Os clãs e as facções

José Horta Manzano

Doutor Eduardo Bolsonaro, futuro primeiro-filho, deu entrevista ao Estadão. O moço tem aquelas certezas absolutas que a gente tem quando está pelos trinta anos. Tudo lhe parece automático, cravado, inamovível. Faltam-lhe dez ou quinze anos pra começar a entender que as coisas são bem mais relativas e maleáveis. O tempo é remédio pra tudo.

O pai dele parece já ter aprendido a lição. Prova é, que certos propósitos ásperos anunciados durante a campanha já perdem rebarbas e ganham acabamento arredondado. A tendência é continuar por esse caminho. O Grande Molde da realidade é como é, não admite exagerada excentricidade. Queira ou não, o político tem de se encaixar na fôrma(*). De nenhum dos eleitos será admitido afastamento excessivo.

Na entrevista, um eufórico Bolsonaro júnior nada de braçada na fogosidade de quem está sentado em cima de quase dois milhões de votos. Abre a torneira e fala sem filtro. Dá pra ver o fundo da panela, numa impressão de que nada foi dissimulado. Melhor assim.

Le conciliabule (A assembleia do clã)
by Etienne ‘Nasr al Dine’ Dinet (1861-1929), artista francês

Quando o deputado, ao referir-se ao paterno exercício da presidência, deixa escapar um «nós vamos fazer», fica o recado de que teremos, a partir de janeiro, um colegiado na Presidência, à imagem do STF. Ao ler a entrevista, confesso que o «nós» ‒ que denota indiscutível promiscuidade no exercício do cargo maior ‒ me incomodou um pouco. Após reflexão, no entanto, me dei conta de que a diferença entre o futuro governo e os anteriores reside apenas no maior ou menor grau de franqueza.

De fato, faz mês e meio que doutor José Dirceu afirmou: «É questão de tempo para a gente tomar o poder». Noves fora o delírio do ‘guerrilheiro’ ressentido, esse «a gente» assinala, sem erro, que a colegialidade que ressinto no poder exercido pelo clã Bolsonaro já estava presente na facção lulopetista.

No fundo, acredito que esse compartilhamento ‒ pra usar termo da moda ‒ do poder seja uma constante histórica. Deve ser corrosivo exercer o poder maior solitariamente, sem interferência, consulta ou aconselhamento. A Presidência sempre foi colegial. O que mudou, estes últimos tempos, é que essa colegialidade vai-se tornando explícita.

(*) Forma perdeu o acento diferencial há 50 anos. Em certos casos extremos, no entanto, sinto necessidade de grifar. No presente caso, é fôrma e não fórma. Dirimir ambiguidades é dever de todos.

Come è brutta la vecchiaia!

José Horta Manzano

Tive, muitos anos atrás, um colega de trabalho italiano que, por conviver com a mãe velha e doente, filosofava: «Come è brutta la vecchiaia!» ‒ Como é feia a velhice!

Eu, que andava pelos trinta e poucos anos à época e não convivia com nenhum velho doente, não dei grande importância à observação. Mas guardei a frase, que solto ‒ em sonoro italiano! ‒ sempre que o momento me parece adequado.

Hoje, abrigado já há muitos anos sob o manto do Estatuto do Idoso, posso opinar em conhecimento de causa. Em princípio, não estou de acordo com a frase do colega ‒ que, aliás, perdi de vista há décadas. Percebo que todas as idades têm um lado bom e outro menos agradável.

A criança e o adolescente têm energia pra dar e vender. No entanto, têm de se conformar com regras e obrigações que nem sempre lhes parecem agradáveis. O jovem adulto, se já se liberou das imposições dos pais e da escola, tem de sofrer a pressão do chefe e da família que constituiu. Na idade madura, cada um se sente já dono do próprio nariz, mas é invadido pela preocupação com o que está por vir: como é que vou me virar quando me aposentar e tiver de encarar brusca diminuição de renda?

by Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

Minha avó costumava dizer que «tudo na vida tem conserto, só para a morte não há remédio». Tinha razão. Chegada a velhice, as coisas se ajeitam. Pouco a pouco, o indivíduo tem a agradável sensação de ser menos participante e mais espectador. Enquanto a saúde permite, a gente vê a vida passar. Com bonomia e com certo desapego, observamos as queixas e preocupações dos mais jovens. Certas coisas que antes eram primordiais hoje nos parecem tão insignificantes…

No entanto, ainda estamos vivos, que diabos! Eu, que passei a vida sem dar importância à política, nunca imaginei que a situação no Brasil fosse chegar ao descalabro atual. Vejo que a coisa não se ajeita, que a débâcle é cada dia mais evidente, que os valores estão subvertidos, que Executivo e Legislativo estão corroídos pela corrupção desabrida, que até a Justiça dá sinais de estar-se corrompendo moralmente. À vista disso tudo, acaba-se sentindo que alguma coisa tem de ser feita. Sem se dar conta, a gente se vai transformando numa espécie de ativista político.

