O piscinão e o rio

José Horta Manzano

Uma reportagem do Estadão informa que acabam de abrir uma praia artificial na cidade de São Paulo. Escrita com certo desmazelo, a notícia diz que vai ser possível curtir as férias «no mar» (sic) sem sair da cidade. Diz ainda que os termômetros da Zona Leste da cidade chegam a marcar temperaturas 14°C (!) mais elevadas que no resto do município. Afirmação fantasiosa. No dia em que fizer, ao mesmo tempo, 15° na Praça da Sé e 29° no Tatuapé, certamente já terá nevado em Caruaru.

O relaxo da repórter que jogou displicentemente palavras no papel sem refletir no que estava escrevendo ― e, principalmente, sem se preocupar com as consequências de sua incúria ― é sintomático. Entra na categoria do «não-estou-nem-aí», onipresente no dia a dia brasileiro.

O fato de a cidade ter tido de esperar até o século XXI para, enfim, conseguir que as autoridades municipais instalassem uma praia para o lazer de seus habitantes é outro exemplo do mesmo espírito.

Rio Tietê

Rio Tietê há 80 anos

São Paulo, plantada em região chuvosa, cresceu à beira d’água. A natureza é sábia: zonas tropicais, onde precipitações são constantes e abundantes, possuem drenos naturais. Se assim não fosse, pântanos e lagos se teriam formado. A área habitada do município conta com dezenas de escoadouros, fios d’água, tanques, ribeirões, córregos, riachos e rios. Por sinal, a cidade nasceu na junção de dois deles: o Anhangabaú e o Tamanduateí.

A mancha urbana foi-se expandindo lentamente. Um século atrás, a urbanização aproximou-se timidamente do pai de todos, o Tietê. A partir daí, a irresponsabilidade da administração pública encontrou na indiferença da população um forte aliado. Deram-se as mãos. Os danos causados ao conforto urbano têm sido, desde então, imensos e continuados. Em muitos casos, o mal é irreparável, não há volta possível. Um dos desastres maiores é o ‘desaparecimento’ dos cursos d’água que caracterizam nossa região.

Ocultou-se o Ribeirão do Anhangabaú, encoberto pelo vale homônimo. O Córrego do Saracura escondeu-se debaixo da Avenida 9 de Julho. O Ribeirão da Bexiga e o Itororó foram enterrados pela avenida 23 de Maio. Água Branca, Ipiranga, Lavapés, Água Espraiada e tantos outros sumiram do mapa. Literalmente.

Mas a natureza não deixou de ser tropical e úmida. As chuvas continuam caindo e a água, uma vez encharcada a terra, tem de escapar por algum lugar. Privada de seus drenos naturais, ela se acumula em baixios ― daí as enchentes e as inundações.

Outro crime causado pela cupidez imobiliária acumpliciada com sucessivas administrações municipais foi a instalação de um pesado parque industrial nas margens do escoadouro maior: o rio Tietê. Um dos recantos mais bonitos e agradáveis da cidade foi assim trucidado.

Com mais de 1’500km2 de território municipal à disposição, foram escolher justamente o lugar mais aprazível para instalar indústrias poluentes. Aquela região costumava servir para pesca, para lazer e para piqueniques. Onde, até 70 ou 80 anos atrás havia regatas e competições de natação, temos hoje um escoadouro a céu aberto, negro, viscoso, malcheiroso, morto.

Remédio, há. Se os londrinos conseguiram reabilitar seu rio, por que não conseguríamos nós? Pois o governo brasileiro não se vangloriou recentemente de a economia brasileira ter ultrapassado a britânica? E então? O País há de ter capacidade tecnológica e econômica para tratar os dejetos lançados in natura pelas indústrias. Ou não?

Mãos à obra, minha gente! Um Tietê recuperado e despoluído oferecerá possibilidades de lazer bem mais amplas que o acanhado «piscinão» do Tatuapé.

É Natal. Não custa sonhar, não é mesmo? Sai baratinho.

PS: Por coincidência, um dos editoriais do Estadão deste 23/12/2012 discorre sobre uma das tantas consequências do descaso com que vêm sendo tratadas as águas paulistanas desde os tempos de Anchieta.

O desleixo

No Brasil, o desleixo é marca nacional. Poucos povos serão tão negligentes quanto o nosso. Para quem passou a vida em terras de Pindorama, o que digo pode parecer um exagero. No entanto, aqueles que tiveram ocasião de viver alguns anos fora do País hão de se dar conta da veracidade de minha afirmação.

O tristemente conhecido «jeitinho» brasileiro é caminho obrigatório para paliar consequências e efeitos colaterais do desmazelo nacional. Tem-se muitas vezes de apelar para soluções não convencionais ― às vezes até ilegais ― para compensar falhas de planejamento. Em resumo: aquele que tinha sido pago para planejar não fez sua parte direito; esse desleixo deu origem a um mau funcionamento da coisa planejada; o problema terá de ser resolvido, em caráter de urgência, por meio de um jeitinho qualquer.

Nosso País funciona à base de remendos. O descaso faz a vida parecer uma colcha de retalhos. Para dar um exemplo atual, todos sabemos que o País não tem infraestrutura decente para acolher Copas do Mundo. Mas todos ― a começar pelas autoridades maiores ― fecham um olho, fazem de conta que acreditam que tudo está em ordem, e vamos que vamos. Na última hora, se o milagre não acontecer, inventaremos um remendo, uma solução temporária.

Enquanto isso, o erário, fruto do trabalho suado dos brasileiros, continua sangrando. O que escapa ao assalto das quadrilhas de mandachuvas oficiais acaba escorrendo pelo ralo da incúria. Os remendos e os emplastros de última hora saem muito caro.

Qual é a solução? Só há um caminho: conscientizar a população para o problema. Para chegar lá, é preciso alargar a capacidade do povo de entender as falhas que se repetem cronicamente. Só a elevação do nível geral de instrução permitirá chegar lá.

É demorado? Um pouco, sim. Não se preenche em uma semana o vazio deixado pelo descaso de meio milênio. No entanto, vai bastar uma fagulha inicial, que terá de partir, necessariamente, da Autoridade central. Em seguida, acreditem: uma coisa puxa a outra. A universalização e, principalmente, a valorização do ensino tende a alargar as mentes. Profissões Pere Noeltécnicas, hoje desprezadas, também têm de ser valorizadas. Não há por que considerar que um artesão que trabalha com suas mãos vale menos que um intelectual que trabalha com seu cérebro.

