Kit covid

José Horta Manzano

As autoridades japonesas estão monitorando de perto tudo o que diz respeito à organização dos Jogos Olímpicos, que terão lugar no país daqui a um mês.

Neste domingo, apresentaram a Vila Olímpica à imprensa e anunciaram as mais recentes medidas de proteção dos atletas. Entre elas, estão a instalação de uma clínica especializada no estudo da febre, assim como a distribuição de um kit covid.

O estojo anticovid contém álcool em gel e sabonete medicinal. Pode parecer uma evidência, mas não há que esquecer que o país vai receber atletas de quase 200 países – e nem todos têm hábitos de higiene suficientes para protegê-los nestes tempos de pandemia.

Se nosso capitão, em vez de investir tempo, esforço e dinheiro em remédios milagrosos, tivesse, desde o começo, mandado distribuir sabonete e álcool em gel a toda a população – jovens e velhos, ricos e pobres, urbanos e rurais –, certamente não estaríamos hoje chorando a morte do quingentésimo milésimo(*) brasileiro.

Num país de pobres, só mandar lavar as mãos não funciona – o cidadão às vezes não tem dinheiro nem pra comer. Precisa dar o sabão. É mais eficaz que cloroquina.

(*) = 500.000°

Doutor Mãos Limpas

José Horta Manzano

Você sabia?

Não é fácil estabelecer com segurança a paternidade da fórmula do álcool em gel (o popular ‘alquingel’). A criança tem muitos pais. Digamos que cada um deles contribuiu para dar um passinho à frente na evolução do produto.

Já em meados do século 19, o obstetra vienense Semmelweis, alarmado com os altos índices de mortalidade em decorrência de doenças contraídas no hospital, propôs o uso de uma solução antisséptica para uso do pessoal hospitalar. Levou tempo até que sua utilização virasse automatismo. Apesar de pouco eficaz, a fórmula continuou em uso, com pequenas variações.

Nos anos 1960, o médico alemão Kalmár observou que a ação do produto então utilizado para desinfecção das mãos era de curta duração. Na sala de operações, já tinha perdido a eficácia antes do fim da cirurgia. O resultado era o número sempre elevado de infecções hospitalares. Debruçou-se sobre o assunto e, em 1965, pôde lançar no mercado a primeira solução hidroalcoólica desinfectante, cuja fórmula viria a ser aperfeiçoada dez anos mais tarde por um médico do hospital de Friburgo (Suíça).

Dr Didier Pittet

Nos anos 1990, o médico suíço Didier Pittet, infectologista do Hospital Universitário de Genebra, teve a idéia de associar o álcool a um agente antibacteriano (água oxigenada) e à glicerina. Não fez isso por acaso. Escolheu o álcool, a água oxigenada e a glicerina justamente porque são substâncias que não se podem patentear. Impediu assim que alguma grande indústria farmacêutica se apropriasse da fórmula e a comercializasse com exclusividade.

Dr. Pittet apresentou sua ideia à OMS (Organização Mundial da Saúde), que a aprovou e popularizou no mundo inteiro. Desde então, a fórmula tem sido adotada por médicos, enfermeiras e todo o pessoal da área de saúde para a higiene das mãos. Bem antes do aparecimento da covid, já se agia assim. Tem contribuído muito para baixar o risco de contaminação hospitalar.

Ao longo das últimas décadas, o médico suíço – que ganhou o apelido de Doutor Mãos Limpas – tem sido alvo de distinções no mundo inteiro. Entre outras homenagens, recebeu a comenda da Ordem do Império Britânico. Ele não ganhou nem um centavo com sua fórmula. Mas a humanidade agradece.