum sobrevivente pra contar a história. Ou 4.800 desastres como o de Capitólio (MG), que ocupou as manchetes com suas 10 vítimas – um Capitólio por dia, durante 40 meses sem parar. Estamos falando apenas das mortes evitadas.

Muitos chamam Bolsonaro de genocida. Estão errados. Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 40 e oficializada por convenção da ONU de 1948. A definição é rigorosa: exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. É, portanto, limpeza étnica – um ato extremado levado a cabo por motivos religiosos ou por loucura.

Os atos de Bolsonaro não correspondem à definição. Sabe-se que ele não gosta de pobre, mas a negação da pandemia não causou morte só de pobres. Sabe-se que ele tem medo de “comunista”, mas o atraso na compra das vacinas não mandou só “comunistas” pro cemitério. Sabe-se que ele é misógino, mas a louvação da cloroquina não matou só mulheres.

Bolsonaro tem alguns parafusos soltos. Sua loucura é apimentada por ignorância, poltronice e preguiça – condimentos explosivos, mas que não chegam a configurar um genocida que se preze. Genocidas verdadeiros, não houve tantos assim. O século XX conheceu alguns dos grandes, tais como Hitler (Alemanha), Pol Pot (Cambodja) e Stalin (URSS). Há outros menos conhecidos. Por mais que tenha feito, nosso capitão não entra nessa categoria.

Genocídio requer método e planejamento, conceitos que não frequentam o universo mental de Bolsonaro. Ele não passa de um ser perturbado, atrasado, sem instrução, paranoico, que chegou à Presidência numa esquina da história que não se repetirá. Está mais pra patacão que pra genocida.

Num país normal

Chamada da Folha de SP, 25 jan° 2022

José Horta Manzano

Num país normal, quem faz o orçamento é o povo através de seus representantes no Congresso. Até aí, o Brasil mostra que é país normal: o orçamento da União é elaborado pelos parlamentares.

Num país normal, montado o orçamento, ele é levado ao presidente, que tem o direito de modificá-lo e até de vetá-lo parcialmente. Até aí, o Brasil mostra que é país normal: o presidente exerce seus direitos constitucionais.

Num país normal, após ter sido examinado pelo presidente, o orçamento volta ao Parlamento. Os representantes do povo têm a última palavra: aceitam pacificamente os caprichos presidenciais ou batem pé firme e devolvem ao orçamento sua fisionomia inicial, aquela que tinha sido votada e aprovada.

À vista dos estragos causados às contas da nação pela mesquinharia eleitoreira do capitão, é agora que veremos se somos um país normal e se nossos representantes trabalham realmente em nosso favor. Vamos ver se derrubam os vetos do presidente. A conferir.

Aux armes, citoyens!

José Horta Manzano

A plataforma de notícias políticas Poder 360 informa que, nos três últimos anos, o valor das importações de armas de mão (pistolas e revólveres) mais que triplicou. É a Era Bolsonaro em todo esplendor.

Infelizmente, as estatísticas não informam qual é a porcentagem desse arsenal que foi parar em mãos de milicianos, do crime organizado e da pequena delinquência. Por furto, roubo ou até importação direta.

Também não temos estatísticas para confirmar se, com essa profusão de armas de fogo, o Brasil se tornou um país mais seguro e mais civilizado. Pessoalmente, aposto que não. Não sei o que acha o distinto leitor; quanto a mim, acredito que, se não ficou igual, piorou.

O jogo está feito?

José Horta Manzano

A mais recente pesquisa de intenção de voto para presidente, feita pelo Instituto PoderData, reflete a preferência do eleitorado entre uma paleta de quase dez candidatos – entre declarados e prováveis. Ela mostra, sem surpresa, o Lula bem à frente de Bolsonaro.

A continuar nessa curva ascendente em que já conta com 42% dos votos contra 28% do capitão, o Lula tem condições de reunir um total superior à soma de todos os adversários, o que lhe daria a vitória no primeiro turno.

O eleitorado masculino diverge vigorosamente do feminino. Quase metade das eleitoras (48%) têm intenção de votar no Lula, deixando Bolsonaro com somente 17% das preferências. Quem vir nesse placar o resultado das atitudes misóginas e sexistas do capitão não estará longe da verdade.

Já os homens preferem Bolsonaro. No seio do eleitorado masculino, o triunfo do capitão não é tão espetacular quanto o do Lula entre as mulheres, mas é significativo. O voto dos homens é de 41% para o ex-militar contra 35% para o ex-metalúrgico.

A divisão do Brasil em regiões é um tanto artificial, baseada em limites administrativos (divisas dos estados) e não em limites históricos e socioculturais. O norte do Paraná, por exemplo, é incluído na Região Sul, ainda que sua história e seu desenvolvimento sejam tardios com relação aos estados sulinos, e que seu povoamento se tenha feito a partir do estado de São Paulo. A mesma distorção surge no norte de Minas, zona que compartilha clima e tradições mais com o Nordeste do que com o sul do estado. Há outras distorções.

Isso dito, é o que temos. O levantamento mostra um Lula triunfante no Sudeste e no Nordeste, enquanto Bolsonaro ganha folgado no Norte. Na Região Sul e no Centro-Oeste, os dois empatam. Isso não é de bom augúrio para o atual presidente, visto que o Nordeste e o Sudeste são as regiões mais populosas. Quem ganhar nas duas tem boas chances de ser o próximo presidente.

No corte por escolaridade (fundamental, médio e superior), o Lula deixa Bolsonaro comendo poeira em todas as faixas. O mesmo ocorre no corte por faixas de renda: o capitão perde feio em todas.

Nestas alturas, resta a pergunta: por que, diabos, se dar ao trabalho de votar em outubro, se já se conhece o resultado?

Primeiramente, porque pesquisa pode até influir, mas o que conta é voto na urna – é o que reza a Constituição.

Segundamente, porque muita água há de passar sob as pontes do Norte, do Sul e das demais regiões daqui até lá. Por exemplo:


  • alguém pode adoecer (essa covid anda um perigo);

  • alguém pode falecer (pra morrer, basta estar vivo);
  • alguém pode ficar (ainda mais) gagá, que o Alzheimer não escolhe vítima;
  • alguém pode desistir (não duvide, que tudo é possível na vida);
  • alguém pode acertar no milhar na Paratodos ou vencer uma rifa e decidir se estabelecer nas Bahamas pelo resto da vida.

Enfim, não convém estourar champanhe nenhum por enquanto. Ainda resta a esperança de ver surgir um nome forte alternativo a esses dois fósseis que dominam as pesquisas atualmente. Em princípio, qualquer dos citados na pesquisa seria um caso a considerar.