No Brasil atual, o título parece ter mais importância que a formação do titulado. Qualquer dia lhes falo da formação profissional na Europa e na Suíça, em particular. Um povo pouco instruído tende a perpetuar esse secular desleixo. E, pior que isso, a porta continua escancarada para oportunistas de todo gênero: gurus, homens providenciais e autodeclarados salvadores da pátria.

Um povo pouco instruído vai continuar acreditando em Papai Noël. Combina com esta época do ano. No debería serlo, pero así nos están saliendo las cosas. Desgraciadamente.

O homem do saco

Você sabia?

José Horta Manzano

Homem do saco

Homem do saco

Quando éramos crianças, ouvíamos palavras estranhas sem entender direito o que significavam.

Dorme, Nenem
Se não a cuca vem
Papai foi na roça
Mamãe saiu também

Quem é essa tal de cuca? Até hoje não descobri.

Tem um outro que nos assustava mais ainda. Quando alguma das crianças era impertinente, como se dizia, a mãe vinha logo com a chantagem: «Menino, sossega, se não o homem do saco vem e te pega!».

As crianças não sabiam direito quem era esse homem do saco, mas a perspectiva de ser atirado dentro de um embornal e carregado no escuro para lugar desconhecido, longe de casa, costumava ser eficaz. A criança birrenta se acalmava. Pelo menos, por algum tempo.

A imagem do saco já não assusta como antes. O que atrapalha os adultos que agora somos não é mais o medo do saco ― é o preço dele. Explico.

Estes dias, todos os habitantes do município suíço em que vivo receberam um aviso da prefeitura. Estamos avisados que, a partir de 1° de janeiro de 2013, um esforço financeiro será exigido de todos, com vistas a financiar a incineração ou a reciclagem do lixo doméstico.

Taxa do lixo

Taxa do lixo

Por um lado, uma taxa anual de 70 francos (85 dólares) será cobrada de cada habitante maior de 18 anos. E não adianta espernear. Não escaparão nem os que, porventura, tiverem apenas uma casa de campo no município. Todos terão de contribuir, é de lei.

Por outro lado ― e essa é mais doída ― uma segunda taxa será cobrada. Essa outra mordida será já incluída no preço dos sacos plásticos que já faz anos que somos obrigados a usar para o lixo doméstico. O valor irá às alturas: o saco mais utilizado, de 35 litros, passa a custar 2 francos cada (2.50 dólares), preço salgado.

Para uma família de dois adultos que utilize, digamos, 3 sacos por semana, a conta final vai sair por uns 450 francos/ano (550 dólares). É muito.

É muito? Pode ser. Mas foi a maneira encontrada para forçar a população a fazer a triagem do lixo doméstico. Andaram estudando a composição do lixo do município e se deram conta de que, em média, apenas 28% do que é coletado nos sacos é realmente lixo alimentar (cascas de legumes, restos de comida). O resto é reciclável, principalmente embalagens de papel e papelão, plásticos, vidro.

Os antigos diziam que, quando não vai por bem, vai por mal. Para aqueles em cuja cabecinha a consciência ecológica não havia ainda despertado, a nova fórmula será radical. Vão aprender rapidinho.

Como sabemos todos, a parte mais sensível do ser humano é… o bolso.

O fim do mundo

José Horta Manzano

O francês Luc Mary, nascido em 1959, historiógrafo de formação, é escritor sui generis. Para seus livros, tem o dom de escolher temas e títulos irresistíveis, daqueles que nos incitam a comprar sem hesitar.

Desde a primeira, de 1980, já assinou mais de uma vintena de obras, praticamente todas variando ao redor de temas histórico-geográficos. Em tradução caseira, aqui está uma pequena coleção de seus títulos:

     * Viagem à extremidade da galáxia : Primeiro guia turístico da Via Láctea
     * Verdades e invencionices da História da França
     * Os quatro Napoleões
     * Essas descobertas que escondem da gente
     * As decisões mais absurdas da História
     * Os últimos segredos da Guerra Fria
     * As mentiras mais incríveis da História
     * O mito do fim do mundo

Após minuciosa pesquisa, Monsieur Mary catalogou nada menos que 183 previsões de fim do mundo já registradas por nossa História ocidental. Dentre aquelas de que sobrou notícia, as mais antigas datam da alta Idade Média.

Conforme a época em que eram feitas, as predições pressagiavam catástrofes baseadas na atualidade de então. Erupções vulcânicas, dilúvios, terremotos, línguas de fogo eram o apocalipse imaginado até meiFim do mundoo século atrás.

A partir da invenção da arma atômica e do surgimento da Guerra Fria, passou-se a conjecturar que o mundo acabaria em consequência de contaminação nuclear.

Desde que, nos anos 60, o homem voltou os olhos para o espaço e imaginou que poderia haver vida alhures, pareceu evidente que o fim do mundo só podia ser obra de invasores alienígenas verdes, baixinhos, orelhudos e mal-intencionados.

Esta 183a. previsão é clara quanto à data: será amanhã, 21 de dezembro de 2012, sem falta. No entanto, o presságio é menos preciso quanto aos meios. Um asteroide? Uma invasão de homenzinhos verdes? Um dilúvio universal? Sabe-se lá.

Para quem fizer questão de sobreviver, há um meio infalível ― pelo menos é o que assegura um guru da localidade de Bugarach, aldeia de menos de 200 almas, situada no sul da França. Segundo a previsão do guia, um vórtice se abrirá naquele ponto preciso do planeta, sugará os humanos que por lá se encontrarem e os transportará para lugar seguro.

A municipalidade, assustada com o previsível afluxo de turistas, de crédulos e de curiosos, pediu ajuda a Paris. O governo tratou de despachar forças policiais para cingir o vilarejo e impedir a entrada desse povaréu todo. A partir de hoje, já ninguém mais pode entrar.

É pena. Poucos serão salvos pelo remoinho providencial. Quem viver verá.

Lunfardo

Você sabia?

José Horta Manzano

Lunfardo é a gíria que nasceu e cresceu em Buenos Aires, na malavita portenha, no submundo dos fora da lei. Com o passar das décadas, um número cada vez maior de expressões foi caindo, digamos assim, no “domínio público”. Palavras e expressões antes reservadas a bandidos são hoje utilizadas no dia a dia por pessoas comuns.

