Enrolação de Vorcaro

by Claudio de Oliveira (1963-),
cartunista potiguar, via Folha de S.Paulo

José Horta Manzano

Ao ser encarcerado, três meses atrás, Daniel Vorcaro logo se deu conta dos longos anos que ia ter de passar batendo ponto entre a cela e o refeitório da Papuda ou de outro estabelecimento similar. Pra quem costumava frequentar o jet set, a percorrer o circuito Nova York, Londres, Paris, badalado por altos dignitários da nação, a perspectiva de vestir uniforme e fazer fila pra ir ao rango e comer de bandejão deve ser assustadora. Foi aí que seus bem-pagos advogados lhe sugeriram requerer o benefício de uma delação premiada, como a lei lhe faculta.

Como bom mineiro, o banqueiro que virou escroque sabe que mingau quente se come pelas bordas. Não sei se de iniciativa própria ou por sugestão de seus causídicos, imaginou que o melhor meio de dar conta desse mingau não era enfiar o colherão no meio, mas atacá-lo pelas beiradas, aos pouquinhos. Depois de poucas semanas de preparação, apresentou sua proposta de delação. A PF leu, releu, e devolveu. Disse que aquilo não servia, visto ser um bla-bla-blá estéril que não revelava nada que já não fosse sabido.

Não sei o que mais a Polícia Federal disse ao estelionatário, mas acredito que não foram suficientemente claros. O que tinha de ser informado naquele momento era que delação não é um relato seletivo de fatos colhidos aqui e ali, acusando fulano mas poupando sicrano, apontando beltrano mas passando ao largo de mengano. Delação tem de ser confissão total, que conta tudo, à qual nada mais vai precisar ser acrescentado. Os da PF devem ter omitido de pôr o encarcerado a par dessa regra básica.

Passado um mês, lá veio ele com mais uma tentativa de delação (que alguns chamaram ‘engabelação’). Depois de examinar, era inevitável que a PF lhe devolvesse a patacoada. De novo, o esperto comedor de mingau tinha tentado dar uma de joão sem braço. Em sua “confissão”, listou informações de que a polícia já dispunha. Todos entenderam que não é distração, é enrolação.


No momento em que escrevo, quinta-feira 11, a expectativa é que, até o fim desta semana, a PF e a PGR rejeitem oficialmente a segunda proposta de delação apresentada pelos advogados de Vorcaro.


Espera-se que, desta vez, a PF diga ao suspeito exatamente o que está esperando. Que sejam palavras claras, daquelas que não deixam margem a dúvidas e evitam confusões futuras. Que sejam claros:

“Queremos que o senhor esclareça, com detalhes e exatidão, suas relações com todos os personagens que orbitaram em volta do senhor e dos que receberam propinas e outros presentinhos, incluindo tal juiz, tal parlamentar, tal prefeito.”

Se daqui a algum tempo, quando ele voltar com sua terceira “tentativa” e ficar claro que continua escondendo nomes e fatos, que se lhe informe: “Suas chances acabaram. Não adianta continuar tentando. Volte a sua cela e aguarde o processo.”.

A cunha

José Horta Manzano

De tão acostumados que estamos a ouvi-los, nem sempre nos damos conta de que grande quantidade de sobrenomes têm significado. São palavras que, antes de se terem tornado nome de família, designavam objetos ou outras coisas da vida real. É o caso de Azeredo, Ramos, Andrade, Almeida, Oliveira e tantos outros. Cunha entra nessa lista.

cunha-1Para abater tronco de árvore ou para cortá-los em pedaços menores, os antigos usavam o machado. Para espedaçar porções menores de madeira, usava-se uma cunha, que os latinos chamavam cŭneus. A palavra se espalhou pelas línguas romances. Cùneo ou cònio em italiano, coin em francês, cuny em catalão, cuña em castelhano. Todas as versões se referem ao mesmo objeto.

