Denúncia espontânea?

Chamada de O Globo, 12 nov° 2015

Chamada de O Globo, 12 nov° 2015

José Horta Manzano

Como reagirá o fisco brasileiro? Só o futuro dirá. Em outras plagas, “denúncia espontânea” só é aceita enquanto as autoridades não estão cientes da sonegação. A partir do momento em que todos – autoridades e distinto público – estão a par da evasão, babau: é tarde demais.

Não tem cabimento “denunciar” fato público e notório. Será que a sociedade brasileira vai engolir mais essa?

Anistia fiscal

José Horta Manzano

Dinheiro voadorQuem é que gosta de pagar imposto? Você? Duvido muito. Nem eu. É da natureza humana. Todos gostamos de aproveitar do bem comum e da estrutura posta à nossa disposição, mas nem sempre nos damos conta de que esse arcabouço tem de ser financiado por alguém. E que esse alguém somos nós mesmos. Quem usa, paga – não há almoço grátis.

Não se sinta embaraçado, distinto leitor. Todos os cidadãos do planeta estão no mesmo saco. Pagamos imposto por obrigação, porque não há meio de escapar. Ah, se desse pra cair fora…

Banco 5Alguns conseguem. O assalariado, o funcionário, o empregado dificilmente escaparão das longas garras do fisco. Já para empresários, autônomos e todos os que trabalham ‘por conta’, o caminho é menos pedregoso. Caixa dois e não declaração de rendimentos são os meios mais utilizados para diminuir a dívida para com o fisco. Longe de ser exclusividade brasileira, isso ocorre no mundo todo.

A Câmara Federal acaba de aprovar, por estreita margem, projeto de lei visando à regularização de ativos que cidadãos residentes no Brasil possam eventualmente manter no exterior. É o que se chama anistia fiscal. O resultado apertado do voto (230 x 213) mostra que os parlamentares estão longe da unanimidade. É compreensível que suas excelências se dividam entre favoráveis e contrários. O assunto pode ser olhado a partir de ângulos diferentes.

Dinheiro 1Os que são contra dão grande valor a princípios. Enxergam a anistia fiscal como perdão indevido aos que cometeram crime contra a sociedade – uma espécie de traição. Usufruíram o bem comum sem dar sua contribuição. Para esse grupo, por princípio, a absolvição é ruim. Vale como prêmio (e até incentivo) à delinquência.

Já os que aprovam a medida mostram ter visão pragmática. Entendem que, com anistia ou sem ela, o mundo continuará a girar e as gentes continuarão a tentar escapar ao fisco. Dão-se conta de que não é uma lei que vai modificar mentalidades. Percebem que mais vale recuperar esses bilhões e reinjetá-los na economia nacional – sem esquecer de reforçar os mecanismos para coibir tais práticas daqui pra frente.

Banco 6Fosse eu deputado, teria aprovado a anistia. Acredito que comportar-se como Dom Quixote, fechando os olhos à realidade, não vale a pena. Eu teria proposto, para complementar, um projeto de emenda constitucional que vedasse toda nova anistia por um prazo de cinquenta anos. Perdões frequentes, sim, são incentivo à fraude. Inscrever tal medida na Constituição é garantia de que novas anistias não venham a ser instituídas intempestivamente por lei ordinária.

Interligne 18hComo fazem os outros
Na Suíça, a última anistia geral aos que tinham patrimônio não declarado foi concedida em 1969. De lá pra cá, vários projetos surgiram, mas nenhum prosperou até que uma lei, que entrou em vigor em 2010, instaurou uma espécie de anistia permanente, que se aplica a todos os habitantes do território.

Banco 3Todo cidadão tem direito – somente uma vez na vida, isso é importante – a declarar patrimônio dissimulado. Para tanto, terá de provar que o capital não cresceu durante os últimos dez anos, ou seja, demonstrará que se trata de fortuna antiga. A declaração só será válida se for espontânea. Caso o fisco descubra sozinho, babau: é tarde demais.