Surpreendentemente, muitos desses termos de argot argentino passaram ao português brasileiro. Não se sabe direito se atravessaram a fronteira ou se vieram de contrabando embutidos na letra de velhos tangos. Talvez um pouco de cada. O fato é que usamos, sem saber, gíria importada. Para os ultranacionalistas, pode até parecer um escândalo. No fundo, é simplesmente um aporte a mais, uma contribuição para a riqueza de nossa fala.

by Oskar Weiss (1944-), artista suíço

Aqui está uma pequena coletânea de expressões lunfardas e suas correspondentes brasileiras

Lunfardo       Brasileiro
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Machete          Macete (ajuda-memória)
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Malandro         Malandro
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Pirao                 Pirado
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Mamado            Mamado (bêbado)
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Campana         Campana (ajudante de ladrão que vigia)
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Mancar             Se mancar (compreender)
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Cana                 Cana (prisão)
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Matina              Matina (manhã cedo)
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Mortadela         Presunto (cadáver)
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Patota               Patota (bando)
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Punga              Punguista (batedor de carteira)
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Vivo                  Vivo (astuto)
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Bacanazo         Bacana (refinado)
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Bancar               Bancar (pagar)
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Dar bola           Dar bola (prestar atenção)
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Bronca             Bronca (raiva)
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Chupado         Chupado (bêbado)
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Burro                Burro (ignorante) (1)
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Tira                   Tira (investigador de polícia)
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Labia                 Lábia
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Mina                 Mina (moça)
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Llenar               Encher (aborrecer)
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Lleno                Cheio (mal-humorado)
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Cabrero            Cabreiro (furioso)
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Mangos            Reais (dinheiro)
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Caradura          Caradura
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Catinga             Catinga (mau cheiro corporal)
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Manyado           Manjado (conhecido)
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Chumbo            Chumbo (bala de revólver)
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Pechar               Peitar
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Coco                  Coco (cabeça)
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Gozar                 Gozar (zombar) (2)
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Grupo                Grupo (mentira, história inventada)
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Gurí                    Guri (criança) (3)
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(1) Normalmente, burro é usado para qualificar alguém cabeçudo
(2) Os espanhóis usam gozar com o sentido de passar um bom momento. Para dizer zombar, preferem mofarse
(3) Alguns etimólogos atribuem a essa palavra origem tupi, o que explicaria que se encontre no castelhano platino e também no português do Brasil

Juristas e advogados

José Horta Manzano

No Brasil, «não há curso de advocacia, mas bacharelado em Direito». As palavras não são minhas, mas de Marcus Vinicius Coêlho, Secretário-geral do Conselho Federal da OAB. Estão no artigo que ele publica no Estadão deste 18 de dezembro.

O Brasil não é o único a regulamentar a profissão dos que se decidem pelo estudo das leis. Conheço o ordenamento helvético e dele posso falar.

Também na Suíça, as escolas de Direito não formam advogados (avocats), mas bacharéis em direito (juristes). Muitos dos formados não se interessam em exercer a advocacia. São inúmeras as possibilidades de emprego para juristas.

Grandes multinacionais, sindicatos de trabalhadores, companhias de seguro, federações patronais, todas essas entidades contam com um departamento jurídico. Precisam, naturalmente, de profissionais que conheçam a fundo as leis, que possam elaborar pareceres, que sejam capazes de aconselhar a diretoria. Não seria vantajoso, para esse tipo de empregador, substituir Diplômeo corpo de juristas por advogados. Os causídicos, além de pouco ou nada acrescentar ao que se espera da Consultoria Jurídica, iam fatalmente acabar se sentindo frustrados por não exercer a profissão tal como a haviam sonhado.

Conseguindo ter sucesso no exame final do curso de direito, o novo bacharel suíço que desejar obter seu diploma de advogado (brevet d’avocat) ainda tem caminho pela frente.

O bacharel tem a obrigação de trabalhar durante um ou dois anos, dependendo do cantão, como estagiário num gabinete de advocacia. Sem direito ao título de advogado, naturalmente. O estágio pode igualmente ser cumprido num tribunal ou numa repartição cantonal ou federal.

Ao final desse período de aprendizado, o candidato terá de prestar um exame para obtenção do diploma de advogado (brevet d’avocat). Mas, antes disso, terá de apresentar, além do certificado de jurista, um comprovante de ter feito um master em Direito, uma prova de já ter emprego garantido num gabinete de advocacia, um certificado de idoneidade moral, um atestado negativo de antecedentes criminais (a «ficha-limpa» suíça) e um atestado negativo de cartório de protestos. Ufa!

Pensa que terminou? Ainda falta um pouco. Se o candidato conseguir reunir todas as qualificações e todos os documentos, pode prestar o exame. Se for aprovado, receberá seu diploma de advogado (brevet cantonal d’avocat). Com esse canudo no bolso, poderá ser funcionário assalariado de um escritório de advocacia. Caso pretenda abrir seu próprio gabinete, ainda falta um degrau: terá de inscrever-se obrigatoriamente no fórum da região onde pretende exercer. Só então será um profissional de pleno direito.

À vista disso tudo, fica difícil entender por que 18 (dezoito!) projetos tramitam atualmente pela Câmara Federal de Brasília visando todos a extinguir o temido Exame da Ordem. O advogado é um profissional que tanto pode representar a salvação como pode provocar a condena de um cidadão. Não é uma profissão vulgar nem trivial.

Sem ser a panaceia, o Exame da Ordem é uma garantia mínima de que os interesses dos clientes do futuro advogado serão corretamente defendidos.

Assim falava minha avó

Texto de autoria de Tereza Halliday, artesã de textos
publicado originalmente no Diário de Pernambuco de 3/12/2012

Chamava resfriado de defluxo e ladrão de gatuno ou larápio. Criança desobediente era mal-ouvida. Piada, gracejo, era pilhéria. Político desavergonhado? Um salafrário. Cacete dGrand-mèreesignava coisa chata, tediosa; costurar era coser (com s, evidentemente). Tinha nome preciso para mal-estar indefinido: macacoa. O dicionário o registra como “doença sem importância; indisposição”.  Mandava apagar com borracha um erro escrito a lápis, dizendo: “Raspe”. A fim de que lhe entregassem um objeto, pedia assim: “Dê cá…”

Misturar numa mesma frase a segunda e a terceira pessoa do singular ― o “tu” e o “você” ― era “coisa de gente inculta em geral e mau hábito de cariocas em particular”. Isto num tempo em que tal destempero de concordância ainda não era perpetrado por brasileiros de norte a sul. Pronunciava os infinitivos dos verbos com os corretos erres finais: partir, querer, contar… O ditongo “ei” era pronunciado em sua plenitude: janeiro, primeira. Corrigia imediatamente se avacalhássemos para “janero” e “primero”. Nunca, jamais em tempo algum de seus 70 anos de vida usou o pronome demonstrativo “esse” em lugar de “este”. E não tinha comiseração por gente letrada que usasse descuidadamente o português.

