Novos termos

José Horta Manzano

Pandemias não agradam a ninguém. Trazem uma baciada de males e incômodos. Quanto mais duram, mais duradouros serão os transtornos. Lado bom, não há; parece que todos os lados são ruins.

No entanto, examinando bem, há que constatar que a covid está sendo propícia ao surgimento de termos novos ou à ressurreição de termos antigos, que voltam à moda reformados e com significado novo. Aqui estão alguns deles.

comorbidade
Palavra de uso antes raríssimo, estritamente reservada ao âmbito medical. Nem o Houaiss, nem o Aulette trazem o verbete. Comorbidade ocorre quando, a uma doença pré-existente num determinado paciente, vem se adicionar uma nova. Dado que está entre os principais fatores de risco, a comorbidade caiu na boca do povo.

presencial
Era termo raro, reservado para uso jurídico-policial. Ao frequentar os bancos da escola, nenhum de nós jamais se deu conta de que assistia a aulas «presenciais». Assim como o conceito não existia, o termo não era utilizado. O Houaiss dá dois exemplos: testemunha presencial, reconstituição presencial do crime. Hoje o termo é usado como contraponto a remoto.

remoto
Termo comum, presente na língua há séculos. Tem dois significados: tratando de tempo, indica o que ocorreu há muito; tratando de espaço, designa o que está fisicamente distante. No caso do ensino remoto, expressão de uso frequente, indica distância física entre educador e educando. Ainda não se cogitou em proporcionar ensino remoto no tempo, ou seja, ensino à moda antiga com intimidação e palmatória.

teletrabalho
A palavra é tão recente que ainda nem foi dicionarizada. É expressão bem mais simpática do que a pernóstica “home office”. A não ser que o indivíduo viva sozinho ou disponha de cômodo reservado, trabalhar em casa é complicado. Criança chorando, cachorro latindo, telefone tocando, adolescente escutando música em volume alto, campainha soando, tevê anunciando xampu – tudo isso atrapalha. Prefiro teletrabalho. É mais maneiro e parece menos cansativo.

alquingel
Nem sei se o produto existia antes da pandemia. Se existia, seu uso estava restrito a hospitais e outros ambientes onde esterilização é capital. Hoje encontra-se por toda parte. “Alquingel” é álcool em gel na voz do povo – palavra que parece não ter plural: “passa os alquingel aí!”. Dos termos que entraram na moda com a covid, é meu preferido. É menos perigoso que comorbidade e menos cansativo que teletrabalho. E, ainda por cima, protege. Que mais pedir?