Frase do dia – 476
Penitência
José Horta Manzano
Você sabia?
Nos anos 1600, a Espanha era dona de meio mundo. Além do espaço peninsular, a coroa contava com outras possessões: as extensas colônias na América, as Filipinas, entrepostos comerciais na costa africana e ainda territórios na Europa: Sardenha, Sicília, Milão, o Condado da Borgonha (hoje na França), a Bélgica, os Países Baixos, Luxemburgo e alguns territórios hoje alemães. Era um império vastíssimo que despertava muita cobiça.
No ano de 1700, Carlos II, rei da Espanha, morreu sem deixar descendência. Ele era da poderosa linhagem dos Habsburgos – a Casa da Áustria –, família cujos membros reinaram por séculos na Alemanha, na Áustria, na Espanha, na Croácia, na Hungria e em outros territórios.
Famílias da alta nobreza europeia costumam ser muito entrelaçadas e exibir parentesco intrincado. Esse fenômeno perdura até nossos dias. Os reis e rainhas atuais são todos primos próximos ou distantes. É fácil entender que, com a morte de Carlos II, tenha aparecido meia dúzia de pretendentes ao trono, todos oriundos dessa consanguinidade e, de certa forma, parentes do falecido.
Como não houve meios de se pôr de acordo, o jeito foi entrar em guerra. Desses conflitos antigos, não se fala muito. A razão é simples: vivemos num mundo de imagem e dessas velhas guerras não há foto, nem filme, nem vídeo. O máximo que se tem é uma ou outra pintura, em geral executada décadas mais tarde.
A Guerra de Sucessão espanhola foi feroz; representou um prenúncio dos futuros conflitos mundiais. Opôs a dinastia dos Habsburgos à dos Bourbons. Batalhas travaram-se não só na Europa, mas também na América, entre colonos ingleses, espanhóis e franceses. É complicado explicar em duas linhas os comos e os porquês do enfrentamento. Alguns números dão uma ideia da amplitude. A guerra se estendeu de 1701 a 1714. É impossível calcular o total de vidas humanas perdidas, visto que os observadores da época não dispunham dos instrumentos de hoje. As estimativas variam muito, mas a contagem mais impressionante chega a 1.250.000 mortos, entre militares e civis. A fome e a doença são a causa principal de mortes civis.
Importante batalha ocorreu em 1713 na região de Valencia, na cidadezinha de Xàtiva. Dado que o enredo é complicado, não vale a pena descer aos pormenores. Convém notar que a memória coletiva dos habitantes guarda gosto amargo dos massacres de que seus antepassados foram vítimas. O ressentimento contra os Bourbons perdura até hoje.
Passados 300 anos, é justamente a Casa de Bourbon que ocupa o trono espanhol. Tanto Juan Carlos I como seu filho e atual rei, Felipe VI, pertencem a essa dinastia. Em Xàtiva, que hoje conta com 30 mil habitantes, há um museu de arte que abriga pinturas. Entre os quadros, há um retrato do rei Felipe V, aquele que reinava na época da batalha de 1713. Artisticamente, não é nenhuma obra-prima, mas representa justamente o detestado opressor, fato que incomoda os nativos.
Nos anos 1950, o diretor do museu era um señor mais ousado que seus antecessores. Um dia, tomou a decisão de pendurar o quadro de cabeça para baixo. Está até hoje nessa posição. Ficou combinado que só voltará à posição original no dia em que um dos descendentes pedir desculpas pelo massacre que seus antepassados cometeram contra o povo da cidadezinha.
Até hoje, nenhum dos reis da Espanha aquiesceu ao pedido. Para surpresa de visitantes do museu que não conhecem a história, o quadro continua de ponta-cabeça. A depender da vontade dos habitantes de Xàtiva, assim vai continuar.
Pro santo
José Horta Manzano
Estamos em época de preenchimento de vaga no STF. Brasília ferve. Candidatos não faltam. Dado que cabe ao presidente da República indicar um nome, postulante que se preza tem o dever de ofício de bajular doutor Bolsonaro. Muitos foram os candidatos, mas só um foi escolhido. E o indicado é… doutor Kassio Marques! Naturalmente, desde que o Senado da República dê aval, fato que, nos tempos que correm (e nas benesses que correm por trás), é dado como favas contadas.
Doutor Kassio vem reforçar o time dos que têm K, W ou Y no nome. Este blogueiro é do tempo em que essas letras eram, por assim dizer, proibidas. A professora ensinava que eram estrangeiras. É como se, para entrar em nossos livros, tivessem de apresentar passaporte visado.
A gente tinha inveja de quem tinha uma dessas letrinhas no sobrenome. Os pais de doutor Kassio hão de ter sofrido desse complexo de não-estrangeiridade. Como sentiam falta das letrinhas no sobrenome e não havia jeito de inseri-las, tascaram um K no nome do filho, logo no começo, que é pra todo o mundo ver. O novo integrante fará companhia a doutora Weber e a doutor Lewandowski. No quesito passaporte visado, no entanto, este último é campeão até agora imbatido: tem dois W no sobrenome.
Ilibada
Como manda a Constituição, o Senado avaliará se o indicado é ou não é senhor de notável saber jurídico. Confirmará também se sua reputação é ilibada. Interessante, esta última palavra. Anda sempre com a reputação a tiracolo. Nunca a vi em companhia de outro substantivo. De onde vem ela?
Vem de libar – verbo raramente utilizado, embora corresponda a um gesto que se vê frequentemente. Libar significa entornar no chão a bebida que estava num copo. Era costume dos romanos de dois mil anos atrás. Em determinados cultos aos deuses, o oficiante apanhava um cálice de bebida, aflorava com os lábios e versava o conteúdo ao solo em oferenda.
O verbo saiu de uso no português atual, mas o gesto perdura, embora um pouco mais egoísta. O legítimo bebedor de cachaça entra no boteco e pede uma caninha. Em seguida, inverte a ordem da oferenda. Primeiro, joga um trisquinho no chão, um presente ao santo – pouco, mas suficiente pra não deixar ninguém aguado. Em seguida, engole o resto (ou seja, praticamente tudo).