Pedante? Empolada? De jeito nenhum. Apenas dava testemunho da riqueza do idioma nacional como instrumento de precisão ou de linguagem figurada. Seu uso natural e competente do vernáculo muito me beneficiou, desde tenra idade. Foi professora de mão cheia, como tantas da sua geração. Formada pelo lendário Colégio Santa Margarida, Artemísia Sampaio Tavares tornou-se inesquecível para todos os seus ex-alunos, seja da escolinha do Arruda, seja filhos e netos. De uma carta, entre muitas que me escreveu quando passamos um ano separadas, destaco este primor de redação: “Notícias e novidades, aqui t´as envio cuidadosamente para não esquecer qualquer”. Meu saudoso mestre Sebastião de Albuquerque e minha sempre admirada professora Luzinete Pessoa haveriam de dar-lhe nota dez.

Sob fortíssima influência de minha avó, ainda sinto gastura, arrepios, sustos e desgosto com o atual descalabro (outro termo de sua preferência) no português escrito por aí afora, em todas as classes sociais. Nem ouso reclamar da linguagem oral, mais permissiva, mais informal, mais flexível. Não obstante, mesmo a tolerância linguística tem limites. Quando ouço “pode vim”, parece que estou vendo seu olhar consternado seguido de correção maternal. Consola-me saber que Dad Squarisi, perita em língua portuguesa e titular do Blog da Dad, seria também implacável, avisando que “Deus castiga” tal despautério.

European Song Contest

Você sabia?

José Horta ManzanoEurovision

Em meados dos anos 50, os países membros da UER – EBU (União Europeia de Radiodifusão ― European Broadcasting Union) não chegavam a dez. Mas o avanço técnico das telecomunicações já permitia transmissões de televisão entre os países membros.

Em 1956 foi organizado o primeiro Concurso Eurovisão da Canção. Teve lugar em Lugano, na Suíça. Apenas seis países concorreram. A Suíça ganhou aquela primeira edição.

A manifestação dura até hoje, mas mudou muito. Nestes quase 60 anos, a tevê em preto e branco ganhou cores. A orquestra desapareceu e deu lugar a uma fita pré-gravada, embora o canto seja obrigatoriamente ao vivo. O cantor solitário vestido de smoking ou a cantora bem aprumada num longo muito chique saíram de moda: hoje quase todas as canções são emolduradas por coreografia e efeitos cênicos. (As más línguas dizem que as coreografias são acompanhadas por cantores.)

A obrigatoriedade de cantar na língua oficial de cada país caiu. Cantam hoje quase todos em inglês. Até o nome do concurso, que começou como Concours Eurovision de la Chanson tornou-se European Song Contest. Ninguém contesta.

O número de países membros da EBU aumentou muito. São quase 50 hoje em dia, abrangendo até nações que, geograficamente, não são propriamente europeias, tais como Israel, Azerbaijã, Armênia, Turquia.

O grande número de participantes impôs novas regras ao concurso. Antigamente inscrevia-se quem quisesse, mas hoje semifinais têm de ser organizadas para peneirar um pouco. Somente 26 países sobram. Cada um apresenta sua canção na noite da grande finale, sempre no mês de maio.

O concurso perdeu sua antiga solenidade. Hoje parece mais um festival de música pop. Para quem, como eu, já vem de outros carnavais, as músicas todas se parecem. Não têm mais a personalidade própria que cada uma costumava ter. Fica difícil distinguir umas das outras.

Mas surpresas ainda acontecem. A canção que representará a Suíça no próximo mês de maio foi escolhida neste 16 de dezembro. Traz duas particularidades: pela primeira vez, uma canção será apresentada por músicos do Exército da Salvação ― vestidos a caráter, sim, senhor! E a segunda curiosidade: o contrabaixista do grupo é o artista mais velho que jamais se apresentou no concurso. Está com 94 anos de idade.

Que continue em boa saúde até lá!

A meia-entrada

Meia-entrada

Meia-entrada

José Horta Manzano

Um projeto de lei que estabelece obrigatoriedade de concessão de meia-entrada em manifestações culturais e esportivas está tramitando pela Câmara. Dado que já foi aprovado no Senado, deverá receber, dentro de pouco tempo, a bendição dos deputados. Vai tornar-se lei, uma lei estranha.

Vale-se do velho e conhecido truque de dar esmola com o dinheiro alheio. A lei obriga os organizadores de espetáculos a conceder favores a este ou àquele grupo, mas quem fica com o prejuízo são os próprios empresários. O governo fica com o papel de galã bonzinho sem ter de desembolsar um só real. Genial!

Como dizem os italianos, fatta la legge, fatta la burla, nem bem a lei acabou de ser votada, já aparece a maneira de burlá-la. No caso das meias-entradas, é relativamente simples: incha-se artificialmente o preço do ingresso normal.

Ou alguém imaginou que o empresário fosse enfiar a mão no bolso para distribuir esmolas obrigatórias? Grandes manifestações não são necessariamente obras caritativas. Ao fim e ao cabo, quem paga são os próprios espectadores.

Posso até admitir que preço de bens básicos seja, não digo controlado, mas fiscalizado pelo governo. Os cuidados com a saúde, os alimentos básicos, o transporte coletivo, entre outros, são necessidades essenciais do cidadão. É admissível ― e, até certo ponto, desejável ― que as autoridades interfiram na tarificação.

Outra coisa são «manifestações culturais e esportivas», nome chique para enfeitar a realidade tosca: estamos falando de jogo de futebol. Manifestações culturais, além de raras, não atraem multidões no Brasil.

Parece que a indústria de carteiras falsas de estudante anda florescendo no País. Também, pudera…

Os exilados fiscais

José Horta Manzano

Diferentemente de outros países, que procuram atrair as grandes fortunas, a França vem se distinguindo por perseguir os ricos. É paradoxal, mas é assim. A tendência se acelerou desde que o presidente Hollande tomou posse de seu cargo, alguns meses atrás. Uma de suas promessas de campanha ― demagógica a mais não poder ― foi de elevar a 75% (setenta e cinco porcento!) a alíquota de imposto de renda de quem ganha mais de um milhão de euros por ano.

É um raciocínio estreito, pois quem ganha fortunas desse nível sempre encontra meios de defender seu patrimônio. Já faz muitos anos que franceses afortunados vêm se expatriando para escapar a essas taxas escorchantes. São industriais, artistas, esportistas, escritores. Não são ladrões, não cometeram peculato, nem assaltaram o erário. Ganham seu dinheiro dentro da lei.