Moro, Ciro, Doria, Janones, Vieira e Tebet podem não ser nenhuma Brastemp, mas, convenhamos, nenhum deles há de ser pior que Bolsonaro ou Lula.

Não deu pra esconder

Beber até cair

José Horta Manzano

As férias de Monsieur Blanquer
Entre o Natal e o ano-novo, estão aqueles dias meio mortos, enforcados, em que umas firmas fecham, outras não, muita gente vai p’ra praia, outros ficam no batente, todos têm vontade de se espichar numa rede, alguns conseguem.

Foi justamente naqueles dias, no domingo 2 de janeiro, que Monsieur Blanquer, ministro da Educação da França, concedeu entrevista por vídeo ao jornal Le Parisien. Detalhou as diretivas bastante severas que teriam de ser seguidas a partir da volta às aulas, assim que terminassem as férias escolares de ano-novo.

A reorganização da vida escolar, planejada às carreiras, não agradou nem a professores nem a alunos. Mas que fazer? São tempos de covid e todos têm de compreender que cada um deve fazer um pequeno sacrifício para o bem comum.

A ilha de Ibiza e sua fama
As Baleares são um arquipélago situado no Mediterrâneo a menos de 200km da costa espanhola. Tem 4 ilhas principais: Maiorca, Minorca, Ibiza e Formenteira. No verão, é visitado por multidões de turistas da Europa inteira, que chegam em abarrotados voos fretados. Maiorca e Minorca recebem principalmente turismo de famílias. Formenteira é pequena e menos frequentada. Já Ibiza tem fama particular: seus visitantes são jovens festeiros, muitos vêm da Inglaterra (mas de outras partes também), todos chegam com a firme intenção de beber até cair em plena rua noite adentro. Noite após noite. É a ilha do carnaval eterno e (muito) alcoolizado.

A hora de glória de Monsieur Macron
Daqui a menos de três meses, os franceses vão às urnas para as eleições parlamentares e presidenciais. Monsieur Macron, ainda que não oficialmente declarado, é candidatíssimo à reeleição. Numa feliz coincidência, neste semestre, é a França que está na presidência rotativa da União Europeia. Para um candidato à reeleição, não há vitrine mais poderosa do que ser, ao mesmo tempo, presidente da França e do Conselho da UE. Macron tinha previsto fazer comemoração solene em 19 de janeiro.

O abelhudo
O jornal francês Médiapart conta com uma equipe de jornalistas investigativos de excelente desempenho. O que esse pessoal descobre não está escrito no jornal – com o perdão do trocadilho infame. Descobriram que, no momento da entrevista por vídeo, Monsieur Blanquer (o ministro da Educação) estava justamente em… Ibiza. E a notícia, naturalmente, saiu no jornal. E os danadinhos não publicaram num dia qualquer: escolheram fazê-lo às vésperas da comemoração solene de Monsieur Macron. Só pra estragar a festa.

O burburinho
A notícia saiu. Os franceses, ranzinzas por natureza, não apreciaram nadinha. Tivessem dito que o ministro da Educação tinha estado de férias em Varsóvia, na Moldávia ou até nalguma localidade do interior do país, o caso teria passado em branco. Mas… em Ibiza?! Foi um escândalo. Embora, nesta época fria do ano, a ilhota espanhola esteja deserta, a simples menção de seu nome desperta no inconsciente coletivo um espetáculo de bebedeira coletiva e de devassidão. A população sentiu-se revoltada. “Enquanto nós temos de fazer sacrifício e nos adaptar a novas regras rigorosas, o ministro se esbalda em Ibiza?”

A contrição
Acuado, o ministro teve de se explicar no Parlamento, diante de todos os deputados. “Se eu soubesse, teria escolhido outro lugar pra passar aqueles três dias” – foi o que disse. Não adiantou muito. O descontentamento popular está estampado nas manchetes até hoje. O assunto continua nas conversas de elevador, de padaria e de salão de barbeiro. Consta que o presidente Macron subiu a serra, de tanta fúria. Não consta que tenha soltado palavrão; ele é recatado e só faz isso escondido no banheiro quando o barulho da descarga abafa o som.

Lembra algo
Toda semelhança com algum episódio ocorrido recentemente nas praias de Santa Catarina e estrelado pelo chefe de nosso Executivo terá sido coincidência fortuita.

De todo modo, tendo em vista a importância do cargo do francês (que é ministro) e do brasileiro (que é presidente), a importância da ocorrência não é de magnitude comparável. O nosso foi beeem pior.

Ditadura “de esquerda” ou “de direita”

José Horta Manzano

Faz tempo que me pergunto como é possível um contingente de cidadãos darem crédito ao capitão e se disporem a votar nele.

Pra não deixar ninguém enciumado, me pergunto também como é possível que tanta gente acredite no Lula e se disponha a votar nele.

Depois dos males que esses dois já causaram no passado, no presente – e da ameaça que representam para o futuro do país –, não há mais o que provar. Não precisa fazer um desenho. Seja qual for dos dois, é desastre anunciado.

Com o antigo presidente, tivemos corrupção explícita e partição do país em categorias de indivíduos classificados conforme a cor da pele. É culpa dele se o Brasil caminha perigosamente para se transformar em república racialista, um tipo de sociedade em que cada habitante tem forçosamente de se encaixar numa etiqueta: ou é branco ou é negro, sem nuance. (Alguém pensou nos extremo-orientais?) Antes da ascensão do lulopetismo, nosso país era colorido; depois da passagem dos ‘barbudinhos’ pelo poder, retrocedemos à era do preto e branco.

Com o atual presidente, temos corrupção disfarçada de “orçamento secreto”, rachadinhas e partição do país em categorias de indivíduos classificados conforme a ideologia ou a religião. Bancadas religiosas no Congresso, presidente que se ajoelha diante de bispo autossagrado, orçamento secreto com bilhões distribuídos aos amigos do rei, presidente considerado persona non grata no mundo civilizado – estão reunidos todos os ingredientes da perfeita republiqueta de bananas.

Um dos dois apoia ditaduras sanguinárias ditas “de esquerda”; o outro apoia ditaduras sanguinárias ditas “de direita”. Se algum arguto leitor souber qual é a diferença entre uma ditadura “de esquerda” e uma “de direita”, que levante a mão. Ou que mande uma cartinha para a Redação.

Este blogueiro considera que qualquer ditadura é regime autoritário e liberticida que opera para transformar os habitantes em autômatos, gente sem criatividade, sem esperanças, sem ânimo, sem iniciativa e sem futuro. Quando se trata de ditadura, “de esquerda” ou “de direita” são etiquetas que não fazem sentido.