Acontece sem querer, mas é irrefreável, que ninguém tem sangue de barata. O passar dos anos apaga muitos fogos, é verdade, mas o intelecto continua aceso. Enquanto a cabeça «está boa», a gente permanece agudamente sensível ao comportamento dos que nos governam. Com uma vantagem sobre os mais jovens: já liberados de muitas obrigações, temos mais tempo à disposição.

Cada um combate com as armas que tem. Quando digo «ativista político», não imaginem que eu vá sair enrolado numa bandeira a brandir palavras de ordem na avenida. Cada um na sua. Minha campanha é modesta. Minha grande arma é este blogue, que, aliás, não existiria não fossem as visitas do distinto leitor ‒ a quem agradeço. Não vou parar de atirar minhas pedrinhas nos que me parecerem indignos da posição que ocupam, podem ficar tranquilos.

Por enquanto, para a presidência, não tenho candidato. Mas uma coisa é certa: darei meu voto àquele (ou àquela) que me parecer mais bem armado para ocupar o trono. Do jeito que vão as coisas, os candidatos brilharão não tanto pelas qualidades que têm, mas pelos defeitos que não têm. O postulante ideal terá a ficha limpíssima, imaculada. Será firme sem ser brutal. Terá espírito vivo ainda que não seja um portento de inteligência. Terá um verniz de cultura sem ser necessariamente um filólogo. Será hábil na política mesmo que não seja uma raposa. Terá experiência no métier ainda que não seja um profissional da política.

Por enquanto, na amostragem de que dispomos, a escolha está difícil. Mas o tempo é bom remédio. Quarta-feira que vem é dia crucial ‒ o «dia D do Lula», expressão sugestiva que li em algum lugar. Vamos deixar passar a tempestade. Seja qual for a decisão do Supremo, ela orientará a campanha eleitoral. Sejamos pacientes. Quem viver, verá.

O reencontro

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Myrthes Suplicy Vieira (*)

Reviram-se após mais de meio século. Coração aos pulos, entreolharam-se com a empolgação de quem participa de uma expedição arqueológica e vai retirando aos poucos as grossas camadas de pó que recobriam peças delicadas e raras.

Perscrutaram com atenção e cuidado não apenas os contornos do corpo, mas a silhueta atual da alma de cada uma. Na cabeça, uma indagação persistente: O que foi que mudou? O que permaneceu inalterado depois de tanto tempo? Não havia tempo a perder com divagações, era preciso ir direto ao ponto. A cada minuto, novas rodadas de perguntas e respostas.

Chegaram a algumas poucas conclusões provisórias, ainda carentes de aprofundamento da investigação do valor histórico de cada máscara encontrada. Só haviam conseguido coletar até então dados a respeito dos contornos superficiais dos achados arqueológicos. A aparência de cada uma pouco importava, não era o foco principal da análise. Era fácil constatar em todas a perda do viço juvenil da pele, os centímetros a mais na cintura e a progressiva curvatura das costas. Faltava, no entanto, examinar como os membros daquele grupo remoto interpretavam agora as relações e o que permanecia sendo sagrado para cada um. Pouco se sabia ainda dos movimentos anímicos que haviam sulcado a superfície de cada rosto.

Com a cumplicidade de Wilma Legris www.ieccmemorias.wordpress.com

Com a cumplicidade de Wilma Schiesari-Legris
www.ieccmemorias.wordpress.com

Divertiram-se com o jogo de luzes e sombras da viagem ao passado. Depois, o usaram como referência para compor e justificar a imagem atual. Aquela ganhou o perfil de matrona de aço ‒ temperado, é bem verdade, pelos revezes da vida. Ao mesmo tempo, soube conservar o sorriso maroto e os olhos curiosos de menina apaixonada pela vida, que encara o mundo e as pessoas como se os visse pela primeira vez. A outra parece ter completado de maneira suave a transição entre a imagem de esfinge desafiadora que a caracterizava na adolescência e o perfil atual de mulher madura, descolada, segura de si e de bem com a vida. Uma terceira, ainda um tanto aturdida com o movimento pendular da história, colocava em um dos pratos da balança o orgulho pela autoridade técnica conquistada após décadas de dedicação aos estudos e, no outro, o inegável deleite com o patrimônio afetivo arrebanhado em família. A última, mais retraída, parecia continuar a não se permitir lambuzar-se com os prazeres mundanos, da carne. Sua figura de espantalho denunciava sua opção pelo ensimesmamento e um certo desleixo com outras formas de atração social. Oferecia apenas, em doses homeopáticas, pinceladas leves de seus altos e baixos no trabalho e no plano afetivo.