Quando o Estado retém a metade dos ganhos de certos cidadãos, já está exagerando. Quando chega a alíquotas de 75%, já não estamos falando mais de imposto. O nome é outro: confisco.

Faz anos que franceses ricos já estabeleceram seu domicílio fiscal no estrangeiro. Alain Delon, Charles Aznavour, Alain Prost, Johnny Hallyday, Marie Laforêt são os mais conhecidos. Mas há muitos e muitos outros de quem se fala menos, por não fazerem parte do mundo do espetáculo.

Bilhões de euros escapam, assim, à receita francesa em consequência de uma política míope que, se angaria votos, priva as burras do Estado de recursos mais que polpudos.

O caso mais recente envolve o ator Gérard Depardieu. Pessoalmente, não morro de simpatia por ele. Mas há que separar paixão e razão. O ator decidiu estabelecer-se num vilarejo belga, a alguns passos da fronteira francesa. Essa mudança de residência fiscal indignou o Primeiro Ministro da França, que a descreveu a decisão como «miserável, digna de um pobre tipo».

Gérard Depardieu

Gérard Depardieu

Como se diz na França, Depardieu não costuma «guardar a língua no bolso», não é o tipo de pessoa que leva desaforo pra casa. De bate-pronto, resolveu dar o troco ao desajeitado ministro. Numa carta aberta publicada este domingo, ele se insurge contra o insulto de que foi vítima. E, num arrebatamento, declara sua intenção de renunciar à cidadania francesa. Disse também que, em 2012, pagou impostos equivalentes a 85% de seus ganhos. Declarou ainda que vai-se embora porque se dá conta de que seu país abomina e sanciona o sucesso, a criação, o talento e a diferença.

O prefeito do vilarejo onde Depardieu comprou sua residência está rindo à toa.

Brasília by Cingapura

Brasília by Cingapura, NÃO!

Brasília by Cingapura, NÃO!

José Horta Manzano

Pode-se apreciar ou não o estilo de Niemeyer. Cada um é livre de idolatrar ou de detestar o conceptor de muitos prédios de Brasília. De gustibus, non disputandum.

O que não cai bem é conspurcar a memória do arquiteto. Mas isso não parece incomodar mandachuvas de Brasília.

A enxurrada de falcatruas que têm vindo à tona estes últimos tempos ainda está longe de terminar. Você provavelmente ouviu falar do movimento «Brasília by Cingapura, não!». Há algo pestilencial nesse contrato feito, pelo que dizem os jornais, sem licitação.

O futuro de Brasília pensado pelos chineses de Singapura? Acho que, desta vez, estão indo longe demais. Os brasileiros estamos sendo tratados de boçais. Alguns podem até sê-lo, mas a maioria de nosso povo é simplesmente mal-informada. Daí a raiva que dá ver que figurões se aproveitam dessa ignorância generalizada para locupletar-se.

Para quem esteve de férias no planeta Marte nos últimos dias, está aqui a notícia. No Estadão e no site do IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil, secção RJ.

Não estivéssemos em dezembro, eu acreditaria num primeiro de abril.

A vaca

Hugo Chávez

Hugo Chávez

“Chávez é como uma vaca. Em vez de leite, distribui aos seus ‘bezerros’ o dinheiro do petróleo. Eles, os altos mandos do chavismo, só estão juntos porque no centro está a vaca Hugo Chávez. Se ele morrer, os bezerros vão virar abutres. E vão querer comer a vaca de maneira anárquica”

Alfredo Romero, professor de Direito Público e diretor do Foro Penal venezuelano, citado por Rodrigo Cavalheiro no Estadão online de 15/12/12

Uma disputa enrolada

Primo Carbonari 2José Horta Manzano

Alguns meses atrás, a Folha de São Paulo publicou um texto do jornalista Rodrigo Salem. A reportagem descreve uma complicada pendenga judicial que tem a ver com rolos de filmes antigos. O pomo da discórdia são 13 mil rolos de documentários feitos por Primo Carbonari em 50 anos de trabalho. Um testemunho insubstituível de nossa História.

Litígios judiciais são corriqueiros. Sua frequência, alás, tem aumentado consideravelmente nestes tempos estranhos, em que tendemos a remedar comportamentos importados nunca dantes vistos neste País. Onde antigamente o bom senso e a boa vontade resolviam, depende-se hoje de decisão judicial. Lentas, as brigas se arrastam por anos. E sempre garantem à parte descontente o direito a recurso e a toda a parafernália que se costuma desembainhar nessas ocasiões.

Primo Carbonari 1

Primo Carbonari

Já litígios envolvendo rolos de filmes antigos são mais raros. É notória a indigência de nossa historiografia ilustrada. Fotos e filmes antigos são material escasso nesta parte do mundo. O Brasil orgulha-se de ter sido o primeiro país da América Latina a contar com a televisão. No entanto, se é verdade que, no recuado ano de 1950, alguns paulistanos privilegiados já podiam sintonizar o primeiro canal de tevê, poucas imagens dos anos pioneiros foram conservadas. Procure o leitor por registros dos primeiros 20 anos: excetuados retalhos de gravações miraculosamente conservados, não encontrará praticamente nada. Perdeu-se tudo. A ninguém ocorreu que estavam fazendo (e apagando) História.

Quem tem mais de 40 ou 50 anos já assistiu algum dia a um cinejornal de Primo Carbonari. Era praxe naqueles tempos pré-internet em que as imagens do mundo nos chegavam pelos jornais impressos, em fotos de qualidade sofrível. Assistir a um daqueles jornais cinematográficos era um colírio. Apesar da ausência de cor, as pessoas e os objetos eram visíveis, nítidos, enormes, se mexiam, tinham vida. Sem falar no fundo sonoro e na elocução caprichada dos narradores.

Como sabemos todos, filmes antigos deterioram-se com o tempo. Para perenizá-los, a melhor maneira é a digitalização. Não posso nem quero entrar no mérito do litígio sobre os documentários de Carbonari ― quando se toma o bonde andando, é melhor não se meter em briga de passageiros. Independentemente disso, acho que a memória nacional não deveria estar sujeita a contingências judiciais.

Faz seis meses que não se ouve mais falar na disputa pelos filmes documentários. Do jeito que se arrastam as coisas, a cada dia que passa mais um registro de nossa história periga desaparecer. É urgente que o Poder Público intervenha. Não há tempo a perder.

