Perguntar não ofende ‒ 1

José Horta Manzano

Algemas 1Agora há pouco saiu a notícia de que policiais do Senado foram presos por tentativa de entravar investigações da Lava a Jato.

A menos que se admita que esses bravos funcionários tenham agido por conta própria, por desprendimento ou por pura devoção profissional, é fácil imaginar que a ação tenha sido encomendada por gente do andar de cima.

Se assim for ‒ e há grande possibilidade de que seja ‒ os policiais terão sido simples executantes de ordem superior.

Fica no ar a pergunta:
Por que prenderam os operadores e deixaram os mandantes livres, leves e soltos?

Pergunta complementar:
Para quando está prevista a prisão do porteiro, do motorista e da copeira?

Questão de gênero

José Horta Manzano

A Petrobrás, a General Motors, a Honda, a Amazon, a L’Oréal, a Gazprom, a Unilever, a Boeing, a Vale, a Samsung, a Nestlé, a Bayer.

Em nossa língua, como pode o distinto leitor constatar, todo nome de grande empresa ‒ seja de que origem for ‒ costuma ser posto no feminino.

Sexo 1Exceções são muito raras. À vista d’olhos, só encontrei duas: o Google e o Facebook. Por que será? Há de ser porque, antes de serem vistos como empresas, esses nomes designavam aplicação informática.

Seja como for, o gênero veio pra ficar. É difícil imaginar dizer um dia «a Facebook dispensou mil e duzentos funcionários» ou «comprei ações da Google». 

Pensando bem – 11

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Na Coreia do Norte, tudo é proibido ‒ até aquilo que é permitido.

Na Alemanha, tudo é proibido ‒ salvo o que é permitido.

Na Itália, tudo é permitido ‒ salvo o que é proibido.

No Brasil, tudo é permitido ‒ especialmente o que é proibido.

A cunha

José Horta Manzano

De tão acostumados que estamos a ouvi-los, nem sempre nos damos conta de que grande quantidade de sobrenomes têm significado. São palavras que, antes de se terem tornado nome de família, designavam objetos ou outras coisas da vida real. É o caso de Azeredo, Ramos, Andrade, Almeida, Oliveira e tantos outros. Cunha entra nessa lista.

cunha-1Para abater tronco de árvore ou para cortá-los em pedaços menores, os antigos usavam o machado. Para espedaçar porções menores de madeira, usava-se uma cunha, que os latinos chamavam cŭneus. A palavra se espalhou pelas línguas romances. Cùneo ou cònio em italiano, coin em francês, cuny em catalão, cuña em castelhano. Todas as versões se referem ao mesmo objeto.

A cunha é, por definição, um objeto estranho que se insere num meio relativamente uniforme. Não foi concebido para unir, mas para desirmanar. Há casos cômicos de gente cujo nome destoa. É o que ocorre com a morena chamada Clara, com o medroso chamado Valente, com o cabeludo de nome Calvo, com o ateu chamado Cristiano. Está parecendo que é também o caso de senhor Cunha, aquele antigo parlamentar que foi ontem convidado a passar uma temporada em Curitiba.

Num percurso assaz errático, esse senhor alternou momentos em que atraiu a simpatia de paramentares (e do Brasil inteiro) com tempos em que fez jus a seu sobrenome: tornou-se verdadeira ameaça de dividir seus pares entre «os de lá» e «os de cá».

cunha-2Deixo a análise política para especialistas, que os há de montão. Para encerrar, só gostaria de deixar aqui meu palpite. Tenho a impressão de que, no caso do ex-parlamentar preso, não haverá delação premiada. Não que senhor Cunha não a proponha ‒ os juízes é que perigam não estar interessados. Explico.

Em primeiro lugar, eventual delação envolveria um mundaréu de gente tão grande que poderia ser contraproducente aceitá-la. Quando dúzias e dúzias de parlamentares estão sob suspeita, o impacto se dissipa e socializa a culpa. Não interessa a ninguém prolongar ad aeternum a purga engendrada pela Lava a Jato.

Em segundo lugar, delação premiada costuma resultar em diminuição drástica da pena. No presente caso, dado que o parlamentar caído nunca hesitou em zombar da Justiça nem em desafiá-la, a imposição de pena longuíssima seria um preventivo, um meio de evitar que aventureiros pudessem ter a (má) ideia de retomar a “obra” iniciada pelo ex-deputado.

População urbana

José Horta Manzano

O Programa da ONU dedicado a assentamentos humanos estima que, daqui a pouco mais de uma década, 90% da população do Brasil será urbana, ou seja, nove em cada dez cidadãos viverá numa cidade. À primeira vista, parece um progresso, um avanço civilizatório. Será mesmo?

A resposta não é simples. Para início de conversa, seria preciso estabelecer critérios internacionalmente uniformes, o que não é o caso. Na Suíça, por exemplo, para ter direito a ser chamada de cidade, a aglomeração tem de contar com pelo menos dez mil habitantes. Na França, bastam dois mil. Em outros países, 500 habitantes já são suficientes para um povoado subir de categoria.

village-2O Brasil carece de critérios claros, o que impede uma estimação precisa. Aliás, nos primeiros séculos da colonização, quem decidia era o rei. Para ser «elevado» à categoria de vila, o povoado dependia de um decreto real, o que prova que não é de hoje que os amigos do rei são mais iguais que os outros. Seja como for, na falta de padrão internacional, temos de nos basear nos dados disponíveis.