Mas fiquem frios: no governo atual, não há mais cachaceiros. São todos devotos da tubaína. E de um delicioso pãozinho encharcado com leite condensado. Nada de dar pro santo, porém! E quem deixar pingar na toalha paga o almoço!
Ilibado entrou no uso comum com o significado de inteiro, não tocado, não corrompido, imaculado, puro. É a isso que a Constituição se refere ao exigir reputação ilibada.
Falando de STF
Achei interessante esta chamada do Estadão deste 12 de outubro. É verdade que a Constituição não proíbe que membros do STF conversem com as paredes. Assim mesmo, o bom senso faz supor que nem doutor Fux, nem os demais ministros, têm o hábito de falar sozinhos. Tudo o que dizem é dito a alguém. Esse alguém é designado como interlocutor. Interlocutores podem ser colegas, a esposa, um contínuo, um motorista ou jornalistas. Em resumo, é evidente que, quando se diz algo, diz-se a interlocutores.
A chamada não perderia nada se eliminasse “a interlocutores”. Ficaria mais enxuta, mais elegante, e daria o mesmo recado. Em tempos de penúria, cortar excessos é dever de todos.
Miosótis
José Horta Manzano
Embora a flor não seja comum no Brasil, o nome miosótis é conhecido. A planta é pra lá de comum em regiões de clima temperado. Flores azuis desabrocham a cada primavera. Mais raramente, a cor pode ser rosa ou branca.
O miosótis (ou a miosótis, vai do gosto do freguês) é florzinha pequenina, delicada, perfeita pra entrar num buquezinho simples para a namorada.
Sabe-se lá por que razão, grande parte das línguas europeias, a começar pelo português, dão ao miosótis o sugestivo nome de não-te-esqueças-de-mim (ou não-te-esqueças).
Origem do nome
Velha lenda germânica relata que um dia, enquanto criava o mundo, Deus estava dando nome às flores: «Você será rosa! Você, gerânio! E você se chamará dália!»
E assim foi, uma por uma. Quando já estava quase terminando, uma flor pequenina e escondida num canto sentiu medo de ficar sem nome. Ousou dirigir-se ao Senhor:
«Não te esqueças de mim!».
E Deus, na lata:
«Pois esse será teu nome!».
Por excesso de fé ou por falta de criatividade, o português, o espanhol, o italiano, as línguas germânicas e até o russo seguiram a determinação divina:
Português: não-te-esqueças-de-mim
Inglês: forget-me-not
Alemão: Vergissmeinnicht
Espanhol: nomeolvides
Russo: незабудка
Sueco: förgätmigei
Italiano: nontiscordardimè
Holandês: vergeet-mij-niet(1)
Por que será que todos procuram escapar do nome original? Talvez seja pela etimologia pouco poética. Miosótis vem do grego através do latim.
É composto de myós (rato) + otós (orelha). É isso mesmo: orelha de rato(2). Vai-se todo o romantismo, não?

(1) É interessante notar como algumas línguas preferem separar os termos com hífen, o que me parece complicação inútil. Outras escrevem tudo colado.
(2) Myós (rato) deu Maus em alemão e mouse em inglês, termo corriqueiro, devidamente fisgado por nossa novilíngua para uso em computador. Podiam, ao menos, ter aportuguesado (maus). Em vez disso, o termo foi adotado e engolido cru. Como resultado, uma sílaba foi acrescentada à pronúncia original. No Brasil, em vez de maus, ouve-se máuzi.
Otós (orelha). Em nossa língua, a raiz reaparece em termos ligados à saúde: otite, otalgia, otologia, otorrino.
Publicado originalmente em 12 ago 2015.
Outras máximas ― 62
Trump, a bomba humana
Milhões perderam o emprego por causa do coronavírus. Donald Trump não. A pandemia não obrigou a Casa Branca a fechar as portas. Em consequência, Trump continuou batendo o ponto, recebendo o salário e contando com as benesses de seu cargo, inclusive a de ter sua vida salva.
Não sejamos cínicos. Foi com euforia que o mundo recebeu a notícia de que ele caíra vítima da doença que já afetou 35 milhões de pessoas e cuja gravidade sempre negou. Nada de condolências ou preces hipócritas pela sua recuperação. Multidões torceram para que ele passasse pelos mesmos horrores que nossos parentes e amigos, como o de ser entubado, e, quem sabe, se juntasse ao mais de um milhão de pessoas que o vírus levou. Entre outros motivos, para que alguém menos irresponsável tomasse as rédeas nos EUA e interrompesse o nefasto exemplo que Trump dá a governantes beócios.
Daí o encanto com que acompanhamos a batelada de remédios que os médicos bombearam no seu organismo por uma miríade de orifícios. Trump foi recheado com coquetéis de anticorpos sintéticos, antivirais, melatonina, zinco, aspirinas e antiácidos, associados a quilos de drogas heavy metal como dexametasona, remdesivir e REGN-COV 2, enquanto eles o mantinham respirando com jatos de oxigênio capazes de inflar o dirigível Hindenburg. Só não lhe deram cloroquina porque queriam salvá-lo, não matá-lo.
Com tudo isso, não admira que ele tenha levado apenas três dias para ressuscitar, voltar ao trabalho e jogar fora a máscara. O problema agora é: quem vai proteger a Casa Branca da bomba humana que Trump se tornou, despejando perdigotos por onde passa e atingindo colegas, burocratas, seguranças, faxineiros e até os pobres correspondentes?
Trump declarou que se sente melhor hoje do que “há 20 anos”. Mentira. Há 20 anos ele estava apalpando mocinhas em público. Agora já não lhe serve de nada fazer isso.
(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.
Decoro
José Horta Manzano
Nos tempos em que os povos viviam em estado de guerra permanente, era natural que o melhor guerreiro se tornasse chefe. De Júlio César, os romanos esperavam que vencesse batalhas e conquistasse territórios – o que de fato ele fez.
Dois milênios mais tarde, Benito Mussolini e Adolf Hitler ainda seguiam na mesma linha. Tinham a guerra no ADN (=DNA) e só pensavam naquilo. O primeiro anexou a Líbia e a Etiópia; o segundo assenhoreou-se da Europa quase inteira. Fizeram ambos o que deles se esperava. O comportamento de ambos coincidia com o anseio do povo. Combinava com o Zeitgeist, o espírito do tempo.
