Palavra certa no lugar certo

José Horta Manzano

Muitas vezes, uma palavra ou expressão pode causar incômodo. Não me refiro a palavrão nem a expressão vulgar. Falo daquele termo que deixa uma sensação de estar fora de lugar, de ser palavra certa no lugar errado.

Na linguagem oral, nem sempre dá tempo de mergulhar ao fundo dos miolos para encontrar a boa expressão. Já quando se escreve, a coisa muda. Dá tempo de pensar e se expressar apropriadamente. É hora de praticar a adequação vocabular.

Termo inadequado não é necessariamente sinônimo de erro. Uso inadequado pode, no limite, até passar adiante a mensagem. Mas, convenhamos, deixa o discurso desgracioso. Se é possível fazer melhor, por que hesitar? Não há nada a perder.

Chamada Estadão
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Bafômetro
O aparelhinho que leva o sugestivo nome de bafômetro mede a concentração de álcool no sangue. A lei brasileira proíbe ao motorista dirigir com mais de 0,6g de álcool por litro de sangue. Dependendo da corpulência da pessoa, a mesma quantidade de bebida alcoólica não faz efeito idêntico. A ingestão de dois copos de vinho, que não deixará um indivíduo tipo «dois por dois» alterado, pode deixar um magricela trançando as pernas.

Portanto, não é adequado falar em «ingestão de álcool acima do permitido». Previdente, a lei não mede a quantidade ingerida, mas a concentração remanescente no sangue. A expressão utilizada na chamada foi inadequada. Melhor dizer que o teste constatou presença de álcool no sangue superior ao limite legal.

Chamada Estadão
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Sujeito boa-praça
Nem sei se os jovens ainda conhecem essa expressão. Boa-praça se dizia de um indivíduo simpático, sorridente, sempre bem-disposto. De uma pessoa assim, dizem hoje que é «amigável». A mim, soa estranho. Sou do tempo em que esse adjetivo era reservado para definir desquite, divórcio, negociação, trato comercial. Nunca se descrevia pessoa como «amigável». Há de ser contaminação do inglês “friendly”.

No lugar de qualificar o sujeito de «amigável», mais vale dizer que é amistoso, amical, amável, simpático, cordial, gentil. Ou, simplesmente, amigo. A expressão utilizada na chamada soa esquisita.

Chamada Estadão
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Thank you
Pelos serviços que tem prestado ao país, doutor Sergio Moro foi homenageado com um prêmio conferido pela Universidade Notre Dame. Ao receber a honraria, o juiz pronunciou palavras de agradecimento. Na chamada da notícia, o jornal qualificou a fala do magistrado de «discurso de gratidão». Como é que é? Ficou esquisito. A palavra gratidão tem forte carga emocional (e até moral), enquanto agradecimento é gesto de boa educação.

«O acidentado demonstrou gratidão para com o bombeiro que o salvou do incêndio» ‒ é situação em que a palavra cabe perfeitamente. Doutor Moro, que não deve gratidão à universidade que o homenageou, apenas proferiu «discurso de agradecimento». Mostrou que é educado. Educado e esperançoso. Segundo o doutor, «a era dos nossos barões da corrupção está chegando ao fim»

Inxalá!(*)

(*) Inxalá é livre transcrição de interjeição árabe que significa «Queira Deus!». Está na origem de nosso oxalá, de mesmo sentido.

Friendly

José Horta Manzano

Deve ser ranzinzice de gente antiga. O fato é que a palavra amigável não me é simpática. Me faz lembrar separação amigável, prática que soa antediluviana.

Nos tempos de antigamente, ninguém podia se divorciar no Brasil, que não era permitido. Havia, isso sim, um sucedâneo: a separação judicial chamada desquite. Podia ser amigável ou litigioso.

Uma vez chancelado o desquite pela justiça, o par – embora continuasse unido pelo vínculo do casamento – estava autorizado a deixar de cumprir os deveres conjugais. Desquitados eram dispensados de viver sob o mesmo teto, de garantir assistência mútua, de prestar contas de seus atos. Eram separados, sim, mas sem direito a casar de novo. Visto assim, com óculos do século XXI, parece medieval, não?

Computador 3E tem mais: a boa sociedade olhava meio torto pra gente desquitada. Mulher desquitada, em especial, não tinha a vida fácil. Se ousasse juntar os trapos com outro, caía na língua do povo. Cada época com seus usos…

O desquite saiu do mapa em 1977, quando foi aprovada a Lei do Divórcio. O termo amigável foi mandado pra fora de campo. E lá ficou muitos anos até surgirem os computadores pessoais e a informática caseira.

Desde então, os usuários brasileiros não se têm mostrado muito imaginativos. O mais das vezes, apoderam-se da expressão inglesa sem ao menos se dar ao cuidado de aportuguesá-la. É o caso de mouse e software. De quando em quando, um termo é traduzido. Às vezes com inventividade, mas nem sempre.

Friendly foi traduzido por amigável – não me parece a solução mais adequada. Em inglês, o termo friendly tem múltiplos usos. Nem todos podem ser traduzidos por amigável. Veja alguns exemplos:

Interligne vertical 16 3Kbfriendly person
pessoa gentil, pessoa simpática

friendly hotel
hotel acolhedor

friendly countries
países amigos

friendly place
lugar agradável

friendly warning
conselho de amigo

friendly conversation
conversa amistosa

friendly fire
fogo amigo

friendly smile
sorriso cordial

friendly society
sociedade mútua

friendly match
jogo amistoso

become friendly with
travar amizade com

friendly face
rosto conhecido

remain on friendly terms
ficar em bons termos

to be friendly to somebody
mostrar-se amável com alguém

E na informática, como é que fica? Eu traduziria por amistoso. No limite, que se use amical – termo raro mas elegante. Prefiro reservar o adjetivo amigável para litígios judiciais.

In English, mermão!

José Horta Manzano

Quinta-feira passada, três dias antes da data marcada para a realização, no Maracanã, de um jogo de futebol amistoso entre o Brasil e a seleção da Inglaterra, uma decisão de justiça suspendeu o encontro. A liminar foi concedida pela magistratura em atendimento a pedido do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

Pelas imagens mostradas pela mídia, o local parecia realmente inapto a receber dezenas de milhares de visitantes entusiastas, vindos em penca, todos ao mesmo tempo. Aquilo estava mais para canteiro de obras.

Mas os interesses envolvidos eram maiores do que o resto. Certos argumentos são muito convincentes. A medida cautelar foi varrida. O jogo realizou-se. Felizmente, nenhuma notícia de acidente veio embaçar o brilho do evento. Nem sequer uma caxirola foi atirada em campo.

Interligne 20

Gato escaldado
Os defeitos do Maracanã causaram uma tremenda dor de cabeça para as autoridades, que tiveram de resolver de afogadilho, em menos de três dias, o que deveria ter sido feito anos antes, com muita calma.

A fim de não entrar na mesma saia justa por ocasião da Copa das Confederações, decidiu-se que sejam postas em prática desde já outras medidas visando à acolhida dos turistas. A sinalização municipal é agora bilíngue, sim, senhor! Regozijai-vos, visitantes estrangeiros!

Rio de Janeiro preparado para a Copa Crédito: irmaosbrain.com

Rio de Janeiro preparado para a Copa
Crédito: irmaosbrain.com