É interessante notar que o Brasil contabiliza hoje cerca de 85% de sua população vivendo em cidades. É mais urbanizado que países como a Itália (69%), a Suíça (74%), a França (80%), a Alemanha (75%), a Áustria (66%) e até os EUA (82%). Logo, conclui-se que, em matéria avanço civilizatório, nosso país está à frente dos que mencionei. A pobre Itália, com quase trinta porcento de habitantes morando na zona rural, viveria ainda mergulhada na Idade Média, enquanto nós já estaríamos com um pé na modernidade. Será mesmo?

Não acredito. Esses números, pelo menos no que se refere ao Brasil, são mais preocupantes que auspiciosos. Eles atestam que a cidade, principalmente a cidade grande, exerce atração irresistível. Por que acontece isso? O bom povo de aglomerações pequenas corre atrás da poluição, do barulho, do tráfego infernal? O distinto leitor há de convir que não é esse o chamativo. O diagnóstico é menos charmoso.

by Paulo Talarico, pintor mineiro

by Paulo Talarico, pintor mineiro

Em decorrência de desleixo secular, a implantação da indústria, do comércio e dos serviços se fez na valentona, sem planejamento e sem diretivas. O resultado é um desastre: abundância de oferta em grandes aglomerações e carência gritante em localidades menores. Na Alemanha, na Suíça ou na Itália, país que não é tão medieval assim, vilarejos pequeninos dispõem de um leque satisfatório de serviços, o que inibe o êxodo rural.

Em nosso país, o comércio e os serviços disponíveis em cidades menores nem sempre estão à altura da demanda. Vai daí, muitos jovens partem e acabam se fixando em localidades maiores em busca de oferta mais afinada com suas necessidades.

Diferentemente do que se imagina, a estabilização ‒ ou até a diminuição ‒ da taxa de urbanização no Brasil seria sinal positivo. Demonstraria que necessidades e anseios da população das vilas estão sendo cuidados.

Juros negativos

José Horta Manzano

Você sabia?

Banco 3O chefe do Departamento Federal Suíço das Finanças é o diretor de erário mais feliz do planeta. Seu país é um dos raros a poder-se dar ao luxo de tomar empréstimo com juro negativo.

De fato, quem comprar obrigações emitidas pelo governo suíço pode esquecer o velho tempo em que o emprestador costumava receber juros sobre o capital empatado. Atualmente, cabe ao emprestador pagar dividendos, numa curiosa inversão do panorama habitual.

Por exemplo, em março 2016, a Confederação Helvética(1) tomou emprestados 330 milhões de francos (= 330 mi US dólares) à taxa negativa de 0,65%. Trocando em miúdos, os investidores terão de desembolsar 6,50 francos por ano para cada 1000 francos empatados.

Até mesmo tomadas de empréstimos com prazo de 50 anos para reembolso oferecem juros negativos. Assim mesmo, encontram investidores interessados. É estonteante.

Dinheiro 1Compreendo que juros possam estar muito baixos. Na Suíça, caderneta de poupança rende atualmente 0,01% de juros… ao ano(!), taxa meramente simbólica. Agora, emprestar ao governo e ainda ter de pagar ‒ isso supera meu entendimento.

Sei que a política monetária nacional baixou drasticamente os juros para evitar a entrada de capitais, protegendo assim a moeda contra uma supervalorização que prejudicaria turismo e exportações. Mas, disse e repito, ainda não consegui compreender por que razão alguém pagaria taxa anual para depositar seu dinheirinho no país(2).

Olhe, eu posso até não saber, mas há muita gente no Brasil que pode responder a essa pergunta.

Interligne 18h

(1) Confederação Helvética é o nome oficial da Suíça.

(2) Felizmente, aos residentes no país, ainda é permitido manter conta no banco sem ter de pagar juros negativos. Não se recebe nada, mas tampouco se tem de pagar. Por enquanto.

Alarme falso

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

‒ Você viu que o Lula quase foi preso hoje?

Era meu velho amigo Sigismeno. Fazia tempo que a gente não se encontrava. Como de costume, ele não disfarçava certa malícia, perceptível lá no fundo dos olhos.

‒ Quase preso, é, Sigismeno?

‒ Pois é. Parece que ontem um desses chamados blogues sujos preveniu que o homem perigava ser preso nesta segunda de manhã. Vai daí, as redes sociais propagaram a boa-nova e verdadeira multidão acorreu às portas do triplex ‒ perdão, do duplex! ‒ pra assistir ao espetáculo.

‒ Foi muita gente, é?

‒ Ih, nem fale. Tinha mais de 20 pessoas.

Chamada do Estadão de 17 out° 2016 monstrando a "multidão" que acorreu para prestigiar o Lula

Chamada do Estadão de 17 out° 2016 monstrando a “multidão” que acorreu para prestigiar o Lula

‒ E, afinal, o moço foi preso ou não?

‒ Qual nada! Continua à espera do japonês da Federal.

‒ Ué, então por que é que esse tal de «blogue sujo» inventou a história? Falando nisso, que quer dizer «blogue sujo», Sigismeno?

‒ Bom, blogue sujo é expressão que se usa hoje em dia pra designar blogues que se supõe sejam custeados pelo erário, em outras palavras, com nosso dinheiro, o seu e o meu.

‒ Nossa, eu nem imaginava que existisse uma coisa dessas. Quer dizer que é mesmo verdade que esse povo se sustentou lá em cima à custa de nosso dinheiro?

‒ Pois é. Dizem que nosso dinheiro foi parar onde não devia. Mas deixa responder à sua outra pergunta.

‒ Ah, é mesmo, Sigismeno. Por que é que inventaram a história? Só pra botar o Lula nas manchetes?

‒ Não, não acredito. Se, além de ser sujo, um blogue começar a divulgar notícias falsas, aí fica desacreditado de vez. A razão é outra.