Os tempos hoje são outros. No mundo civilizado do qual imaginamos fazer parte, guerra de conquista saiu de moda. No Brasil, tirando algum devoto fanatizado, ninguém teme invasão chinesa, americana ou russa. Nem muito menos argentina, preocupação permanente de certos generais cinquenta anos atrás.
Hoje vivemos um tempo de contração, de interiorização. Nosso almejo e nossas esperanças estão voltados para dentro. Nosso sonho é alcançar uma igualdade social finlandesa, com padrão cultural francês, grau de segurança escandinavo e nível econômico americano. Quem é que não gostaria?
O valor simbólico do presidente da República equivale ao dos reis de antigamente – aqueles que eram escolhidos porque mais fortes que os demais e mais ágeis nas artes da guerra. Nossos reis de hoje têm de estar capacitados a conduzir nosso povo em direção aos padrões finlandeses, franceses, escandinavos e americanos.
Por seu valor simbólico, o presidente deveria estar assentado num degrau acima dos demais. Em países adiantados, é o que costuma ocorrer. Em países adiantados, eu disse. Por desgraça, não é nosso caso. A desigualdade social vertiginosa que perpassa nossa sociedade faz que o presidente será tanto mais apreciado quanto mais dinheiro distribua à massa de eleitores.
Quanto ao resto, se tem qualidades ou não, pouco importa. Ele está liberado para fazer o que bem entender: roubar, mentir, transgredir, agredir, regredir, tanto faz. Tudo lhe será perdoado desde que a torneirinha de onde pingam os caraminguás continue aberta.
Só isso explica que o atual inquilino do Planalto se tenha permitido, quando da live de ontem, pronunciar grosserias que nunca, jamais, em tempo algum, se ouviram da boca de um presidente do Brasil. Fico até incomodado de reproduzir aqui as palavras do doutor. Se o distinto leitor já ficou sabendo, tudo bem. Se não, boto aqui abaixo a frase presidencial. Só que, para não chocar nem envergonhar ninguém, escrevo de cabeça pra baixo. Assim, só lê quem quiser.
Pra quem estiver lendo no telefone, é só virar o aparelho. Pra quem estiver à frente de um computador, é mais complicado. Gire o monitor ou torça o pescoço. Se não conseguir, não tem importância, não estará perdendo grande coisa. Não passa de uma ousadia a mais daquele que não tem categoria para ocupar o lugar onde está.
Nota etimológica
Decoro vem do latim decórum – aquilo que convém, que combina bem. É derivação do verbo decére, convir. Denota conveniência de atos ou de coisas, atributos do homem honrado. Esse verbo também deu decente.
Sinônimos mais ou menos próximos de decoro são: decência, honradez, dignidade, compostura, equilíbrio, vergonha, reserva, resguardo, recato, integridade, nobreza, brio, probidade, respeitabilidade, lisura, retidão, seriedade, moralidade. A lista não é exaustiva.
Agora responda sinceramente: se a frase pronunciada pelo presidente na live de 8 de outubro de 2020 não é quebra de decoro, o que será?
Atrasado porque jovem
José Horta Manzano
Desde criancinha (olhe que já faz tempo!), ouço dizer que o Brasil é atrasado porque é país jovem. Outros países – na Europa, por exemplo – seriam mais adiantados porque já tinham milênios de história quando as primeiras caravelas aportaram na Bahia. Em resumo, os europeus já tinham tido tempo de civilizar-se.
Acredito que os que pensam assim aceitam a teoria de um Brasil construído sobre tábula rasa, tudo começando do zero, como se nada existisse antes. Para muitos, essa explicação deve parecer razoável, razão pela qual saem repetindo por aí. Quanto a mim, acho que é pura balela. Conversa mole pra boi dormir (ou colóquio flácido para acalentar bovinos, como dizíamos).
Há que ter em mente como era a Europa na época da instalação das primeiras colônias europeias no Brasil. No século 16, Espanha e Portugal eram potências planetárias. Eram tão importantes que conseguiram do papa – a maior autoridade da época – a bênção para dividirem o globo entre eles dois, sem dar fatia a mais ninguém.
Atualmente, só nações que estão na ponta do progresso tecnológico conseguem enviar um foguete à Lua, pois não? Pois naquela época, só os países ibéricos dispunham do saber necessário para dedicar-se à navegação de longo curso. Só os dois, nenhuma outra nação. Não era pra qualquer um.
Manobrando caravelas que hoje nos parecem ultrafrágeis, portugueses contornaram a África e chegaram ao Extremo Oriente, uma façanha. Castelhanos atravessaram o Atlântico e aportaram na América. Ambos mostraram agilidade no manejo da tecnologia mais avançada. Os estabelecimentos coloniais mais numerosos na América, aliás, foram justamente fundados por ibéricos.
Espanhóis e portugueses não foram os únicos a povoar o território onde está o Brasil atual. Holandeses, entre outros, também por aqui estiveram, na Bahia e, sobretudo, em Pernambuco. Na época em que eles se estabeleceram em Olinda, os Países Baixos enriqueciam com o comércio. Por lá, floresciam as artes do mais elevado nível – Rubens e Rembrandt, note-se, foram contemporâneos de Maurício de Nassau, o governador-geral das colônias holandesas do Brasil.
O povoamento de nosso território não foi obra de extraterrestres. Os que para cá vieram não tinham brotado do nada. Eram europeus e traziam na bagagem, prontas para o plantio, as sementes daquele avanço tecnológico e daquela cultura milenar. Quanto a nós, somos herdeiros diretos desses milênios de civilização. Se a coisa encruou, não foi por pecado de origem, mas por erro de manipulação.
Se tivesse conseguido aliar o melhor da experiência europeia à vastidão e às promessas da nova terra, o Brasil seria um país fantástico. Não deu certo. Em algum ponto, desandou. Excetuando bolsões de excelência aqui e ali, estamos mergulhados num oceano de atraso. A causa certamente não é a juventude do país.