O capital será regularizado mediante pagamento do imposto sobre a fortuna – particularidade fiscal adotada por meia dúzia de países, entre os quais a Suíça e a França. O imposto será cobrado sobre os últimos dez anos, acrescido de juros de mora. Resumindo, dá uns quinze porcento do capital. Mas é bom não esquecer: só se pode recorrer a esse caminho uma vez na vida.

De Amador.Aguiar@com para J.Levy@gov

Elio Gáspari (*)

Estimado ministro,

Banco 8O senhor foi o primeiro funcionário do Bradesco a se tornar ministro da Fazenda. Para o banco que fundei, é uma honra e ao mesmo tempo um risco. Não trabalhamos juntos. O senhor formou-se na Universidade de Chicago. Eu, em lugar nenhum.

Resolvi escrever-lhe por causa do contratempo que a Receita Federal, sob sua jurisdição, criou para os clientes com o cadastro dos empregados domésticos. Veja que eu uso a palavra clientes, pois os cidadãos pagam impostos para receber serviços. Chamando-os de contribuintes falsificamos a essência da relação. Contribuinte é quem deixa dinheiro numa caixa de igreja. No banco, o senhor sabe, cobramos taxas em troca de serviços. O cliente é obrigado a pagá-las, e nós somos obrigados a servi-lo.

Receita 2Em 1943, quando fundei o Bradesco, o brasileiro achava que entrar em banco era coisa de rico. Passei a receber contas de luz, abri agências em cidades que não tinham energia elétrica. A mesa do gerente devia ficar perto da porta de entrada. Nossos funcionários ensinavam a clientela a preencher cheques. Um dos nossos bancários foi escolhido para dirigir uma agência e, com a mulher, passou o fim de semana limpando os balcões e o chão. Ele viria a se tornar presidente do banco. Em apenas oito anos, o Bradesco tornou-se o maior do país.

Banco 9No domingo passado, ficou claro que o sistema do cadastro não funcionava. Eu sei o que é isso porque o Bradesco foi o primeiro banco brasileiro a usar computador. O senhor e o secretário da Receita não disseram uma palavra. Pareciam aqueles paulistas quatrocentões que competiam comigo.

Passaram-se o domingo e a segunda-feira. Nada. Na terça-feira, a Receita avisou que não prorrogaria o prazo para a regularização do cadastro: “Não trabalhamos com essa hipótese”. O senhor foi a dois eventos e continuou calado.

Leão 2Só na tarde de quarta-feira, a 72 horas do limite imposto aos clientes para se cadastrarem sem multa, o senhor e a Receita fizeram o que deviam ter feito na segunda. Não ouviram os clientes, mas ouviram a patroa e estenderam o prazo.

O senhor sabe como eu reagiria se durante quatro dias uma agência do Bradesco estivesse com uma máquina quebrada, uma enorme fila de clientes na porta, e o gerente nada tivesse a dizer. Se a confusão do cadastro da criadagem tivesse acontecido no Bradesco, eu teria dispensado seus valiosos serviços.

Atenciosamente,

Amador Aguiar

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

¡Me alegro!

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Em 2002, não éramos muitos a descrer. A grande maioria tinha esperança de que o governo do recém-eleito presidente Luiz Inácio da Silva seria benéfico. Alguns meses antes, tinha sido publicada a Carta aos Brasileiros, documento no qual o então candidato renegava a parte ideológica do programa de seu partido e se comprometia a respeitar tratos em vigor.

Pessoalmente, não acreditei. Quando a esmola é muita, o santo desconfia – já dizia minha velha avó. A maioria dos eleitores, no entanto, deu ao candidato crédito de confiança e alçou-o ao Planalto.

Não demorou muito, espocou o escândalo do mensalão. Embora ninguém antecipasse, já estavam ali delineadas as primícias do caudaloso petrolão. E sabe Deus que revelações ainda estão por vir.

Em 2002, não éramos muitos a sentir cheiro de retrocesso. Do mensalão pra cá, o cortejo dos desapontados foi engrossando. Entre descrentes e decepcionados,  somos hoje 90% da população.

Chamada da Folha de São Paulo, 11 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 11 nov° 2015

Com alívio, abrimos os braços para receber mais um membro no clube. Não é um cidadão qualquer. Embora costume alegar que não sabia de nada, o homem sabe das coisas: é o Luiz Inácio, o mesmo que já presidiu o Executivo.