‒ Você não tem emenda, Sigismeno, sempre misterioso… Conta logo, vá.

‒ É simples. Você tem visto que, antes de cada nova fase da Lava a Jato, algum vazamento acontece. Aquela do Mantega, por exemplo, que decidiu levar a esposa no meio da madrugada para uma endoscopia. E foi de boné para esconder o rosto. Ficou evidente que alguém tinha avisado, né?

‒ É, eu me lembro. O vazamento tirou o impacto da operação e quase botou tudo a perder. Como será que vazou?

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

‒ Pois é exatamente esse o ponto. Os procuradores não tinham a menor intenção de mandar prender o Lula nesta segunda. Mas espalharam a notícia a algum setor do grupo do qual desconfiavam particularmente.

‒ E daí?

‒ Vai daí, deu certo, caro amigo! O(s) elemento(s) infiltrado(s) fazem parte do grupo que tinha sido avisado sobre a captura do Lula. A partir de agora, o cerco vai-se fechando. Já sabem onde é que tem torneira pingando.

‒ É, a manobra foi esperta. E como você acha que vão proceder daqui para a frente?

‒ Acredito que ainda vai haver outros alarmes falsos para testar outros setores e outros departamentos. Assim, vão descobrindo e eliminando torneiras que pingam. No dia em que o Lula for preso, vai ser surpresa total. Nada vai vazar antes, pode acreditar.

‒ É, Sigismeno, acho que você tem razão. Bobos é que eles não são lá na Lava a Jato. Vão comendo o mingau pelas bordas.

O preço da vaidade

José Horta Manzano

Quatro anos atrás, quando foi eleito e assumiu a presidência da França, monsieur François Hollande se sentia como se estivesse sentado numa nuvem, pairando sobre a humanidade. Tinha chegado lá! Ele não é um caso especial. Todo figurão político, uma vez eleito para cargo importante, parece entrar num universo paralelo. É difícil escapar ao sentimento de superioridade, à impressão de invulnerabilidade daquele que já entrou para a História.

Por aqueles dias, dois jornalistas do jornal Le Monde pensaram em escrever um livro contando a história da presidência Hollande. Pediram entrevista ao presidente e apresentaram-lhe a ideia. Montar o livro era obra de paciência. Ficou combinado que, ao longo de três ou quatro anos, os dois escritores teriam encontros com o presidente para recolher suas confidências.

francois-hollande-10Agora, seis meses antes do fim do mandato de monsieur Hollande, o livro finalmente ficou pronto e acaba de ser posto à venda. Traz o resumo de mais de sessenta encontros, espalhados por quatro anos em cerca de 200 horas de conversa. Como se sabe, a desgraça atrai mais a atenção do que a felicidade. Todos os jornalistas do país leram rapidamente a obra a fim de descobrir as passagens mais picantes.

Os autores, por seu lado, não foram lá muito bonzinhos na hora de escolher título para o livro. Chamaram-no «’Un président ne devrait pas dire ça…’» ‒ ‘Um presidente não deveria dizer isso…’. Puseram entre aspas, dado que a frase foi realmente pronunciada pelo próprio presidente em algum momento das entrevistas. Com isso, evitaram toda acusação de traição e turbinaram a venda da obra. O livro se vende às pilhas em todas as livrarias e supermercados.

Em 200 horas de bate-papo, sai muita coisa boa, mas é inevitável que o gravador registre bobagens também. Saiu muita besteira, que incomodou muita gente. Uma delas, mais contundente, sacudiu o coreto. É o trecho em que o presidente qualifica os magistrados como «lâches», que equivale a covardes ou frouxos. Ai, ai, ai…

A magistratura se alevantou indignada. A grita foi tão estrondosa que obrigou o presidente a pedir desculpas públicas. Disse ele que o que disse não era bem o que disse, que a coisa não era bem assim, que havia sido mal compreendido. Soltou aquelas desculpas esfarrapadas de quem não tem como justificar um escorregão. Sua humilhação serviu para acalmar um pouco o escândalo. Ah, essa vaidade que acomete os poderosos… Imaginam-se todos acima do bem e do mal, sentimento ilusório.

francois-hollande-11O episódio me trouxe à lembrança certas falas do ex-presidente Lula. Também ele um dia imaginou-se inatingível. Disse cobras e lagartos. Com verbo tosco, agrediu a magistratura, numa tentativa desastrada de desqualificar justamente aqueles que, um dia, poderiam ser chamados a julgá-lo. Taí: o momento chegou.

Como o distinto leitor pode se dar conta, nosso guia não foi o único a cair na armadilha. É perigoso e contraproducente indispor-se contra a Justiça. Como se costuma dizer, não convém cuspir pra cima. O mundo dá voltas e a cusparada periga cair em cima do bravateiro. A coisa vai e a coisa vem ‒ ninguém revoga as leis da física.

Causa e consequência

José Horta Manzano

Duas manchetes do Estadão deste domingo dão conta da triste e inquietante realidade brasileira atual.

A primeira foi publicada logo na capa da edição impressa. É esta aqui:

Manchete da edição impressa do Estadão, 16 out° 2016

Manchete da edição impressa do Estadão, 16 out° 2016

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A segunda saiu na edição online. Aqui está:

Chamada do Estadão online, 16 out° 2016

Chamada do Estadão online, 16 out° 2016

Não precisa ser doutor em ciência política, sociologia ou economia para enxergar relação entre as duas. Toda causa produz efeito.

Um inesperado gesto de solidariedade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há mais de uma semana venho enfrentando os dissabores de um desses resfriados que fazem a gente ficar com raiva da incompetência do próprio sistema imunológico. Apesar de, em geral, o meu funcionar com o equilíbrio e a precisão de um relógio suíço, parece não ter resistido à esquizofrenia climática da primavera brasileira.

