Trump de la pampa?

by Luis Grañena, caricaturista espanhol

José Horta Manzano

No caso da rápida passagem de Milei, presidente da Argentina, pela convenção que lançou a candidatura de Flávio B. à Presidência da República, tem sido dada mais atenção à forma que ao fundo do pronunciamento do argentino. A virulência dos insultos foi notada (e reprovada) por todos, mas o objetivo central do visitante ainda está por esclarecer.

Olhando de repente, Javier Milei parece um sujeito sem noção por natureza e palhaço por vocação. Um bobalhão, em resumo. Acontece que a realidade não é bem essa. Dono de uma licenciatura em Economia, duas pós-graduações em Economia e Teoria Econômica e autor de uma dezena de livros de Economia, seu lado histriônico não passa de encenação.

A pretensão de Donald Trump de reavivar a Doutrina Monroe – a América para os americanos – fez brotarem caraminholas na cabeça de Javier Milei. Ao se dar conta de que os três maiores países americanos (Brasil, México e Canadá) estavam governados por opositores políticos de Washington (Lula, Sheinbaum e Carney), o argentino teve a peculiar ideia de se autopromover a xerife regional de Trump, uma espécie de interventor do poder americano nesta parte da América.

É dentro dessa óptica que deve ser analisada a ingerência de Milei no processo eleitoral brasileiro. Tratou-se muito mais de autopromoção que de apoio ao filho de B. Mas por que os insultos? O argentino trata de arremedar seu ídolo, que reina na Casa Branca. Falta-lhe o talento teatral, não mente com a mesma convicção que o mestre, sua estridência mais ofende que mete medo. Mas… e daí? O objetivo não era escandalizar? Pois foi amplamente atingido.

Milei sabe que Flávio B. tem certa chance de ser eleito. Não fosse assim, não teria se abalado até aqui colar sua imagem num cavalo fora do páreo. Se de fato o filho de B. ganhar a eleição, Milei saberá cobrar gratidão do novo presidente. Nesse sistema neofeudal, Flávio deve vassalagem a Milei, que, por seu lado, deve vassalagem a Trump. Se funcionava assim no século 13, não há razão para que não funcione hoje, não é mesmo?

Se porventura Lula vencer a corrida, Milei não terá perdido a viagem. Continuará macaqueando no seu canto na esperança de, também ele, ser reeleito em Buenos Aires. Para espichar esta tragicomédia que, se não contribui para o progresso de nossa região, pelo menos entretém a plateia. E rende artigos como este.

FLOTUS

José Horta Manzano

O presidente Donald Trump informou estar contaminado pelo vírus da covid. Ele não gosta de dizer o nome do coronavírus. Prefere “vírus chinês”, acentuando assim, de propósito, a origem estrangeira do bichinho.

Até dois dias atrás, isso funcionava. Ao afrontar a pandemia sem medo e sem máscara, aparecia como muro sólido, como o super-homem que fazia barreira a todo ataque vindo do exterior. Agora, que está infectado, a imagem levou um tranco e se dissolveu. Se nem o pai da pátria está imune, quem estará?

POTUS & FLOTUS
Para quem vive nos EUA ou está familiarizado com o dia a dia do país, essas palavras não são segredo. Para os demais, podem parecer esquisitas. É inglês, isso aí?

Ao anunciar a doença, Trump disse que “FLOTUS” e ele tinham sido contaminados. Estaria falando da esposa? Pois é isso. As palavrinhas misteriosas são acrônimos.

P.O.T.U.S. = President Of The United States (Presidente dos Estados Unidos)

F.L.O.T.U.S. = First Lady Of The United States (Primeira-dama dos Estados Unidos)

Outros acrônimos em -OTUS são utilizados de raro em raro.

SCOTUS = Supreme Court Of The United States (Suprema Corte dos Estados Unidos)

COTUS = Constitution Of The United States (Constituição dos Estados Unidos)

O finalzinho of the United States – dos Estados Unidos” abre um amplo leque de possibilidades para novos acrônimos. Mas é preciso ter em conta que a língua é um balaio de convenções. Acrônimos, assim como palavras novas, serão bem-vindos na medida que sejam entendidos por todos.

Não adianta você inventar meia dúzia deles. Se não combinar antes com os russos, não vão servir pra nada porque ninguém vai entender.

Por que se deve escrever certo

Dad Squarisi (*)

Sabia? A ortografia é dispensável para a comunicação eficiente. Se alguém escreve casa com z, cachorro com x e coração sem til, o leitor entende o recado. Prova é a língua usada nos chats da internet. Lá, porque vira pq; você, vc; beijo, bj; obrigado, obg. Muitos não gostam do que leem, mas entendem o recado. A razão?

De aorcdo com peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Por que, então, preocupar-se com acentos, esses e zês? Porque é o combinado. Para viver em sociedade, firmamos pactos. Combinamos andar vestidos em público. Combinamos não arrotar à mesa. Commbinamos não cuspir no chão. Combinamos, também, escrever como manda o dicionário.

Ele, baseado em critérios etimológicos ou fonéticos, diz que hospital se grafa com h; pesquisa, com s; exceção, com ç. A razão: como todas as línguas de cultura, o português tem a grafia oficial. A ortografia é convenção. Escrever certo pega bem.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.