Assinou ontem a carteirinha de sócio. Passeando pela Colômbia, declarou que, finalmente, também ele «sente cheiro de retrocesso». Não só no Brasil, mas em toda a América do Sul. Demorou!

Enfim, chegamos lá! Estamos todos de acordo. O retrocesso, que começou com a gestão de nosso guia na presidência, não só continuou como se acelera. Estamos regredindo cada vez mais rápido.

É bom que o antigo presidente se tenha dado conta. É reconhecimento tardio mas… antes tarde que nunca. ¡Me alegro! – como diriam os castelhanos.

É culpa do mensageiro

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, o ofício de mensageiro era pra lá de perigoso. Depois de correr léguas carregando notícia que pudesse desagradar ao destinatário, corria o risco de ser trucidado.

Chamada da Revista Ceará

Chamada da Revista Ceará

Até alguns séculos atrás, embaixador também podia ser profissão de alto risco. Pelas mesmas razões. O emissário, tomado como personalização do soberano que representava, podia sofrer a ira do interlocutor. E pagar pelo que não tinha cometido.

Chamada de InfoMoney

Chamada de InfoMoney

Felizmente, essas práticas desapareceram no mundo moderno. Tirando humilhações públicas, como a que dona Dilma infligiu ao embaixador da Indonésia no começo deste ano(*), portadores de notícias não costumam mais ser alvo do furor dos desagradados. Em princípio. Por que ‘em princípio’?

Chamada de Último Segundo

Chamada de Último Segundo

Porque nem sempre funciona assim. Nossos poderosos, quando apanhados de calças curtas, dão-se a comportamento pouco digno. Em vez de se defender da acusação e de procurar provar a própria boa-fé, procuram metralhar… o mensageiro.

Chamada do Jornal do Brasil

Chamada do Jornal do Brasil

Cometem, assim, na prática, confissão pública. Quem não tem culpa faz o que pode para se defender e provar inocência. Desvela segredos bancários e telefônicos. Apresenta provas documentais e testemunhos idôneos.

Chamada de Zero Hora

Chamada de Zero Hora

No Brasil destes tempos estranhos, temos regredido muitos séculos. Poderosos não admitem ter cometido crimes ou deslizes e não suportam ser denunciados. A estratégia de defesa é sempre a mesma: depreciar o acusador e alegar que ele está mentindo.

Chamada do Estadão

Chamada do Estadão

Quando não funciona, exige-se que o testemunho seja invalidado. Se ainda esse expediente não funcionar, resta minimizar o crime e transformá-lo em simples «malfeito» – coisa que todo o mundo faz, não é mesmo?

Por ingenuidade ou por comodidade, o grande público acaba acreditando. E vamos em frente, que atrás vem gente.

Interligne 18h

(*) Consultar meu artigo A diplomacia do coice.

Cinquenta vezes

Cláudio Humberto (*)

Banco 7O aspone para assuntos internacionais aleatórios da presidência, Marco Aurélio Garcia (aquele do “top-top”), é citado ao menos cinquenta vezes no inquérito que investiga o ex-presidente Lula pela prática do crime de tráfico internacional de influência para beneficiar a empreiteira Odebrecht, com financiamentos do BNDES em obras no exterior. O caso vem sendo investigado pelo Ministério Público.

O protagonismo de Marco Aurélio Garcia no caso Odebrecht poderá levar o assessor presidencial a depor na CPI do BNDES. A investigação do Ministério Público apura a acusação de tráfico de influência internacional do Lula quando era presidente.

E-mails obtidos pelo Ministério Público comprovam que era «Top-top» Garcia quem “garantia” a autoridades os financiamentos do BNDES.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

A catástrofe de Mariana

José Horta Manzano

«Prevenir acidentes é dever de todos» era advertência afixada em lugar bem visível nos bondes de antigamente. O homem ainda estava engatinhando em matéria de desenvolvimento mecânico e tecnológico. Explosões, incêndios, desastres de todo tipo eram muito mais comuns que hoje. Estes últimos 100 anos trouxeram considerável avanço em matéria de prevenção.