Tenho passado os dias assoando freneticamente o nariz e tossindo sem parar, totalmente incapacitada para me concentrar em qualquer tipo de atividade por mais de 15 minutos. Tenho só duas posições de relativo conforto: sentada ou deitada. Para onde vou, dentro ou fora de casa, levo comigo uma grande quantidade de lenços de papel. Às vezes mal dá tempo de descartar o anterior e lá está meu nariz pingando de novo, como torneira antiga, enferrujada, que nunca veda totalmente o fluxo de água.

cachorro-32Minhas cachorras têm tentado acompanhar de forma respeitosa a evolução do meu desconforto físico e psíquico. Deitam-se aos meus pés e se limitam a me olhar intrigadas com os estranhos sons que venho produzindo, como se me perguntassem de que modo poderiam me ajudar. Se me aquieto por alguns minutos, elas fingem dormir. Se uma nova crise de tosse e espirros me acomete, elas se agitam e tentam se aproximar. Como minha paciência está curta, eu as desencorajo sem dizer nada, só balançando a cabeça, ou as afasto com os braços. Em função da chuva dos últimos dias, elas não têm saído de casa para o passeio habitual. Em resumo, nossas vidas atingiram o ápice do tédio.

A Molly pareceu ter rapidamente se conformado com minha indisponibilidade para interagir com ela. Como nunca soube se entreter com nenhum brinquedo, prefere se alienar e dormir. A Aisha, em contrapartida, acompanha com os olhos cada movimento que faço, em especial o de estender a mão para pegar novo lenço. Ao menor sinal de abertura, traz a bolinha e tenta chamar minha atenção.

A insistência dela foi tanta que, dias atrás, acabamos desenvolvendo acidentalmente uma nova modalidade esportiva: o pingue-pongue de sofá. O jogo consiste no seguinte: a Aisha traz a bolinha e a solta em cima do sofá. Depois, senta-se em frente a ele e gruda o focinho na extremidade do assento, à espera que a bola lhe seja devolvida. Eu me inclino e, com dois dedos, dou um peteleco na bolinha para que ela role de volta para a cachorra. Aisha a apanha com a boca e, num gesto rápido, a empurra de volta com o focinho. Daí em diante, eu e ela nos alternamos na captura da bolinha – eu sentada e ela correndo para lá e para cá.

lenco-1O entusiasmo da Aisha com a nova brincadeira foi tão grande que eu avancei muitos pontos em sua escala de avaliação afetiva. Ela passou a me retribuir com obediência, olhares doces e lambidas de cumplicidade. Tudo ia bem até que me cansei do novo esporte. Além do desconforto físico com as flexões de tronco, minha motivação não se sustentava por mais de alguns minutos. Pior, muitas vezes em momentos decisivos o jogo precisava ser interrompido para que eu assoasse o nariz ou saísse correndo para o banheiro na tentativa de me livrar da tosse ou de um engasgo. Ao voltar, exausta, já encontrava a Aisha prostrada no chão, com cara de amuada e um olhar acusador.

Ontem de manhã, enquanto eu preparava o café, notei que a Aisha estava sentada em frente à porta da cozinha, o rabo em agitação frenética e os olhos fixados em mim. Não compreendi de imediato o que estava acontecendo. Ela parecia estar mais uma vez me convidando a jogar bolinha com ela. Havia, no entanto, algo fora do usual em seu comportamento: ela permanecia imóvel, em absoluto silêncio, só o rabo balançando feliz.

Ao olhá-la mais detidamente, estranhei o formato de seu focinho. Ele parecia mais arredondado e mais inchado do que de costume. Imaginei a princípio que ela portasse uma bolinha, mas afastei essa possibilidade ao perceber que sua boca estava fechada. Preocupada, me aproximei e apalpei o focinho. Havia realmente um volume a mais lá dentro, ainda que sua circunferência fosse menor do que a da bola. Já um tanto nervosa, tentei abrir à força sua boca, mas a Aisha recuou e resistiu. O rabo continuava indicando que ela estava propondo uma brincadeira ou havia feito alguma travessura.

Origami by Steven Casey

Origami by Steven Casey

Tive então uma súbita inspiração. Mostrei-lhe a bolinha e ela, como de hábito, não resistiu à tentação. Abriu o bocão e…. deixou cair em minha mão uma pilha de lenços de papel! O contato do papel fino com a baba havia moldado a pilha de retângulos e a transformado em um único objeto esférico que ocupava todo o interior de sua boca.

Só posso descrever como comovente a maneira como ela me entregou aquela maçaroca nojenta. Com o peito estufado de orgulho e os olhos inundados de alegria, ela parecia estar me concedendo o Oscar de melhor dona de pet do mundo. Era como se ela me dissesse: “Como ultimamente você só se interessa por isto aqui, resolvi trazer minha contribuição para você se sentir melhor e brincar comigo”.

Simplesmente, eu não sabia se ria ou se chorava. O gesto era tão espontâneo e tão inesperado que não ousei censurar o comportamento da cachorra. Contendo a náusea, peguei meu troféu com a ponta dos dedos, agradeci e o descartei. Ao bebericar meu café mais tarde, senti de fato que meu corpo estava mais disposto e a alma mais leve. Sabe como é, na minha idade não é nada difícil a gente se deixar sensibilizar por pequenos gestos de solidariedade para reeditar a crença em dias melhores.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O aprendizado é longo

José Horta Manzano

Viagem de chefe de Estado ao estrangeiro não é algo banal. Por razões de segurança, importante preparação logística precede a visita. Tudo é estudado, pensado, inspecionado ‒ desde o alojamento onde o visitante vai-se hospedar até a comida que lhe será servida.

