Perdigotos e comorbidades

O Globo, 10 maio 2021

José Horta Manzano

É interessante observar como certas palavras dormem um sono de décadas no aconchego dos dicionários para um dia, de repente, despertar e entrar de supetão na linguagem do quotidiano.

De criança, aprendi o significado de perdigoto. Eu tinha um tio muito aplicado, daquelas pessoas que gostam de usar a palavra mais adequada a cada caso. Me ensinou que gente que “fala cuspindo” solta perdigotos. De lá pra cá, acho que nunca mais ouvi alguém pronunciar essa palavra. Mas ela ficou num cantinho da memória esses anos todos.

É bem mais recente o dia em que fui apresentado à palavra comorbidade. Fora de períodos de pandemia, ela está frequentemente ligada à saúde de quem já tem idade – ou que já “dobrou o Cabo da Boa Esperança”, como se dizia antigamente. Conheci essa palavra em francês. Por aqui se diz comorbidité, com uma sílaba extra depois do “bi”, numa excelente ilustração daquela pergunta: por que fazer simples, se complicado também funciona?

Curioso, resolvi fazer uma pesquisa sobre o uso da palavra comorbidade nos últimos cem anos. A Folha de SP oferece um bom instrumento para esse tipo de busca. Quando se está atrás de uma palavra, de um fato, de um nome, pode-se perscrutar todas as edições do jornal da fundação até hoje.

Fiquei sabendo que, de 1921 até 1992 (71 anos), não há nenhuma menção a essa palavra. Nada, niente, zerinho. Entre 1993 e 2019, talvez porque o jornal tenha começado a tratar temas mais especializados, ela aparece 50 vezes. Agora, nos nove meses que vão de janeiro a setembro de 2020, ano da pandemia, comorbidade foi mencionada 223 vezes. Não pesquisei perdigoto, mas imagino que o resultado deva ser equivalente.

Fiquei comovido com a história desse ator que morreu de covid aos 42 anos. Não o conhecia, não é do meu tempo. Mas percebo, pela torrente de reações, que devia ser muito apreciado. Certamente era talentoso.

Seu drama devia servir de alerta a nossa juventude que, talvez obedecendo ao temerário incentivo do capitão, desdenha os cuidados básicos para evitar apanhar o vírus. O caso Paulo Gustavo prova que um indivíduo jovem, enérgico, saudável e sem comorbidades pode contrair uma forma severa de covid, cuja evolução o levará ao túmulo.

Sabemos todos que a sociedade brasileira flutua num oceano de desigualdades. Mas poucos são os doentes que têm o privilégio de ser atendidos num hospital de primeira linha. Como é que funciona lá nos cafundós?

Tenho certeza de que há imensa subnotificação de casos de covid. Deve haver um batalhão de jovens que apanharam a doença e estão morrendo em casa, sem atendimento, sem entrar nas estatísticas. Dado que o que está longe dos olhos está longe do coração, não saberemos nunca quantos terão vivido esse drama.

Meu jovem leitor, não durma no ponto! O país não precisa de heróis anônimos, precisa do potencial de que você dispõe. Fique esperto e.. fique vivo!

Vamos torcer para que tanto comorbidade quanto perdigoto voltem logo para o agasalho dos dicionários. E que de lá não escapem tão cedo.

Au pair

José Horta Manzano

Pouco conhecida entre nós, a expressão au pair define uma atividade difundida e bastante apreciada pelos jovens europeus. A falta de intimidade com a expressão, faz que ela seja às vezes traduzida por ‘babá’, o que não corresponde necessariamente à realidade.

A imagem de um rapaz (mais frequentemente de uma moça) au pair surge no século 19. A construção de estradas de ferro facilitou muito as viagens. Trechos que demandavam dias de estrada passaram a ser percorridos em poucas horas – um achado. O mundo ficou mais perto, e a mocidade se empolgou.

Aos poucos, foi se firmando nova atividade para a juventude. A jovem au pair é aquela que passa algum tempo – geralmente um ano – no exterior, hospedada na casa de uma família com crianças. O trato é paritário (=au pair), ou seja: a moça tem casa, comida e roupa lavada; em troca, dá um pouco do seu tempo para cuidar das crianças e ajudar na arrumação da casa.

Em geral, o principal interesse da jovem au pair não é tanto cuidar de criança, mas aprender a língua, num regime de mergulho total. A família costuma pagar o curso intensivo de língua e dar horas livres para a hóspede poder frequentá-lo. A jovem recebe, além disso, uma mesada, coisa pouca, que não chega a ser um salário, mas dinheiro de bolso.

