Paralelismo

José Horta Manzano

Muitas palavras têm sido criadas desde que a pandemia se instalou. É normal. Atos e fatos novos tendem a ser descritos por palavras novas. Em alguns casos, termos antigos que andavam esquecidos no dicionário se reabilitam e ressurgem pimpões e empertigados.

A própria palavra pandemia é um bom exemplo. De uso pra lá de restrito nos tempos de antigamente, voltou a circular com vigor assim que esse novo coronavírus se alastrou pelo planeta.

A palavra aparece em francês (pandémie), na altura dos anos 1750. Com pequenas adaptações, foi pouco a pouco adotada pelas demais línguas. É interessante notar que a língua inglesa, embora também conte com a palavra pandemia, dá preferência a pandemic, que é adjetivo na origem, mas substantivado nesse caso (pandemic disease = doença pandêmica).

Em nossa língua, uma palavra que andava meio fora de circulação e que ressurgiu agora é o adjetivo presencial. Ouve-se falar em aulas presenciais, por oposição a aulas à distância. É curioso constatar que ninguém, que eu tenha visto, ousou utilizar o antônimo natural de presencial, que é distancial.

É verdade que o adjetivo distancial não está dicionarizado. Mas não vejo razão pra esperar que apareça no Aurélio ou no Houaiss. Dicionários não impõem nem abolem palavras; eles só registram o que estiver em uso.

Por mim, se a aula (ou a conferência, a consulta, a conversa) não for presencial será distancial. Paralelismo não faz mal.

Novos termos

José Horta Manzano

Pandemias não agradam a ninguém. Trazem uma baciada de males e incômodos. Quanto mais duram, mais duradouros serão os transtornos. Lado bom, não há; parece que todos os lados são ruins.

No entanto, examinando bem, há que constatar que a covid está sendo propícia ao surgimento de termos novos ou à ressurreição de termos antigos, que voltam à moda reformados e com significado novo. Aqui estão alguns deles.

comorbidade
Palavra de uso antes raríssimo, estritamente reservada ao âmbito medical. Nem o Houaiss, nem o Aulette trazem o verbete. Comorbidade ocorre quando, a uma doença pré-existente num determinado paciente, vem se adicionar uma nova. Dado que está entre os principais fatores de risco, a comorbidade caiu na boca do povo.

presencial
Era termo raro, reservado para uso jurídico-policial. Ao frequentar os bancos da escola, nenhum de nós jamais se deu conta de que assistia a aulas «presenciais». Assim como o conceito não existia, o termo não era utilizado. O Houaiss dá dois exemplos: testemunha presencial, reconstituição presencial do crime. Hoje o termo é usado como contraponto a remoto.

remoto
Termo comum, presente na língua há séculos. Tem dois significados: tratando de tempo, indica o que ocorreu há muito; tratando de espaço, designa o que está fisicamente distante. No caso do ensino remoto, expressão de uso frequente, indica distância física entre educador e educando. Ainda não se cogitou em proporcionar ensino remoto no tempo, ou seja, ensino à moda antiga com intimidação e palmatória.

teletrabalho
A palavra é tão recente que ainda nem foi dicionarizada. É expressão bem mais simpática do que a pernóstica “home office”. A não ser que o indivíduo viva sozinho ou disponha de cômodo reservado, trabalhar em casa é complicado. Criança chorando, cachorro latindo, telefone tocando, adolescente escutando música em volume alto, campainha soando, tevê anunciando xampu – tudo isso atrapalha. Prefiro teletrabalho. É mais maneiro e parece menos cansativo.

alquingel
Nem sei se o produto existia antes da pandemia. Se existia, seu uso estava restrito a hospitais e outros ambientes onde esterilização é capital. Hoje encontra-se por toda parte. “Alquingel” é álcool em gel na voz do povo – palavra que parece não ter plural: “passa os alquingel aí!”. Dos termos que entraram na moda com a covid, é meu preferido. É menos perigoso que comorbidade e menos cansativo que teletrabalho. E, ainda por cima, protege. Que mais pedir?