O Brasil e a pobreza da Guiné

José Horta Manzano

Confesso que sinto dificuldade pra acompanhar a linha de ação de nossa diplomacia.

Levando em conta o princípio básico de que diplomacia é prerrogativa do Estado – a cujos interesses deve servir – a atuação bipolar de nosso governo de turno é desconcertante. Ressalve-se que ‘bipolar’ é expressão moderna e chique. Até alguns anos atrás, diríamos que o Itamaraty age ‘de veneta’, de forma lunática, em zigue-zague.

A África conta com três países que incluem Guiné no nome. Para fazer a diferença, é costume dizer: Guiné-Bissau (antiga colônia portuguesa), Guiné-Conakry (ex-colônia francesa) e Guiné Equatorial (minúsculo território cujo dono anterior era a Espanha). Esta última é aquela onde o Lula foi perguntar ao ditador (e dono) atual como é que se faz pra ficar 38 anos no poder. Não minto: foi nosso guia mesmo quem contou.

Guiné 1A Guiné-Conakry, com território equivalente ao do Estado de São Paulo, já conheceu turbulência no passado. Atualmente, vive período de calma relativa. Assim mesmo, falta um bocado pra atingir patamar aceitável de desenvolvimento.

Seu portal de informação – GuineeNews –publica entrevista com o embaixador do Brasil em Conakry. Num acesso de soberba, o diplomata declara que é «difficile de comprendre que vous soyez si pauvres» – difícil entender que vocês sejam tão pobres.

Ora, todos sabem que as riquezas naturais e o trabalho da África sub-saariana, antes confiscados pelo colonizador, estão sendo abocanhados por ditaduras sangrentas, ávidas e insaciáveis. O diplomata faz cara de paisagem para os espoliadores atuais. Prefere fixar-se nos antigos rapinantes. Faz questão de deixar claro que o Brasil não tenciona se apoderar de riquezas guineanas. «O Brasil não precisa tomar o que a Guiné tem» – declara ele. E continua: «Vocês têm ouro, nós temos ouro. Vocês têm bauxita, nós também.»

E não pára por aí. O embaixador faz questão de remexer a faca na ferida. Ele se pergunta como é possível que o Brasil tenha chegado lá enquanto a Guiné ainda engatinha. Ao final, emite o julgamento: segundo ele, os guineanos precisam “organizar-se para ver a luz no fim do túnel”.

Blabla 2Santo Deus, quanta arrogância! Não precisa ser especialista pra entender que o Brasil chafurda num mar de lama, desorganizado, bagunçado, rapinado, depredado, longe de ver a luz no fim do túnel.

O representante de um país que mal consegue manter em dia o pagamento de contas de manutenção de suas embaixadas não está em condições de dar lições a quem quer que seja. Fosse eu guineano, me sentiria incomodado.

Fica a impressão de que os quadros do Itamaraty andam fazendo pronunciamentos sem sentido nem utilidade, só pra bater cartão. Se há alguma intenção oculta por detrás disso tudo, não identifiquei. Só espero que não tenha nada a ver com financiamento de grandes obras pelo BNDES. Já basta.

Crise não chegou ao Planalto

Jorge Oliveira (*)

As viagens da Dilma para o exterior são infrutíferas, não trazem benefícios ao país. Servem para ela fugir da crise e gastar R$ 2 milhões por ano apenas com comida a bordo do avião presidencial, dinheiro do contribuinte que, como idiota, continua sustentando o luxo dela e bancando suas despesas em bons e sofisticados restaurantes lá fora.

Banquete 3O jornalista José Casado, do Globo, fez levantamento minucioso dos gastos da estrutura presidencial e chegou a números espantosos. Foram R$ 9,3 bilhões no ano passado para sustentar o entourage que gira em torno dela com alimentação, vestuário, viagens aéreas, servidores, jardinagem, deslocamentos internos e externos, carros, combustível, cartões corporativos, vigilância privada e órgãos à sua disposição.