Frase do dia – 476
Doutor Mãos Limpas
José Horta Manzano
Você sabia?
Não é fácil estabelecer com segurança a paternidade da fórmula do álcool em gel (o popular ‘alquingel’). A criança tem muitos pais. Digamos que cada um deles contribuiu para dar um passinho à frente na evolução do produto.
Já em meados do século 19, o obstetra vienense Semmelweis, alarmado com os altos índices de mortalidade em decorrência de doenças contraídas no hospital, propôs o uso de uma solução antisséptica para uso do pessoal hospitalar. Levou tempo até que sua utilização virasse automatismo. Apesar de pouco eficaz, a fórmula continuou em uso, com pequenas variações.
Nos anos 1960, o médico alemão Kalmár observou que a ação do produto então utilizado para desinfecção das mãos era de curta duração. Na sala de operações, já tinha perdido a eficácia antes do fim da cirurgia. O resultado era o número sempre elevado de infecções hospitalares. Debruçou-se sobre o assunto e, em 1965, pôde lançar no mercado a primeira solução hidroalcoólica desinfectante, cuja fórmula viria a ser aperfeiçoada dez anos mais tarde por um médico do hospital de Friburgo (Suíça).
Nos anos 1990, o médico suíço Didier Pittet, infectologista do Hospital Universitário de Genebra, teve a idéia de associar o álcool a um agente antibacteriano (água oxigenada) e à glicerina. Não fez isso por acaso. Escolheu o álcool, a água oxigenada e a glicerina justamente porque são substâncias que não se podem patentear. Impediu assim que alguma grande indústria farmacêutica se apropriasse da fórmula e a comercializasse com exclusividade.
Dr. Pittet apresentou sua ideia à OMS (Organização Mundial da Saúde), que a aprovou e popularizou no mundo inteiro. Desde então, a fórmula tem sido adotada por médicos, enfermeiras e todo o pessoal da área de saúde para a higiene das mãos. Bem antes do aparecimento da covid, já se agia assim. Tem contribuído muito para baixar o risco de contaminação hospitalar.
Ao longo das últimas décadas, o médico suíço – que ganhou o apelido de Doutor Mãos Limpas – tem sido alvo de distinções no mundo inteiro. Entre outras homenagens, recebeu a comenda da Ordem do Império Britânico. Ele não ganhou nem um centavo com sua fórmula. Mas a humanidade agradece.
Novos termos
José Horta Manzano
Pandemias não agradam a ninguém. Trazem uma baciada de males e incômodos. Quanto mais duram, mais duradouros serão os transtornos. Lado bom, não há; parece que todos os lados são ruins.
No entanto, examinando bem, há que constatar que a covid está sendo propícia ao surgimento de termos novos ou à ressurreição de termos antigos, que voltam à moda reformados e com significado novo. Aqui estão alguns deles.
comorbidade
Palavra de uso antes raríssimo, estritamente reservada ao âmbito medical. Nem o Houaiss, nem o Aulette trazem o verbete. Comorbidade ocorre quando, a uma doença pré-existente num determinado paciente, vem se adicionar uma nova. Dado que está entre os principais fatores de risco, a comorbidade caiu na boca do povo.
presencial
Era termo raro, reservado para uso jurídico-policial. Ao frequentar os bancos da escola, nenhum de nós jamais se deu conta de que assistia a aulas «presenciais». Assim como o conceito não existia, o termo não era utilizado. O Houaiss dá dois exemplos: testemunha presencial, reconstituição presencial do crime. Hoje o termo é usado como contraponto a remoto.
remoto
Termo comum, presente na língua há séculos. Tem dois significados: tratando de tempo, indica o que ocorreu há muito; tratando de espaço, designa o que está fisicamente distante. No caso do ensino remoto, expressão de uso frequente, indica distância física entre educador e educando. Ainda não se cogitou em proporcionar ensino remoto no tempo, ou seja, ensino à moda antiga com intimidação e palmatória.
teletrabalho
A palavra é tão recente que ainda nem foi dicionarizada. É expressão bem mais simpática do que a pernóstica “home office”. A não ser que o indivíduo viva sozinho ou disponha de cômodo reservado, trabalhar em casa é complicado. Criança chorando, cachorro latindo, telefone tocando, adolescente escutando música em volume alto, campainha soando, tevê anunciando xampu – tudo isso atrapalha. Prefiro teletrabalho. É mais maneiro e parece menos cansativo.
alquingel
Nem sei se o produto existia antes da pandemia. Se existia, seu uso estava restrito a hospitais e outros ambientes onde esterilização é capital. Hoje encontra-se por toda parte. “Alquingel” é álcool em gel na voz do povo – palavra que parece não ter plural: “passa os alquingel aí!”. Dos termos que entraram na moda com a covid, é meu preferido. É menos perigoso que comorbidade e menos cansativo que teletrabalho. E, ainda por cima, protege. Que mais pedir?
Tweet censurado
José Horta Manzano
Assim que foi anunciada a doença de Donald Trump, a empresa Twitter previu que alguns aproveitariam a ocasião para exprimir desejo de ver o presidente num caixão. Antes que acontecesse, foram logo avisando que bloqueariam a conta de quem tuitasse sua esperança de ver Trump morto pela covid.
Poucas horas mais tarde, ao se darem conta de que teriam de bloquear a conta de pelo menos metade dos usuários, explicaram que não era bem assim. Os tuítes macabros seriam apagados, mas a suspensão da conta só se faria “em alguns casos”.
Nos tempos de antigamente, isso não acontecia. Quando a comunicação ia por carta, telex ou fax, a gente escrevia o que bem entendia. Tirando algum caso (raro) de criminosa invasão de privacidade, ninguém lia as mensagens. A gente podia dizer o que quisesse sem receio de censura.
Ah, esse progresso! Como se vê, progredir é irmão gêmeo de regredir. Quando um aparece, o outro nunca está muito longe.
Etimologia
Em latim, o verbo gradi significa andar, caminhar. Em português, temos alguns descendentes em linha direta: grau, degrau, graduar, gradual. Com adição de prefixos, formaram-se numerosos filhotes:
Progredir
Andar para a frente
Regredir
Andar para trás
Transgredir
Caminhar para além de um determinado ponto. Transpor determinada meta.
