Quem perde, ganha

José Horta Manzano

Engana-se quem imagina que pobreza só existe em país atrasado. Até nações mais ricas e desenvolvidas costumam ter uma franja de população pobre, às vezes miserável até.

Cada povo tem seu caráter, suas idiossincrasias, sua maneira de encarar e resolver problemas. É difícil detectar o porquê dessas diferenças entre as gentes. No entanto, são diferenças nítidas, indiscutíveis.

Os países que maior destruição sofreram durante a Segunda Guerra foram coincidentemente os que a ela deram início: a Alemanha e o Japão. Em 1945, quando o último canhão se calou, a Alemanha estava arruinada e o Japão, devastado.

Berlim e as principais cidades alemãs não eram mais que um monte de escombros. Pontes, estradas, prédios públicos, fábricas, instalações portuárias e ferroviárias haviam sido dizimadas. O Japão, castigado por dois bombardeamentos atômicos, contava com duas grandes cidades a menos. A população de ambos os países ― e isto não é mera figura de linguagem ― havia regredido a condições medievais. Estavam os dois países de joelhos, arrasados, quase extintos.

Alemanha & Japão

Alemanha & Japão

Outras nações europeias e asiáticas também mostravam cicatrizes profundas deixadas pela guerra, mas o Japão e a Alemanha estavam em situação tão calamitosa, que davam a impressão de jamais poderem reerguer-se.

Cinquenta anos mais tarde, o que é que se viu? Justamente os dois grandes perdedores da guerra tinham voltado à opulência de antes. Tão pujante e poderosa se mostrava a Alemanha nos anos 90, que os governantes europeus ― o presidente Mitterrand à frente de todos eles ― mostraram-se reticentes, incomodados e principalmente receosos quando a possibilidade de reunificação do país tornou-se real, em seguida à queda do império soviético.

Quando vim pela primeira vez à Europa, nos anos 60, o que é que vi? Uma Espanha e um Portugal ainda ancorados na Idade Média. Não dava para esconder a miséria e o atraso. Na Espanha dos anos 60, aliás, quando alguma personalidade conhecida fazia uma viagem à França, os jornais noticiavam: «Don Fulano se marchó a Europa». Era sintomático: eles próprios não se sentiam parte do continente. Mais ou menos como alguns brasileiros que, ao retornar da Florida, dizem que foram «à América». Ai, cala-te, boca, que a história aqui é outra. Continuemos.

A Itália e a França estavam em situação um pouquinho melhor, é verdade, mas o nível de conforto de 50 anos atrás ainda era precário. A França não tinha nenhuma estrada de pista dupla. Telefone era raridade. Em ambos os países, não era qualquer lar que contava com um banheiro de verdade, daqueles onde se pode pelo menos tomar uma ducha. Banhos públicos ainda estavam na moda. Por necessidade.

Já a Alemanha, ah, a Alemanha… que diferença! O país já tinha sido inteiramente reconstruído. Tudo funcionava, vivia-se um período de euforia econômica. As estradas, pulverizadas durante a guerra, haviam sido refeitas. Pareciam novas.

O Japão também renasceu das cinzas. Vinte anos depois do fim da guerra, já oferecia a seu povo condições de viver dignamente. Desprovido de recursos naturais, sem petróleo, sem minérios, sacudido por terremotos diários, superpopulado, abrasador no verão e siberiano no inverno, assim mesmo o Japão não só recuperou as condições de antes da guerra, como logo foi além. O pequenino país tornou-se uma potência econômica superada apenas pelos Estados Unidos, o gigante do ramo.

Sempre me perguntei qual seria a razão pela qual diferentes povos teriam diferentes reações diante da adversidade. Será a religião? Será a educação transmitida de geração a geração? Será a excelência da instrução pública? Será o clima? Será um pouco de cada uma dessas razões?

Comentários são bem-vindos. Ainda não encontrei uma resposta definitiva.

2 pensamentos sobre “Quem perde, ganha

  1. Eu também sempre me perguntei quais são os motivos que estão por trás do desejo e da capacidade de superação de obstáculos. Força de vontade? Coragem? Falta de preguiça?
    Só encontrei algumas respostas pessoais que me servem de guia para “explicar” o impulso de reconstrução. Para mim, trata-se de uma mistura de ‘apropriação’ [sentir-se dono da coisa que está destruída] e de ‘autoresponsabilização’. Em outras palavras, quando surge a sensação de que não há mais nada a se perder e já não há qualquer esperança de poder receber ajuda externa, a pessoa e/ou o país começa a se perguntar de que modo pode transformar seus próprios escassos recursos para promover uma vida mais confortável. Lamentavelmente, nos países colonizados com brutalidade – como é o caso do Brasil – jamais se abandonou a crença de que são os governantes, os ‘pais da pátria, os responsáveis por operar o milagre…

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