(*) Jorge Oliveira é jornalista e assina coluna no Diário do Poder.

Falam de nós – 15

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Violência em foco
Assalto 1Ao dar a notícia do enésimo tiroteio ocorrido no Rio de Janeiro este ano, a RTBF – Radio Televisão Belga de expressão francesa – dá ênfase ao fato de estarmos a menos de um ano da abertura dos Jogos Olímpicos de verão. Que terão lugar, como todos sabem, na cidade de São Sebastião.

O artigo ressalta que nosso país, com média de 29 assassinatos anuais por 100 mil habitantes, é um dos mais violentos do mundo. Pela definição da ONU, taxa superior a 10 homicídios por 100 mil habitantes indica violência endêmica.

O Rio que se prepare. Durante estes meses que nos separam da abertura dos JOs, suas tripas estarão expostas à análise planetária.

Santana é nosso!
Rumores corriam na Argentina de que o ‘mago’ João Santana, marqueteiro titular do Partido dos Trabalhadores, estaria fazendo um bico na campanha de señor Scioli, candidato kirchnerista à presidência da república hermana.

O diário portenho La Nación traz a resposta firme e peremptória vinda do Brasil: «Nem João Santana nem ninguém de sua equipe estão participando da campanha de Daniel Scioli.»

O esclarecimento vem em boa hora. Señor Macri, candidado de oposição, tem boas chances de vencer o pleito. Marqueteiro nenhum deseja carregar no currículo uma eleição perdida.

2015-1103-01 La NacionNunca é tarde pra consertar
A veneranda BBC dá destaque ao pedido de destituição da presidente da República, apresentado por Hélio Bicudo. Como sabem todos, o doutor Bicudo é petista pentito. Pentito é termo italiano usado para designar todo aquele que, tendo feito parte de organização criminosa, se regenerou.

Desigualdade social
O diário Tages Anzeiger, um dos maiores jornais suíços, faz um balanço das perspectivas turísticas do país. Tendo em vista que o câmbio atual sobrevaloriza o franco suíço, uma temporada nas montanhas francesas ou austríacas sai bem mais em conta.

Nada se pode fazer contra a cotação da moeda, é verdade. Mais vale ir buscar categorias de turistas com poder aquisitivo suficiente para enfrentar um passeio pelas neves helvéticas.

Promotores turísticos espicham o olho para essa clientela afortunada. E onde é que vão buscar essas pérolas raras? Especialmente em dois improváveis países: na China e… no Brasil. Quem diria, hein!

Expo 1Brasil leiloado
Fim de semana passado, depois de seis meses, a Exposição Universal de Milão (Itália) fechou as portas. Pouco comentada no Brasil, a feira italiana atingiu o incrível patamar de 20 milhões de visitantes, uma cifra enorme. Cada país montou pavilhão, como é costume. O do Brasil foi um dos mais visitados, tendo recebido 5,3 milhões de pessoas.

O que mais chamava atenção no pavilhão brasileiro era uma rede suspensa sobre a qual o público podia caminhar. Não sei se a intenção dos organizadores terá sido transmitir a sensação de areia movediça e de insegurança que caracteriza nosso país. Será apenas coincidência.

Fato é que, terminada a exposição, os pavilhões foram a leilão. Orgulhoso, o jornal La Provincia di Lecco, da cidade homônima situada a 65km de Milão, informa que o pavilhão brasileiro foi arrebatado por uma empresa local especializada em montagem de eventos. O lance final foi de um milhão e oitocentos mil euros, bem abaixo do custo de construção.

Manif 10Cada qual como lhe convém
A emissora estatal venezuelana de tevê Telesur, também conhecida como «tevê do Chávez», dá em manchete, com visível alívio, a notícia de que o Exército Brasileiro descarta toda possibilidade de golpe de Estado contra dona Dilma.

A tevê destaca que os militares não têm intenção de se alevantar, em que pesem os continuados escândalos de corrupção.