Agredir
Na origem, tinha o inocente significado de andar em direção a um ponto ou a alguém. Com o tempo, passou a significar atacar, investir.
Há outros cognatos: degradar, retrogradar, egresso, progresso, regresso, ingresso.
Interessante será notar que o Congresso, sempre pronto a dar um passinho à frente e outro pra trás, é membro legítimo da família.
Os problemas argentinos
Carlos Brickmann (*)
Tenho uma opinião firmada sobre os problemas argentinos. Um dos países mais ricos do mundo, com analfabetismo próximo de zero, autossuficiente em carne, trigo e petróleo, não resistiu à devastação peronista. Pior: a coisa foi tão longe que há peronistas de esquerda, de direita, extremistas.
É normal que as eleições envolvam disputas entre peronistas de um lado e de outro. Já vi eleições em que o hino peronista de direita louvava a segunda mulher de Perón (“Perón, Isabelita, la Patria peronista”) enquanto o peronismo de esquerda era favorável à primeira mulher de Perón (“Perón, Evita, la Patria socialista”). E Cristina Kirchner dificilmente poderia ser pior do que já é.
Bom, mas isso não significa que sejam verdadeiras as notícias sobre a vida na Argentina. A informação de que a pobreza atinge 40,9% da população argentina é falha. Pobreza, lá, significa receber menos de 45 mil pesos mensais (=R$ 3.300,00). E indigente é quem ganha abaixo de 18.500 pesos (=R$ 1.370,00).
Estão mal, mas há pelo menos um país vizinho que está bem pior.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.
E o santo remédio?
José Horta Manzano
Neste dias em que um planeta paralisado e aflito mantém os olhos voltados para o hospital onde o presidente Donald Trump está internado, seu médico pessoal, Dr Sean Conley, é a voz oficial que traz as esperadas notícias sobre a evolução clínica do ilustre paciente.
No boletim da noite de ontem (sábado), ele informa que Trump recebeu a segunda dose de Remdesivir(*) sem complicações. Acrescenta que o paciente está sem febre e que a saturação de oxigênio arterial está entre 96% e 98%, nível plenamente aceitável. Diz ainda que, embora Trump ainda não esteja fora de perigo, a equipe guarda prudente otimismo. O plano para domingo é manter o paciente em observação entre as doses de Remdesivir.
Ué? Acho que meus distintos leitores também repararam: onde está a cloroquina? Li o boletim de frente pra trás e de trás pra diante e… nada. O santo remédio foi abandonado!
No entanto, não faz muito tempo que assisti a um vídeo em que o próprio Trump afirmava tomar hidroxicloroquina regularmente como preventivo contra a covid. E o devoto Bolsonaro, então, que de tanto botar fé na palavra do mestre, chegou a mostrar o remédio às emas do Planalto!
Pelo que agora se vê, tanto a gesticulação de lá quanto a de cá não passavam de blá-blá-blá, fruto de ignorância malandra. Ou de ignorância autêntica, o que é ainda pior.

(*) Remdesivir é um medicamento antiviral que tem dado resultados positivos em alguns pacientes com covid. É aquele tipo de remédio que, na falta de outro, o médico receita. “Se não tem tu, vai de tu mesmo.”
Rádio Astral
Myrthes Suplicy Vieira (*)
Um estranho fenômeno vem acontecendo comigo há já um bom tempo. Acordo todos os dias ao som de uma melodia qualquer e me pego tentando decifrar de onde ela vem: de fora ou de dentro? Isto é, estaria o som flutuando só na minha cabeça ou existiria alguma fonte externa identificável para ele?
Inicialmente, imaginei que as canções que eu “ouvia” teriam vazado durante a madrugada do apartamento de baixo, onde minha vizinha costuma organizar festas e encontros com amigos, sempre regados a muita conversa e cantorias animadas. Podia ser também que essa esquisita parada musical fosse proveniente do radinho de pilha do porteiro do condomínio, às voltas com a necessidade de afastar o tédio e o sono das madrugadas. Abria a janela, olhava para todos os lados procurando identificar de qual direção o som poderia estar vindo, mas sempre em vão. Nunca descobri nenhuma pista segura.
Aos poucos, fui entendendo que teria de procurar na minha mente os gatilhos para esse exótico desfile musical. Teria sido um sonho? Mas, se fosse, por que não havia na minha cabeça nenhuma lembrança, nenhuma imagem, nenhuma sensação, nenhum contexto emocional capaz de explicar satisfatoriamente a emergência da trilha musical? E, mais intrigante ainda, qual seria a mensagem que meu inconsciente estava tentando me mandar?
O que mais me impressionava nesse sentido era a imensa variedade de ritmos, estilos musicais e das épocas que ficaram marcadas por eles. Podia ser uma valsa, um tango ou bolero, uma modinha interiorana, um samba-canção do passado, uma dessas músicas-chiclete dos dias de hoje que não saem mais da sua cabeça por mais que você as rejeite, um ‘hit’ sertanejo ou de sofrência, funk ou reggae, música de Carnaval, Natal ou de festa junina, algo no estilo bossa nova, MPB ou de axé-music. Era como se eu estivesse rebobinando mentalmente a fita que continha a história da minha vida baseada apenas em seu fundo musical.
Ao longo do tempo, outras canções e estilos preferidos vieram se juntar aos do repertório popular brasileiro. Ainda deitada e de olhos fechados, eu tentava rememorar a letra de cada melodia e me emocionava com a capacidade de recuperar as emoções provocadas por antigas canções francesas e antigos sucessos das divas americanas do jazz, soul e blues que marcaram minha adolescência. Logo foram entrando em cena, sem pedir licença, também músicas folclóricas, hinos pátrios que eu era obrigada a cantar na escola e até hinos religiosos, que incluíam as músicas de procissão que minha mãe me forçava a acompanhar em criança.