De origem francesa, a expressão au pair é utilizada na maioria das línguas, sem tradução nem adaptação. Na origem, o termo era usado unicamente em economês, para tratar de paridade entre moedas.

Até pouco tempo atrás, grande parte das jovens candidatas a uma colocação como au pair sonhavam com a Inglaterra. É natural, a atração da língua inglesa supera a das demais. Só que, passado o Brexit, as autoridades britânicas tomaram uma decisão polêmica.

Talvez com intenção de melhorar as estatísticas de desemprego, decidiram despertar à força vocações de mocinhas britânicas candidatas a uma colocação au pair dentro das fronteiras do Reino Unido. Para aumentar a atratividade da “profissão”, promoveram-na à categoria de profissão especializada, com piso salarial fixado em 20 mil libras por ano.

Não sei se vai dar certo. Por um lado, jovens britânicos não parecem muito interessados em mergulhar no ‘aprendizado’ da própria língua materna; preferem estudar na Espanha, na França ou na Itália. Por outro, o elevado piso salarial é proibitivo para uma família inglesa comum. O interessante da atividade era justamente essa informalidade, esse toma lá dá cá (no bom sentido).

As novas regras britânicas vão conseguir frustrar nas duas pontas. As famílias inglesas que gostariam de contratar uma estrangeira para cuidar das crianças não vão mais poder fazê-lo. E os jovens europeus, que adorariam passar um ano no Reino Unido aprendendo inglês, vão ter de saciar sua sede de viagens em outro lugar.

De quebra, fecha-se um canal barato de projeção da língua inglesa. Está aí uma decisão mal ajambrada, em que todos saem perdendo.

Atrasado porque jovem

José Horta Manzano

Desde criancinha (olhe que já faz tempo!), ouço dizer que o Brasil é atrasado porque é país jovem. Outros países – na Europa, por exemplo – seriam mais adiantados porque já tinham milênios de história quando as primeiras caravelas aportaram na Bahia. Em resumo, os europeus já tinham tido tempo de civilizar-se.

Acredito que os que pensam assim aceitam a teoria de um Brasil construído sobre tábula rasa, tudo começando do zero, como se nada existisse antes. Para muitos, essa explicação deve parecer razoável, razão pela qual saem repetindo por aí. Quanto a mim, acho que é pura balela. Conversa mole pra boi dormir (ou colóquio flácido para acalentar bovinos, como dizíamos).

Há que ter em mente como era a Europa na época da instalação das primeiras colônias europeias no Brasil. No século 16, Espanha e Portugal eram potências planetárias. Eram tão importantes que conseguiram do papa – a maior autoridade da época – a bênção para dividirem o globo entre eles dois, sem dar fatia a mais ninguém.

Atualmente, só nações que estão na ponta do progresso tecnológico conseguem enviar um foguete à Lua, pois não? Pois naquela época, só os países ibéricos dispunham do saber necessário para dedicar-se à navegação de longo curso. Só os dois, nenhuma outra nação. Não era pra qualquer um.

Manobrando caravelas que hoje nos parecem ultrafrágeis, portugueses contornaram a África e chegaram ao Extremo Oriente, uma façanha. Castelhanos atravessaram o Atlântico e aportaram na América. Ambos mostraram agilidade no manejo da tecnologia mais avançada. Os estabelecimentos coloniais mais numerosos na América, aliás, foram justamente fundados por ibéricos.

Vista de Mauritsstad, capital do Brasil Holandês
by Frans Post (1612-1680)

Espanhóis e portugueses não foram os únicos a povoar o território onde está o Brasil atual. Holandeses, entre outros, também por aqui estiveram, na Bahia e, sobretudo, em Pernambuco. Na época em que eles se estabeleceram em Olinda, os Países Baixos enriqueciam com o comércio. Por lá, floresciam as artes do mais elevado nível – Rubens e Rembrandt, note-se, foram contemporâneos de Maurício de Nassau, o governador-geral das colônias holandesas do Brasil.

O povoamento de nosso território não foi obra de extraterrestres. Os que para cá vieram não tinham brotado do nada. Eram europeus e traziam na bagagem, prontas para o plantio, as sementes daquele avanço tecnológico e daquela cultura milenar. Quanto a nós, somos herdeiros diretos desses milênios de civilização. Se a coisa encruou, não foi por pecado de origem, mas por erro de manipulação.

Se tivesse conseguido aliar o melhor da experiência europeia à vastidão e às promessas da nova terra, o Brasil seria um país fantástico. Não deu certo. Em algum ponto, desandou. Excetuando bolsões de excelência aqui e ali, estamos mergulhados num oceano de atraso. A causa certamente não é a juventude do país.