Fiel a sua missão de guardiã do bolivarianismo – mas um tanto esquizofrênica –, a emissora inclui fotos e vídeos de manifestações em que alguns gatos pingados, vestidos de vermelho, protestam contra o ajuste fiscal decidido pelo próprio governo de dona Dilma. Vá entender…

Desculpe o transtorno. Estou em reforma.

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não dava mais para adiar uma reforma radical do meu edifício psíquico. O ar de decadência já havia tomado conta de tudo e deixado claro que não adiantaria reestilizar o ambiente. Era preciso derrubar todas as paredes e recomeçar do zero.

Conserto 2Bem que eu tentei continuar convivendo com as velhas estruturas que ainda estavam de pé dentro de mim, mas a verdade inescapável era que minha vida anímica tinha perdido muito de sua funcionalidade. Eu já tinha improvisado alguns remendos de caráter, redecorado ítens de personalidade, feito um puxadinho emocional para acomodar meu desconforto de lidar com tarefas rotineiras. Tinha construído mais um andar para servir de depósito para todos aqueles projetos que eu ia empilhando para quando chegasse o dia certo de realizar. Não adiantou.

Eram tantas divisórias que eu já não podia mais circular livremente. Havia também espaços emocionais que estavam vazios ou subutilizados. O espaço da família, por exemplo, que era gigantesco e imponente, foi se apequenando com o tempo e hoje as visitas são raras. O espaço dos amigos, antigamente o mais frequentado da casa, estava sempre cheio de risos, música e ruído de conversas. Aos poucos, as risadas foram perdendo colorido, a música tornou-se inaudível de tão baixa para não atrapalhar as conversas e estas foram sutilmente se transformando em troca de comentários ocasionais. Depois, os amigos foram rareando e o espaço acabou sendo convertido em balcão de recepção de mensagens eletrônicas, curiosas talvez, mas sem substância para alimentar a alma.

Limpeza 1A cozinha deixou de ser espaço de experimentação. Meus alimentos preferidos, os livros e os discos, foram sendo deixados de lado em função da dificuldade em mastigar e absorver os nutrientes de tantas novas informações. O cardápio repetitivo e a execução burocrática terminaram afugentando convivas em potencial e eu mesma fui ficando cada vez mais inapetente.

O quarto de despejo estava lotado até o teto de raivas impotentes, ressentimentos, mágoas e fantasias de grandeza que eu bordava no passado e nunca tive ocasião de usar. A área dos medos tinha se avolumado e invadido os cantinhos ao redor. Eram muitos: o medo da morte, da velhice, da solidão e, o maior deles, o medo da própria vida. Já não dava mais para abrir as janelas e arejar o ambiente. O odor nauseante de mofo espalhou-se por todo o meu ambiente anímico, trazendo irritação, mau humor e desesperança.

Foi só quando o atravancamento e a sensação de sufocamento atingiram o ponto máximo que a ideia de uma reforma libertadora começou a se delinear. O atulhamento era tão grande que eu inconscientemente havia optado por me encolher, prendendo o diafragma e tentando expandir o mínimo possível os pulmões para não detonar uma avalanche emocional. O medo do soterramento era mais forte do que meu desejo de abrir os braços, esticar o peito, endireitar a postura e reivindicar meu direito a uma cota satisfatória de oxigênio.

Loft 1Vislumbrei o projeto arquitetônico da reforma no exato instante em que o esforço para respirar provocou o destravamento do diafragma. A energia vital recomeçou a circular e meu corpo psíquico começou a vibrar novamente. Resolvi transformar o apartamento numa espécie de loft onde a ausência de barreiras permitiria que tudo pudesse se comunicar com tudo: o espaço dos amigos integrado ao espaço dos ideais de vida, o espaço da vida diretamente conectado ao espaço da arte. A nova cozinha, integrada à sala, vai se transformar na alma da casa. Vou testar novos ingredientes pessoais e uma receita nova de relação a cada dia.