Que diferença há, no espectro político, entre um Hitler e um Stalin? O primeiro prometeu o paraíso a seu povo e o obrigou a ser massacrado sob bombas caídas do céu. O segundo prometeu o paraíso a seu povo e o obrigou a ser massacrado por tanques de guerra vindos do Oeste, sendo que os poucos cidadãos que sobraram foram despachados para o desterro na Sibéria.

Entre um Nicolas Maduro (Venezuela) e um Bashar El-Assad (Síria), quem é “de direita” e quem é “de esquerda”? E que diferença faz, se ambos condenam o próprio povo ao extermínio – um pela fome, o outro pelos gases asfixiantes?

Tudo o que o Brasil não precisa é de presidente apoiador de ditadura nem de presidente conivente com esse tipo de regime. Tanto Bolsonaro quanto o Lula propõem que o país continue eternamente mergulhado num passado de atraso.

E ainda tem gente que se dispõe a apoiar um ou outro desses dois. Como é que pode?

Avaliação

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Em numerosos momentos da vida, a gente é obrigado a provar que está apto para ser admitido em determinado círculo ou confraria. Em meu caso pessoal, a lembrança mais antiga que me ocorre é a da primeira comunhão. Antes de subir ao altar para abrir a boca e receber a hóstia, era preciso seguir um cursinho preparatório, que a gente chamava de Catecismo. Sem isso, nada de festa, nada de mesa de doces, nada de foto de fotógrafo e, principalmente, nada de hóstia.

Depois dessa, em muitas outras ocasiões tive, como qualquer cidadão, de demonstrar que estava preparado para a empreitada. Quem quer entrar na faculdade tem de ser aprovado num exame, seja qual for o nome que lhe atribuírem: Enem, vestibular ou outro. No mundo todo é assim. Curso superior não recebe qualquer um. O postulante tem de ser aprovado, seja pelo currículo escolar, seja por um exame de entrada.

Para assumir um emprego, o ritual é o mesmo. Currículo, entrevista, avaliação. Quer o processo se desenrole à antiga, com currículo batido à máquina em papel almaço e entrevistador cara a cara, quer decorra em modo covid, com troca de emails e entrevista por skype, o negócio é o mesmo: todo candidato entra num funil que só vai deixar passar os melhores.

E assim por diante. Candidatos a uma imigração, a um visto consular, a uma naturalização, a uma bolsa de estudos, a uma promoção passam necessariamente por uma seleção em que serão avaliados. Na hora de tirar carteira de motorista, por exemplo, ninguém escapa de passar pelo exame.

Já disse isso em outras ocasiões, mas quero repetir aqui. Digamos que o distinto leitor queira se candidatar a um emprego, seja ele de doutor ou de operário. Nenhum empregador o acolherá assim, de mão beijada, sem verificar sua aptidão para o cargo. Esse ritual não espanta ninguém. Todos nós o encaramos com naturalidade.

A cada quatro anos, é hora de escolher o presidente da República. A lei especifica certas condições para se candidatar. Idade, nacionalidade, filiação partidária estão entre elas. Mas não há nada que lembre, nem de perto nem de longe, um exame básico de avaliação, nem que fosse pra verificar se o indivíduo bate bem da bola.

Assim, quem pretende dirigir um Renault Kwid tem de passar obrigatoriamente por um exame de avaliação que ateste sua aptidão pra não sair por aí dando trombada e ameaçando a vida dos outros. No entanto, aquele que pretende dirigir o Brasil pode se candidatar sem problema, sem exame, sem avaliação. Se eleito (por um povo que não teve como avaliar sua aptidão), estará livre pra sair por aí dando trombada em Deus e o mundo e ameaçando a vida da população.

Esses problemas, que parecem piada, ocorreram na era Bolsonaro. O capitão saiu dando trombada e entrou em colisão com a China, a França, a Alemanha, a Noruega, a Argentina, o Chile, os países árabes. Com seu negacionismo destrambelhado, ainda ameaçou a vida da população brasileira. Aliás, não só ameaçou: executou a ameaça.

Até ontem, a instauração de um exame de avaliação de candidatos à Presidência da República podia parecer ideia de maluco, um atentado contra os costumes da República, uma exigência estapafúrdia e inútil. Agora, depois do furacão bolsonárico, tornou-se necessidade tangível.

Suas Excelências têm a obrigação urgente de completar a legislação. O futuro da nação não pode continuar desprotegido, refém do próximo populista desequilibrado que aparecer na esquina.

Uma prova de aptidão tem de ser exigida de todos os que se candidatarem a dirigir os 212 milhões de brasileiros. Pelo menos uma avaliação de saúde mental levada a cabo por um colégio de doutores qualificados.

Se tivéssemos tido um dispositivo desse tipo, o país não estaria sendo destruído por um destrambelhado. O Brasil não aguenta outro Bolsonaro.

Quer enganar quem?

São Jorge
padroeiro da Inglaterra, da Geórgia, de Veneza, de Barcelona

José Horta Manzano

Os cidadãos que aderem a uma comunidade neopentecostal são bem-intencionados. Costumo compará-los aos cristãos de dois milênios atrás, que, correndo risco de vida, seguiam os apóstolos e os profetas da nova fé.

Os primeiros cristãos não eram iluminados. Eram pessoas desgostosas da devassidão nos usos e costumes da época, que procuravam um caminho puro para a salvação da própria alma.

Essa fuga da depravação tem sido o motor de cisões, tanto no seio do cristianismo como em outras religiões. A Reforma – o grande cisma do cristianismo do século 16 – é bom exemplo.

Voltemos a nossos neopentecostais, mais conhecidos como evangélicos. As insistentes acusações de enriquecimento ilícito feitas a alguns bispos e apóstolos menos escrupulosos não devem ser estendidas aos fiéis. A cupidez de um autossagrado bispo não implica forçosamente a culpabilidade do rebanho. Além disso, tenho certeza de que nem todos os chefes são encharcados de avidez ou de cobiça.

Se os evangélicos aderiram em peso a Bolsonaro em 2018, foi justamente porque ele encarnava o herói puro e disposto a combater o bacanal em que se haviam transformado os altos círculos da República. Era um São Jorge descido dos céus, com lança e cavalo, pronto a aniquilar o mal, restaurar o bem e repor o país de volta nos trilhos. Em peso, votaram no capitão.

Pouco inteligente, o atual presidente acreditou (e, ao que parece, continua a acreditar) que uma imersão no Rio Jordão, uma genuflexão diante de um bispo evangélico e uma visita a um e outro templo bastassem para satisfazer a clientela neopentecostal. Incapaz de lidar com os conceitos de aparência e de realidade, o capitão não se dá conta de que seu comportamento não condiz com a simpatia que diz ter pela fé e pelos ideais do eleitorado evangélico.