O maior susto veio quando acordei um dia cantarolando a ária Nessun Dorma, trecho da ópera Turandot de Puccini. Nunca me interessei muito por música clássica e mal podia reconhecer as grandes obras da categoria e seus autores mais famosos. Também não conhecia a letra e não compreendia as expressões italianas. Corri para o computador e busquei freneticamente o libreto para tentar entender a história nele contada e os significados que eu poderia derivar para meu momento de vida atual. Apesar de tê-la considerado muito instigante, não fui capaz de compreender a ligação entre a tirânica princesa chinesa e a princesa adormecida que me habita, ambas ordenando que ninguém durma até que o segredo seja revelado.
Ontem, para meu igual espanto, acordei repetindo, mesmo sem saber por quê, os versos em latim de uma música com forte conteúdo patriótico que cantávamos na escola, durante o curso ginasial: Deus salva América de hostibus/Cuncta bona ei dona in malorum fluctibus/Nos rogantes et clamantes inter carmen discimus/Deus salva América, Amééricaa…
Mais uma vez, ‘dei um Google’ assim que me levantei para saber se minha memória havia sido capaz de preservar fielmente a letra original. Não a encontrei em nenhum site ou blog. Havia apenas referência ao fato de que essa música é considerada uma espécie de hino não-oficial dos Estados Unidos e que havia uma versão em inglês da letra, escrita por Irving Berlin em 1918.
Fiquei atônita. Jamais me ocorreria pensar que nossos professores de canto tivessem nos apresentado a uma canção patriótica estrangeira, sem se preocuparem em nos informar com clareza sobre sua origem. Ainda mais pasma, descobri que havia uma versão em português da mesma música escrita por João de Barro (e cantada por Francisco Alves) em 1945. Mas, me perguntava atordoada, se tivemos de decorar uma letra em latim, ela devia ser forçosamente muito anterior à versão americana – e, portanto, tratava-se de uma composição de autor desconhecido que havia sido apenas encampada pelos Estados Unidos, graças à mania de se considerarem única referência de América (e não o continente como um todo).
Preciso fazer um parêntesis para explicar de que forma a música moldou minha personalidade ao longo da vida. Quando criança, era forçada a ouvir quase que exclusivamente música instrumental, tocada por uma grande orquestra ou por um pianista famoso, que meu pai adorava. Admito que aquilo me entediava bastante. Sempre senti falta das palavras. Acompanhar – e ser capaz de entender – a mensagem contida na letra era minha grande paixão. Foi em nome dela que me interessei pelo aprendizado de línguas estrangeiras. Ao longo de minha adolescência e começo da vida adulta, passava horas a fio ouvindo o mesmo disco e anotando às pressas como podia as palavras que decifrava. Depois, com o auxílio do dicionário, ia juntando uma palavra a outra, até que as frases começassem a fazer sentido.
É inegável que a arte, em todas as suas formas, é a única ferramenta com que podemos contar para refletir em profundidade sobre a condição humana e transcender todas as limitações que ela impõe. A linguagem musical é universal no que tange às emoções que desperta. Não há fronteiras nacionais, credos religiosos ou políticos que possam interromper o fluxo associativo de pensamentos, sentimentos e estados de espírito que emergem diante de cada frase musical. Pensando nisso, resolvi deixar de lado tanto esforço para compreender o conteúdo emocional despertado pela melodia que me acorda a cada dia. Navegar com prazer e deixar-me levar sem o uso da razão pela forma delas passou a bastar-me.
Foi então que me ocorreu um insight. Se podemos simbolizar numa melodia todos os acontecimentos relevantes de cada fase de nossas vidas, qual seria a música-tema universal mais representativa deste dramático ano de 2020? E, mais especificamente, que fundo musical poderíamos atrelar iconicamente aos terríveis eventos pandêmicos, climáticos, econômicos, sociais e políticos brasileiros?
Façam suas apostas. A minha lista das canções concorrentes ao título já está pronta. Acredito piamente que o plano astral está nos convidando – nada gentilmente, diga-se de passagem – a nos despedirmos da vida no planeta Terra tal qual a conhecíamos até aqui, bem como a superarmos a era do ódio às diferenças para podermos adentrar finalmente novos tempos de reconciliação com a natureza ambiental, com a natureza humana e com a natureza espiritual. Quem sabe, relembrando ou compondo novas músicas sejamos capazes de elaborar novas utopias que nos guiem com segurança e harmoniosamente pelo fantástico universo apocalíptico do século 21.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
FLOTUS
José Horta Manzano
O presidente Donald Trump informou estar contaminado pelo vírus da covid. Ele não gosta de dizer o nome do coronavírus. Prefere “vírus chinês”, acentuando assim, de propósito, a origem estrangeira do bichinho.
Até dois dias atrás, isso funcionava. Ao afrontar a pandemia sem medo e sem máscara, aparecia como muro sólido, como o super-homem que fazia barreira a todo ataque vindo do exterior. Agora, que está infectado, a imagem levou um tranco e se dissolveu. Se nem o pai da pátria está imune, quem estará?
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POTUS & FLOTUS
Para quem vive nos EUA ou está familiarizado com o dia a dia do país, essas palavras não são segredo. Para os demais, podem parecer esquisitas. É inglês, isso aí?
Ao anunciar a doença, Trump disse que “FLOTUS” e ele tinham sido contaminados. Estaria falando da esposa? Pois é isso. As palavrinhas misteriosas são acrônimos.
P.O.T.U.S. = President Of The United States (Presidente dos Estados Unidos)
F.L.O.T.U.S. = First Lady Of The United States (Primeira-dama dos Estados Unidos)
Outros acrônimos em -OTUS são utilizados de raro em raro.
SCOTUS = Supreme Court Of The United States (Suprema Corte dos Estados Unidos)
COTUS = Constitution Of The United States (Constituição dos Estados Unidos)
O finalzinho “of the United States – dos Estados Unidos” abre um amplo leque de possibilidades para novos acrônimos. Mas é preciso ter em conta que a língua é um balaio de convenções. Acrônimos, assim como palavras novas, serão bem-vindos na medida que sejam entendidos por todos.
Não adianta você inventar meia dúzia deles. Se não combinar antes com os russos, não vão servir pra nada porque ninguém vai entender.