Vale Mariana 1Acidentes acontecem, todo o mundo sabe disso. Entre eles, alguns são inevitáveis como raio, incêndio florestal. Contra as forças da natureza, pouco ou nada se pode fazer além de rezar pra Santa Bárbara.

A maior parte dos acidentes, no entanto, entra em outra categoria. São acontecimentos contra os quais podemos – e devemos – nos prevenir. Se precauções não eliminam todos os acidentes, certamente diminuem o risco.

by Paulo Baraky Werner, desenhista mineiro

by Paulo Baraky Werner, desenhista mineiro

Pelo relato dos jornais, a catástrofe de Mariana é resultado de negligência. O estado atual de desenvolvimento da engenharia fornece os elementos necessários para evitar que uma diga ceda. Chuvas torrenciais, corriqueiras em regiões tropicais, não servem como desculpa para esse tipo de acidente. Nem mesmo tremores de terra de pequena magnitude, dado que se produzem no Brasil com certa frequência.

Majestosa sede da Vale Internacional, em St-Prex, Suíça, às margens do Lago Léman Imagens Google

Majestosa sede da Vale Internacional, em St-Prex, Suíça, às margens do Lago Léman
Imagens Google

As instalações de Mariana pertencem a um consórcio em que a mineradora brasileira Vale responde por cinquenta por cento. Essa empresa, gigante mundial no ramo, explora variadas jazidas espalhadas por 30 países.

Em artigo do ano passado intitulado Exportando desleixo, fiz breve relato dos estragos que essa empresa vem causando na Nova Caledônia, território francês do Oceano Pacífico. Exploram ali uma mina de níquel. De 2009 a 2014, causaram nada menos que sete acidentes industriais. Produtos diversos vazaram e contaminaram terras e vidas.

Vale Mariana 2Isso é o que veio a público. Sabe-se lá que barbaridades podem ter ocorrido em outras partes do mundo, especialmente em países menos ciosos da saúde do povo. Quando interesses superiores estão envolvidos, sacumé, notícias ruins têm mais dificuldade para circular.

Essa companhia deverá responder civil e criminalmente pelo desastre de Mariana. Em terras civilizadas, poderiam ir já provisionando alguns bilhões. No Brasil, onde amigos do rei têm direito a tratamento de favor, só Deus sabe como vai terminar. Quem viver, verá.

Gigantesca farsa

Não 1José Horta Manzano

Tudo é questão de hábito. Quem está no centro do palco é, por força dos fatos, personagem do drama sócio-político-econômico que se desenrola no Brasil atual. Assim, não se dá necessariamente conta do grotesco da situação. Para um observador de fora, a percepção é outra.

A escritora e jornalista Lamia Oualalou – autora do livro Brasil: História, Sociedade, Cultura – trabalha como correspondente de jornais franceses. É especializada em assuntos brasileiros e latino-americanos. Seu mais recente artigo, publicado esta semana no portal francês de informação Mediapart, leva o título «Le Brésil se transforme en gigantesque farce» – O Brasil vira farsa gigantesca.

Filme 2Num feliz cotejo, a autora relembra o filme de 1967 A Guide for the Married Man (Diário de um homem casado), dirigido por Gene Kelly. A recomendação subjacente na fita é endereçada a homem casado apanhado em flagrante delito de adultério. Sugere que ele negue a realidade, ainda que pareça absurdo.

Não 2Diante da esposa que o surpreende na cama com outra mulher, o protagonista segue o conselho: nega, nega, nega. Sua denegação da evidência é tão enfática e peremptória que consegue instilar dúvida na cabeça da esposa. Ela chega a imaginar que andou tendo alucinações.(*)

Filme 1Madame Oualalou revela a seus leitores que, no Brasil, a realidade ultrapassa a ficção. E conta a história do presidente da Câmara Federal, acusado de ter recebido 5 milhões de dólares como cota pessoal do roubo à Petrobrás. Explica que não se trata de acusação leviana, mas apoiada em documentação farta liberada pelo Ministério Público suíço. Fico imaginando a incredulidade dos leitores franceses quando a autora assevera que o acusado continua no posto mais alto do parlamento, firme na estratégia de negar, negar, negar.