Passear de jetski e dançar funk cercado de mulheres em trajes menores enquanto infelizes baianos e mineiros eram castigados por mortíferas enchentes foi atitude escandalosa para os brasileiros. Para o contingente de evangélicos que ainda conservavam um restinho de crença no ‘São Jorge’ caipira, foi ultrajante.

A torrente de palavrões que jorra da boca do presidente a qualquer tempo e em qualquer ocasião é ofensiva para ouvidos comuns. Para ouvidos evangélicos, há de ser nefanda, insuportável, abominável.

Não é surpreendente que cada nova pesquisa mostre a erosão da popularidade do capitão no segmento que um dia aderiu em peso a sua candidatura.

Os neopentecostais não são um bloco de parvos que nada escuta e nada enxerga além da palavra do pastor. Longe de serem extraterrestres, são gente normal, que leva vida normal, que age normalmente. Dormem, acordam, comem, trabalham, conversam, se deslocam, viajam, se informam como todos os demais.

Têm uma visão mais rigorosa do que deve ser o comportamento do homem na sociedade – e é aí que a porca torce o rabo. O comportamento do capitão está a anos-luz da fé que ele diz professar. Uma coisa não bate com a outra; e a dissonância é tão flagrante, que não escapa a ninguém.

A conclusão, não é difícil tirar. Três longos anos de Bolsonaro no topo da República nos ensinaram que o personagem é assim, não mudou até hoje, não mudará nunca. Será sempre boca-suja (muito suja!), mentiroso, não-confiável, vingativo, nepotista, ocioso. São defeitos que batem de frente com a fé evangélica. Fiel nenhum quer ter como dirigente máximo um indivíduo com defeitos de tal maneira contrários à sua doutrina.

A consequência é evidente. O capitão não engana mais ninguém. Para os que apostam na subversão, na violência e na anarquia, ele continua sendo o candidato ideal. Já o apoio dos evangélicos, atualmente em erosão, tende a se liquefazer.

Bolsonaro periga chegar à eleição com um balaio de votos ainda mais magro que hoje.

La crevette de Bolsonaro

José Horta Manzano

Aproveitando o gancho da mais recente hospitalização de Bolsonaro, Aitor Alfonso, cientista político franco-espanhol, publicou artigo na revista Slate. O texto, bem-humorado e repleto de trocadilhos, lembra os grandes deste mundo que foram vítimas de acidente devido a um alimento ou a uma bebida. Vamos lembrar alguns deles.

O bretzel de Bush
Faz exatamente 20 anos, o presidente Bush (filho), deitado no sofá, assistia a um jogo de fotebol americano. Displicente, pegou um bretzel – aquele biscoito seco e salgado, de forma trançada. Logo na primeira mordida, engasgou. O sufoco foi tamanho, que seu ritmo cardíaco sofreu baixa súbita e o presidente, atordoado, caiu de cara no chão. Perigou empacotar ali mesmo, mas teve sorte: escapou com um “galo” azul abaixo do olho esquerdo.

O curioso caso de Fidel Castro
O Líder Máximo da revolução cubana detém o record do número de tentativas de assassinato. Foram 638 atentados, todos gorados. Dificilmente essa marca será superada. Dezenas, se não centenas, dessas tentativas passaram pelos alimentos ou pelas bebidas. A CIA tentou por todos os modos, mas nunca conseguiu atingir o objetivo. Castro faleceu de causas naturais aos 90 anos.

O bolo do rei Adolfo da Suécia
O rei Adolfo Frederico, da Suécia, gostava muito de comer. Na terça-feira do carnaval de 1771, como preparação para enfrentar as privações alimentares que a Igreja impunha na Quaresma, ele fez uma refeição reforçada. Engoliu caviar, sopa de repolho, arenque, lagosta com chucrute – tudo regado a champanhe. Para terminar a refeição com um gosto açucarado na boca, o rei optou por uma bomba glicêmica. Comeu uma especialidade sueca chamada semla, que é servida somente no mardi gras (terça-feira de carnaval). O doce lembra um pouco nosso sonho de padaria, só que é recheado com marzipan e creme Chantilly. Um ou dois não dão dor de barriga a ninguém. Mas o rei comeu quatorze. Não deu outra: o estômago travou, ele sentiu-se mal e morreu de um AVC provocado por indigestão aguda. Os estudantes suecos o conhecem como o rei que morreu de tanto comer doce.

O copo d’água do filho do rei Francisco da França
O rei Francisco I, da França, estava em Lyon com os filhos, já adultos. Fazia um calor sevilhano daquele mês de agosto de 1536. Apesar disso, Francisco, o filho preferido do rei, resolveu fazer uma partida de jeu de paume (= jogo de palma, antepassado do tênis). Terminado o jogo, cansado e transpirado, o jovem engoliu duma vez um copo d’água gelada. Logo começou a passar mal, sentiu-se fraco e morreu dias depois. Naquele tempo, era impossível saber se a morte era acidental ou se a água continha veneno. Na dúvida, o rei acusou o infeliz que tinha trazido o copo. O homem foi condenado à morte.

O melão de Maximiliano da Áustria
Era janeiro de 1519. O arquiduque Maximiliano I, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, estava passando uma temporada de cura de saúde nos Alpes austríacos. Um dia, um bufê foi organizado em sua honra. O imperador bateu o olho nuns melões que estavam num canto da mesa. É bom lembrar que janeiro não é tempo de melão. Hoje em dia, qualquer fruta chega por via aérea em qualquer época do ano. No século 16, não era assim. Os melões que encantaram o arquiduque tinham sido conservados desde o verão anterior. Ele se jogou em cima das cucurbitáceas. Comeu tanto, que acabou sofrendo uma crise de apoplexia. Empacotou. Dizem que o pai dele, Frederico III, teria morrido por ter abusado da mesma fruta mais de vinte anos antes.

La crevette de Bolsonaro
Crevette, em francês, é nosso camarão. No capítulo bolsonaresco, o autor se diverte com o camarão não mastigado de Bolsonaro.

Ele deve ter sabido da explicação dada pelo médico, de pé ao lado do capitão, sobre o estrago que um camarão causou no tubo digestivo do capitão.

Fiquei escandalizado com a tartufaria daquela cena. Pergunto a meus botões: será que alguém está interessado nos detalhes da masticação, da deglutição e da digestão do presidente?

Falo em tartufaria ao constatar a hipocrisia dessa mise-en-scène. O Brasil está pouco ligando para o camarão assassino. O país quer que o capitão explique direitinho essa história de usar nosso dinheiro para montar um bilionário “orçamento secreto” com o objetivo de favorecer os amigos. Pouco nos importa saber dos soluços e dos engulhos presidenciais.