As surpresas de outubro
José Horta Manzano
Agosto e nossos distúrbios
No Brasil, dizem que agosto é mês de vento e cachorro louco. Mas parece que não passa de crença de gente antiga, daquelas que fazem sorrir. Mas há fatos ocorridos nesse mês, que não tem nada a ver com brincadeira. Todos ligados à Presidência da República, estão mais para tragédia nacional.
Em 24 agosto de 1954, suicidou-se o presidente Getúlio Vargas. O país entrou em comoção.
Sete anos mais tarde, em 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo e zarpou para a Inglaterra.
Passados mais nove anos, chegou a vez do presidente Costa e Silva: em 31 de agosto de 1969, sofreu um AVC e foi afastado do cargo.
Mais sete anos, e a tragédia atingiu Juscelino Kubitschek, então já ex-presidente: morreu num terrível acidente de automóvel em 22 de agosto de 1976.
Em 13 de agosto de 2014, Eduardo Campos, candidato à Presidência, morreu num acidente de jatinho que se estatelou na cidade de Santos (SP). Não era candidato nanico – tinha até boas chances.
Dois anos mais tarde, nova convulsão na Presidência. O fim do julgamento do impeachment de Dilma Rousseff foi em 31 de agosto de 2016. Nesse dia, a presidente foi destituída.
Outubro e os distúrbios deles
Nos EUA, o mês reservado aos perigos parece ser outubro. Afeta, em especial, candidatos à Presidência. Criativos, os americanos inventaram até a expressão «October surprise – surpresa de outubro» para designar o fenômeno. Dependendo da magnitude, a ‘surpresa’ – que costuma ser fruto de conspiração – pode até afetar o rumo da eleição.
No finzinho de outubro 1972, dias antes da eleição, Henry Kissinger, secretário de Estado, deixou vazar a informação de que a Guerra do Vietnam estava para acabar. “Peace is at hand – a paz está ao alcance da mão”. Considera-se que a notícia foi responsável por um fabuloso empurrão na candidatura de Nixon, o presidente que tentava a reeleição. De fato, o homem foi reeleito, mas a guerra, que estava longe de acabar, ainda duraria longos anos.
Em novembro de 1979, na presidência Carter, estudantes iranianos invadiram a embaixada americana em Teerã e tomaram centenas de americanos como reféns. O sequestro foi longo. Já ia para um ano, mas as negociações continuavam no ponto morto. No fim de outubro de 1980, perto das eleições, os sequestradores anunciaram que só soltariam os reféns quando Jimmy Carter tivesse deixado a presidência. A notícia foi tão impactante, que os eleitores descartaram Carter (sem trocadilhos) e deram ampla vitória a Reagan. (Dizem que os sequestradores receberam uma ‘ajudazinha’ da campanha de Reagan, mas pode ser intriga da oposição.)
Nas eleições de 2000, outra ‘surprise’ apareceu. Em outubro, cinco dias antes do voto, vazou a (velha) notícia de que George W. Bush, então governador do Texas, tinha sido preso em 1976 (24 anos antes!) por dirigir embriagado. A equipe de campanha de Al Gore foi suspeitada de estar por trás do vazamento. Bush ganhou, mas teve a vitória mais apertada que se tinha visto até então. Perdeu no voto popular e só se elegeu após recontagem de votos na Flórida e batalha na Suprema Corte.
Em outubro de 2004, os EUA patinhavam nas batalhas do Oriente Médio e caçavam Bin Laden sem nunca conseguir encontrá-lo. Menos de uma semana antes da eleição, a emissora de tevê Al Jazeera exibiu um vídeo de Bin Laden com ameaças ao então presidente George W. Bush e com críticas a seu desempenho. Desconfia-se de que a exibição do vídeo tenha resultado de um acerto entre John Kerry, o adversário de Bush, e a tevê árabe. Esperto, Bush virou o jogo ao convencer os eleitores de que somente ele era capaz de proteger o país. Venceu com facilidade.
Nos últimos dias de outubro de 2012, uma verdadeira surpresa aconteceu: o violento furacão Sandy atingiu Nova Jersey. Ainda que, neste caso, a surpresa de outubro não fosse resultado de conspiração, acabou sendo benéfica para Barack Obama, o presidente que tentava reeleger-se. Por um lado, Obama foi magistral ao aproveitar a ocasião para se mostrar à altura do cargo no trato da emergência. Por outro, Mitt Romney, o adversário, teve de suspender a campanha na reta final, visto que pegaria supermal fazer comício em tempo de tragédia nacional. Obama foi reeleito sem problemas.
Estamos em outubro de 2020. O presidente Trump, adulado por uns, abominado por outros, tenta a reeleição. Desta vez, a “October surprise” veio logo no começo do mês: ele anunciou hoje que apanhou a covid. Pode ser que seja jogada de marketing – com Trump, nunca se sabe. (É curioso notar que, dos dirigentes mundiais mais conhecidos, os únicos três que se contaminaram foram justamente os negacionistas, aqueles que afirmaram que a doença não passava de uma gripezinha: Boris Johnson, Donald Trump e Jair Bolsonaro. Alguém acredita em castigo de Deus?)
Para saber se a safra 2020 da “October surprise” afetou a eleição, vai precisar esperar que os americanos votem. Ouvi dizer que, ao saber que Trump está com covid, muita gente se pôs a fazer novena. Parece que até alguns agnósticos aderiram à reza.
Salário mínimo suíço
José Horta Manzano
A noção de salário mínimo está tão ancorada nos costumes brasileiros, que a gente imagina que a garantia de um piso salarial exista no mundo todo. Não é bem assim. Tal como ocorre com o 13° salário, que não é obrigatório por toda parte, também o salário mínimo não é universal. Embora a paga mínima legal seja bastante difundida, trabalhadores de países importantes como, por exemplo, Itália, Áustria, Suécia não contam com essa garantia.
A Suíça é um caso especial. Como meus distintos e cultos leitores sabem, o país é uma confederação, ou seja, um Estado nacional composto por cantões que gozam de forte autonomia. Tirando a defesa nacional, a política monetária, a legislação aduaneira, a segurança nacional e a política externa, os cantões têm ampla autonomia de decisão. A política salarial faz parte das atribuições de cada cantão.