Um povo que despreza sua memória, além de escancarar sua indigência intelectual, condena-se a reviver seu próprio passado. Com as mesmas agruras e os mesmos apuros.

Quem perde, ganha

José Horta Manzano

Engana-se quem imagina que pobreza só existe em país atrasado. Até nações mais ricas e desenvolvidas costumam ter uma franja de população pobre, às vezes miserável até.

Cada povo tem seu caráter, suas idiossincrasias, sua maneira de encarar e resolver problemas. É difícil detectar o porquê dessas diferenças entre as gentes. No entanto, são diferenças nítidas, indiscutíveis.

Os países que maior destruição sofreram durante a Segunda Guerra foram coincidentemente os que a ela deram início: a Alemanha e o Japão. Em 1945, quando o último canhão se calou, a Alemanha estava arruinada e o Japão, devastado.

Berlim e as principais cidades alemãs não eram mais que um monte de escombros. Pontes, estradas, prédios públicos, fábricas, instalações portuárias e ferroviárias haviam sido dizimadas. O Japão, castigado por dois bombardeamentos atômicos, contava com duas grandes cidades a menos. A população de ambos os países ― e isto não é mera figura de linguagem ― havia regredido a condições medievais. Estavam os dois países de joelhos, arrasados, quase extintos.

Alemanha & Japão

Alemanha & Japão

Outras nações europeias e asiáticas também mostravam cicatrizes profundas deixadas pela guerra, mas o Japão e a Alemanha estavam em situação tão calamitosa, que davam a impressão de jamais poderem reerguer-se.

Cinquenta anos mais tarde, o que é que se viu? Justamente os dois grandes perdedores da guerra tinham voltado à opulência de antes. Tão pujante e poderosa se mostrava a Alemanha nos anos 90, que os governantes europeus ― o presidente Mitterrand à frente de todos eles ― mostraram-se reticentes, incomodados e principalmente receosos quando a possibilidade de reunificação do país tornou-se real, em seguida à queda do império soviético.

Quando vim pela primeira vez à Europa, nos anos 60, o que é que vi? Uma Espanha e um Portugal ainda ancorados na Idade Média. Não dava para esconder a miséria e o atraso. Na Espanha dos anos 60, aliás, quando alguma personalidade conhecida fazia uma viagem à França, os jornais noticiavam: «Don Fulano se marchó a Europa». Era sintomático: eles próprios não se sentiam parte do continente. Mais ou menos como alguns brasileiros que, ao retornar da Florida, dizem que foram «à América». Ai, cala-te, boca, que a história aqui é outra. Continuemos.

A Itália e a França estavam em situação um pouquinho melhor, é verdade, mas o nível de conforto de 50 anos atrás ainda era precário. A França não tinha nenhuma estrada de pista dupla. Telefone era raridade. Em ambos os países, não era qualquer lar que contava com um banheiro de verdade, daqueles onde se pode pelo menos tomar uma ducha. Banhos públicos ainda estavam na moda. Por necessidade.

Já a Alemanha, ah, a Alemanha… que diferença! O país já tinha sido inteiramente reconstruído. Tudo funcionava, vivia-se um período de euforia econômica. As estradas, pulverizadas durante a guerra, haviam sido refeitas. Pareciam novas.

O Japão também renasceu das cinzas. Vinte anos depois do fim da guerra, já oferecia a seu povo condições de viver dignamente. Desprovido de recursos naturais, sem petróleo, sem minérios, sacudido por terremotos diários, superpopulado, abrasador no verão e siberiano no inverno, assim mesmo o Japão não só recuperou as condições de antes da guerra, como logo foi além. O pequenino país tornou-se uma potência econômica superada apenas pelos Estados Unidos, o gigante do ramo.

Sempre me perguntei qual seria a razão pela qual diferentes povos teriam diferentes reações diante da adversidade. Será a religião? Será a educação transmitida de geração a geração? Será a excelência da instrução pública? Será o clima? Será um pouco de cada uma dessas razões?

Comentários são bem-vindos. Ainda não encontrei uma resposta definitiva.

O pioneirismo helvético

Você sabia?

José Horta Manzano

A Suíça tem território pequeno, mas geograficamente bastante complexo. Montanhas altas e intransponíveis, lagos, vales profundos, geleiras eternas, paredes íngremes, canyons apertados. Essa configuração, queira-se ou não, é uma das razões da existência do país. Mas voltaremos a esse assunto numa outra ocasião. A história que eu queria lhes contar hoje é outra.

No final dos anos 20, surgiram as primeiras estações de rádio, uma maravilha técnica para a época. O impacto deve ter sido imenso, difícil de avaliar hoje. Talvez tenha impressionado mais do que o aparecimento dos telefones de bolso que conhecemos hoje. Imaginem só: num mundo cuja musicalidade só se exprimia, até então, pelo coro da igreja aos domingos, surgiu um meio mágico de trazer a orquestra para dentro de casa. E as notícias, e as entrevistas, e as novelas. Há de ter sido u1936 Receptor Biennophonema revolução.

É, mas nem todos os cidadãos podiam participar da festa. A configuração geográfica particularmente acidentada do território impedia que as ondas  radiofônicas chegasse ao fundo de vales mais profundos ou atrás de montes mais imponentes.

Não era justo. Todos faziam parte da mesma sociedade, cumpriam suas obrigações, pagavam seus impostos. Por que, então, os habitantes de regiões afastadas seriam privados de usufruir essa novidade que encantava todo o mundo? Eram todos filhos do mesmo Guilherme Tell. Uma solução tinha de ser encontrada.

Quem procura, acha. E nem precisou muito tempo. Já em 1931, a concessionária nacional de telefones implantou um sistema que permitia levar as ondas do rádio a todos os rincões do país. Desde que o pretendente dispusesse de uma linha telefônica. Fixa, naturalmente. Por estas bandas, o telefone já era bastante difundido à época ― era, aliás, o cordão umbilical que ligava regiões recuadas aos grandes centros.

Não foi, portanto, difícil levar o som do rádio aos grotões. Utilizou-se um sistema análogo ao moderno adsl: o mesmo cabo transporta dois feixes de ondas (telefone e rádio), cada um numa frequência diferente. Hoje parece evidente, mas 80 anos atrás era uma conquista e tanto!1968 Receptor Biennophone

O novo sistema recebeu o nome de Telefonrundspruch em alemão. Como é hábito no país, a palavra foi adaptada para as outras duas línguas oficiais. Ficou télédiffusion en francês e filodiffusione em italiano. Seis canais eram transmitidos, dois em cada língua. Havia para todos os gostos: música clássica, variedades, música popular. A recepção era perfeita, sem chiado, sem interferência. Não havia hotel que não dispusesse daqueles radinhos, um em cada quarto. Restaurantes, estabelecimentos comerciais, salas de espera, aquele som aveludado estava por toda parte. Muitas casas particulares, ainda que se encontrassem em grandes centros, apreciavam a pureza do som e tomavam assinatura.