Um dos momentos mais observados, que fará certamente manchete na mídia, é a descida da escadaria do avião. Todo um ritual envolve a recepção. Não se deve descer escadaria de avião presidencial como quem descesse a escada de casa, indo do quarto para a sala.

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Essa tropa que se vê na foto, descendo todos ao mesmo tempo como um bando de turistas, pega mal pra caramba. Mostra que nossos especialistas em cerimonial ainda não apreenderam certas sutilezas. Ou, pior, deixa claro que o andar de cima ainda não absorveu a lição.

Comportamentos que se podiam relevar num Lula ou numa Dilma são inadmissíveis numa equipe civilizada.

Observe o distinto leitor como fazem outros chefes de Estado. Além da esposa ‒ e, eventualmente, de membros da família ‒, ninguém mais desce a escada ao mesmo tempo. Primeiro, espera-se que o número um seja recebido. Só então, sai o resto da turma. Preste atenção.

Ainda não chegamos lá.

Mercosul e hora de verão

José Horta Manzano

Até meados do século XIX, cada lugarejo era regido pela hora local. O campanário de cada igreja ritmava as idas e vindas da população. O advento do telégrafo e, principalmente, das ferrovias forçou a normatização. Com hora variando de uma cidade para outra, era virtualmente impossível estruturar o horário dos trens.

Depois de muita discussão e muita negociação, o planeta foi dividido em 24 fusos horários e cada país adotou o que lhe correspondia. Países mais extensos espalham-se por dois ou mais fusos ‒ como é o caso do Brasil.

Relógio moleA duração dos dias e das noites não é idêntica ao longo do ano. Quanto mais nos afastamos do Equador, maior é a diferença de duração entre os períodos de claridade e escuridão. Essa diferença se alterna durante do ano. No verão, os dias são mais longos que as noites ‒ no inverno, ocorre o inverso.

Para economizar energia elétrica, faz quase cem anos que se encontrou um paliativo: altera-se a hora oficial durante o verão; chegado o inverno, volta-se à hora tradicional. Isso resulta em um começo de noite ainda com céu claro, contribuindo para economizar eletricidade. Numerosos países adotam essa alternância.

Em 1985 ‒ 31 anos atrás ‒, a União Europeia decidiu adotar a hora de verão. Ela entra em vigor todos os anos, às 2h da manhã do último domingo de março e vai até as 2h da manhã do último domingo de outubro. Com exceção do Reino Unido, todos os países acertaram o passo e aderiram ao ritmo. Com o Brexit, a Grã-Bretanha continua seguindo o próprio caminho e a anomalia britânica deixa de ser exceção dentro da UE.

Nosso Mercosul, fundado 25 anos atrás, é constituído por apenas 4 países(1) contra 27 da UE. Pasme o distinto leitor: pelas bandas do Cone Sul ainda não se chegou a um acordo sobre o problema. Reuniões, cúpulas, tratados, convenções, pronunciamentos não faltaram. Cansamos de ver fotos de presidentes, mãos dadas ou braços erguidos numa enternecedora irmandade. Mas parece que a fraternidade começa e termina nas fotos, nunca chega à vida real. Vive-se num mundo de símbolos sem significado prático.

Relógio solarEm 2008, depois de agir erraticamente por mais de vinte anos por meio de decretos anuais, o Brasil finalmente regulamentou a hora de verão. É adotada anualmente nos Estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Vigora do 3° domingo de outubro ao 3° domingo de março. Nosso país agiu por conta própria, sem procurar harmonizar o calendário com o Paraguai, por exemplo, que também adota a prática mas faz a mudança em dias diferentes dos nossos. A Argentina(2) e o Uruguai, países cuja posição geográfica justificaria plenamente a mudança anual, não adotam a hora de verão.

O resultado dessa falta de coordenação atravanca ‒ ainda mais! ‒ as relações políticas e comerciais entre os membros do grupo. Se quatro gatos pingados não conseguiram acertar os ponteiros depois de 25 anos de casamento, fica no ar a pergunta: será que vale a pena continuar casados?

Interligne 18h

(1) A Venezuela, dadas as circunstâncias irregulares de sua admissão, não vem sendo tratada como membro verdadeiro. Por enquanto, vive num limbo, como um ‘penetra’ que pulou a janela.

(2)Provavelmente no intuito de encaixar o país inteiro num fuso só, a Argentina optou por uma espécie de hora de verão permanente. A hora legal está adiantada em relação ao percurso do sol.

Nas regiões situadas mais a leste (Buenos Aires, Mar del Plata, Puerto Iguazu), a defasagem é de pouco mais de meia hora. Nessas cidades, quando os relógios marcam meio-dia, ainda falta mais de meia hora para o sol chegar ao ponto mais alto no céu.

Em certas localidades situadas mais a oeste (Bariloche, El Calafate), a defasagem entre hora oficial e hora solar chega a uma hora e meia. Nesses lugares, quando o relógio diz que é meio-dia, a hora solar não passa de 10h30.

Fifa-Mafia

José Horta Manzano

O alemão Thomas Kistner (1958-) é jornalista e escritor. Especializado em esportes, escreve para o quotidiano de Munique Süddeutsche Zeitung. Nos últimos anos, publicou meia dúzia de livros, os mais polêmicos dos quais mostram a promiscuidade entre esporte, dinheiro e dopagem. Naturalmente, seu cavalo de batalha é a Fifa, organização que coordena o esporte mais popular do mundo.