Como termina uma pandemia?

Epidemia de peste em Marselha, 1720
by Miquel Serre (1658-1733), pintor catalão

José Horta Manzano

A pandemia de covid-19 registrou um “paciente zero”. Trata-se de um senhor de Wuhan cujo nome não foi divulgado. Pela história oficial, o homem assegurou nunca ter frequentado o mercado de peixes da cidade, lugar de onde se imaginava que a doença tivesse escapado. Fica no ar a dúvida: será que, com o homem doente, quiçá entubado, alguém realmente lhe fez essa pergunta? O coitado morreu de covid num hospital local.

Botei “paciente zero” entre aspas porque a expressão não me parece adequada. Parto do princípio que o infeliz não era uma “não-pessoa”. Portanto, se ele realmente existiu, não pode ter sido o “paciente zero”, mas sim “paciente um”. Tradicionalmente, as listas de pessoas começam do n° 1, não do zero, pois não?

Bom, para o início da pandemia, já temos um lugar certo e um momento aproximado. Mas agora como é que vamos decretar o fim da pandemia? A quem cabe tomar essa decisão? Há um bocado de gente cogitando sobre o assunto.

A Espanha deu a largada antes dos outros. Segunda-feira passada, señor Pedro Sánchez, que é o primeiro-ministro (chamado lá de presidente del gobierno), deu longa entrevista a uma emissora de rádio.

Embora não tenha dito com todas as letras, ele deixou claro que seu governo tem a intenção de abandonar a noção de pandemia e passar a considerar a covid-19 como doença endêmica. Com isso, ela passará a ser enfrentada como se enfrenta a gripe de todos os invernos. Vacina e, eventualmente, máscara: sim. Confinamento, distanciamento social e restrições de circulação: não. Será uma “gripalização” da pandemia.

É curioso que um dirigente europeu dê esse passo solitariamente, sem concertação com os parceiros da União Europeia. Bem, convém lembrar que, entre o dizer e o fazer, há boa distância. Vamos ver como evolui a situação na Espanha. Por enquanto, não se tem notícia de reação pública de outros governos da UE.

Cada pandemia tem características próprias. As do passado eram mais violentas e matavam muita gente. Higiene precária, famílias numerosas aglutinadas em pequenos cômodos e ignorância quanto ao modo de transmissão explicam. Mas as velhas epidemias tinham seu lado positivo (se é que assim me posso exprimir): ficavam circunscritas a um território. As populações praticamente não circulavam, o que dificultava o alastramento.

A peste negra, que assolou a Europa no século 14, durou 5 anos, aniquilou entre 25% e 50% da população, o que desarticulou a economia e a geopolítica.

A gripe espanhola, a mais mortífera dos tempos modernos, se espalhou pelo mundo todo, durou apenas dois anos, mas pode ter ceifado entre 20 milhões e 50 milhões de vidas. É curioso notar que as vítimas mortais estavam concentradas na faixa de 20 a 49 anos de idade.

As epidemias mais recentes são menos violentas. A gripe asiática castigou durante ano e meio (1956-1957). Correu mundo rapidamente, mas mesmo assim teve tempo de levar 2 milhões a 3 milhões para o cemitério.

A gripe de Hong Kong, que surgiu em fins de 1968, matou pouco, mas circulou pelo planeta inteiro e deixou multidões acamadas.

Hoje temos a OMS (Organização Mundial da Saúde). Cabe a eles dar as diretivas básicas para a saúde do planeta. Foi a OMS quem decretou que a epidemia de covid-19 tinha se transformado numa pandemia. Pela lógica, caberá a eles a palavra final – aquela que o planeta aguarda ansioso: a pandemia acabou.

No Brasil, no entanto, não dependemos de nenhuma OMS pra nos guiar. Desde o começo de 2020, o capitão nos ensinou que “esse negócio daí não é tudo isso que dizem”. E arrematou afirmando que não passava de uma gripezinha.


No Brasil bolsonárico, pandemia, que é bom, não houve. Portanto, não faz sentido decretar o fim de algo que não existiu. Somos um país abençoado por Deus. E bonito por natureza.


No meu governo, não tem corrupção! – 2

Estadão, 12 jan° 2022


Não tem corrupção? Peculato é corrupção ativa!


José Horta Manzano

Os dicionários informam que o crime de peculato consiste no desvio de dinheiro público para proveito próprio ou alheio, cometido pelo funcionário que os administra. Configura abuso de confiança pública.

Bolsonaro, que nunca mostrou compaixão pelo sofrimento do povo que o elegeu, não instituiu esse mimo a seus auxiliares diretos por sentir pena dos coitados que têm de sofrer horas e horas, perna encolhida, quiçá ao lado de uma empregada doméstica (que horror, Guedes!), a caminho da Disneylândia. Se instituiu essa regra, foi para garantir que os beneficiados lhe sigam fiéis, o que caracteriza desvio de fundos da nação em causa própria.

Tivéssemos instituições dignas, ele perigava perder o mandato. Corrupção não é só receber favores, é também usar o dinheiro do povo para cooptar personalidades em proveito próprio.

Peculato é crime comum. Apesar do nome bonito, é roubo. Não é crime de responsabilidade, que só dá perda de mandato. Peculato dá cadeia.

Entre os males que o lulopetismo legou ao país está um conceito distorcido de corrupção. A Lava a Jato destampou uma enorme caixa de Pandora. De lá saíram milhares, milhões, bilhões de notas verdinhas. Transportadas em valises, malas, baús – e até em cuecas – foram aterrissar em abrigos vários, uns mais seguros que outros.

Houve quem confiasse a banco suíço, ignorando que o segredo bancário no país alpino já havia sido abolido. Houve quem investisse em resort na espanhola Costa del Sol, sem saber que já existiam acordos de cooperação judiciária transnacional. Houve quem fugisse para a Itália, na ilusão de ser blindado pela dupla cidadania. Houve até quem usasse como cofre-forte um… apartamento em Salvador. Requintada falta de originalidade.

Depois de assistir a todos esses podres, o brasileiro passou a imaginar que a corrupção tinha necessariamente de envolver somas fabulosas, sempre em dinheiro vivo. Fora disso, corrupção não era.

Errado. Todo suborno – ou tentativa de suborno – entra na abrangência do crime de corrupção. Quem dá é o corruptor, o ativo; quem aceita é o corrompido, o passivo. Ambos incorrem no mesmo crime de corrupção. Apropriar-se ilegalmente de informações privilegiadas e usá-las em benefício próprio também se enquadra no mesmo conceito.