Constataram extasiadas que haviam cumprido, com mais ou menos sucesso, o roteiro de uma existência bem-sucedida para os padrões femininos desejados à época: casaram-se formal ou informalmente, tiveram filhos e, algumas, netos. A bem da verdade, uma delas havia escolhido compartilhar a própria existência apenas com filhos de quatro patas. Além do mais, sentiam-se apaziguadas com as escolhas que fizeram por sua forma de inserção na sociedade. Haviam desenvolvido carreiras profissionais respeitáveis, todas com passagens pela docência.

“Tivemos sorte”, parecia dizer com os olhos uma delas. Somos crias de uma mesma ninhada promissora. Nossa mãe, a escola pública, nos presenteou com alimentos essenciais para uma sobrevida digna. Nosso pai, o intelecto, nos ensinou a caçar e a sobreviver em ambiente hostil. Nossos irmãos, mesmo sendo tão diferentes entre si, nunca esqueceram como é bom poder se aconchegar uns aos outros em espírito.

Uma vez saciada a fome de informações factuais, passaram a rememorar momentos prazerosos vividos ao lado do amigo ausente. Não era preciso lamentar que ele não tivesse podido locomover-se de tão longe só para estar com elas. Ele estava presente de qualquer maneira, tinha sido mote e locomotiva do encontro. Gastaram alguns minutos elogiando seu fino senso de humor, a memória privilegiada, a inteligência arguta, a eterna disposição e presteza para refazer laços perdidos com o tempo.

x-Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

x-Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

Perceberam emocionadas, ao se despedir, que já não lhes restava a ansiedade juvenil de fazer juras de amor eterno, pegar todos os dados de contato, prometer nunca mais se separar. Já haviam se desapegado da angústia diante de laços que se esgarçam com o passar dos anos. A maturidade e a entrada na velhice haviam trazido consigo, como era de se esperar entre profissionais da área de humanas, a autocontenção, a ponderação, o equilíbrio emocional.

Ao final, a mais sábia dentre elas resumiu com humor e precisão milimétrica o verdadeiro significado do reencontro: “Somos o que éramos. Foi bom constatar isso”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dolce far niente

José Horta Manzano

Durante uma época, tive uma cabeleireira, moça jovem de 23 aninhos, sorridente, simpática e cheia de vida. Quando a gente está sentado na cadeira do salão, a conversa flui.

Um dia, não me lembro no meio de que assunto, me disse ela que seu maior sonho era… estar na aposentadoria. Surpreso, perguntei por quê. «É que aí eu podia fazer o que quisesse sem ter de trabalhar.»

Volta e meia, esse diálogo me volta à lembrança. Tento recordar os anseios que eram os meus aos 23 anos. Muito tempo passou, o que pode falsear a memória. Não me lembro, assim mesmo, de ter tido a mesma pressa de me aposentar. Tinha toda a vida pela frente, perspectiva animadora.

Chamada da Folha de São Paulo, 2 ago 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 2 ago 2016

Achei que minha cabeleireira fosse um caso especial, um ponto fora da curva, como se usa dizer hoje. Neste começo de agosto, encontrei mais um que mostra rezar pela mesma cartilha. Foi o estagiário que dá título às chamadas noturnas da edição online da Folha de São Paulo. A notícia fala de um funcionário contratado temporariamente para vigiar piscinas durante os Jogos Olímpicos ‒ emprego pro forma, só pra cumprir tabela. O funcionário não tem que fazer.

O texto da notícia não vai pela mesma linha, isto é, não glorifica o ócio remunerado. A chamada fica por conta de quem a escreveu que, é lícito supor, seja pessoa de pouca idade. Para esse jovem brasileiro, o melhor emprego do mundo é aquele em que não precisa trabalhar.

Dá pra entender por que é que o Brasil não se desenvolve? Parece que minha antiga cabeleireira não é o único ponto fora da curva. Há muitos outros.