Seu penúltimo livro, lançado em 2014, chama-se FIFA-Mafia. Die schmutzigen Geschäfte mit dem Weltfußball ‒ Fifa-Mafia, os negócios sujos do futebol mundial. O nome já diz tudo. E olhe que foi escrito antes da espetaculosa ação da polícia suíça que mandou para o xilindró um certo senhor José Maria Marín acompanhado de meia dúzia de cartolas planetários.

blatter-2«A Fifa e a máfia se assemelham ao oferecer cargos e empregos a filhos, tios, sobrinhos, amigos próximos, que trabalham em empresas secretas mundo afora. Há uma enorme rede de negócios em torno da Fifa que inclui parentes de dirigentes.» Profundo conhecedor da cúpula futebolística, Kistner faz afirmações dessa magnitude.

No entanto, como se sabe, pau que nasce torto não tem jeito. Em que pese a prisão e a extradição para os EUA de figurões medalhados, a chefia do futebol mundial continua a dar mostras de compadrio e conivência com o crime. Proteger companheiros ainda é palavra de ordem.

O exemplo mais recente é o novo estatuto da Conmebol, o organismo que coordena o futebol sul-americano. Como é natural, encontros periódicos reúnem os presidentes das diversas confederações do subcontinente. Em geral, têm lugar no Paraguai, onde está a sede da entidade. Nada estava previsto para o caso de algum presidente faltar à reunião. Pois essa lacuna foi preenchida.

jornal-5Dado que senhor Del Nero, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) teme ser preso caso viaje ao exterior, o estatuto da Conmebol aceita, desde setembro último, que um substituto tome o lugar de qualquer presidente ausente. A medida, como se vê, tem beneficiário líquido e certo. O cartola que preside aos destinos do futebol pentacampeão não ousa pôr os pés além das fronteiras nacionais por medo de ser preso. A situação já dura mais de três anos. Charmoso, não?

Mas deixa estar, jacaré, que a lagoa há de secar. Enfronhado no assunto, o mencionado jornalista alemão avalia que as condenações e as multas bilionárias aplicadas pela Justiça americana devem ser anunciadas a qualquer momento e poderão significar o fim da Fifa. Não seria má notícia. Quando a maioria das laranjas está podre, mais vale jogar fora o cesto inteiro.

Dinheiro grosso: onde esconder?

José Horta Manzano

Estes dias, voltou-se a falar do problemas enfrentados por um jornalista da revista Época que andou publicando lista de brasileiros com conta na filial suíça do banco HSBC. Só por curiosidade, o acrônimo é a abreviatura de Hong Kong & Shanghai Banking Corporation, conglomerado inglês de primeira grandeza.

No Brasil, tradicionalmente, não se mexe com gente importante. Embora mensalão, petrolão & conexos andem balançando o coreto, ainda é enraizada a cultura de poupar o acusado e atacar o mensageiro. O que se discute atualmente é se jornalista tem ou não direito a preservar suas fontes.

Banco 5Confesso não ter opinião formada sobre o assunto. O direito de ocultar o nome do fornecedor da informação tem um lado bom e um outro menos brilhante. Do lado positivo, facilita a vida do jornalista, pois o informante sente-se protegido e à vontade para dar sua versão e contar sua verdade. Do lado negativo, entreabre a porta para a difusão de informações imprecisas, malévolas e até caluniosas. É um vasto debate.

Um detalhe me chamou a atenção nessa história. Estranhamente, ninguém parece ter reparado. Vamos lá. No início dos anos 2000, cerca de 200 bancos não-comerciais operavam na Suíça. Quando digo não-comerciais, refiro-me a estabelecimentos que não mantêm agência aberta para o grande público, não emprestam dinheiro, não dão cartão de crédito, não costumam executar ordens de pagamento.

Na verdade, são gestores de fortuna que só recebem com hora marcada. Não deviam nem ser chamados de bancos. A agência de Genebra do HSBC se enquadra nessa categoria. Foi de lá que vazou a lista de milhares de clientes brasileiros. O número exato dos integrantes da relação varia, segundo o órgãos, entre 7000 e 9000, um balaio de gente!

Banco 4Virtus in medio ‒ a virtude (assim como a verdade) está no meio. Vamos admitir que os clientes sejam 8000, cem por cento dos quais ‘se esqueceram’ de mencionar os haveres na declaração de renda feita à Receita brasileira. Vamos ser até mais camaradas. Vamos cortar pela metade. Consideremos que não passem de 4000.

O HSBC é apenas um entre os 200 gestores de fortuna estabelecidos na Suíça no começo deste século. A conta é fácil de fazer: 4000 clientes x 200 bancos = 800.000 clientes. Sim, o distinto leitor não leu errado. É permitido supor que centenas de milhares de brasileiros mantenham ‒ ou tenham mantido ‒ haveres na Suíça nos tempos em que ainda vigorava o sagrado princípio do segredo bancário.

É um vespeiro no qual é melhor não mexer.

Interligne 18cAviso aos novos-ricos
A abolição do segredo bancário na Suíça e a assinatura de acordos bilaterais de troca automática de informações com numerosos países quebrou o encanto. Hoje em dia, quem tem dinheiro a esconder procura portos mais acolhedores. Estudos recentes preveem que, até o ano 2020, metade dos bancos não-comerciais da Suíça terão fechado as portas.

Posição de ocasião

Dora Kramer (*)

De volta à oposição, os deputados ditos de esquerda comportaram-se como se os últimos anos não tivessem existido. A proposta aprovada em primeiro turno na Câmara com os exatos 355 votos esperados pelo governo de Michel Temer, conceitualmente é bastante semelhante à Lei de Responsabilidade Fiscal criada no governo Fernando Henrique Cardoso 16 anos atrás e quase em tudo igual à proposta feita pelos então ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo há dez anos como forma de consertar as contas.