Isso visto, que não venha o capitão bater no peito e declarar que, em seu governo, não há corrupção. Um dos primeiros fatos tortos de sua gestão, do qual hoje pouco se fala, foi a vingança que ele exerceu contra um fiscal que o tinha multado por pescar em local proibido. Lembram-se?

Pois essa vingança se enquadra no quesito corrupção. Para concretizar sua vingança, o doutor teve de procurar saber quem era o fiscal, em que repartição trabalhava, quem era o chefe. São informações confidenciais, não disponíveis ao cidadão comum.

Bolsonaro valeu-se, portanto, de informações privilegiadas obtidas ilegalmente e as usou em benefício próprio. Um benefício mesquinho e maldoso, diga-se.

Se as autoridades que têm poder para tanto tivessem levantado o espectro do impeachment já naquele momento, talvez o capitão já estivesse atrás das grades e nós, o povo, não tivéssemos chegado às eleições de 2022 tendo de escolher entre a peste bubônica e o cólera-morbo.

Rivais

Chamada do Estadão

José Horta Manzano

Desde que se sedentarizaram e se tornaram cultivadores, os humanos passaram a depender da água de maneira crucial. Sem água, como é sabido, planta não cresce.

Cinco mil anos atrás, nas civilizações da Mesopotâmia, já surgiu a questão da divisão das águas para irrigar as terras de cada um. Cada povo encontrou solução adequada à abundância (ou à raridade) do precioso líquido.

Aliás, a palavra rival é da mesma família que rio, ambos derivados do latim rivus. A parentela se espalha por diversas línguas europeias: o italiano rivo, o francês rivière, o inglês river, o espanhol río. No português arcaico, dois agricultores que compartilhavam as águas de um mesmo rio eram ditos rivais. Nessa acepção, o termo desertou a linguagem comum e só sobrevive em juridiquês.

Portanto, a ideia contida no termo rival é a de dois (ou mais) dividindo a posse de algo ou de alguém. Transposta para o plano humano, temos, por exemplo, a imagem de dois homens que condividem (ou disputam) a posse da mesma mulher. São rivais. Sucumbindo às exigências da linguagem politicamente correta, que se mencione também o caso de duas mulheres que condividem (ou disputam) o mesmo homem. Também são rivais, ora pois.

Na linguagem atual, são rivais duas pessoas que brigam para chegar ao mesmo objetivo. Dois alunos empenhados na conquista do título de melhor da classe são rivais. Dois esportistas que disputam o Balão de Ouro são rivais. E assim por diante.

Terras pertencentes a rivais

O presidente Bolsonaro lançou ao ar a insinuação de que o empenho do contra-almirante Barra Torres (presidente da Anvisa) em iniciar rapidamente a vacinação das crianças só podia ser resultado de “interesses”. Todo o mundo entendeu que os tais interesses da Anvisa só podiam ser escusos, venais, inconfessáveis.

Insinuação por insinuação, digo eu que cada um costuma julgar os outros por si. Mas não sei se aqui seria o caso.

Sentindo-se publicamente injuriado, o militar escreveu belíssima e emocionante carta aberta ao presidente, na qual defendeu a própria honradez e desafiou Bolsonaro a apontar algum indício de irregularidade na gestão da Anvisa. E mandou a injunção: “Se não encontrar nada, que se retrate!”. O texto integral se encontra fácil na rede.

Até o momento em que escrevo, três dias depois da carta, Bolsonaro não se retratou. Nem apontou nenhuma irregularidade na gestão da Anvisa. Está de bico calado e com o rabo enfiado no meio das pernas feito cachorro assustado. Tudo indica que o contra-almirante ganhou a parada: o capitão, maldoso mas leviano, se estrepou. Deu com a cara no chão, como se dizia.

A chamada do jornal diz que Barra Torres passou de aliado a rival do presidente. É tolice. Rivais seriam, em sentido metafórico, se estivessem, cada um por seu lado, disputando um mesmo objetivo – a saúde da população, por exemplo.

Não é nada disso. Quando se diz que duas pessoas são rivais, está sempre subjacente a ideia de compartilhamento. No caso que envolve Bolsonaro e o contra-almirante, não é bem assim. Os dois estão em polos opostos, um de costas para o outro, sem a menor disposição para compartilhar seja o que for.

Melhor será dizer que são oponentes, opositores, adversários, contraditores. Rivais, não são.

A solidão de Bolsonaro

José Horta Manzano

Rodeado de áulicos e todo tipo de interesseiros que só sabem aplaudir, o capitão não se dá conta da realidade. Ele se esquece que, no duro mesmo, o que conta é o voto popular. Não adianta subornar militares nem comprar o Congresso pra formar uma coalizão de aparência sólida. Ao fim e ao cabo, quem manda são os eleitores. Se não derem apoio a Bolsonaro nas urnas, assistiremos ao fim da comédia.

Na medida que continuar se enfraquecendo nas pesquisas, o presidente vai assistir à debandada dos que só lá estão por interesse. Ninguém tem vontade de associar o próprio nome ao de um perdedor.

Não sei se o capitão está a par de que, no exterior, seus melhores amigos – mais espertos que ele – estão trilhando outras veredas. Enquanto ele continua a dar murro em ponta de faca com seu negacionismo vacinal, dois de seus raros apoios estrangeiros já viraram a casaca.

Nas vésperas do Natal, o governo de Israel anunciou que passaria a propor uma quarta dose de vacina aos maiores de 60 anos, assim como ao pessoal médico e paramédico, que são os mais expostos ao contágio.

Aliás (não sei se o distinto leitor tem a mesma impressão), me parece que a profusão de bandeiras israelenses que os bolsonaristas arvoravam nas manifestações andam meio sumidas, não? Talvez aquilo explique isto, ou seja, o não-negacionismo explícito do governo israelense entra em colisão com o negacionismo primitivo de nossos aprendizes de extrema-direita.

Portanto, a amizade tipo unha e carne que parecia ter se cristalizado entre Brasília e Tel-Aviv virou fumaça. De fato, não dá pra conciliar o intenso programa vacinal israelense com a indignação de um Bolsonaro que chegou a dizer “Não entendo essa gana por vacina”. Ah, tem tanta coisa que ele não entende…

Outro amigo de infância que se distanciou do capitão foi Donald Trump. Esse, então, deu uma cambalhota. Faz uns dias, perto da virada do ano, no momento em que a onda de ômicron começava a se alastrar pelos EUA, o ex-presidente bilionário ressurgiu como defensor da vacinação, um inesperado arauto na luta contra a desinformação sanitária (!).