O sistema foi mantido até o fim dos anos 90, quando deixou de fazer sentido. Assim que milhares de estações de rádio e de televisão passaram a estar disponíveis via satélite, o velho sistema de 6 canais fixos entrou em rápido declínio. Ninguém mais se interessou por ele. Foi descontinuado.

O sistema era simples, mas prático e simpático. Deixou saudade.

Un chat est un chat

José Horta Manzano

Uma conjectura atormenta filósofos desde a Grécia antiga: mudando o símbolo muda-se a coisa? Em palavrório mais chique: a coisa e seu símbolo são convergentes ou inapelavelmente antinômicos?

Os franceses, com sua longa experiência em matéria de conflitos, afrontamentos, revoluções e guerras, ensinam a «appeler un chat un chat» ― se for um gato, há que dizer que é um gato. Esse dito popular exorta o bom povo a não ter medo de dizer as coisas como elas são. Dar nome aos bois, diríamos nós outros. Diríamos? Dizíamos, caro leitor, dizíamos.

Até alguns anos atrás, os contorcionismos verbais se restringiam a suavizar tabus geralmente de ordem sexual. Todas as palavras que pudessem, de perto ou de longe, remeter ao sexo eram evitadas. Até fenômenos fisiológicamente naturais como a trivial menstruação tinham seus nomes eludidos. Dizia-se que a moça estava «naqueles dias».

Costumes mudam com o passar do tempo. Não há que ser empacado nem caprichoso, que o mundo é assim mesmo. A sociedade evolui e, com ela, as modas, as palavras, as expressões. De uns tempos para cá, essa guinada tem-se acelerado em nosso País. É fenômeno importado, mas pegou forte, alastrou-se como fogo em palha seca.

Uma lista de nomes e expressões a banir foi instituída. E esse rol tende a se avolumar a cada dia. Não se fala mais assim, não se diz mais isso, nem pensar em pronunciar aquilo. Fica a desagradável impressão de que mentores mal-intencionados se concertaram para agir conscientemente a fim de acirrar ânimos, aprofundar fossos entre extratos sociais, separar o povo em campos distintos e antagônicos.

Elizete Cardoso

Palavras estranhas ― e nem sempre bem escolhidas ― nos vêm sendo impostas. Mulato, por exemplo, palavra a execrar hoje em dia, deve ser substituída por afrodescendente. Ora, há que ter em mente que todos os mulatos são também eurodescendentes, se não, não seriam mulatos. Por que, raios, o afro- teria precedência sobre o euro-? Devemos enxergar aí uma nova discriminação?

O Brasil já foi um país muito mais livre. O que digo pode soar estapafúrdio para os mais jovens, mas é o que ressinto. Éramos pobres, sim, mas podíamos sair à rua sem medo de ser assaltados, não precisávamos viver enjaulados como bichos no zoológico, a porta de casa dispensava tranca. E era natural dar nomes aos bois.

Hoje os brasileiros são mais ricos (ou menos pobres, conforme o critério estatístico adotado), mas vivem na apreensão permanente do assalto, da violência, da bala perdida, do sequestro relâmpago. São obrigados a cercar-se de jaulas, câmeras de controle, porteiros, vigias. E, para coroar tudo, como morango em cima de bolo de aniversário, já não se pode falar como antes. Temos de filtrar nossas palavras, pesar nossas expressões, policiar nosso discurso.

Será que, de uns dez anos para cá, teremos sido capazes de resolver a conjectura secular dos filósofos? Será que, mudando o nome da coisa, mudamos também a essência dela? Será que o mulato transfigurado em euro-afrodescendente será mais respeitado, mais valorizado, mais favorecido, mais feliz?

Se assim for, chegou a hora de enfiar o grande Ataulfo Alves no mesmo balaio ao qual já foram condenados Monteiro Lobato e o Saci-Pererê. Seu samba Mulata Assanhada, de 1956, tem de ser banido do cancioneiro nacional.

E é bom que preparem um balaio de bom tamanho. Muita gente fina vai ter de se acomodar lá dentro. Gente do quilate de Ary Barroso, Chico Buarque, Noel Rosa, isso só para começar. Pelas regras de hoje, estão todos em pecado mortal.

Mudança de endereço

Você sabia?

José Horta Manzano

Em (quase) todos os países do mundo, o cidadão escolhe onde quer morar, compra ou aluga sua moradia, e se muda. Até este ponto, imagino que em qualquer parte do planeta funcione (quase) igual. É a partir daí que começam as diferenças.

No Brasil, após a mudança, tchau e bênção. Ninguém fica sabendo onde foi parar o indivíduo. Se ele for organizado, vai providenciar espontaneamente a mudança de endereço nos documentos que trazem essa indicação, como o título eleitoral, por exemplo. Muitos nem isso fazem. Moram num endereço e permanecem inscritos noutra região, às vezes noutro Estado.

Nos países mais regulados, cada município mantém um cadastro dos habitantes. Na Suíça, por exemplo, a coisa é levada extremamente a sério. O cadastro é exaustivo, exato e mantido em dia. Cada morador é registrado na prefeitura, com nome, endereço, telefone e outros dados pessoais.

A consequência tanto pode ser uma vantagem quanto uma desvantagem. Quando se procura localizar alguém, seja por que motivo for, o registro é um ponto muito positivo, essencial mesmo. Já para quem tem culpa no cartório e gostaria de sumir do mapa, este não é o país ideal.A Lusitana

Quando da mudança de casa, o cidadão tem a obrigação de anunciar sua partida do endereço antigo e, em seguida, sua chegada ao novo endereço, ainda que seja no mesmo município. Os que moram de aluguel ― a maioria ― nem precisariam, na prática, cumprir essa formalidade. Os senhorios cuidam de fazê-lo: o antigo anuncia a partida, e o novo anuncia a chegada do morador.

Mas as autoridades são intransigentes: cada habitante, que lhe agrade ou não, tem de fazer o anúncio por si mesmo. Pode ser pessoalmente ou por correio, tanto faz. Mas as autoridades, bondosas, concedem um ‘amplo’ prazo de até 14 dias entre a mudança e o aviso.