Conserto 1Para restabelecer a funcionalidade do ambiente, todos os medos terão de ser desalojados. Vou doar todas as fantasias irrealizadas para uma instituição de caridade que atenda crianças e jovens. Eles saberão o que fazer com elas e, se julgarem que alguma não tem mais serventia, poderão se desfazer dela com o desapego que eu não pude ter.

Também não haverá mais divisão entre espaços de serviço e espaços sociais. Todos que frequentarem uns estarão autorizados a usufruir dos outros. A inexistência de regras de coexistência e convivência certamente vai devolver todo o dinamismo que me fazia tanta falta. Estou apostando alto na transmutação de todo conhecimento em sabedoria.

Janela 1Do passado, só mantive um estratagema: continuo não querendo que a tecnologia ocupe o lugar do humano no meu psiquismo. Nada de aplicativos de celular para controlar as funções da casa e nada químico para incrementar a sensação de potência orgânica. A natureza vegetal e a natureza humana continuarão sendo meus mais fortes aliados.

Você está convidado a conhecer meus novos recintos anímicos. Vamos organizar uma comilança para celebrar os novos tempos. Traga consigo suas esperanças, sua leveza de alma e sua disposição para o diálogo. As portas estarão sempre abertas para pessoas como você.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Morte digital

José Horta Manzano

Estes dias de Finados são propícios não apenas pra prestar homenagem aos que já se foram, mas também para refletir sobre o que resta de cada um quando deixa de ser inquilino deste vale de lágrimas.

Até não faz muito tempo, o caminho estava traçado: certidão de óbito, eventual anúncio no jornal, funeral, cemitério, partilha de bens e pronto. Requiescat in pace – que repouse em paz.

Anúncio 3Durante alguns anos, o desaparecido ainda costumava ser recordado, justamente por estes tempos de Finados, um pouco por obrigação. Passadas algumas décadas, nem mais isso. Era o esquecimento mesmo. Compreende-se: poucos conheceram os bisavós e quase ninguém chegou a ver seu trisavô.

Hoje em dia, a coisa está-se tornando mais complexa. Anúncio fúnebre e enterro já não bastam. A popularização da internet abriu caminho para uma eternidade aparente. Quando, depois de busca no google, se cai numa página qualquer, é impossível saber, de bate-pronto, se o autor ainda está entre nós ou se repousa sete palmos abaixo do solo.

Redes sociais, por recentes, não previram protocolo para o desaparecimento do titular de cada conta. Jovens adultos, os conceptores desses meios de comunicação não se deram conta de que todos passarão um dia.

Pouco a pouco, a realidade deixa o campo da filosofia e começa a mostrar-se como ela é. Contas-fantasma sobrevivem sem dono. Serviços automáticos alertam «amigos» e integrantes de «círculos» sobre aniversário de gente que já faleceu. Há casos folclóricos e outros bem mais sérios.

Portal do cemitério de Paraibuna - by Edna Rodrigues

Portal do cemitério de Paraibuna – by Edna Rodrigues

A cada dia, criam-se pequenos comércios virtuais, daqueles que carecem de localização física. Em caso de morte repentina do dono, como é que ficam os continuadores? A esposa, por exemplo, não terá sequer direito a recuperar a senha guardada pelo falecido no silêncio da tumba. Longa batalha judicial – com ramificações internacionais – estão à sua espera.

Computador 15Na França, a Secretaria de Estado para Assuntos Digitais está seriamente pensando em elaborar projeto para preencher essa lacuna. Trata-se de construir arcabouço legal para regulamentar a «morte digital». Contas Facebook, Youtube, Gmail & assemelhadas, que tenham sido abertas pela pessoa falecida – que fim as levará? O direito de acesso a elas deve fazer parte do inventário como um relógio ou um imóvel? Caso se trate de atividade comercial, a quem deve ser permitido acesso imediato para tratar das operações do dia a dia?