Algumas semanas atrás, num comício no Alabama – um dos estados com índice de vacinação mais baixo –, Trump foi claro: “Recomendo a vocês que se vacinem. Eu me vacinei. É bom. Vacinem-se!”. Algumas vaias se alevantaram, e o astuto orador mudou de assunto. Mas não desdisse o que havia dito.

Mais adiante, em 19 de dezembro, o antigo presidente reincidiu. Chegou a desestabilizar apoiadores e analistas ao defender a vacinação em diversas ocasiões, de modo aberto e inequívoco. Em Dallas (Texas), diante de uma multidão de simpatizantes, voltou a bater na mesma tecla. Aproveitou para se vangloriar de que as vacinas tinham sido desenvolvidas durante sua gestão. Asseverou que a vacinação vem salvando dezenas de milhões de vidas no mundo, e que é uma terapêutica fantástica. Levou vaias de novo.

Incansável, retomou o fio numa entrevista na tevê, dias mais tarde, quando dialogava com Candace Owens, apresentadora e porta-bandeira dos antivax. Bastou a moça insinuar que as vacinas não têm nenhum interesse, para Trump cortar-lhe a palavra, brusco: “É uma das grandes conquistas da humanidade. A vacina funciona.” E concluiu o raciocínio dizendo que “as pessoas não morrem [de covid] quando estão vacinadas”. Mais claro, impossível.

Os grandes apoios internacionais de Bolsonaro se dissolvem a olhos vistos. Minguando nessa velocidade, tanto interna quanto externamente, o que é que sobrará do capitão em outubro?

Pra derrubar Bolsonaro

José Horta Manzano


Embora não passe de devaneio, está aqui a fórmula certeira pra derrubar Bolsonaro e, ao mesmo tempo, evitar que o Lula volte à Presidência


Do jeito que a coisa vai, só pode piorar. Enquanto o capitão estiver no trono, não há esperança. Corrupção, compra de parlamentares, destruição da natureza, inflação, vergonha internacional – o cardápio é indigesto.

O Lula tem boas chances de vencer Bolsonaro. Só que “ter boas chances” não é certeza de vitória. Se um cadidato de terceira via sobressair nos próximos meses – Moro, Doria, Tebet, Pacheco ou outro – crescerá a possibilidade de termos um segundo turno entre esse candidato e o Lula. Se isso acontecer, o Lula estará em situação de fragilidade eleitoral. O quadro vai se complicar para ele.

Há uma fórmula com potencial de derrubar Bolsonaro na certeza, com vitória já em primeiro turno.

Outro dia, o Lula e Alckmin jantaram juntos e trocaram juras de amor eterno. Garantiram que a amizade inabalável que os une vem do tempo em que jogavam bafo e trocavam figurinhas no parque infantil.

Pois que levem adiante esse reencontro. Que formem uma chapa para as eleições presidenciais. Mas não aquela em que todos estão pensando (Lula para presidente e Alckmin de estepe). Este é um daqueles casos em que a ordem dos produtos altera o resultado.

Uma chapa com Alckmin para presidente e Lula para vice seria im-ba-tí-vel. Contentaria a gregos e troianos, e garantiria vitória no primeiro turno.

Lulopetistas, ainda que se sentissem um pouco desapontados de não ver seu herói na cabeça, não deixariam de apoiar a chapa. Votariam.

Antibolsonaristas, esperançosos de derrubar Bolsonaro e aliviados de o cabeça de chapa não ser o Lula, votariam.

E até os nem-nem (nem Bolsonaro, nem Lula), tranquilizados pelo fato de não ver nenhum dos estropícios na cabeça da dobradinha, votariam.

É, mas aqui esbarramos num muro resistente. Alguém imagina o orgulhoso Lula, aquele que um dia ousou dizer “a opinião pública somos nós”, se contentar com a vice-presidência? Certo que não.

É uma pena porque, rearrumada na ordem que proponho, a dupla faria sucesso. Venceriam na certa, ainda que o capitão dobrasse o valor da bolsa família e jurasse nunca mais falar palavrão.

Espero não ter que retornar antes

José Horta Manzano

Já nos tempos de Aristóteles, 2400 anos atrás, ensaiava-se a enumeração dos principais vícios da humanidade. Séculos mais tarde, o cristianismo tratou de catalogá-los. Ficou determinado que os desvios de comportamento que geram todos os males do comportamento humano são em número de sete.

A Igreja lhes dá o nome de sete “pecados capitais”, mas seria mais apropriado falar em “vícios capitais”. O vício é um desvio de comportamento que, na própria doutrina católica, pode dar origem a um ato pecaminoso.

A ordem em que esses vícios (ou “pecados”) são enumerados pode variar. No entanto, nas línguas da Europa cristã, a sequência mais frequente é esta: soberba, avareza, luxúria, inveja, gula, ira e preguiça.

Como se vê, a soberba aparece sempre no topo da lista, prova da importância que a doutrina lhe dá. Esse primeiro lugar ocupado pela soberba engloba uma família de variações: orgulho, vanglória, presunção, arrogância, empáfia, fatuidade, vaidade – todos aparentados.

Como já tinham notado os antigos, a soberba é atitude a evitar. Não traz nada de bom. Pra piorar, cutuca o destino, que é capaz de pregar peças cruéis.

História triste de fim de ano

by Caio Gómez, Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 janeiro 2022

É verdade que, em época de fim de ano, é costume falar de presentes, de peru e de farofa. Só que, ao lado do sonho, está sempre a vida real, uma danadinha que tem o desagradável hábito de nos puxar de volta ao chão. Assim, apesar da vontade de escrever uma fábula com guirlandas e fogos de artifício, cedo ao dever de manter pés na terra. Deixo pra passear de jet ski outra hora.

Alguns apontam La Niña como responsável; outros atribuem a tragédia a um pesado carma que o país carregaria. Pouco importa. O fato é que, desde novembro, o estado da Bahia vem sendo castigado por verdadeiro dilúvio. Chove tudo o que Deus mandou, e mais ainda.

Enxurradas, enchentes, desabamento de habitações, desmoronamento de morros, queda de pontes, colapso de estradas – nenhuma desgraça terá sido poupada à população. O governador do estado não economizou palavras. Segundo ele, estamos assistindo ao “maior desastre natural da história da Bahia”.

Na Europa, onde bem poucos seriam capazes de apontar a Bahia num atlas, a notícia tem saído no jornal, no rádio e na tevê, ao vivo e em cores. Comovidos, governadores de pelo menos dez estados brasileiros já se movimentaram para enviar ajuda humana e material para mitigar o apuro dos sinistrados.