Não 3A jornalista revela ainda outros capítulos da telenovela (em português no original) que transforma o Brasil, já há alguns meses, em farsa gigantesca. Relata a opinião da ministra da Agricultura, grande proprietária de terras, segundo a qual «a reforma agrária é inútil, pois não há mais latifúndios no Brasil».

Conta também o episódio pitoresco encenado na Câmara Municipal de Campinas (SP), cidade que sedia, por sinal, uma das grandes universidades do país. Explica que os vereadores votaram moção de censura a… Simone de Beauvoir! O qüiproquó deriva da menção feita no Enem de uma frase, considerada sexista, extraída do livro Le deuxième sexe – O segundo sexo, obra emblemática da reverenciada Madame de Beauvoir.

Livro 3Para terminar, a correspondente informa que, de Paris, lhe perguntam se a crise econômica e política brasileira vai ser longa. Ela considera que, como se pode deduzir por essas historietas, não se trata de turbulência passageira. O que acontece no Brasil é bem mais grave do que se imagina.

(*) A cena memorável pode ser revisitada no youtube, neste excerto de um minuto e meio.

Frase do dia — 269

«Políticos e diplomatas estranharam presença do aspone Marco Aurélio Top-Top Garcia – como se fosse o chanceler – na cerimônia em que Dilma recebeu credenciais de embaixadores. Em razão da má influência dessa figura extravagante, o Brasil virou um anão diplomático.»

Cláudio Humberto, jornalista em sua coluna no Diário do Poder, 7 nov° 2015.

Novilíngua – 2

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que árvores se plantavam. Aparentemente, hoje se instalam. Há de ser consequência do desmatamento desenfreado.

Os bolos do doutor Jardim

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 nov° 2015

Os mais jovens podem até duvidar, mas eu lhes garanto: houve tempos em que escola pública, neste país, era sinônimo de bom ensino. Certos estabelecimentos maiores e mais renomados, então, roçavam a excelência. Ofereciam escolaridade completa, do jardim da infância até as portas da faculdade. Eram muito concorridos – não entrava qualquer um.

Escola turma 2Pais inscreviam rebentos na lista de espera. E armavam-se de paciência, que a fila era longa. Muitos acabavam desistindo. Atalhos havia, mas eram reservados aos que dispunham de alguma recomendação. Na época, dizíamos pistolão ou cartucho, mas funcionava exatamente como hoje. Afinal, quem tem padrinho não costuma morrer pagão.

Padrinho, eu não tinha. Mas tinha mãe tenaz e perseverante, que fazia questão de que os filhos fossem escolarizados numa determinada escola pública, considerada a melhor da cidade. Os muitos filhos, as raras vagas e a falta de pistolão tornavam o objetivo quase inalcançável. Que fazer?

Bolo 1Nem só de canhões é feita a guerra. Com doçura, atraem-se mais moscas do que com vinagre. A cada vez que um filho chegava à idade de escolarização, minha mãe, exímia fazedora de doces, assumia o encargo de pelejar pela vaga. Não deixava passar um mês sem fazer uma visitinha de cortesia ao doutor Jardim, diretor da escola.

Não era costume marcar hora para conversar com o doutor. À tarde, ele recebia um por um, na ordem de chegada. Na sala de espera, cadeiras de madeira dispostas contra a parede desenhavam um quadrilátero apinhado de gente que se escrutava discretamente. Fazia muito calor naquelas tardes abafadas dos anos cinquenta. E minha mãe ali, paciente e firme. No colo, aquele volume embrulhado com papel pardo, que ainda não se usavam essas embalagens modernas.

Escola turma 1Quando chegava nossa vez, lá íamos, ela carregando o bolo do doutor Jardim, eu atrás. Se ele apreciava, não sei. Fato é que, educadamente, sempre agradecia e mandava sentar. Minha mãe renovava o pedido de uma vagazinha pra um dos filhos. O velho senhor, muito polido, respondia que, naquele momento, não era possível, que estava tudo lotado. Minha mãe agradecia, mas não desistia. Mês seguinte, lá estava ela de novo, embrulho no colo. Tanto fez, que venceu pela canseira. Um a um, conseguiu matricular toda a penca de filhos.