São essas as considerações que, queiramos ou não, têm de ser encaradas. Contas-fantasma não podem permanecer como os milhares de destroços de satélites artificiais inativos que, como entulho perdido, giram em torno do planeta e lá continuarão a vagar in æternum.

Top-top na berlinda

Cláudio Humberto (*)

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Os deputados Alexandre Baldy (GO) e Miguel Haddad (SP) entram na CPI do BNDES com requerimentos de convocação de Marco Aurélio Garcia, aspone para assuntos internacionais aleatórios de Lula e agora de Dilma.

O conhecido “Top-top” é suspeito de tráfico de influência na concessão de crédito do banco de fomento do governo federal para o financiamento de ditaduras africanas. A suspeita é de que o BNDES tenha financiado obras em ditaduras, durante os governos do PT, justamente porque nesses países não há órgãos de controle.

Países como Cuba e ditaduras africanas não têm Ministério Público, tampouco tribunais de contas nem auditores fiscalizando obras.

O dinheiro não era fiscalizado nas ditaduras financiadas nem no Brasil: o BNDES negava acesso aos contratos até mesmo ao Tribunal de Contas da União.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Jus sperneandis

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 31 out° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 31 out° 2015

O distinto leitor já ouviu falar de “jus sperneandis”? Pois está aí um exemplo acabado.

João que chora, João que ri

José Horta Manzano

Fronteira 2O real – a moeda brasileira – vai mal, disso sabemos todos. Faz um ano que vem sofrendo acentuada desvalorização, fato que traz severas consequências. Enquanto angustia uns, a degringolada da moeda alegra outros.

Importadores e consumidores de produtos importados se descabelam. Pagam hoje, pela mesma mercadoria, 50% a mais do que um ano atrás.

Fronteira 4No Brasil, ainda que nem sempre percebamos, somos um bocado dependentes de artigos importados. Produtos agrícolas escapam a esse raciocínio, mas raros são os produtos industriais que se contentam de componentes unicamente nacionais. Em menor ou maior medida, integram insumos ou peças importadas. De um ano pra cá, com a queda de nossa moeda, tudo o que vem de fora ficou 50% mais caro, o que realimenta a inflação.

Os que vinham economizando, de olho naquela sonhada escapada ao exterior, murcharam. Convertidas em euros ou em dólares, suas economias minguaram. Do outro lado do espectro, boa parte dos três milhões de compatriotas estabelecidos fora da pátria remetem, todo mês, uns cobrinhos para ajudar a família. Tanto expatriados quanto familiares estão felizes: os mesmos dólares rendem muito mais reais.

Preços 1Em nova prova de que o crime compensa, mensaleiros e petroleiros – falo dos espoliadores que sugaram o fruto do trabalho de todos nós – estarão satisfeitos. Tirando a minoria que está na cadeia, os outros, que podem ser centenas ou até milhares, estão hoje mais ricos ainda. Convertidas em reais, fortunas bem guardadas no exterior cresceram.

Fronteira 3Mais prosaicamente, o comércio fronteiriço do sul do Brasil anda animado. A desvalorização do real diante da moeda de países hermanos esquentou o turismo de compras. Trata-se de movimento pendular, ora são os de cá que compram lá, ora o fluxo se inverte. Atualmente, são paraguaios, uruguaios e argentinos que levam vantagem fazendo compras no Brasil.

Segundo informa o jornal argentino Ámbito Financiero, vale a pena atravessar a fronteira para comprar desde laranja e cerveja até celular e ar condicionado. Contentes estão os que vivem pertinho do Brasil. Podem fazer as compras diárias de supermercado – com vantagem não desprezível – em nosso país.

É o Mercosul provando que é útil e eficiente. Exatamente como a «Pátria Educadora», poderoso instrumento que veio redimir nossa proverbial falta de cultura.

Pais e filhos

Ricardo Noblat (*)

Furioso 1Sinal dos tempos!

A Polícia Federal e a Receita Federal investigam a empresa de um dos filhos de Lula, que por causa disso está possesso.