Segundo a contagem publicada no momento em que escrevo, o desastre já atingiu mais de 100 municípios, pelo menos 25 mortos, cerca de 360 feridos e pra lá de 30 mil desabrigados. Para dar uma ideia de grandeza, é como se, de repente, a população inteira de Dracena (SP), de Diamantina (MG), de Soledade (RS) ou de Gameleira (PE) perdesse o teto. Incluindo homens, mulheres, crianças, gestantes e anciãos. Todos na rua. Sem contar os mortos e os feridos.

Decerto cutucado por algum assessor para que fizesse algum pronunciamento, o presidente Bolsonaro veio a público e pareceu condoído da sorte dos feridos e desabrigados. Disse que “agora, no início do ano que vem” tinha intenção de editar medida provisória liberando crédito de 200 milhões “para atender o pessoal”. Disse isso no dia 27 de dezembro. Até “o início do ano que vem”, com boa vontade, faltava pelo menos uma semana. Pra quem tem teto e vive abrigado em palácio, cercado de seguranças e com aluguel pago pela Viúva, ‘estar sem teto’ não passa de figura de linguagem. Na vida real, é outra coisa.

Mas o doutor seguiu para o segundo capítulo de suas férias. Depois da dança do funk no litoral paulista, foi gozar as delícias da costa catarinense, bem longe da Bahia, das enchentes, dos desmoronamentos e dos pobres. Partiu com o espírito leve dos que nada devem.

Assessores mais conscientes hão de ter considerado que, para quem perdeu tudo e vive ao relento, ter de esperar até “o início do ano que vem” era muito. Logo na terça-feira 28 saiu a medida provisória com o crédito extraordiário. Mas a nota da Secretaria-Geral da Presidência adverte aos baianos que não venham com muita sede ao pote. O dinheiro não é só para eles, não. Terão de compartilhar com Amazonas, Minas Gerais, São Paulo e Pará.

Pois é, enganou-se quem imaginava que o auxílio de emergência fosse para os desabrigados reconstruírem as casas. De olho na recuperação do tráfego rodoviário, ora bloqueado por causa dos estragos provocados pela chuva, o governo deixou bem claro que esse dinheiro se destina a recuperar as estradas. Quem perdeu a casa? Que se vire. Deus é grande e há de ajudar, não é mesmo?

Pela enésima vez fica escancarada a absoluta falta de empatia do capitão, sua rematada indiferença com os problemas alheios. Fosse ele um cidadão comum, essa bizarria não iria além do círculo familiar. No entanto, sua posição de chefe do Estado brasileiro faz que a distorção de caráter respingue sobre o andamento da nação.

Bolsonaro sabe que, sem uma economia florescente, será difícil reeleger-se. O espeto é que, possuído por essa ideia, não se dá conta de que os votos da reeleição virão justamente daqueles que ele hoje relega a segundo plano. Esses infelizes não são variáveis de ajuste, presidente, são seus potenciais eleitores!

Mas não adianta. Não há pior cego que aquele que não quer ver. Vamos torcer para que as eleições deste novo ano não nos ponham de novo um estropício na Presidência – nem este, nem aquele. Feliz 2022 a todos!

Vacina para crianças

José Horta Manzano

Para futuros turistas que se preparam pra visitar determinados países ou regiões, recomenda-se tomar (ou exige-se que tomem) vacina contra doenças como tifo, febre amarela, raiva, hepatite A, poliomielite.

Para crianças, independentemente de qualquer viagem turística, a vacinação é obrigatória ou recomendada para proteger contra bom número de doenças: difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola.

Como se sabe, a vacinação dos pequerruchos é coisa corriqueira, sabida e aceita por todos. Não há mãe que deixe de levar seu filho ao médico ou ao posto de saúde pra ser imunizado.

Os mais antigos se lembram de um tempo em que essa proteção simplesmente não existia. Dá impressão de que vivemos hoje num mundo abençoado. Há quem diga que não passa de impressão. Mas essa é uma outra discussão.

Fico abismado – e meus leitores habituais sabem disso – com essa gente que recusa a vacina anticovid. Na Europa, espantosamente, são muitos. É verdade que, no Brasil, são poucos. Felizmente.

Fico boquiaberto com certos cidadãos de miolo mole, em geral apoiadores do capitão, que combatem a liberação da vacina anticovid para crianças. Como é que pode? Levam o filho para tomar vacina contra difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola, mas, na hora da vacina contra a maior pandemia que castigou a Terra nos últimos séculos, se afinam. Expõem os próprios filhos – e o resto da família – só pra obedecer à mente doentia do capitão. Não pode ser gente normal.

E tem mais. Não se está impondo nenhuma obrigação de vacinar crianças. O que se propõe é a autorização de vacinar. Ao fim e ao cabo, só vacinará seu filho quem quiser.

Vamos ver como está a situação além-fronteiras. Dia 25 de novembro, a Agência do Medicamento Europeia (que corresponde a nossa Anvisa) autorizou a vacina para crianças na faixa de 5 a 11 anos. Desde então, a Dinamarca e a Áustria já organizaram a campanha de vacina para os pequeninos. Na Alemanha, que é um país federal, como o Brasil, Berlim e a Baviera (Munique) já entraram para o time.

A Hungria – dirigida por Viktor Orbán, colega extremo-direitista de Bolsonaro – vai lançar sua campanha para a vacinação dos 5-11 anos quarta-feira. Na Grécia, os pais de 20 mil pequerruchos já inscreveram os rebentos para a picada, que também começa a partir de quarta-feira.

A Espanha, que está na categoria dos bons alunos no quesito vacinação, também já abriu sua campanha para vacinar os 5-11 anos. Portugal já planificou a imunização dos pequenos: começa esta semana e vai até 13 de março, os de 11 anos primeiro, e pouco a pouco baixando até chegar aos de 5 anos.

A Itália, a Lituânia, a Letônia, a Estônia, a Polônia (dirigida por colegas de Bolsonaro), a Eslováquia, a Tchéquia e a Suíça vão dar partida na campanha de vacinação infantil contra a covid estes próximos dias.

Enquanto isso, no Brasil… nosso respeitado capitão subiu a serra quando ficou sabendo que a Anvisa tinha conferido à criançada o direito de também ser imunizada contra a pandemia. Prometeu publicar, para execração pública, o nome dos diretores e funcionários que autorizaram “essa barbaridade”. O ministro da Saúde Pública, um sabujo interesseiro, repetiu como papagaio o discurso do presidente.

Destoando da covardia que os propósitos absurdos e cruéis de Bolsonaro costumam suscitar, a Anvisa soltou uma nota dura, indignada, inflexível.

Ai, que saudades do tempo em que nossos governantes se empenhavam em amparar os brasileiros, não em os assassinar.