A cunha é, por definição, um objeto estranho que se insere num meio relativamente uniforme. Não foi concebido para unir, mas para desirmanar. Há casos cômicos de gente cujo nome destoa. É o que ocorre com a morena chamada Clara, com o medroso chamado Valente, com o cabeludo de nome Calvo, com o ateu chamado Cristiano. Está parecendo que é também o caso de senhor Cunha, aquele antigo parlamentar que foi ontem convidado a passar uma temporada em Curitiba.

Num percurso assaz errático, esse senhor alternou momentos em que atraiu a simpatia de paramentares (e do Brasil inteiro) com tempos em que fez jus a seu sobrenome: tornou-se verdadeira ameaça de dividir seus pares entre «os de lá» e «os de cá».

cunha-2Deixo a análise política para especialistas, que os há de montão. Para encerrar, só gostaria de deixar aqui meu palpite. Tenho a impressão de que, no caso do ex-parlamentar preso, não haverá delação premiada. Não que senhor Cunha não a proponha ‒ os juízes é que perigam não estar interessados. Explico.

Em primeiro lugar, eventual delação envolveria um mundaréu de gente tão grande que poderia ser contraproducente aceitá-la. Quando dúzias e dúzias de parlamentares estão sob suspeita, o impacto se dissipa e socializa a culpa. Não interessa a ninguém prolongar ad aeternum a purga engendrada pela Lava a Jato.

Em segundo lugar, delação premiada costuma resultar em diminuição drástica da pena. No presente caso, dado que o parlamentar caído nunca hesitou em zombar da Justiça nem em desafiá-la, a imposição de pena longuíssima seria um preventivo, um meio de evitar que aventureiros pudessem ter a (má) ideia de retomar a “obra” iniciada pelo ex-deputado.

É culpa do mensageiro

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, o ofício de mensageiro era pra lá de perigoso. Depois de correr léguas carregando notícia que pudesse desagradar ao destinatário, corria o risco de ser trucidado.

Chamada da Revista Ceará

Chamada da Revista Ceará

Até alguns séculos atrás, embaixador também podia ser profissão de alto risco. Pelas mesmas razões. O emissário, tomado como personalização do soberano que representava, podia sofrer a ira do interlocutor. E pagar pelo que não tinha cometido.

Chamada de InfoMoney

Chamada de InfoMoney

Felizmente, essas práticas desapareceram no mundo moderno. Tirando humilhações públicas, como a que dona Dilma infligiu ao embaixador da Indonésia no começo deste ano(*), portadores de notícias não costumam mais ser alvo do furor dos desagradados. Em princípio. Por que ‘em princípio’?

Chamada de Último Segundo

Chamada de Último Segundo

Porque nem sempre funciona assim. Nossos poderosos, quando apanhados de calças curtas, dão-se a comportamento pouco digno. Em vez de se defender da acusação e de procurar provar a própria boa-fé, procuram metralhar… o mensageiro.

Chamada do Jornal do Brasil

Chamada do Jornal do Brasil

Cometem, assim, na prática, confissão pública. Quem não tem culpa faz o que pode para se defender e provar inocência. Desvela segredos bancários e telefônicos. Apresenta provas documentais e testemunhos idôneos.

Chamada de Zero Hora

Chamada de Zero Hora

No Brasil destes tempos estranhos, temos regredido muitos séculos. Poderosos não admitem ter cometido crimes ou deslizes e não suportam ser denunciados. A estratégia de defesa é sempre a mesma: depreciar o acusador e alegar que ele está mentindo.

Chamada do Estadão

Chamada do Estadão

Quando não funciona, exige-se que o testemunho seja invalidado. Se ainda esse expediente não funcionar, resta minimizar o crime e transformá-lo em simples «malfeito» – coisa que todo o mundo faz, não é mesmo?

Por ingenuidade ou por comodidade, o grande público acaba acreditando. E vamos em frente, que atrás vem gente.

Interligne 18h

(*) Consultar meu artigo A diplomacia do coice.