A Lava a Jato prendeu e investiga Marcelo Odebrecht e os negócios da empreiteira dele. O pai, Emídio, ameaça derrubar a República se o filho não for solto logo.

Também é alvo da Lava a Jato o advogado filho do presidente do Tribunal de Contas da União que, se está furioso, ainda não passou recibo.

Sem falar dos filhos de Gilberto Carvalho – que foi chefe de gabinete de Lula e ministro de Dilma. Os filhos também são alvo da Operação Zelotes, da Polícia Federal. Gilberto está furioso e se diz chocado.

(*) Ricardo Noblat, jornalista, em seu blogue alojado no jornal O Globo, 29 out° 2015.

Insegurança de raiz

José Horta Manzano

Você sabia?

Insegurança é componente importante do espírito brasílico.

A desonestidade e a criminalidade geram insegurança e transformam o honesto cidadão em refém da violência de criminosos.

Caravela 2As artes da política transmitem tremenda insegurança – fica a impressão de que todos os do andar de cima, embora podres, sejam intocáveis.

A insegurança jurídica é proverbial. Vai-se dormir à noite sem ter certeza de que, no dia seguinte, leis e regulamentos ainda serão os mesmos.

Essas incertezas não vêm de hoje. Marcam a história do país desde o dia em que foi lavrada sua «certidão de nascimento». Falo da carta de Pero Vaz de Caminha, bordada com arte e carinho pelo escriba da esquadra de Cabral.

A missiva é cristalina ao datar a descoberta – ou o achamento, como prefiram – da terra tropical. Diz ela: «nos 21 dias de abril (…) topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho». No dia seguinte, foi avistado um «monte mui alto e redondo», além de serras e de terra chã com grandes arvoredos. Pronto o Brasil estava achado. E era 22 de abril.

Acontece que essa carta, devidamente guardada nalgum escaninho da burocracia lusa, não foi consultada durante 300 anos e acabou esquecida. Só viria a ressurgir no século XIX. Enquanto isso, o Brasil já se havia declarado independente da metrópole. Na complexa organização do novo país, foi buscada uma data de fundação. Na falta de informação segura, foi privilegiado o dia 3 de maio. E por quê?

Descobrimento 1A insegurança gerada pela ausência de provas documentais fez supor que o primeiro nome dado à terra – Vera Cruz – viesse do dia que a hagiologia católica consagra à celebração da verdadeira cruz, justamente o 3 de maio. (Entre parênteses: com o nome de Cruz de Mayo, esse dia ainda é festejado em alguns países da América Hispânica.)

Carta de Pero Vaz sobre o achamento

Carta de Pero Vaz sobre o achamento

Ao fixar os feriados oficiais, a República fundada em 1889 manteve a comemoração da chegada dos primeiros europeus em 3 de maio. Por essa altura, a carta de Pero Vaz já havia reaparecido – portanto, já se sabia que a verdadeira data não era aquela. Assim mesmo, por comodidade, deu-se preferência a manter a celebração no dia de Vera Cruz. Como o dia de Tiradentes, 21 de abril, já era dia de festa, não convinha impor dois feriados seguidos.

Não foi senão durante a ditadura de Getúlio Vargas que a História se rendeu oficialmente à evidência: estava-se comemorando no dia errado. De uma pedrada, derrubaram dois coelhos: o descobrimento passou a ser celebrado dia 22 de abril que, ao mesmo tempo, deixou de ser dia feriado.

Eu não seiMeus pais me contavam que o Brasil tinha sido descoberto em 3 de maio e eu não entendia por que, na escola, me ensinavam data diferente. A insegurança sobre as datas só se desfez muitos anos depois, quando eu descobri que eles me ensinavam tal como haviam aprendido na escola.

O distinto leitor há de convir que, numa terra que já começou com provas documentais desaparecendo de circulação, não espanta que a insegurança continue sobressaindo. Fazer sumir provas tornou-se esporte nacional. Decididamente, vivemos na terra do «eu não sabia de nada».