Assim, cabe ao governo de cada cantão legislar sobre a matéria. A maior parte deles ainda não achou oportuno estabelecer um salário-base válido para todo o território cantonal. Diferentes categorias profissionais, por seu lado, firmaram convenção coletiva fixando um piso salarial para o setor. Por exemplo, o sindicato dos padeiros pode ter conseguido um salário mínimo para a categoria, enquanto o sindicato dos balconistas de farmácia pode não ter firmado ou simplesmente não estar interessado no assunto.
Em plebiscito realizado domingo passado, os eleitores de Genebra aprovaram a instituição de um salário mínimo cantonal. O valor do piso salarial válido no território cantonal para todas as categorias é de 23 francos suíços por hora. Para quem trabalha em período integral (42h por semana), isso dá (pasmem!) 4.186 francos por mês, pouco mais de 25.000 reais ao câmbio de hoje. É com certeza o salário mínimo mais elevado do mundo. Na própria Suíça, nenhum outro cantão fixou montante tão alto.
Pode parecer quantia exorbitante, mas não é. Para sobreviver com menos que isso, uma família de quatro pessoas teria dificuldade. Só de aluguel, vai metade do salário. Em seguida, tem de pensar no seguro de saúde, que custa os olhos da cara. É que o país não conta com um sistema nacional de saúde, como o Brasil. Todos os cidadãos têm obrigatoriamente de estar cobertos por empresa particular, mas cada um é livre de escolher a companhia com a qual quer concluir o seguro. Assim mesmo, seja qual for o plano escolhido, não sai barato. Cobrir os quatro membros da família de nosso exemplo, com plano bem básico, não vai sair por menos de 1000 francos (uma quarta parte do novo salário mínimo). Em seguida, tem de se vestir, se transportar, se aquecer, se alimentar – tudo muito caro.
Normalmente, a notícia da instituição de salário mínimo garantido costuma alegrar os beneficiários. Nestes tempos de covid, porém, o que ela trouxe foi grande preocupação aos 25 mil empregados que se enquadram na nova regra. Os que fazem jus ao aumento – funcionários de restaurante, salão de cabeleireiro, firma de limpeza – estão receosos de que o empregador, já em dificuldade financeira em razão da pandemia, não suporte o baque e acabe demitindo. Está aqui um exemplo trágico de como uma medida bem-intencionada acaba causando efeito oposto ao previsto.
Trumpização
José Horta Manzano
Donald Trump não inventou a baixaria na política, mas está lhe dando um impulso fenomenal. É difícil saber se costumes tão rasteiros já existiram antes, em outras épocas. O bom senso indica que não, que nunca houve nada parecido. Homens políticos, por mais incisivos e veementes que possam ter sido, não desceram tão fundo como o atual inquilino da Casa Branca.
Não assisti ao debate de ontem, etapa obrigatória da corrida presidencial americana. Pra começar, não teria estômago para aguentar hora e meia de bate-boca; pra terminar, o espetáculo caía às 3h da manhã na hora daqui, razão suficiente para renunciar. Mas ouvi, hoje de manhã, uma dezena de analistas, cada um com sua visão e seu resumo do que ocorreu.
Pelo que pude depreender, não foi um debate de ideias stricto sensu, dado que nenhum dos candidatos gastou mais que 10% de seu tempo para apresentar as metas de um eventual governo. Foi mais parecido com uma briga de cortiço, em que a intenção de cada litigante era só rebaixar o adversário.
Invectivas, insultos, mentiras, ataques pessoais, ‘voadoras’ na carótida, dedo no olho, pé no peito pra derrubar. Sabe de uma coisa? Aqueles que se destroçavam num circo romano, dois mil anos atrás, seguiam código de ética bem superior ao que se viu numa etapa crucial das eleições do país mais poderoso do planeta.
Não posso avaliar o que se passa na cabeça do americano médio; não sei como ele se sente depois de quatro anos sob Trump. Visto daqui de longe, no entanto, o problema é diferente. Quem vive fora dos EUA está menos preocupado com problemas internos americanos e mais com a imagem que a grande potência projeta no resto do mundo. E com a influência que exerce em dirigentes mais frágeis, como é o caso do doutor que nos governa.
Que Donald Trump esteja fazendo bom ou mau governo, isso quem tem de julgar são os americanos, seus eleitores. Darão o veredicto nas urnas. Quanto a nós outros, só nos resta constatar o abalo que um indivíduo inculto, agressivo, narcisista, mentiroso e despreparado para ser presidente tem provocado nos costumes políticos do planeta.
Povos mais esclarecidos, como os que vivem em democracias maduras, têm nas mãos as armas para reconhecer essa ameaça de degradação nas artes da política e para resistir a ela. Povos menos esclarecidos – como o nosso, sejamos sinceros – se encontram desarmados. O jeito lulopetista de manejar a coisa pública deu uma perigosa inclinada para baixo. Os anos em que fomos governados por presidentes de poucas letras e ideias curtas (mas braços longos, se é que me entendem) deram a partida para forte rebaixamento no nível do debate de ideias.
A rejeição ao modo lulopetista de governar abriu uma avenida para o aventureiro que se mostrasse mais ousado. Bolsonaro conseguiu ser visto como o mais antipetista dos candidatos. Não deu outra: deixou os demais a comer poeira e venceu.
Sem preparo e sem projeto, nosso doutor precisava agarrar-se à figura de um irmão mais velho a mostrar-lhe caminho radioso. É neste ponto que entra a influência daninha de Trump sobre políticos despreparados, como nosso presidente.
Se Trump não tivesse ousado, Bolsonaro não ousaria. Se Trump não tivesse dito, Bolsonaro não diria. Se Trump não tivesse feito, Bolsonaro não faria. Em resumo: sem Trump, não teria havido Bolsonaro; ou, pelo menos, não esse Bolsonaro que conhecemos.
Resta esperar que os eleitores americanos se mostrem mais espertos desta vez e que despachem o topetudo pra casa. Para o Brasil, será uma bênção.



