Além de anunciar à prefeitura, o indivíduo tem, naturalmente, de cuidar de avisar seu banco, seu empregador, as companhias de eletricidade, telefone e tevê a cabo, as companhias de seguro, e quaisquer outras associações ou instituições às quais esteja ligado. Tem também ― e isto é obrigatório ― de comunicar a alteração de endereço aos serviços que cuidam do registro dos automóveis.

E ai de quem se esquecer de avisar a prefeitura! Uma vez, faz muitos anos, num tempo em que eu, chegado havia poucos anos, ainda não estava a par dessas picuinhas, mudei de endereço. Anunciei minha partida da morada antiga, mas não imaginei que também tivesse de avisar lá onde cheguei. Achei que fosse automático, que os municípios se comunicassem. Não era bem assim. As prefeituras se comunicam, sim, mas isso não dispensa o cidadão de cumprir as formalidades tim-tim por tim-tim.

Alguns dias depois de minha mudança, numa bela manhã ensolarada, tocam a campainha. Abro. Eram dois policiais uniformizados. Após um cumprimento polido mas sisudo e formal, disseram a que vinham: tomar satisfações sobre o anúncio incompleto de minha mudança. Fiquei muito embaraçado. Foram indulgentes e não me multaram, mas saí correndo para formalizar minha chegada junto às autoridades locais e para completar, assim, o ritual.

Foi a primeira vez que a polícia veio me procurar em casa. E espero que tenha sido a última.

Padeiro solidário

Você sabia?

José Horta ManzanoBaguette

Ouvi hoje pelo rádio que há uma padaria sui generis em Nîmes, no Sul da França: só vende pão da véspera. E doces idem. Esquisito? Parece. Pois imaginem que os empregados trabalham todos benevolamente. Todos os dias, percorrem as padarias da cidade e recolhem o pão e os doces que encalharam e teriam de ser atirados ao lixo.

Esses produtos serão vendidos na padaria comunitária no dia seguinte. Os preços, evidentemente, são uma fração do que se costuma cobrar pelos mesmos artigos quando frescos. Os valores são calculados o mais baixo possível, unicamente para cobrir os gastos gerais com aluguel, combustível, eletricidade. Não se visa ao lucro.

Se faltasse, está aí mais uma prova de que, por aqui também, há pobres. E muitos. Ou alguém imagina que, por estas bandas, dinheiro dá em árvore?

Círculo vicioso

José Horta Manzano

O governo francês, sabe-se lá por que, Termometrovem mostrando, há várias décadas, uma marcada tendência para o paternalismo. É um ponto que aproxima a França do Brasil. Tal como em Pindorama, onde se ouvem histórias de gente que recusa trabalho regular para não perder as vantagens de uma bolsa qualquer, na França também se costuma dizer que, em certos casos, mais vale não trabalhar e viver às custas da ajuda do estado. É mais vantajoso que se esfalfar no batente, menos cansativo e pode até render mais. Alguns dão a esse perverso mecanismo o nome de assistanato.

É inegável que há, no país, gente passando por momentos de dificuldade. Não se pode fechar os olhos à realidade. O que faz falta é identificar as causas do mal e tratá-lo pela raiz. Não adianta dar aspirina para baixar a febre. Há que se dar conta de que a febre não é mais que o sintoma de um mal maior. Passado o efeito da aspirina, a febre voltará. Só nos restará, então, quebrar o termômetro. Assim, o problema estará resolvido.

A grande prioridade dos que vêm governando a França nestas últimas décadas é combater o recrudescimento desalentador do desemprego. Fábricas fecham suas instalações francesas para se instalar no Marrocos, na Romênia ou no Vietnã. O governo faz cara de bravo, finge que “negocia” com os grandes patrões, e, ao fim e ao cabo, a coisa fica por isso mesmo. Com promessas, nenhum governo consegue segurar o empreendedor que decidiu partir. O dono do dinheiro é quem dá a última palavra sobre o destino de sua empresa.

É inacreditável que os males não sejam atacados no nascedouro. Todos concordam que o custo de um assalariado francês é exagerada e injustificadamente elevado. Contratar um funcionário é fácil. O difícil é despedi-lo. Os empecilhos são tão grandes, que acabam por desencorajar futuros investidores. Grandes ou pequenos. Por que, diabos, investir num país onde os conflitos ligados à mão de obra, mais dia, menos dia, vão acabar perturbando os negócios? Se eu tivesse alguns milhões disponíveis para implantar um negócio qualquer, dificilmente faria isso na França.

Um círculo vicioso acabou-se criando. Firmas fecham. Funcionários são despedidos e vão engrossar a fila dos beneficiários de ajuda governamental. O governo, para atender a toda essa demanda, têm de arrecadar dinheiro. Para angariar fundos, taxa as empresas. Essas acabam não aguentando o tranco, fecham e vão cantar noutra freguesia. Realimentam, assim, a fila dos desempregados. E o círculo se fecha.

Torço para que o Brasil consiga escapar a esse poço sem fundo. Com o governo visionário que temos atualmente, não vai ser fácil.

Mandato (de parlamentar) ou mandado (de prisão)?

José Horta Manzano

Não sou político, nem jurista. Nem muito menos constitucionalista. E menos ainda, parlamentar. Mas acho que bom-senso não está obrigatoriamente ligado a este ou àquele ofício. Um humilde varredor de rua tem muita vez mais sensatez que ministros arrogantes.

Acabei de ler que o STF deve definir nesta segunda-feira o futuro parlamentar dos deputados condenados no processo do mensalão. Terão seus mandatos cassados ou continuarão a funcionar como representantes do povo brasileiro no nível federal ― o mais elevado?

           PrisãoCrédito: Digital Vision

Prisão
Crédito: Digital Vision

Independentemente do que possa dizer a Constituição da República ou do que possa estipular o regimento interno da Câmara Federal, o bom-senso não pode ser espezinhado. Ele tem de prevalecer. Afinal, não estamos numa republiqueta de bananas.

Deputados (federais!) cumprindo do outro lado das grades o mandato que o povo lhes confiou? Sem querer ofender ninguém, nem da mais desorganizada república africana se esperaria fato tão singular. Um absurdo inimaginável.

É a lei? Que se mude a lei! É o regulamento? Que se mude o regulamento! Ao outorgar essa lei ou ao arrematar esse regulamento, os autores não previram que deputados pudessem passar uma temporada no xilindró.

Leis e regulamentos refletem a realidade do momento em que foram elaborados. São feitos para serem modificados. Se a realidade já não é a mesma, que se mude sua regulação.

O que não podemos é dar ao mundo mais esta mostra de atraso.