No entiendo

José Horta Manzano

Você sabia?

Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos do pão branco.
Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho.
Criamos os animais, mas não comemos a carne (…) (*)

Imigração 6Assim, em poucas e comoventes palavras, um imigrante italiano respondeu a um ministro de seu país, que ralhava contra conterrâneos que abandonavam a terra natal em busca de dias melhores no estrangeiro.

No século decorrido entre 1850 e 1950, a Itália viu partir 30 milhões de cidadãos em busca de dias melhores. A maior parte deles veio dar com os costados em terras americanas – Brasil, Argentina e EUA em especial. A Itália é, com folga, o país europeu que maior contingente de emigrantes despachou.

Ninguém jamais saberá o número exato dos que que lá saíram. Mais difícil ainda será afirmar, com precisão, o destino de cada um. Que dizer, então, da contagem dos descendentes, os «oriundi»? Na falta de dados exatos, restam as estimativas.

Os Missionários de São Carlos – os escalabrinianos – são uma congregação religiosa italiana que se dedica, entre outras missões, a assistir os italianos dispersos pelo planeta. São os mais bem aparelhados para fornecer estimativa sobre o número de originários da península.

Segundo a congregação, o Brasil abriga a mais numerosa comunidade de «oriundi», calculada em mais de 27 milhões de pessoas. Em seguida, vêm a Argentina (20 milhões) e os EUA (17 milhões). Os demais países seguem bem atrás – o quarto colocado, a França, não abriga mais que 4 milhões de descendentes.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Estatística não é o ponto forte do Brasil. Assim mesmo, costuma-se dizer que, nos anos 1920, metade dos habitantes da cidade de São Paulo era estrangeira. Desse contingente, metade eram italianos. Se não for verdade, não estamos longe.

Uma curiosidade: a população de nossa hermana República Argentina é constituída de 47% de «oriundi», um de cada dois habitantes do território. Sem sombra de dúvida, é o mais italiano dos países. Além da Itália, naturalmente.

Imigração 7Ainda hoje, sobrevivem por volta de duzentos periódicos editados em língua italiana fora da Itália. Nestes tempos de internet, praticamente todos abandonaram a edição em papel para dedicar-se unicamente à versão digital. A maioria espaçou a tiragem: de diária, passou a semanal; de semanal, passou a mensal. E assim por diante.

Na Venezuela, que conta com um milhão de descendentes, algumas publicações resistem. Entre elas, La Voce (= A Voz), diário fundado em 1950, hoje disponível unicamente online. Resiste em todos os sentidos.

Corajoso, o quotidiano dá notícia da incrível erosão da popularidade de dona Dilma. Talvez, por ser dirigido a público específico, seja menos visado pela truculência dos mandatários. Ou, mais provável, os censores – ignorantes por natureza – não estão em condições de entender nenhuma língua estrangeira. Melhor assim.

Interligne 18c

(*) Citação afixada no Museu da Imigração, em São Paulo. O museu nasceu em 1887 como Hospedaria de Imigrantes. Para ali eram encaminhados os recém-chegados, que desembarcavam em Santos sem lenço e sem dinheiro, mas cheios de esperança e prontos pra arregaçar as mangas.

Futuro efervescente

José Horta Manzano

O jornal francês Le Figaro publicou relato sobre a viticultura no Brasil – o cultivo da uva para produção de vinho. Em matéria vinícola, a opinião de especialistas franceses costuma ser respeitada.

Vinho 1Apresentam o Brasil como quinto produtor de vinho do hemisfério sul, classificação aparentemente importante. Mas… pensando bem, os países do hemisfério não são numerosos. Os primeiros produtores, todos conhecem: Chile, Argentina, África do Sul e Austrália. Se o Brasil não fosse o quinto, quem poderia sê-lo? Zimbábue, Madagascar, Bolívia, Zâmbia?

