Cachorros e seus símbolos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 14O que seu cachorro representa para você? Como você explica para outras pessoas o afeto que os une? Ele é como um filho, uma paixão, parte da família, seu melhor amigo, seu companheiro de todas as horas, seu divertimento preferido, seu anjo da guarda, sua sombra, um estorvo, uma ameaça à sua segurança ou à de sua família, ou até, quem sabe, mais um ítem “fashion” que você incorporou ao seu repertório?

Pois é, cachorros podem ser enquadrados em todas essas categorias e em muitas outras mais. Já há algum tempo eles se transformaram numa espécie de ‘commodity’ que é negociada habilmente, com base na estratégia de quanto mais rara, diferenciada ou exótica a raça, maior o preço. Há raças “da moda”, cuja cotação sobe proporcionalmente ao encanto exercido por alguma celebridade que a possua. O apego demonstrado aos cães é tamanho que, hoje em dia, casais em processo de divórcio discutem angustiadamente perante o juiz quem vai ficar com o cachorro e, como a conciliação nem sempre é possível, já há casos de decretação de guarda compartilhada.

Cachorro 16Mais recentemente, algumas campanhas publicitárias passaram a divulgar a tese de que é “out” adquirir um cão de raça e a sinalizar que a adoção de companheiros peludos de quatro patas sem raça definida – o famoso vira-lata – é a atitude politicamente correta a ser tomada.

Seja como for, o envolvimento afetivo de brasileiros com seus cães é notório, um fenômeno tão difundido que já coloca o país nas primeiras colocações em termos de número de cachorros por habitante. Símbolo de fidelidade, lealdade, amor incondicional, capacidade de entrega, integridade e devoção perpétua, os cachorros continuam sendo os animais de estimação preferidos entre nós, desbancando não só os gatos, companheiros mais silenciosos e independentes, mas até “pets” mais exóticos como porcos, iguanas ou macacos.

Cachorro 15Apesar de tudo isso, não há como esconder as estatísticas que apontam um crescente número de animais abandonados nas ruas e parques de nosso país, jogados pela janela de carros, espancados, envenenados ou simplesmente “esquecidos” na petshop depois de um banho. Quanto mais perto do final do ano e dos períodos de férias escolares, maior a incidência de abandonos. Não importa se o cão conviveu com a família por 5 anos ou mais, quando ele se torna inconveniente em função de seu tamanho ou de seu comportamento, a porta da rua é aberta num piscar de olhos.

Uma pergunta se faz obrigatória: quando é que um afeto extremado se transforma em desapego despudorado? Quando é que o encantamento se desfaz e determina que um bicho tão alardeado como amado se transforme em objeto incômodo? Será cansaço, desilusão ou, quem sabe, o desejo de escolher outros passatempos ou ainda outros “pets” da moda?

Cachorro 14Um amigo meu usava sempre, brincando, uma frase de efeito para explicar o aumento nos casos de divórcio: “a convivência gera indiferença”. Embora ele se referisse aos humanos, acredito que essa triste possibilidade se aplica também à relação entre humanos e seus cães. Se os cães são sentidos mesmo pela maioria como filhos, como explicar a quebra da relação de amor e confiança mútuos? Você seria capaz de jogar seu próprio filho no meio da rua, virar as costas e ir embora sem olhar para trás?

Desde que adotei minha primeira cachorra, venho buscando dentro de mim as motivações humanas capazes de justificar a manutenção ou a interrupção dos laços afetivos que desenvolvemos com os cães. Cheguei à conclusão que esse é, sem dúvida, um quebra-cabeça emocional para lá de complexo.

Cachorro 16Algumas ilusões parecem estar envolvidas no momento da introdução de um cachorro na família. A primeira, mais corriqueira, é a de que aquela bolinha encantadora de pelos nunca vai deixar de ser um filhotinho brincalhão, nunca vai crescer. A segunda, um pouco mais complicada, é a de que, ao contrário dos filhos humanos, o cachorro nunca vai abandonar sua “mãe”, nunca vai deixar de amá-la. Bem, isso é verdade mas apenas parcialmente. Os cães nunca abandonam seus donos mas, se forem abandonados e adotados por outra família, transferirão depois de um tempo todo seu afeto para os novos donos. Serão eles os novos líderes de matilha a serem admirados, seguidos e obedecidos.

Talvez seja por contarem com essa possibilidade que muitos donos abandonam seus cães. Não quero demonizar as pessoas que, num dado momento de suas vidas, decidem que não têm mais condições emocionais de cuidar de seus “pets”. A perversidade, a meu ver, não está nessa simples constatação. Está na indiferença daqueles que não buscam ativamente transferir a guarda de seu bicho de estimação para uma pessoa ou entidade que aceite se responsabilizar por ele. No desrespeito à natureza amorosa da relação, deixando de garantir que o animal encontre condições mínimas de alimentação, saúde e proteção.

Cachorro 17Sem dúvida, há cães “difíceis”, assim como há filhos “difíceis”. Os cachorros, assim como as crianças, sabem testar os limites de autoridade da pessoa que cuida deles. Talvez a ilusão mais dolorida para quem tem um cão seja exatamente a de não se dar conta desde o início de que é preciso devolver toda a fidelidade, lealdade, integridade, amor incondicional, capacidade de entrega e devoção perpétua que receberam de seu animal de estimação. Melhor dizendo, a ilusão de não perceber que, nesse sentido, eles são nossos mestres e não nossos aprendizes.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s