Dilma 17Na época, Dilma ganhou a parada qualificando a sugestão como “rudimentar”. Lula poderia ter bancado a posição de Palocci e Bernardo, como fez FH em relação a Pedro Malan, mas preferiu avalizar a posição da ministra-chefe de sua Casa Civil, em via de assumir a candidatura à Presidência da República. O restante da história é sobejamente conhecido e hoje reconhecido passo essencial do PT na direção do abismo administrativo.

(*) Dora Kramer é jornalista, analista política e escritora. O texto acima foi extraído de artigo publicado no Estadão de 12 out° 2016.

Falta troco

José Horta Manzano

Na Europa, especialmente do centro para o norte, nunca falta troco. Tanto faz que a moeda nacional seja o euro, o franco suíço, a coroa sueca ou outra qualquer ‒ moedas circulam. Todo cidadão costuma ter, caixa de supermercado tem, padaria tem, farmácia tem, vendedor de cachorro-quente também.

No Brasil, o problema da falta de troco é crônico. Desde os tempos de antigamente, é realidade aceita bovinamente, não surpreende ninguém. Tanto faz que as moedinhas tenham um certo valor, como no início do Plano Real, ou que valham pouco, como agora. A escassez é proverbial. Cada um tem sua explicação para o curioso fenômeno.

capote-1Há quem desconfie de malandragem: o comerciante tiraria sistematicamente as moedas do caixa criando, assim, uma desculpa para não dar troco. Outros acusam o acaparamento de metal, reminiscência do tempo em que se acumulavam moedas de ouro e prata. Há ainda os que consideram que não vale a pena carregar peso por valor tão baixo.

Tenho a minha teoria. O fenômeno pouco tem a ver com malandragem, ganância ou desprezo pelo vil metal. O problema é meramente climático. Nos países frios, o longo inverno obriga o cidadão a sair à rua encapotado oito meses por ano. Capotes, mantôs e casacos são cheios de bolsos. Como são já pesados por natureza, um punhado de moedas não faz grande diferença. Vai daí, antes de sair de casa, a gente apanha automaticamente uns cobrinhos e põe no bolso. Assim, é natural, o troco jamais falta. Ainda que o cidadão saia de casa sem moedas, ao voltar, depois de duas comprinhas, vai estar com o bolso repleto.

dinheiro-8Para coroar, toda agência de correio fornece moedas a quem pedir. Elas vêm empacotadas em rolinhos de papel. Na Suíça, cada rolo contém 50 moedas de mesmo valor. Nenhuma cobrança extra é exigida: o preço do rolinho corresponde ao valor das moedas. Dessa maneira, nenhum comerciante tem pretexto para falta de troco.

A solução do problema brasileiro é meio complicada. Não vejo outra saída senão ter paciência e esperar pela próxima era glacial. Periga demorar.

O reencontro

cabecalho-17

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Reviram-se após mais de meio século. Coração aos pulos, entreolharam-se com a empolgação de quem participa de uma expedição arqueológica e vai retirando aos poucos as grossas camadas de pó que recobriam peças delicadas e raras.

Perscrutaram com atenção e cuidado não apenas os contornos do corpo, mas a silhueta atual da alma de cada uma. Na cabeça, uma indagação persistente: O que foi que mudou? O que permaneceu inalterado depois de tanto tempo? Não havia tempo a perder com divagações, era preciso ir direto ao ponto. A cada minuto, novas rodadas de perguntas e respostas.

Chegaram a algumas poucas conclusões provisórias, ainda carentes de aprofundamento da investigação do valor histórico de cada máscara encontrada. Só haviam conseguido coletar até então dados a respeito dos contornos superficiais dos achados arqueológicos. A aparência de cada uma pouco importava, não era o foco principal da análise. Era fácil constatar em todas a perda do viço juvenil da pele, os centímetros a mais na cintura e a progressiva curvatura das costas. Faltava, no entanto, examinar como os membros daquele grupo remoto interpretavam agora as relações e o que permanecia sendo sagrado para cada um. Pouco se sabia ainda dos movimentos anímicos que haviam sulcado a superfície de cada rosto.

Com a cumplicidade de Wilma Legris www.ieccmemorias.wordpress.com

Com a cumplicidade de Wilma Schiesari-Legris
www.ieccmemorias.wordpress.com

Divertiram-se com o jogo de luzes e sombras da viagem ao passado. Depois, o usaram como referência para compor e justificar a imagem atual. Aquela ganhou o perfil de matrona de aço ‒ temperado, é bem verdade, pelos reveses da vida. Ao mesmo tempo, soube conservar o sorriso maroto e os olhos curiosos de menina apaixonada pela vida, que encara o mundo e as pessoas como se os visse pela primeira vez. A outra parece ter completado de maneira suave a transição entre a imagem de esfinge desafiadora que a caracterizava na adolescência e o perfil atual de mulher madura, descolada, segura de si e de bem com a vida. Uma terceira, ainda um tanto aturdida com o movimento pendular da história, colocava em um dos pratos da balança o orgulho pela autoridade técnica conquistada após décadas de dedicação aos estudos e, no outro, o inegável deleite com o patrimônio afetivo arrebanhado em família. A última, mais retraída, parecia continuar a não se permitir lambuzar-se com os prazeres mundanos, da carne. Sua figura de espantalho denunciava sua opção pelo ensimesmamento e um certo desleixo com outras formas de atração social. Oferecia apenas, em doses homeopáticas, pinceladas leves de seus altos e baixos no trabalho e no plano afetivo.