As primeiras videiras foram trazidas já por Martim Afonso de Souza, o português que, em 1532, estabeleceu o primeiro povoado estável reconhecido por nossa história oficial. Falo daquela aldeia que evoluiu até tornar-se a cidade litorânea de São Vicente (SP), hoje conurbada com Santos.

Vinho 2No Brasil, os primeiros plantadores de uva não eram vinhateiros. A fruta era consumida ao natural. Foi preciso esperar um século até que padres jesuítas especialistas em viticultura dessem início ao fabrico de vinho em terras portuguesas da América. O primeiro objetivo foi garantir vinho de missa.

Até vinte e cinco anos atrás, vinho era bebida pouco conhecida no Brasil e seu consumo, limitado. O produto nacional era de qualidade rudimentar enquanto o importado custava os olhos da cara.

Vinho 3A liberação da importação, a partir dos anos 90, propiciou rápido aumento na oferta de vinho estrangeiro. Mais abordável, a bebida tornou-se mais frequente à mesa. Viticultores brasileiros aproveitaram a deixa para melhorar a qualidade de seu produto. Desenhou-se um círculo virtuoso: vinhos estrangeiros mais accessíveis incentivaram o fabrico de nacionais de qualidade superior. E vice-versa.

Depois de provar os espumantes do Rio Grande do Sul e de analisar a evolução vitivinícola nacional, os articulistas do Figaro chegam à conclusão de que os vinhos efervescentes brasileiros têm futuro brilhante. Temos boa reserva de gás.

Moi non plus

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 28 out° 2015

Chamada do Estadão, 28 out° 2015

Quem foi que disse que nossa presidente não tem senso de humor?

O lado surpreendentemente cômico da situação faz lembrar a canção composta em 1967 pelo francês Serge Gainsbourg e cantada por ele mesmo em dueto com Brigitte Bardot.

O título era “Je t’aime. Moi non plus” – “Eu te amo. Eu também não”.

Ocaso cruel

José Horta Manzano

Lula boné 1Tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Aquele que detecta o bom momento pra se lançar e, mais tarde, percebe que é hora de se afastar, dá mostra de inteligência, de contacto com a realidade e de simples bom senso.

Há quem carregue, embutido e de instinto, esse «timing», que os dicionários traduzem como sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo. Quem tem essa qualidade, tem. Quem não tem fica devendo.

Nosso guia, a quem muitos emprestam inteligência fora do comum – será? – não foi brindado pela natureza com esse dom. Seu decantado senso de oportunidade (ou de oportunismo, se preferirem) foi incapaz de detectar que, ao final do segundo mandato na presidência da República, tinha atingido o auge. Não se deu conta de que aquele era o momento ideal para recolher-se e sair de cena.

Chamada do Estadão, 25 nov° 2015

Chamada do Estadão, 25 nov° 2015

Rico, prestigiado, já beirando os setenta anos, deveria ter-se retirado. Teria conservado, intacto e para sempre, o fascínio que um dia havia despertado em meio Brasil. Uma palestra aqui, outra ali, talvez um livro de memórias ditado a um escriba de aluguel – essas teriam sido atividades condizentes com a aura que o circundava. É o que se espera de um ex-presidente.

Lula caricatura 2No entanto, um envaidecido Luiz Inacio acalentou a ilusão de onipotência e foi incapaz de se dar conta de que tudo o que sobe acaba caindo um dia. Tendo perdido o contacto com a realidade, pagou pra ver. E está vendo.

Para quem um dia andou de carruagem com a rainha da Inglaterra, há de ser terrível ter de viver recluso, longe do povo, fugindo de lugares públicos onde, certo como dois e dois são quatro, será vaiado. Restou-lhe enfiar um boné vermelho no cocuruto e deitar falação para plateias amestradas.

A confiar na mais recente pesquisa de opinião, nosso guia não tem esperança de voltar ao cargo maior. Se 55% não votariam nele de jeito nenhum, la messe est dite, como se diz na França: a missa acabou. Miserere nobis.