Em termos crus e formais, não há por onde escapar. A conduta que visa à obtenção de favor mediante oferecimento de vantagem material tem nome feio: é suborno. Para usar termo em voga, é pior: corrupção. Mas qual é a diferença entre bolos oferecidos a diretor de escola e boladas recebidas por figurões da República?

Bolo 2Pra começo de conversa, a diferença de escala é brutal. Com dez merréis se faz um bolo. Propina que se preze, nestes tempos estranhos, se eleva a milhões. Com menos que isso, não se compra nem vereador de vilarejo. No andar de cima, ninguém se verga por migalhas. A inflação que corroeu a moeda nacional estas últimas décadas repercutiu com estrondo no balcão de propinas: por lá, o inchaço foi estratosférico.

Mas a diferença mais chocante é outra. Os bolos com que minha mãe conquistou a benevolência do doutor Jardim não eram feitos com recursos do erário. Farinha, leite e ovos eram comprados com cruzeiros subtraídos do magro orçamento familiar. Não dávamos esmola com chapéu alheio.

Livro 2Já o mesmo não se poderá dizer da prática medonha cujos desdobramentos escabrosos, há mais de ano, fixaram residência nas manchetes do país. Seu nome fica ao gosto do freguês, que a língua é rica. Pode-se chamá-la de propina, gorjeta, molhadura, suborno, jabaculê, lambidela. Ou até de pixuleco, como ensina a novilíngua. Seja qual for o apelido que se lhe dê, a característica principal permanece: é crime de lesa-população, aquele tipo de «malfeito» traiçoeiro que pune, indistintamente, todos os 200 milhões de brasileiros.

Quando empreiteiros mimoseiam figurões com somas polpudas, não pense o distinto leitor que a fortuna terá saído do patrimônio do corruptor. Ele só faz adiantar o numerário. Ao fim e ao cabo, a conta será sempre repassada a nós, povo brasileiro, eternos palhaços de uma pantomima sem graça e sem glória. No frigir dos ovos, os logrados somos nós mesmo. Sempre.

A conduta dos atuais medalhões está a anos-luz dos quindins de antigamente. Também, pudera: faz mais de meio século que os bolos de minha mãe rendiam vaga na escola. O mundo mudou, e a página está virada. De qualquer maneira, os protagonistas já repousam na paz do Senhor e os fatos estão prescritos.

Árvore sem raiz

José Horta Manzano

Quanto mais profunda for a raiz, mais sólida e mais resistente será a árvore. Raiz profunda leva tempo pra crescer. Pede muito cuidado, muita rega e, sobretudo, muito tempo.

Num sentido figurado, a imagem da raiz profunda pode ser transposta às relações humanas. Uma única relação sólida e antiga vale mais que um conjunto de relacionamentos superficiais, efêmeros e de circunstância.

Arvore 4No jogo político, é virtualmente impossível escapar a alianças efêmeras: a cada eleição, fazem-se acertos de circunstância destinados a durar pouco tempo. A regra de ouro, a seguir escrupulosamente, é não se exceder. Nenhum excesso é benéfico. Todo exagero, mais dia menos dia, acaba cobrando a conta.

Ao assumir o posto máximo do Executivo, no já longínquo ano de 2003, nosso guia não tinha experiência administrativa. Um pouco por vaidade, um pouco por ambição, um pouco por mau aconselhamento, deixou-se tentar pelo excesso. Exagerou ao tecer a teia de alianças políticas. Deu prioridade ao número de “amigos” e de “aliados”. Teve a impressão de tricotar, assim, rede de proteção mais eficaz.

Chamada do Estadão, 6 nov° 2015

Chamada do Estadão, 6 nov° 2015

Deu de ombros à regra da raiz profunda, expediente que a sábia natureza já inventou há milhões de anos. Preferiu espalhar um emaranhado de radículas superficiais, desconexas, pouco profundas. A aparência era de solidez. No entanto…

O resultado não podia ser outro. Enquanto durou o bom tempo, a teia sustentou e nutriu a árvore. A mudança radical nas condições ‘atmosféricas’ escancarou a realidade: o labirinto de relações era superficial e carecia de coesão. Partidas e desconectadas, as raizinhas já não garantem sustentação à árvore.

