Crônica policial

Fábrica Nespresso nas bucólicas colinas de Romont (Cantão de Friburgo, Suíça),
onde foi descoberta a droga.

José Horta Manzano

A marca Nespresso pertence à multinacional suiça Nestlé, maior grupo de laticínios do planeta e uma das gigantes do ramo alimentício. É interessante notar que as cápsulas de café Nespresso são todas fabricadas na Suíça e, em seguida, exportadas para o mundo todo.

O café, importado em quantidades industriais dos grandes países produtores – Brasil, Vietnam, Colômbia, Indonésia, Etiópia –, é torrificado, moído, preparado e acondicionado numa das três usinas suíças.

A notícia saiu na quinta-feira 5 de maio, mas os fatos podem ser anteriores. Numa das fábricas de cápsulas Nespresso, em meio a sacas de café em grãos, foram encontrados 500 quilos de cocaína “padrão exportação” com grau de pureza de 80%. A polícia foi chamada. Por alto, calcula-se que o valor da carga atinja os 50 milhões de francos suíços – em torno de 250 milhões de reais.

Aberto o inquérito, descobriu-se que a droga estava distribuída em 5 contêineres provenientes do Brasil. Segundo a polícia, trata-se de uma das mais importantes apreensões de droga jamais efetuadas no país.

O que se sabe até agora é que a carga desembarcou no porto de Antuérpia (Bélgica), de onde subiu o Rio Reno de barco até o porto fluvial de Basileia (Suíça). A quantidade de cocaína é tão enorme, que se supõe tenha havido um erro de logística no meio do caminho. O mercado suíço é pequeno demais para tanto pó.

Sem esboçar um sorriso, o porta-voz da polícia suíça informou que em nenhum momento a droga entrou em contacto com o café. O apreciador (de Nespresso) pode continuar degustando sem susto seu café favorito, seja ele Intenso, Volluto ou Fortissio.

Dificilmente se saberá quem despachou a droga e quem era o destinatário. Há sempre muito laranja no meio, o que dificulta chegar aos verdadeiros donos do negócio. É certo que, no meio do caminho, tinha uma pedra. E alguém tropicou. Francamente, com um prejuízo de 250 milhões de reais, alguma cabeça é capaz de rolar.

Café do Brasil

José Horta Manzano

Em princípio, o café não tem as qualidades necessárias para se tornar popular. É ainda mais escuro que o cacau, tem um certo amargor que nem todo o mundo aprecia, só é produzido em regiões de clima quente, requer longa e laboriosa manipulação desde a plantação até a xícara. Com todos esses senões, parecia destinado ao papel de bebida exótica, daquelas que se reservam pra ocasiões especiais. No entanto, por razões difíceis de explicar, tornou-se a bebida mais consumida no planeta, exceptuada a água.

Originário da Etiópia, tem visto seu consumo crescer vertiginosamente. Duzentos anos atrás, a produção mundial girava em torno de um milhão de sacas por ano. Atualmente, colhem-se mais de cem milhões de sacas de sessenta quilos, um aumento exponencial. São seis milhões de toneladas de grãos, uma enormidade!

Com 30% do total mundial, o Brasil é, de longe, o maior produtor. Seguem-se o Vietnã, a Colômbia, a Indonésia, a Etiópia. Em nosso país, já faz tempo que o café deixou de ser o maior produto de exportação. No entanto, em pequenos países africanos como a Etiópia, Burundi ou Ruanda, a rubiácea responde pelo grosso do comércio exterior.

Uma curiosidade pouco divulgada é o fato de cinco empresas serem responsáveis pela compra de metade da produção mundial. São três multinacionais americanas, uma alemã e uma suíça (Nestlé). Essa enorme quantidade de café destina-se tanto a ser vendida em grãos quanto a ser transformada em café solúvel.

Engana-se quem imagina que os brasileiros sejam grandes bebedores de café. Considerando o consumo por habitante, os países escandinavos estão bem lá na frente, seguidos pelos europeus do norte (Holanda, Alemanha), logo acompanhados por suíços, austríacos e italianos. Americanos e canadenses também consomem quantidade considerável de café. Até o argentino toma mais café que o brasileiro.

Tradicionalmente, os produtores brasileiros privilegiaram a quantidade em detrimento da qualidade. Essa despreocupação com a excelência desembocou em situação peculiar: apesar de ser o maior produtor, o Brasil não é conhecido pela superioridade de seus grãos. Cafés de alta qualidade provenientes da Colômbia ou de pequenos países da América Central são vendidos, no mercado internacional, a preços bem superiores aos do café brasileiro.

Mas a situação está evoluindo. Fazendo eco ao anúncio de pequenos produtores mineiros e capixabas, a imprensa francesa informou estes dias que cafés especiais estão sendo colhidos nas encostas da Serra do Caparaó. São grãos de qualidade superior, plantados em altitudes superiores a mil metros ‒ a exemplo do que ocorre na Etiópia.

Dado que a produção ainda é modesta, dezenas de compradores americanos e europeus estão na fila de espera. Enquanto a demanda mundial de café comum tem aumentado 2% estes últimos anos, a procura por cafés especiais cresce num ritmo de 10% a 15% a cada ano. Tudo isso traz a prova de que vale a pena investir na melhora do produto. Quantidade é bom, mas qualidade é melhor ainda.

Questão de gênero

José Horta Manzano

A Petrobrás, a General Motors, a Honda, a Amazon, a L’Oréal, a Gazprom, a Unilever, a Boeing, a Vale, a Samsung, a Nestlé, a Bayer.

Em nossa língua, como pode o distinto leitor constatar, todo nome de grande empresa ‒ seja de que origem for ‒ costuma ser posto no feminino.

Sexo 1Exceções são muito raras. À vista d’olhos, só encontrei duas: o Google e o Facebook. Por que será? Há de ser porque, antes de serem vistos como empresas, esses nomes designavam aplicação informática.

Seja como for, o gênero veio pra ficar. É difícil imaginar dizer um dia «a Facebook dispensou mil e duzentos funcionários» ou «comprei ações da Google».