Bebeu, pagou

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Suíça, o sentimento de cidadania é palpável. Desde a infância, todos aprendem que pertencem a uma comunidade e que devem seguir as regras indispensáveis para conviver em harmonia. Diferentemente do que ocorre no Brasil, as leis se aplicam a todos os cidadãos, sem exceção nenhuma. Particularidades como cela especial ou foro privilegiado são inconcebíveis para um suíço.

Como em todo o mundo, os jovens às vezes se excedem. Em bares ou festas, especialmente em fins de semana, alguns exageram na bebida e acabam dando trabalho. As delegacias de polícia do país têm uma cela reservada para esse tipo de ocorrência. É chamada «cela para recuperar a sobriedade».

Toda pessoa encaminhada a essa cela permanece lá até voltar ao estado normal. Ao sair, receberá conta cujo valor pode variar conforme o cantão. Em Genebra, são 300 francos suíços (R$ 1100). O cálculo corresponde a uma hora de trabalho de dois policiais. O raciocínio é que o contribuinte não deve arcar com o custo de comportamentos problemáticos. O pagamento da despesa cabe a quem causou o problema ‒ uma lógica aceita por todos.

Em casos extremos, se o comportamento escandaloso daquele que bebeu demais tiver causado incômodo a moradores ou transeuntes, ele receberá multa de 300 francos por perturbação da ordem e da tranquilidade.

Como no Brasil, a polícia faz batidas pra medir a taxa de alcoolemia de motoristas. Costuma parar veículos aleatoriamente e mandar o condutor soprar no bafômetro. Se o teste der negativo, é «merci et au revoir» ‒ obrigado e até logo. Já se der positivo, é apreensão da carteira, imobilização do veículo e multa pesada. Com uma peculiaridade: além da multa, o motorista imprudente terá de pagar a despesa do teste de bafômetro. O preço é 100 francos (R$ 370).

Mais vale pensar duas vezes antes do primeiro trago.

Mudança de geração

José Horta Manzano

A eleição francesa, cujo desfecho se deu ontem com a eleição em segundo turno de novo presidente, representou um marco importante na caminhada da quinta potência econômica do mundo (e segunda da União Europeia). Como numa corrida de revezamento, uma geração de políticos precocemente envelhecida passou adiante o bastão. Vem aí a juventude deixando a velha guarda a comer poeira.

Emmanuel Macron (1977-)

Só pra ter ideia da inusitada juventude de Monsieur Emmanuel Macron, dê uma olhada nas seguintes considerações:

•   Com 39 anos e 4 meses, Macron é o mais jovem chefe de Estado francês desde o advento da República, no século XIX. Antes dele, o detentor do recorde era Louis-Napoléon Bonaparte, eleito em 1848 aos 40 anos de idade. Valéry Giscard d’Estaing, considerado então extremamente jovem, tinha-se tornado presidente em 1974 aos 48 anos.

•   Monsieur Macron é, de longe, o líder mais jovem do G20. Até Monsieur Trudeau, o sorridente primeiro-ministro do Canadá, é seis anos mais velho que ele.

•   Na União Europeia, um único dirigente é mais jovem que ele. Trata-se do primeiro-ministro da pequenina Estônia, Jüri Ratas, atualmente com 38 anos. A idade média dos dirigentes europeus é de 54 anos. Frau Merkel e Ms. May são já sexagenárias.

•   No mundo, somente quatro chefes de Estado são mais jovens que Monsieur Macron. A campeã é Vanessa D’Ambrosio, uma das cabeças da regência bicéfala de San Marino, microrrepública independente encravada na Itália. Signorina D’Ambrosio acaba de completar 29 anos.

•   Há outros três chefes de Estado mais jovens que Macron, embora não tenham sido eleitos pelo povo mas designados por hereditariedade. O mais jovem deles é Kim Jong-Un (34 anos), o belicoso e imprevisível ditador da Coreia do Norte. Vem em seguida Tamim ben Hamad Al Thani (36 anos), emir do Catar, que sucedeu ao pai. Por fim, lembremos Jigme Khesar Nambyel Wangchuck (37 anos), rei do Butão, pequeno país encravado entre Índia e China.

Paul Doumer (1857-1932)

Como curiosidade, note-se que Paul Doumer foi o presidente francês eleito em idade mais avançada. Chegou ao posto máximo em 1931, quando já tinha 74 anos. Não ficou lá muito tempo. Um ano mais tarde, seria assassinado.

Tomara que a presidência de Monsieur Macron seja menos agitada. Que ele tenha tempo de fazer uma França melhor, o que só pode ser benéfico para a Europa e para o planeta.