O demiurgo, que muitos incensavam até pouco tempo atrás, periga vir abaixo por excesso de vento e escassez de apoio. E pensar que é justamente ele quem havia dito um dia que, quando deixasse a presidência, ia demonstrar que o mensalão nunca tinha existido e que o respectivo julgamento não passava de uma farsa. Houve quem acreditasse.

Chamada da Folha de São Paulo, 6 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 6 nov° 2015

Aos poucos, passo a passo, nosso guia é obrigado a recuar. Já não bravateia sobre o mensalão. Muito menos sobre o petrolão. Concluiu pacto fugaz para tentar tirar seus rebentos de situação embaraçosa. Fez mais: ao declarar que não teme a prisão, admitiu implicitamente a possibilidade de passar uma temporada atrás das grades.

Está aí mais uma vez comprovado ensinamento mais antigo que a bíblia. Quem tem o poder e o dinheiro costuma atrair legiões de “amigos” e de “aliados”. Depois de apeado do poder, babau!

O preceito é velho como o mundo, mas cada um tem de aprender por si mesmo.

Quem paga?

José Horta Manzano

«Governo terá que pagar 57 bilhões por pedaladas fiscais.»

Bicicleta 9Foi assim que a Folha de São Paulo deu a notícia. Como sabemos todos, «pedalada» é eufemismo inventado sabe-se lá por quem para evitar palavra que defina, de fato, o que aconteceu. Trapaça, pilantragem, embuste, vigarice, tramoia, trambique dariam o recado mais bem dado. Cada boi tem nome próprio e dispensa alcunha.

Dito isso, garanto-lhes que não é nesses termos que a informação apareceria em países nos quais a população é mais consciente. Quando se menciona «o governo», a grande massa dos brasileiros fica com a impressão de que esse tal de «governo» – pai de nós todos – vai bondosamente enfiar a mão no bolso e tirar de lá 57 bilhões pra resgatar seus pecados.

No Brasil, fica por isso mesmo. Lida a notícia, vira-se a página e passa-se a outro assunto. Em outras plagas, não seria tão simples. Poucos são, entre nossos conterrâneos, os que se dão conta de que a conta será paga por todos.

Chamada da Folha de São Paulo, 4 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 4 nov° 2015

O governo, ao fazer mal seu trabalho, meteu o Estado brasileiro em maus lençóis. O prejuízo é nosso, de todos os brasileiros, do primeiro ao último. Caberá a cada um de nós contribuir para reparar o mal, para tapar o buraco cavado pela vigarice do Planalto.

Uns sentirão no bolso, outros sofrerão na fila do SUS. Há quem receberá formação escolar ainda mais precária que de costume. Serviços públicos funcionarão de forma ainda mais primitiva. O policiamento enfraquecido aumentará a insegurança de todos os cidadãos. Estradas ganharão mais buracos. A carestia vai se agravar. Todos pagarão.

Distraída, a grande imprensa ainda não se deu conta da força das palavras e do impacto das frases. Em vez de anunciar que «o governo» pagará bilhões, melhor seria afirmar:

«Brasileiros pagarão 57 bilhões por trambiques do governo.»

Legado desastroso

Estatísticas 2O PIB per capita em dólares deve cair de US$ 11.566 em 2014, para US$ 8.490 em 2015 e para US$ 7.900 em 2016.

A renda dos brasileiros estará cada vez mais distante do padrão de países desenvolvidos – mesmo aqueles que enfrentam brutais dificuldades, como a Grécia, cujo PIB per capita é de US$ 21.682.

Esse é, em resumo, um dos grandes legados do lulopetismo, a ser sentido por gerações, e que só poderá ser superado por meio de uma grande mobilização nacional em torno de um projeto de país radicalmente distinto das fantasias irresponsáveis criadas por Lula & companhia bela.

Trecho de editorial do Estadão, 4 nov° 2015.