Constataram extasiadas que haviam cumprido, com mais ou menos sucesso, o roteiro de uma existência bem-sucedida para os padrões femininos desejados à época: casaram-se formal ou informalmente, tiveram filhos e, algumas, netos. A bem da verdade, uma delas havia escolhido compartilhar a própria existência apenas com filhos de quatro patas. Além do mais, sentiam-se apaziguadas com as escolhas que fizeram por sua forma de inserção na sociedade. Haviam desenvolvido carreiras profissionais respeitáveis, todas com passagens pela docência.

“Tivemos sorte”, parecia dizer com os olhos uma delas. Somos crias de uma mesma ninhada promissora. Nossa mãe, a escola pública, nos presenteou com alimentos essenciais para uma sobrevida digna. Nosso pai, o intelecto, nos ensinou a caçar e a sobreviver em ambiente hostil. Nossos irmãos, mesmo sendo tão diferentes entre si, nunca esqueceram como é bom poder se aconchegar uns aos outros em espírito.

Uma vez saciada a fome de informações factuais, passaram a rememorar momentos prazerosos vividos ao lado do amigo ausente. Não era preciso lamentar que ele não tivesse podido locomover-se de tão longe só para estar com elas. Ele estava presente de qualquer maneira, tinha sido mote e locomotiva do encontro. Gastaram alguns minutos elogiando seu fino senso de humor, a memória privilegiada, a inteligência arguta, a eterna disposição e presteza para refazer laços perdidos com o tempo.

x-Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

x-Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

Perceberam emocionadas, ao se despedir, que já não lhes restava a ansiedade juvenil de fazer juras de amor eterno, pegar todos os dados de contato, prometer nunca mais se separar. Já haviam se desapegado da angústia diante de laços que se esgarçam com o passar dos anos. A maturidade e a entrada na velhice haviam trazido consigo, como era de se esperar entre profissionais da área de humanas, a autocontenção, a ponderação, o equilíbrio emocional.

Ao final, a mais sábia dentre elas resumiu com humor e precisão milimétrica o verdadeiro significado do reencontro: “Somos o que éramos. Foi bom constatar isso”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

“Uma mulher desagradável”

José Paulo Cavalcanti Filho (*)

Calma, leitor amigo. Como dizia Chopin: “não me compreenda tão depressa”. Já dava para suspeitar que se trata de Dilma. Só que a frase do título não é minha, tanto que está entre aspas. É de Pedro Passos Coelho, ex-primeiro-ministro de Portugal. Está no novo livro de José António Saraiva ‒ Eu e os Políticos – lançado no último fim de semana em Portugal e já esgotado.

Saraiva, por quase 30 anos diretor do Expresso, o mais importante semanário de Lisboa, aproveitou a intimidade com políticos importantes da terrinha para entregar amantes, desafetos e indiscrições. Sonho com algo assim no Brasil de hoje. Iria ser divertido.

Dilma e Pedro Passos Coelho

Dilma e Pedro Passos Coelho

Ao ver esse livro nas vitrines, lembrei curiosa historinha que se conta no interior de Pernambuco. Fala de um poeta popular que escreveu cordel com título Os Canalhas de Gravata. E não vendeu nada. Foi quando um espertinho comprou toda a edição e pôs, com caneta, um acento no último “a”. Passou a ser Os Canalhas de Gravatá.  Vendeu tudo. Rápido. Na feira de Gravatá, claro. Afinal, todos temos curiosidade em saber os podres dos outros, sobretudo políticos. É algo universal.

Voltando ao livro de Saraiva, no capítulo dedicado ao antigo primeiro-ministro Passos Coelho, consta que, para ele, Dilma é «mulher presunçosa, arrogante, desagradável, roçando a má educação». Em seguida, refere gafes que ela cometeu por lá.

Como a que se deu na reunião ibero-americana de Cádiz (Espanha) em novembro de 2012, quando Dilma passou horas conversando com o presidente de Portugal, Cavaco Silva, em espanhol(!). Comenta Passos Coelho: «Como se não soubesse quem ele era. Cavaco estava estupefato, sem saber o que fazer: Dilma era presidente do Brasil havia dois anos e não o conhecia?».

Noutra ocasião, Dilma comunicou que visitaria oficialmente o país em 10 de junho (de 2013). E não, como se poderia esperar, para se juntar às comemorações do Dia de Portugal. Qualquer diplomata em princípio de carreira sabe que qualquer outro dia, em função das festas, seria melhor que aquele. É como se alguma autoridade estrangeira quisesse reunir-se com o presidente do Brasil em 7 de setembro na hora do desfile. Um vexame. Tiveram de arrumar, de última hora, helicópteros para recebê-la. Passos Coelho diz, em tom de galhofa: «Inventamos uma cimeira que não existiu, pois ela não vinha preparada para isso».

Pedro Passos Coelho e Dilma

Pedro Passos Coelho e Dilma

Fosse pouco, assim que saiu do avião, Dilma decidiu reunir-se com membros do PS, partido que fazia dura oposição ao governo. O que equivaleria, por aqui, a visitar Lula ou Rui Falcão antes de reunir-se com Temer. O governo luso ficou arreliadíssimo. Enquanto Dilma, nem aí. E aproveitou para degustar, logo depois, um bom bacalhau no restaurante Eleven. Feliz.

Também, amigo leitor, tendo Marco Aurélio «top-top» Garcia como assessor diplomático, ia querer o quê?

(*) O recifense José Paulo Cavalcanti F° (1948-) é advogado. Foi ministro da Justiça durante a presidência Sarney. É membro da Academia Pernambucana de Letras.